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"A Oxum mais bonita": Há 40 anos a Bahia se despedia de Mãe Menininha do Gantois

Por Daniel Araújo

"A Oxum mais bonita": Há 40 anos a Bahia se despedia de Mãe Menininha do Gantois
Fotos: Acervo Terreiro do Gantois

O aspecto franzino, que originou o apelido de “Menininha” (segundo algumas versões), não escondia a grandeza de Maria Escolástica da Conceição Nazareth, ialorixá que, por seis décadas, esteve à frente do Terreiro do Gantois (Ilê Iyá Omi Àsé Iyámasé), uma das lideranças religiosas mais influentes do país.

 

Nesta quinta-feira (13), completam-se 40 anos da morte de Mãe Menininha do Gantois, figura central na luta pelo reconhecimento do Candomblé perante a sociedade e o Estado e pelo fim da perseguição policial às religiões de matriz africana.

 

Nascida em 10 de fevereiro de 1894, em Salvador, no dia de Santa Escolástica, que lhe deu o nome, era filha de Joaquim e Maria da Glória. Possuía ascendência direta dos povos Egbá-Arakê, da região de Abeokuta, na Nigéria, e era bisneta de negros libertos, Maria Júlia da Conceição Nazareth e Francisco Nazareth de Etra — fundadores da linhagem do Gantois.

 

Mãe Menininha foi iniciada no Candomblé aos oito meses de idade por sua tia-avó e madrinha de batismo, Pulquéria Maria da Conceição (Mãe Pulquéria), e consagrada à orixá Oxum. Menininha seria sua sucessora na função de ialorixá do Gantois. Com a morte repentina de Mãe Pulquéria, em 1918, o processo de sucessão foi acelerado. Por um curto período, enquanto a jovem se preparava para assumir o cargo, sua mãe biológica, Maria da Glória Nazareth, permaneceu à frente do Gantois.
 

Em 1922, aos 28 anos, tornou-se a quarta ialorixá do Terreiro do Gantois e uma das mais populares mães de santo brasileiras. “Minha avó, minha tia e os chefes da casa diziam que eu tinha que servir. Eu não podia dizer que não, mas tinha um medo horroroso da missão (...): passar a vida inteira ouvindo relatos de aflições e ter que ficar calada, guardar tudo para mim, procurar a meditação dos encantados para acabar com o sofrimento”, disse em relato disponível no livro Mãe Menininha do Gantois: uma biografia (2006).

 

E chegou a hesitar em aceitar o cargo para o qual os deuses a elegeram. “Quando os orixás me escolheram, eu não recusei, mas balancei muito para aceitar”.

 


Foto: Acervo Terreiro do Gantois

 

Jorge Amado descreveu Mãe Menininha como uma mulher “pobre, modesta, tímida, que nasceu no candomblé e nele cresceu, no ofício da compaixão e da bondade, nos ritmos antigos, conservando valores profundos da cultura brasileira”.

 

A gestão de Mãe Menininha coincidiu com um período em que as religiões de matriz africana sofriam intensa repressão na Bahia, com terreiros frequentemente invadidos e fechados por forças policiais e seus rituais criminalizados.

 

A "Oxum mais bonita", como descreveu Caymmi com a mão da doçura, estabeleceu uma rede de diálogo com autoridades, políticos, intelectuais e artistas. Por meio de diplomacia e trânsito entre diferentes classes sociais, ela conseguiu frear a perseguição policial aos terreiros, abrindo caminho para que o Candomblé ganhasse o status de religião legítima e fosse valorizado como pilar da identidade cultural afro-brasileira.

 

“Muitos anos atrás, Mãe Menininha já sinalizava que liberdade era pressuposto de luta, assim como foi no período da escravidão. E, em 64 anos como sacerdotisa, do alto de sua generosidade e força, Mãe Menininha usou de diplomacia, diálogo inter-religioso e carisma para combater a perseguição aos terreiros e desmistificar a cultura de matriz africana”, declarou ao Bahia Notícias, a Iyá Kekeré (Mãe Pequena) e neta da Mãe Menininha, Ângela Ferreira, liderança interina do Gantois após a morte de Mãe Carmen em dezembro de 2025.

 

Como registrou o próprio Jorge Amado, as comemorações do jubileu de ouro de Mãe Menininha como ialorixá do Gantois reuniram a seu redor a cidade inteira, incluindo o governador e ex-governadores, o prefeito, vereadores e deputados, a intelectualidade baiana, banqueiros e industriais, além, é claro, dos filhos e filhas de santo de todos os cantos do Brasil.

 


Foto: Acervo Terreiro do Gantois

 

Ecumênica, Mãe Menininha mantinha uma relação próxima com o catolicismo e não abria mão de frequentar a missa. Podia receber a comunhão pela manhã e, horas depois, conduzir os rituais do candomblé. Entre uma atividade e outra, dedicava-se às duas filhas, Cleusa e Carmen, que mais tarde assumiriam a liderança do terreiro, além de acompanhar de perto o funcionamento da casa.

 

A rotina no Gantois era intensa. O terreiro também mantinha suas próprias atividades, como a criação de galinhas e o cultivo de milho. Nos momentos de descanso, encontrava prazer em atividades simples. Zelava cuidadosamente pela extensa coleção de peças de louça que havia recebido de filhos de santo ilustres. Durante os capítulos da novela Selva de Pedra, ninguém se atrevia a interrompê-la. No quarto, mantinha o rádio ao lado da cama, onde ouvia programas evangélicos e música popular. Entre suas cantoras favoritas estava Maria Bethânia, que é sua filha de santo.

 

Após a sua morte, seus filhos deixaram seu quarto intacto, com seus objetos de uso pessoal e ritualísticos. O aposento foi transformado no Memorial Mãe Menininha e é uma das grandes atrações do Gantois. O espaço recentemente passou a integrar o Guia Baiano de Museus.

 

Foto: Acervo do Terreiro do Gantois

 

Por trás das grossas lentes dos óculos, havia uma mulher de personalidade firme e determinação incomum. Mãe Menininha não apenas enfrentou o preconceito e ajudou a consolidar o candomblé como uma expressão da cultura negra, como também ampliou as portas do terreiro para novos adeptos.

 

“Oxum reinava em sua trajetória, afinal foi iniciada aos oito meses de vida, e seu apelido faz jus a essa condição. Menininha era a pequena iniciada que mergulhou na essência legada por suas ancestrais e fez jus ao que lhe foi confiado. O núcleo religioso era a fonte de vida e também de luta por direito a existir e viver com dignidade, assim pensavam as mulheres do Gantois que se tornaram lideranças fortes na Bahia e que conseguiram manter sua comunidade. Assim era Mãe Menininha, a mulher e mãe, a cidadã e sacerdotisa que elencava numa mesma personalidade todos os seus estados de vivência, a fim de proteger seu povo”, afirma Márcia Maria de Souza, Maié Oxum do Gantois.

 

Sua relação com o catolicismo também ajudou a aproximar universos que, à época, pareciam distantes. Ela chegou a convencer bispos a permitir que mulheres vestidas com os trajes tradicionais do candomblé entrassem nas igrejas. As mesmas vestimentas que usava com elegância no dia a dia do terreiro: o branco dedicado a Oxalá, o dourado de Oxum e o azul de Oxóssi.

 

No romance Bahia de Todos os Santos, Amado descreve que “Mãe Menininha está acima de toda e qualquer divergência de ordem política, econômica ou religiosa. É a ialorixá de todo o povo da Bahia, sua mão se estende protetora sobre a cidade. Não se trata nem de misticismo nem de folclore e sim de uma realidade do mistério baiano”.