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Entrevista Exclusiva: Ministra Rachel Barros detalha ações do MIR para a população negra
Fernando Duarte
Opinião: Mendonça, Moraes e o modelo de Brasil que nasceu errado desde 7 de setembro de 1822
Por Fernando Duarte
O desgaste das instituições republicanas brasileiras parece ter chegado a um ponto de não retorno. Pelo menos seria o esperado para um país das dimensões continentais e históricas como o nosso. Infelizmente, a perspectiva de um grande acordo nacional é o caminho mais provável diante das tensões entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
André Mendonça e Alexandre de Moraes não trocaram fogo cruzado. Jogaram com o STF e o STF em uma condição inédita, de entranhas expostas. E, para quem conhece um pouco dos bastidores de Brasília, sabe que nada do que foi tornado público chega a ser uma surpresa. Convescotes e relações abaixo da superfície sempre fizeram parte dos homens de poder. Não adianta qualquer um dos envolvidos pagar de paladino da moralidade, pois, no fundo, todos são pares que compartilham visões muito parecidas de mundo.
Há quem sugira que o episódio envolvendo Daniel Vorcaro, o Banco Master e os podres poderes da República abala as estruturas da República. Na verdade, ele é apenas mais um episódio da fragilização do Brasil enquanto país. No passado recente, vimos outros tantos escândalos com potencial de mudar os rumos do país e a permanência do status quo foi a única constante registrada. Isso vale para todos os ocupantes da presidência desde 1989 - para não irmos ainda mais longe, com os dois imperadores e o período regencial após o 7 de setembro de 1822.
O desafio de outubro na eleição passa também por isso. Porque, dentre todos postulantes, não há opções que modifiquem o modelo de gestão pública. Há alguns que propõem a piora, inclusive, sob o manto de "tirar tudo o de ruim que está aí". Engana-se demais quem acredita nessas promessas, tão vazias quanto a possibilidade de André Mendonça e Alexandre de Moraes estarem imbuídos dos melhores desejos para o Brasil.
Ao invés de se inspirarem no modelo proposto no 7 de setembro, talvez o mais próximo da população seja acolher o que nasceu no 2 de julho de 1823. Pena que o apagamento histórico tenha feito o próprio projeto de nação escolhido e mantido há mais de dois séculos. Mas isso é tema para outras análises...
Opinião: Lula na Liberdade antecipa "Super Trunfo" do PT na Bahia, mostra força, mas deixa alerta aceso
Por Fernando Duarte
A vinda de Luiz Inácio Lula da Silva à Bahia na última sexta-feira (28) pode ser analisada sob diversos prismas. O primeiro deles é, sem dúvidas, o poder de mobilização do PT em torno da candidatura dele e de aliados. Por isso, a relevância de, diuturnamente, salientar quem é parte do chamado "time de Lula". Outra perspectiva importante é que a vinda antecipada dele na campanha sinalizada que há um alerta aceso sobre a real eleitoral do próprio presidente e de seus aliados.
Lula não garante transferência automática de votos. Mas desde 2006 é o grande eleitor da Bahia, capaz de influenciar indiretamente ao menos três dos últimas cinco pleitos estaduais. Achar que os primeiros mandatos de Jaques Wagner, Rui Costa e de Jerônimo Rodrigues não experenciaram Lula enquanto "grande eleitor" é minimizar a força de um fenômeno cristalizado no imaginário popular desde o início do século. As reeleições de Wagner e Rui beberam nessa fonte, mas conseguiram um distanciamento regulamentar para a autossugestão de que se tornaram eles os principais ativos das campanhas. Agora, com Jerônimo, a situação parece ligeiramente distinta.
Apesar de forte, Lula enfrenta desgastes em proporções maiores que o mensalão em 2006 e o petrolão em 2014 (ali, Dilma Rousseff era a protagonista, mas tinha seu antecessor como "fundo garantidor"). Somado ao ciclo de 20 anos do PT na Bahia, quando há certo esfacelamento das relações políticas e com a sociedade civil, Jerônimo enfrenta desafios extras que podem comprometer não apenas a própria reeleição, como também a margem que Lula precisa ter na Bahia no enfrentamento ao bolsonarismo, ora representado por Flávio Bolsonaro (PL).
A vinda de Lula ao bairro da Liberdade, popular, com ruas estreitas e excelente representação étnico-social, mostrou pujança, especialmente para imagens. Tudo ali pareceria muito cheio. Tudo ali pareceria fervilhar à visita do presidente. Somado aos quase 12 anos de Rui Costa repetindo o mantra de "menino pobre da Liberdade que virou governador", foi o combo perfeito para uma campanha que começou com ressalvas do potencial nas urnas. Jerônimo é quem melhor pode aproveitar o suco eleitoral de sexta, caso consiga converter a estratégia em resultado. Lula é a carta "Super Trunfo", tradicionalmente usava mais à frente, mas antecipada em 2026.
A situação não é tão simples quanto pode parecer, ou como tentam pintar os aliados de Lula e de Jerônimo. Ganhar a eleição para governo da Bahia é importante, mas há quem avalie que é mais importante garantir uma votação expressiva para Lula no quarto colégio eleitoral brasileiro, permitindo compensar eventuais perdas em outras praças. A caminhada na Liberdade resume tudo isso. Mas ninguém vai tratar do assunto publicamente.
Opinião: Paraná Pesquisas reforça eleição em turno único e disputa aberta, apesar de favoritismo de ACM Neto contra Jerônimo
Por Fernando Duarte
A eleição para o governo da Bahia deve ser decidida em um turno único, no dia 4 de outubro. Essa tendência já vinha sendo observada há alguns levantamentos e ficou praticamente cristalizada conforme dados do Instituto Paraná Pesquisas, divulgados pelo Bahia Notícias nesta quinta-feira (27). Apesar da última pesquisa mostrar certo grau de vantagem para ACM Neto (União) contra Jerônimo Rodrigues, governador e candidato à reeleição, se observada em perspectiva é possível avaliar uma aproximação entre ambos, ainda que a distância registre apenas oscilações dentro da margem de erro.
Pela leitura dos dados complementares dos levantamentos, o ex-prefeito de Salvador possui certa vantagem. Além de liderar as intenções de voto, ele possui mais convicção dos próprios eleitores e menos rejeição que o principal adversário. Essas informações não superficiais precisam ser levadas em consideração, tanto quanto a eventual redução da diferença entre ACM Neto e Jerônimo.
O fato de uma decisão em turno único estar sendo diuturnamente lembrado pelo entorno do governador é sinal de que há uma preocupação premente. Tanto que o discurso de que “Jerônimo vence em primeiro turno” é quase um mantra repetido por boa parte dos aliados petistas na Bahia. Caso a eleição fosse favas contadas, esse reforço não seria necessário, já que remete ao que se costuma chamar de “voto útil”. Ou seja, há tensão no ar.
A eleição baiana está longe de estar decidida. Qualquer um dos lados que tente sugerir uma “vitória folgada” está passando por um processo de autoengano. Como pesquisas são retratos estanques de um momento específico, há inúmeras possibilidades para as duas candidaturas. E a margem de erro, no caso da eleição, não é medida como nos levantamentos estatísticos.
Opinião: ACM Neto depende do voto em Lula para ser eleito, por isso Jerônimo tenta evitar "dobradinha" entre ambos
Por Fernando Duarte
A preocupação do entorno de Jerônimo Rodrigues (PT) com o voto "Lula-Neto" demonstra que, inevitavelmente, há a possibilidade de voto casado entre eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o candidato ao governo da Bahia, ACM Neto (União). Apesar de parecer uma situação anacrônica, a "dobradinha" entre opostos aconteceu em 2022 e deve voltar a acontecer em 2026, independentemente do esforço dos petistas no combate a ela.
Jerônimo precisa de Lula. É inegável que o governador baiano usa e abusa do presidente como uma espécie de muleta eleitoral. Lula é o grande eleitor da Bahia, ainda que nomes como Rui Costa e Jaques Wagner também tenham papel importante para fortalecer a candidatura a reeleição do aliado. Tanto que a comunicação do grupo é inteiramente focada no conceito de "time de Lula", como uma bandeira mais forte do que qualquer outra. A aposta na força do número do partido é tanta que há significativas repetições do conceito.
No único debate realizado entre os candidatos a governador, ficou mais que evidente o quanto o distanciamento de Lula e ACM Neto é necessário para o petismo baiano. Até mesmo o PSOL, com Ronaldo Mansur, insistiu na tese de que o ex-prefeito de Salvador é anti-Lula, tentando capturar uma declaração dele nesse sentido. Todavia, por mais que seja um crítico da administração federal, ACM Neto precisa ter equilíbrio para não perder o voto daqueles que simpatizam com Lula no Palácio do Planalto, ao mesmo tempo em que anseiam pela "perspectiva de mudança na Bahia", espinha dorsal da candidatura da oposição local.
ACM Neto precisa de Lula, mesmo que jamais admita publicamente a necessidade de uma "dobradinha" com o presidente. É impossível quem quer que seja ser eleito governador da Bahia sem ter o "voto casado" com o potencial governante brasileiro pela quarta vez. Os baianos são "lulistas", mais do que são simpatizantes do PT. Por isso, além do uso da máquina estadual, o entorno de Jerônimo diuturnamente insiste que não pode haver uma dissociação dos projetos federal e estadual, sob risco de desandar qualquer ação em curso (seja no campo da infraestrutura, dos investimentos em saúde e educação ou mesmo politicamente).
É esdrúxulo pensar que o mesmo nome que no passado foi crítico voraz de Lula pode depender dele para ser governador. Porém, é inocente demais acreditar que o eleitor não consegue perceber que a imbricação entre os candidatos a presidente e a governador é algo indissociável. A tentativa, inclusive, de "criminalizar" quem eventualmente faz a construção do voto "Lula-Neto" pode potencializar quem não tinha essa perspectiva. Lembremo-nos que subestimar a inteligência do eleitor pode ser um tiro pela culatra difícil de reverter. Como já foi dito e repetido, a eleição de 2026 na Bahia tende a ser decidida por quem errar menos na campanha. Jerônimo depende de Lula. ACM Neto também. A diferença é que apenas um deles pode falar isso publicamente.
Opinião: Um bode entrou na Facom e a universidade montou palco para lacração
Por Fernando Duarte
Um bode entrou numa universidade. Ele não deveria estar ali, mas ainda assim estava lá. A comunidade local, ao invés de ignorá-lo, decidiu pelo confronto. Resultado: o bode, que passaria despercebido, ganhou holofotes, quando deveria ter sido, simplesmente, esquecido. A anedota é um resumo do lamentável episódio envolvendo o deputado estadual Diego Castro (PL) e a Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (com perdão aos bodes pela esdrúxula comparação).
O parlamentar queria lacrar (para usar um termo bem popular entre a extrema-direita para avaliar os adversários). Conseguiu. Cortes e mais cortes para as redes sociais, o discurso de vitimismo (que ironia) e a inflamação dos críticos à universidade pública contra o "aparelhamento pela esquerda". Tudo o que aconteceu na manhã desta quinta-feira (20) foi parte de uma ação planejada que, não apenas saiu do controle, como se tornou um trunfo para convertidos. Não há amadores na política e os estudantes que reagiram a Diego Castro montaram um palco para que ele brilhasse.
A reprovável conduta do deputado é um jogo de cena. Ao escolher não apenas a Ufba como a própria Faculdade de Comunicação, ele sabia que iria "causar". Esse é um modelo replicado pelos bolsonaristas em todo o país e coube à Facom, ao invés de usar ferramentas que lhe cabiam, ser enredada por um político profissional. O amadorismo existiu e não foi por parte de Castro e de sua equipe, mas daqueles que tornaram possível o parlamentar ampliar sua visibilidade com temas que deveriam ser cotidianos - a exemplo dos banheiros masculinos e femininos para pessoas cis ou trans. A opção do confronto é importante em diversos momentos. Em outros, esse confronto só reforça teses para cidadãos menos afeitos a transformações sociais.
A desculpa de que havia propaganda irregular pró-PT foi apenas a justificativa para endossar o antipetismo de parte do eleitorado. Diego Castro quis - e conseguiu - sugerir que a universidade é um espaço excessivamente progressista e de esquerda, razão pela qual deve ser expurgada publicamente pelos pecados de quem a compõe. Sim, a universidade é um espaço de livre pensamento. Sim, a universidade é um espaço para pautas progressistas. Sim, a universidade tende a ser de esquerda pelo próprio conceito vanguardista de estar numa comunidade diversa. Qualquer coisa diferente disso é exatamente o que a extrema-direita quer: espaços sem reflexão onde o pensamento hegemônico (leia-se o dela) se sobrepõe a qualquer outro.
Além de Diego Castro, outros envolvidos surfaram na onda. Seja o estudante agredido - que iniciou a onda de afagos contra o deputado -, sejam parlamentares e políticos que, travestidos pelas autoridades conferidas pelos cargos públicos fizeram questão de dar palco para a "vítima" (não apenas o espaço universitário, mas o representante estudantil "violado" pela truculência do entorno do bolsonarista).
O episódio todo é deplorável. A atuação de Diego Castro é constrangedora para quem enxerga a política e a democracia no modelo clássico. Já o caldo entornado pela cena mostra que os adversários ainda não sabem como reagir ao bode na sala. Muitas vezes, ele é só um bode. Fede um pouco, mas basta tangê-lo para fora que tudo volta à normalidade.
Finalmente é possível falar oficialmente que a campanha eleitoral de 2026 começou. Após muitos meses de uma linha tênue entre o que a Justiça Eleitoral permite e o que as equipes dos candidatos planejaram fazer. Agora, a guerra pelo voto é também marcada pela disputa de quem errar menos no processo que se inicia.
Na Bahia, o embate entre Jerônimo Rodrigues (PT) e ACM Neto (União) vai ser uma repetição do segundo turno de quatro anos atrás. Com João Roma (PL) como candidato ao Senado ao lado do ex-prefeito de Salvador e o PSOL funcionando como uma linha auxiliar do PT na Bahia, as chances de uma disputa em duas etapas são praticamente nulas. Por essa razão, errar menos deve ser a tônica dos dois principais grupos políticos baianos.
Por enquanto, terremotos como o caso do Banco Master podem ter menor impacto local do que nacional devido à tendência ao episódio atingir todos os lados. O mais prejudicado, até agora, é o senador Jaques Wagner (PT) que vê a reeleição mais complexa do que meses atrás. Houve até um vislumbre de que Roma e ACM Neto também poderiam ser alcançados pela onda de Daniel Vorcaro e companhia, porém nada comparado ao que Wagner tem enfrentado.
Se Jerônimo explicita a estratégia de defender o legado dos antecessores - o próprio Wagner e Rui Costa (PT) -, ACM Neto vai fustigar a necessidade de mudança. Diante de um ciclo de 20 anos do PT no Palácio de Ondina, a chance de êxito pode ser maior que no passado. Todavia, o trunfo do grupo governista continua sendo a "carta curinga" Luiz Inácio Lula da Silva e a capacidade do presidente em alavancar aliados. Por isso, de um lado sempre haverá "Lula e Jero", e do outro haverá uma tentativa de não atacar incisivamente Lula, evitando o desgaste do voto Lula-Neto.
O primeiro final de semana oficial de campanha também expõe como cada projeto vai tentar conquistar e até garantir espaços. Jerônimo fez atos na capital baiana, território reconhecido como mais propenso a votar em ACM Neto, e na região de Irecê, onde o PT mantém certa hegemonia, mas enfrenta oscilações de votos. Já o adversário deu o pontapé formal no Oeste, onde o antipetismo é mais forte e tende a se manter. Obviamente, é claro, após passagens pela Igreja do Bonfim, onde o sincretismo religioso exige que bênçãos sejam tomadas. Só esperamos que a Sagrada Colina abençoe ainda mais os baianos - e os brasileiros - para que no dia 4 de outubro todos votem o melhor possível - e não no menos pior...
Opinião: Jerônimo titubeia em debate na Band Bahia, enquanto ACM Neto usa melhor o espaço disponível
Por Fernando Duarte
O primeiro confronto público e televisionado das eleições 2026 na Bahia tornou explícita a estratégia dos dois principais grupos que disputam o governo. Na Band Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT) usou o argumento do legado petista após quase 20 anos no poder, enquanto ACM Neto (União) focou em atacar aqueles pontos que considera mais negativos do atual governador, usando a própria administração em Salvador como referência. Já o PSOL de Ronaldo Mansur se comportou como linha auxiliar do PT e, em momento algum, lembrou o partido que, em 2022 e 2024, desferiu críticas aos dois grupos políticos hegemônicos.
Apesar do esforço em equilibrar o confronto, Jerônimo se mostrou mais desconfortável, tanto nas perguntas de jornalistas quanto nos confrontos diretos. Optou, nos dois momentos em que teve oportunidade, por questionar um fraco Ronaldo Mansur, cujo discurso monocórdico tornou o debate ligeiramente modorrento. Mesmo que estivesse bem preparado para tratar de temas sensíveis ao próprio governo, Jerônimo perdia argumentações importantes por, simplesmente, preferir ser evasivo demais. Então, ao avaliar o desempenho geral, para o governador, o debate foi um evento de oportunidades desperdiçadas.
O candidato de oposição já aproveitou melhor os espaços. ACM Neto construiu uma narrativa contra o adversário e a sustentou até o final, aproveitando para dar informações sobre os projetos que propõe. Até mesmo no uso do tempo para tréplicas era nítido o quanto ele se programou para ser incisivo contra o oponente em momentos em que não seria possível qualquer contra-argumentação. O saldo, em termos discursivos, acabou mais positivo para um ACM Neto mais sereno do que em outros momentos. Ainda assim, a agenda ficou restrita à campanha, algo que permitiu que o debate ficasse em um nível elevado.
Passados cinco mandatos petistas, usar qualquer vislumbre de "herança maldita" chega a ser contraditório - em especial com o número de eleitores jovens que tende a aumentar. E isso vale tanto para Jerônimo e o PT na Bahia quanto para ACM Neto em Salvador - já são 14 anos sob a égide formal desse grupo político na capital baiana. Ou seja, quem insistir nessa tese reduz a perspectiva de debate para o futuro que se espera de uma campanha eleitoral (é utópico, admito).
Para um domingo de Dia dos Pais, concorrendo com o jogo Flamengo x Vitória, o horário das 20h não chegou a ser um atrativo extra para o eleitor. Os candidatos mobilizaram as respectivas claques e agora têm material para cortes nas redes sociais, algo fundamental para esse "novo" modo de fazer política. Agora é esperar a campanha começar formalmente para vermos a replicação da estratégia rascunhada até aqui
Opinião: "Time de Lula" é reforço imprescindível para Jerônimo se reeleger, e convenção explicita estratégia
Por Fernando Duarte
O discurso de grupo e da necessidade de eleger um "time" foi preponderante na convenção da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) no sábado (1º). O evento para homologar as candidaturas de Jerônimo Rodrigues ao governo da Bahia e de Jaques Wagner e Rui Costa ao Senado foi uma festa petista, ainda que as falas tenham tentado dissimular espaços igualitários para os partidos aliados. A sintonia entre os entes federativos, presente desde os primórdios da chegada do PT ao poder na Bahia, mantém-se como a principal aposta para vencer nas urnas em outubro.
Não houve inflamação entre os principais personagens - no máximo, em um Rui Costa que insiste em um discurso semelhante a uma candidatura ao Executivo. Mesmo Jerônimo, que nas pesquisas de opinião enfrenta uma disputa acirrada com ACM Neto (União), teve uma postura combativa esperada. Focou quase que exclusivamente na necessidade de parceria com Luiz Inácio Lula da Silva, para que projetos relevantes da Bahia sejam tocados. O alinhamento político, na avaliação desse grupo, é condição sine qua non para a governabilidade.
No entanto, esse discurso é ligeiramente limitado, visto as sucessivas vitórias da oposição em Salvador. Foi, inclusive, nesse ponto que Lula acabou sendo mais beligerante com os adversários locais. O presidente foi quem atacou a gestão em Salvador, cidade que tratou como exemplo da disparidade de investimentos do prefeito em áreas periféricas. Ele, todavia, optou por não citar nominalmente ACM Neto nem Bruno Reis. Foi um discurso cauteloso, que remeteu à estratégia de não agressão com a oposição registrada em 2022 (será?).
A convenção homologou não apenas os candidatos majoritários, mas também as candidaturas à Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa da Bahia. Aí foi possível perceber uma preocupação recorrente dos discursos. Especialmente para um eventual segundo mandato de Lula, que enfrenta resistências no Congresso Nacional. Deputados federais e senadores conseguem, numa análise bem crua, mais relevante para Lula IV do que eleições locais. E, talvez por isso, tenha havido espaço para enfatizar a necessidade de "time".
Lula, "Jero", Wagner e Rui são as apostas para a manutenção da hegemonia petista na Bahia - ainda que o senador Otto Alencar (PSD) também tenha tido o merecido destaque. Os aliados, em segundo e terceiro plano, simulam bem a satisfação. Assim, a esquerda na Bahia vê-se reduzida ao PT. E os petistas seguem com o discurso que já saiu vitorioso há cinco eleições baianas. Em 2026, a dose vai se repetir?
Opinião: Um calo “Master” no pé de Jaques Wagner
Por Fernando Duarte
Até há alguns meses, o senador Jaques Wagner (PT) não era só candidato a reeleição como também era considerado um dos favoritos na corrida. Tanto que o PT e o governo, ao invés de pensar em abrir espaço para uma sigla aliada, bancaram o nome dele e o do também ex-governador Rui Costa (PT) em uma chapa “puro-sangue”, completada pela tentativa de reeleição de Jerônimo Rodrigues (PT). Todavia, o escândalo do Banco Master se tornou uma pedra no sapato de Wagner a ponto de pairarem dúvidas sobre ele ser imbatível no processo eleitoral de outubro.
O ex-líder do governo Lula nega qualquer implicação legal com o escândalo. Sequer consegue enxergar problema moral no fato de ter pedido apoio de Augusto Lima, sócio de Daniel Vorcaro, para comprar um apartamento de luxo na capital baiana. Só que, desde que Wagner emergiu como um potencial dano colateral da investigação, o senador não deixa o noticiário nacional, com reflexos também na imprensa baiana. E, por mais que o entorno dele tente fazer acreditar que não houve ranhura na imagem do ex-governador, é improvável que Wagner passe ileso a esse turbilhão ao qual foi tragado.
O episódio do pedido de compra do apartamento a Augusto Lima já havia sido mal explicado. Por mais que haja uma relação, é difícil encontrar uma amizade que implique o risco de R$ 2,5 milhões apenas como um “apoio”. Ou talvez seja necessário que revisemos nossos círculos de amizade. Desde que eclodiu a narrativa, em meio a uma fase da Operação Compliance Zero, Wagner naturalizou o episódio e não se privou de responder. A justificativa, entretanto, pareceu constrangedora, ao mesmo tempo em que foi incapaz de causar rubor na face dele.
Agora, a venda de um terreno com valorização de 115 vezes em Camaçari é a estrela dos holofotes contra o senador. Tratada como “palhaçada” pelo próprio Wagner, a investigação do Master bloqueou bens que estavam em processo de venda do ex-governador. Um apartamento também de luxo no Corredor da Vitória, no valor de R$ 10 milhões, e um terreno ao lado do novo empreendimento do Grupo City, em Camaçari, no valor de R$ 15 milhões. Ambos, segundo o próprio senador, vendidos dentro da mais absoluta legalidade.
No entanto, o terreno à margem de uma rodovia concebida pelo próprio Wagner enquanto governador e supervalorizado após um acordo envolvendo o Grupo City, o governo da Bahia e o município de Camaçari (ora sob administração do petista Luiz Caetano), se torna um incômodo para quem está às vésperas de retornar às urnas. Na pior das hipóteses, os adversários podem argumentar advocacia administrativa para manchar a relação do senador com o eleitorado. Na melhor, vão jogar na disputa que Wagner tem muito a explicar, com dezenas de perguntas não respondidas a serem exploradas durante a campanha.
É claro que isso não coloca Wagner como um azarão para a reeleição. Ele, ao lado de Rui Costa, ainda mantém certo nível de favoritismo, dado o recall eleitoral, o uso da máquina estadual e federal e a própria história construída a partir do mito do responsável pela derrocada do carlismo em 2006. Contudo, achar que tudo isso não passa de uma marolinha é dar chance ao ocaso. E, convenhamos, nem Wagner nem o PT parecem estar dispostos a correr esse risco.
Opinião: ACM Neto revisita passado, tenta ser “propositivo” e promete “mudança com segurança” em convenção
Por Fernando Duarte
ACM Neto revisita o passado para tentar pregar o futuro. Foi esse o tom adotado pelo agora candidato ao governo da Bahia, homologado em convenção realizada nesta quarta-feira (22). Os aliados teceram críticas mais diretas aos adversários, porém o ex-prefeito da capital baiana adotou uma postura mais emotiva e com a promessa de “mudança com segurança”, incorporada como slogan da campanha – ainda que tenha criticado a situação da Bahia. Com referências ao avô, o ex-senador Antônio Carlos Magalhães, à família e aos amigos, ACM Neto se apresentou como uma alternativa ao que ele classificou como “pesadelo” vivido pelos baianos.
Em seu discurso, o candidato do União Brasil focou em dois pontos que devem permear a tentativa de chegar ao Palácio de Ondina em outubro: saúde e segurança. Os demais integrantes da chapa, o candidato a vice Zé Cocá (PP) e os candidatos ao Senado, João Roma (PL) e Angelo Coronel (Republicanos), também seguiram o mesmo caminho. Percebe-se o esforço para tentar um debate “propositivo”, ainda que sofra com repetições temáticas de outras campanhas eleitorais passadas – inclusive a de 2022, quando Jerônimo Rodrigues (PT) foi eleito.
A convenção teve algumas indiretas. A ausência de prefeitos por “medo de retaliação” foi algo presente. A promessa não concretizada da ponte Salvador x Itaparica virou chacota. As aproximações após o último pleito, como as de João Roma e do prefeito de Feira de Santana, Zé Ronaldo (União), também foram lembradas. O esforço para mostrar união foi enfático em diversas falas, reforçando uma coesão que não esteve presente quatro anos atrás – Roma foi candidato ao governo e, no segundo turno, aderiu parcialmente ao projeto de ACM Neto, com quem tinha rompido no ano anterior. Tudo dentro do espírito de uma campanha eleitoral.
Para quem esperava um tom altamente beligerante, ACM Neto foi discreto. Atacou aquilo que ele considerou problemático, mas limitou a personificação. Tratou Jerônimo como continuidade das administrações anteriores e como um “modelo de gestão” que precisa mudar, mas adjetivou-o como covarde no enfrentamento aos problemas.
Em diversos momentos, o ex-prefeito soteropolitano usou o artifício do ufanismo, algo extremamente presente no antigo carlismo, de quem o ex-prefeito bebeu diretamente na fonte. Isso não quer dizer que ele tenha incorporado todos os elementos do movimento político liderado pelo avô.
A maturidade política do candidato a governador ficou explícita na forma como se apresentou. Até aqui, ACM Neto mostrou ter aprendido bastante com a derrota de 2022. Se esse aprendizado vai resultar em vitória no próximo mês de outubro, depende muito mais do eleitor do que apenas dele.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
Alexandre de Moraes
"Somado à escolha seletiva do levantamento somente de parte dos procedimentos e o direcionamento subjetivo de um dos interessados de quais documentos".
Disse o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao encaminhar um ofício ao presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, no qual cita uma "escolha seletiva" na retirada do sigilo, por André Mendonça, dos inquéritos e procedimentos ligados ao Banco Master.