Tradicional Terreiro do Bogum, em Salvador, é tombado pelo IPAC
Por Daniel Araújo
O Governo do Estado da Bahia decretou, nesta sexta-feira (31 de julho de 2026), o tombamento oficial do Terreiro Zoogodô Bogum Malê Hundó. A medida, que reconhece a importância histórica e cultural do templo religioso de tradição Jêje-Mahi, foi publicada no Diário Oficial do Estado.
Localizado na tradicional Ladeira do Bogum (Rua Manoel do Bonfim, nº 35), no bairro do Engenho Velho da Federação, em Salvador, o espaço agora passa a integrar o Livro do Tombamento dos Bens Imóveis do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).
A oficialização é resultado de um processo iniciado em 2019 (Processo SEI nº 062.1982.2019.0001382-39), que contou com propostas formuladas e aprovadas tanto pelo IPAC quanto pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC). Com a publicação do decreto, o IPAC fica autorizado a adotar todas as providências legais para assegurar a preservação e a salvaguarda deste importante patrimônio da cultura afro-brasileira no estado.
TERREIRO DO BOGUM
O Terreiro do Bogum, pertencente à tradição Jeje-Maí do Candomblé, é considerado um dos mais tradicionais e singulares de Salvador. Entre suas principais características está a preservação de elementos culturais e religiosos próprios da nação Jeje, que o diferenciam da maioria dos demais terreiros da capital baiana.
Uma das diferenças mais marcantes está na língua utilizada durante os rituais. Enquanto a maior parte dos candomblés da Bahia segue a tradição nagô e utiliza o iorubá, no Bogum os cânticos e cerimônias são realizados em eué, idioma do povo fon, originário da região do antigo Daomé, atual Benim. Além da linguagem, os ritos também apresentam particularidades: no Terreiro do Bogum não há culto aos orixás, mas sim aos voduns, divindades que recebem nomenclaturas e práticas litúrgicas específicas da tradição Jeje, mas que tiveram seus cultos unidos ao dos Orixás, em muitos lugares.
A atual liderança do terreiro é exercida pela Doné Zaildes Iracema de Mello, popularmente conhecida como Mãe Índia, que assumiu o cargo máximo em agosto de 2003. Para a sacerdotisa, o reconhecimento do Estado exalta a memória e a resistência de seus antepassados frente à violência do processo de colonização. “As minhas ancestrais, as minhas mais velhas, as que vieram antes de mim, elas também construíram esse lugar de luta, de resistência, de empoderamento e de resiliência. Porque para ter sucesso nesse caminhar, tem que ter fé, tem que ter vodun, e esse tombamento é um avanço para as construções históricas que o meu povo fez e faz até hoje”, destaca.

Fotos dos pesquisadores Melville e Frances Herskovits em 1942 ,no Zoogodô Bogum Malê Rundó "Terreiro do Bogum"
A proteção legal também funciona como um escudo contra o apagamento territorial. Mãe Índia recorda que a área original do terreiro era muito mais vasta. “Desde o final de linha do Engenho Velho da Federação até a Vasco da Gama era Bogum”, relembra. Com o avanço descontrolado da urbanização, a comunidade precisou readaptar suas práticas, embora tenha mantido a originalidade. “O candomblé é mantido pela força ancestral da natureza e devemos preservar esse lugar que hoje em dia é tão pouco, mas que conseguimos manter. Acredito que esse tombamento vai ser para garantir que a gente não siga diminuindo as nossas relações com a natureza devido a como a sociedade enxerga o processo de urbanização, acabando com árvores, rios e espaços em que o sagrado atua”, alerta a Doné.
A história do terreiro é marcada por lideranças femininas lendárias, como Mãe Emiliana, Mãe Nicinha e a Doné Maria Valentina dos Anjos Costa (Mãe Runhó). O prestígio de Mãe Runhó é tamanho que ela se tornou epônima de uma praça nas proximidades do terreiro, onde há uma estátua erguida em sua homenagem.
O local onde hoje está instalado o Terreiro do Bogum também possui importância histórica. De acordo com a tradição, foi ali que Joaquim Jeje, apontado como um dos participantes da Revolta dos Malês, teria escondido um baú — conhecido como bogum — contendo donativos que ajudaram a financiar o levante ocorrido em Salvador, em janeiro de 1835.
A Revolta dos Malês foi organizada por africanos muçulmanos escravizados, muitos deles alfabetizados em árabe e reconhecidos pela capacidade de organização. O grupo pretendia instaurar um governo de inspiração africana no Brasil, mas o plano acabou sendo descoberto após uma denúncia, impedindo o sucesso da insurreição.
A origem do nome "Bogum" também possui outra interpretação. Segundo o dialeto Gun, falado na região de Porto Novo, no Benim, a palavra pode significar "lugar dos fons", unindo os termos que fazem referência ao povo fon e ao espaço onde ele se estabelece.
Outra tradição preservada pelo terreiro é a missa em homenagem a São Bartolomeu, realizada anualmente há cerca de dois séculos. A celebração tornou-se um dos principais marcos da comunidade religiosa, conforme registros da Fundação Cultural Palmares. O calendário festivo do Terreiro do Bogum começa em 1º de janeiro e se estende até meados de abril, reunindo diversas celebrações ligadas à tradição Jeje.
Em 2024, a história e a importância do Terreiro do Bogum ganharam destaque nacional ao serem homenageadas pela escola de samba Unidos do Viradouro, campeã do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro com o enredo "Arroboboi, Dangbé". A agremiação exaltou o terreiro em versos que celebram seu legado como um dos pilares do Candomblé Jeje e símbolo da herança africana na Bahia.
De olho no futuro e fortalecida pelo novo título de patrimônio, Mãe Índia reforça que o amanhã do Bogum está diretamente ligado ao acolhimento e à integração. “Não basta só ser terreiro, tem que ter uma ação social que faça com que esse espaço abrace a comunidade. Eu enxergo esse espaço para o futuro construindo agora, fazendo com que seja importante reconhecer que o candomblé, que a Nação Jeje-Mahi é viva. Com isso, as novas gerações de iniciados vão guardar também esse lugar, vão preservar algo que temos, porque são mais de 300 anos de tradição”, conclui.
