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A troca de mensagens entre a ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, e o ex-deputado federal Uldurico Júnior revela que, após a fuga dos 16 detentos da unidade, ambos passaram a adotar um discurso convergente de críticas à atuação da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap), ao mesmo tempo em que tentavam reagir ao avanço das investigações.
O Bahia Notícias obteve acesso ao depoimento da ex-diretora e detalha as informações encontradas na delação ao longo de cinco reportagens em uma série chamada “Duas Rosas”, sendo esta, a segunda. Nesta quinta e última matéria, iremos detalhar as críticas de Joneuma e Uldurico à Seap, afirmando que a pasta costumava acorbertar as fugas, além de contar sobre um plano para transferir a culpa do plano de escape dos detentos para a cúpula da pasta.
O ABAFA
Em um diálogo registrado no dia 18 de dezembro de 2024, um dia após ser afastada do cargo por decisão judicial, Joneuma afirmou de forma direta: “Sim, mas quando a seap quer ela abafa”.
A mensagem foi enviada após Uldurico comentar que o caso já havia chegado ao conhecimento de lideranças políticas, mas ganhava repercussão. Nas mensagens consultadas pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), a resposta da ex-diretora sugere a percepção de que a secretaria teria, quando conveniente, minimizado ou contido a repercussão de episódios semelhantes.
Segundo os elementos reunidos pelo MP-BA, a percepção de que a Seap “abafava” situações críticas passou a ser incorporada como linha de defesa pelo grupo. Em construções narrativas alinhadas entre Joneuma e Uldurico, a ex-diretora chegou a listar fugas ocorridas, incluindo episódios com uso de armamento pesado em anos recentes, numa tentativa de relativizar a gravidade do caso investigado.
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As mensagens analisadas também descrevem Joneuma em estado emocional abalado. Em meio ao avanço das investigações, ela buscava apoio em Uldurico, relatando medo de prisão e sensação de abandono, especialmente após o afastamento do cargo. Em uma dessas conversas, ela chega a dizer que a nova direção que assimiu a penitenciária já estaria articulando contra sua administração.
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COVARDIA E COMBINADO
Enquanto Joneuma sustentava essa leitura, Uldurico Júnior adotava um tom mais direto nas interlocuções políticas. Em mensagens enviadas ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, no dia 21 de dezembro de 2024, ele criticou a condução da secretaria diante das oitivas realizadas com servidores. “Olha o que a seap está fazendo lá. Forçando gente a fazer depoimento contra mim e a primeira mulher diretora da história. Estão sendo covardes”, escreveu.

Uldurico tenta culpar Seap e argumenta que Joneuma seria perseguida
As conversas também mostram que havia preocupação constante com o conteúdo desses depoimentos. Joneuma monitorava quem estava sendo ouvido e chegou a identificar, em diálogo com seu advogado, ao menos duas testemunhas que poderiam incriminá-la, citando nominalmente um prestador de serviço.
Esse movimento foi descrito nos próprios diálogos como uma espécie de “caça a depoimentos”, em referência à tentativa de identificar e antecipar o que estaria sendo dito por funcionários do presídio às equipes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e do Grupo de Atuação Especial de Execução Penal (Gaep).
O nível de tensão aumentou em relação ao coordenador operacional da unidade, Welington Oliveira. Joneuma demonstrava receio de que ele tivesse sido “mal instruído” em seu depoimento e que suas declarações pudessem embasar pedidos de prisão. Ao ser informada da possibilidade de uma ordem judicial contra o servidor, ela articulou uma forma de avisá-lo, temendo que ele comparecesse às oitivas e revelasse informações sob pressão.
Na mesma linha, Joneuma também buscou atribuir responsabilidade à cúpula da pasta. Ela afirmou ter encaminhado ofícios ao então superintendente de Gestão Prisional, Luciano Teixeira Viana, relatando falhas estruturais e riscos na unidade, mas que as demandas não teriam sido atendidas. A estratégia indicava uma tentativa de transferir a omissão para instâncias superiores da administração penitenciária.
TRANSFERÊNCIA
Uldurico e Joneuma chegaram a planejar a transferência da culpabilidade da fuga à Seap e sua cúpula. A ex-diretora resgatou as mensagens que teriam sido enviadas a Luciano Teixeira, pedindo as ações corretivas na unidade penitenciária. Uma espécie de “ofício retroativo”, com referência ao mês de julho de 2024, chegou a ser montado por Joneuma para servir como uma comprovação.
Persistindo no plano, no dia 21 de dezembro de 2024, Uldurico enviou mensagens a Geddel com o objetivo de atribuir a culpa a terceiros, mais especificamente, no então superintendente de Gestão Prisional da Seap, Luciano Teixeira. Em uma dessas mensagens, Uldurico afirma expressamente: "Parece que o Luciano está por trás da fuga dos presos de Eunápolis".
Uldurico também enviava a Geddel links de matérias jornalísticas encomendadas por ele no site “Gazeta da Bahia” e documentos oficiais de cobrança para sustentar a tese de que a culpa seria da Seap e de sua cúpula.
Todavia, a tentativa, no entanto, foi repreendida por Geddel. No dia 22 de dezembro de 2024, ele encaminhou um áudio enfurecido a Uldurico. Na gravação ele afirmou que as reclamações “estavam chatas” e que iria mostrar “as cagadas” feitas por Joneuma no presídio de Eunápolis.
A SÉRIE DUAS ROSAS:
O INÍCIO DE TUDO
A primeira reportagem mostrou que Joneuma conheceu Uldurico Júnior ainda quando atuava em Teixeira de Freitas e que a aproximação evoluiu para uma relação de confiança. Segundo a delação, ele já frequentava unidades prisionais e realizava reuniões a portas fechadas com detentos.
Com a nomeação dela para a direção do presídio de Eunápolis, em março de 2024, o MP-BA aponta que Uldurico passou a ter influência direta na unidade, utilizando a posição para viabilizar interesses ilícitos. Logo no início da gestão, foram autorizadas entradas de eletrodomésticos e concessão de benefícios a presos ligados ao PCE, em um contexto que também envolvia captação de votos de detentos e seus familiares mediante pagamento.
Ainda na primeira matéria, foi detalhado que, após a derrota eleitoral em 2024, Uldurico passou a pressionar Joneuma para obter recursos junto à facção. A negociação evoluiu para um acordo de R$ 2 milhões — as chamadas “duas rosas” — para viabilizar a fuga de lideranças criminosas. A execução ocorreu em 12 de dezembro de 2024, com uso de ferramentas dentro da unidade e apoio armado externo.
Após o episódio, Joneuma foi afastada, exonerada e posteriormente presa. As mensagens revelam ainda o nervosismo da ex-diretora, que relatava estar “no pior momento da vida” e temia a prisão, além de um encontro com Uldurico em Salvador, onde, segundo ela, houve ameaça para que não revelasse detalhes do esquema.
COBRANÇA DE GEDDEL?
Na segunda reportagem, a delação apontou o ex-ministro Geddel Vieira Lima como possível beneficiário de parte da propina, com indicação de que metade do valor ficaria com ele. Nas mensagens, Geddel aparece como “chefe” e atuava como interlocutor político, orientando cautela e, em alguns momentos, repreendendo Uldurico.
Também há registros de cobranças relacionadas ao pagamento da propina e preocupação do ex-deputado com a repercussão dentro do MDB, temendo retaliações caso não cumprisse compromissos financeiros.
DETALHAMENTO DA FUGA
A terceira matéria descreveu a organização da fuga ao longo de cerca de 40 dias. A negociação foi formalizada em novembro de 2024, após encontros presenciais e ligações mediadas por integrantes da facção. Presos foram concentrados em celas específicas e tiveram acesso a ferramentas como furadeiras.
A fuga contou com apoio externo de homens armados com fuzis, que atacaram a unidade enquanto os detentos escapavam. Há ainda relatos de regalias concedidas dentro do presídio, incluindo eventos atípicos, como a realização de um velório.
FAMILIARES DE ULDURICO
A quarta reportagem detalhou o pagamento de valores antecipados, incluindo cerca de R$ 170 mil repassados a Uldurico e pessoas próximas. O dinheiro foi entregue em espécie, armazenado em caixas de sapato, e também transferido via PIX.
Parte dos valores foi direcionada ao pai do ex-deputado, conforme registros de mensagens e dados de geolocalização. A delação aponta ainda novos pedidos de dinheiro e a atuação de Joneuma como intermediadora após o primeiro pagamento.
O ex-deputado Uldurico Júnior e seus familiares teriam recebido cerca de R$ 170 mil em propinas relacionadas à fuga de detentos do presídio de Eunápolis, em dezembro de 2024. Conforme depoimento de Joneuma Neres, ex-diretora do Conjunto Penitenciário, presa em abril de 2025, junto ao Ministério Público estadual (MP-BA), o valor seria um "adiantamento" da negociação entre Uldurico Júnior e Ednaldo Pereira Souza, o "Dada", líder da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), orçado em R$ 2 milhões a serem pagos pela colaboração na fuga de criminosos.
O Bahia Notícias obteve acesso ao depoimento da ex-diretora e detalha as informações encontradas na delação ao longo de cinco reportagens em uma série chamada “Duas Rosas”. Em sua delação junto ao MP, Joneuma, que era aliada e parceira do ex-deputado, narra que após a confirmação da aliança entre o político e o líder do PCE, no dia 02 de novembro de 2024, Uldurico ligou novamente para a "Dadá" — até então preso — para acordar os detalhes do pagamento pela facilitação da fuga.
Esta segunda ligação entre os envolvidos ocorreu no dia 03 de novembro de 2024, no Restaurante da Bernarda, localizado na Av. Dom Pedro II, no centro de Eunápolis. No local, ambos negociaram os detalhes para o pagamento das "duas rosas", termo que se refere aos R$ 2 milhões acordados.
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Dados de geolocalização obtidos por meio dos celulares apreendidos de Joneuma no Restaurante da Bernarda.
A primeira menção a familiares do político ocorre neste momento. Segundo a denúncia do Ministério Público, com base na delação de Joneuma, "o valor seria pago em espécie no dia 31/12/2024, na cidade de Porto Seguro, quando um Funcionário de Ednaldo levaria o dinheiro para a casa do primo de Uldurico Jr.". O nome deste "primo" não foi citado, no entanto.
No entanto, dado o cenário pós-eleitoral, com a derrota do ex-deputado do pleito à Prefeitura de Eunápolis, "Uldurico Jr. informou que necessitava com urgência de um adiantamento de R$ 350.000,00 (trezentos e cinquenta mil reais) para a prestação de contas e em razão de dívidas que possuía. Ednaldo aceitou adiantar o pagamento de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) antes da data da fuga".
A análise dos dados encontrados nos quatro aparelhos celulares de Joneuma, cujas senhas foram cedidas por ela em negociação de colaboração com o MP, mostra os diálogos por mensagem entre a ex-diretora do presídio e familiares de Uldurico com relação ao pagamento. O pagamento da propina teria ocorrido no dia 04 de novembro, quando Joneuma se dirigiu a uma residência no bairro Juca Rosa, em Eunápolis, para coletar o pagamento, feito em espécie dentro de uma caixa de sapato.
No mesmo dia, em um dos celulares, o Ministério Público encontrou mensagens entre Joneuma e o ex-deputado federal Uldurico Alves Pinto, pai de Uldurico Júnior, que se apresenta como "Uldurico pai".

Primeiro contato entre Joneuma Neres e o ex-deputado federal Uldurico Alves Pinto, pai de Uldurico Júnior.
Na manhã seguinte, o contato entre ambos foi retomado, com Joneuma perguntando onde deveria encontrar Uldurico Alves para a entrega do dinheiro. Ele respondeu, por sua vez, que ela deveria encontrá-lo em um endereço no bairro de Santa Rita, em Teixeira de Freitas, a cerca de 160 km de Eunápolis.

Mensagens sobre o encontro entre Joneuma Neres e o ex-deputado federal Uldurico Alves Pinto, pai de Uldurico Júnior, em Teixeira de Freitas.
As análises de geolocalização do Ministério Público confirmam que, no dia, "a colaboradora dirigiu-se à casa de Uldurico Alves Pinto e, em seguida, diretamente para uma agência do Banco do Brasil". Na casa de Uldurico Alves Pinto estavam presentes a madrasta de Uldurico Júnior, uma funcionária doméstica e um homem identificado como assessor da família. O assessor conferiu o dinheiro na caixa de sapato e cerca de R$ 150 mil foram retidos pelo genitor de Uldurico Júnior.
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Foto: Dados de geolocalização sobre a visita de Joneuma à residência de Uldurico Alves Pinto, pai de Uldurico Júnior, em Teixeira de Freitas.
As informações do MP-BA detalham ainda que o resto do valor, R$ 50 mil, foi "dividido em dois pagamentos, sendo um deles, no montante de R$ 21.600,00 (vinte e um mil e seiscentos reais) diretamente para a conta de ULDURICO JR, conforme comprovantes extraídos do celular da colaboradora". Outros R$ 24 mil foram repassados via PIX para uma conta em nome de Gustavo Frazão.
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Foto: Comprovante de pagamentos de Joneuma a Uldurico Júnior e Gustavo Frazão.
Em delação ao MP, a ex-diretora da penitenciária de Eunápolis narra uma segunda solicitação de propina em formato de "adiantamento" por parte de Uldurico Júnior. O ex-deputado teria solicitado um novo pagamento por parte do líder do Primeiro Comando de Eunápolis, no dia 25 de novembro de 2024.
"Ao final do mês de novembro, em 25/11/2024, Uldurico Jr. disse que necessitava de mais dinheiro, requerendo a quantia de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) de Ednaldo. Ednaldo informou que não dispunha da quantia no momento, razão pela qual a colaboradora adiantou recursos próprios", detalha a denúncia do MP. Segundo Joneuma, R$ 15 mil foram entregues em espécie a Cristiane Pinto da Paixão, genitora de Matheus Brandão, figura vinculada a Uldurico. A entrega ocorreu na casa de Joneuma. Os outros R$ 5 mil foram transferidos via PIX à mesma destinatária.
O valor, segundo Joneuma, foi ressarcido por Ednaldo por meio de uma entrega realizada por um interlocutor, dentro de uma caixa de sapato, durante encontro em frente ao Hotel Oceania, no dia 02 de dezembro de 2024. Em espécie, foram entregues R$ 15 mil na caixa, os outros R$ 5 mil foram entregues por Cley (Cley da Autoescola), Alberto Cley Santos Lima, candidato a vereador pelo Partido Social Democrata (PSD), em um papel de pão em frente a uma agência do Banco do Brasil. Ambos os encontros foram mapeados pelo Ministério Público por meio dos dados geográficos obtidos no celular da depoente.
ROSAS MILIONÁRIAS
Os detalhamentos da investigação ainda demonstram que os valores acordados pela colaboração na fuga de lideranças do PCE não foram pagos. A delação de Joneuma narra que, ainda nas negociações pelo adiantamento, as tratativas entre Dadá, líder do PCE, e Uldurico eram feitas em relação direta. O cenário mudou após o pagamento do primeiro adiantamento, quando ela passou a atuar como intermediadora entre ambos.
"A colaboradora informou que, antes do pagamento do adiantamento, Uldurico Jr. conversava pessoalmente com Ednaldo. Depois do pagamento do adiantamento de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais), Uldurico Jr. passou a solicitar à colaboradora que intermediasse a comunicação. Informou que as reuniões que teve sozinha com Ednaldo na Unidade Prisional visavam realizar esta negociação e ganhar a confiança de Ednaldo para que ele adiantasse os valores", aponta a denúncia do MP.
Joneuma delata que passou a ser pressionada por Uldurico Júnior pelo pagamento das "duas rosas", ou seja, o restante do valor acordado de R$ 2 milhões, e ameaçada a reter as informações sobre o esquema.
Em sua delação, Joneuma ainda cita que, segundo o ex-deputado, os valores seriam igualmente divididos entre ele e Geddel Vieira Lima, um dos caciques do MDB, a quem ele se referia como "chefe".
"A colaboradora esclareceu que as mensagens trocadas com Uldurico Jr. em 03/01/2025, nas quais falam sobre 'chorar as rosas', referiam-se a quando ocorreria o pagamento do restante do valor acordado pela fuga", detalha o Ministério Público.

Foto: Mensagens de Uldurico Júnior e Joneuma sobre pagamento de propina no dia 03 de janeiro de 2025
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Foto: Mensagens de Uldurico Júnior e Joneuma sobre pagamento de propina no dia 04 de janeiro de 2025
A ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, fez um acordo de delação premiada para dar detalhes sobre a fuga dos 16 detentos da unidade prisional, ocorrida em dezembro de 2024. O depoimento dela trouxe à tona sua relação com o ex-deputado federal Uldurico Júnior, à época no MDB e atualmente filiado ao PSDB, e as negociações com o líder do Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), Ednaldo Pereira Souza, conhecido como “Dada”.
O Bahia Notícias obteve acesso ao depoimento da ex-diretora e detalha as informações encontradas na delação ao longo de cinco reportagens em uma série chamada “Duas Rosas”, começando por esta.
Para formalizar a colaboração premiada, foram realizadas audiências virtuais nos dias 15 de dezembro de 2025 e 22 de janeiro de 2026 com a presença da colaboradora, da Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE-BA) e representantes do Ministério Público (MP-BA). A formalização da delação ocorreu no dia 5 de fevereiro deste ano.
Para cumprir o acordo, Joneuma foi obrigada a detalhar espontaneamente todos os esquemas criminosos envolvendo Uldurico Júnior e Dada, indicando provas e identificando outros participantes.
O acordo para a delação prevê o cumprimento de uma pena privativa de liberdade total de seis anos, o que representa uma redução de dois terços em relação à pena máxima possível. No intervalo, ela cumpriria apenas um ano em regime fechado, enquanto os cinco anos restantes seriam entre o semiaberto e o aberto, sem uso de tornozeleira eletrônica.
O Ministério Público também se comprometeu, caso ela solicite, a incluí-la de forma imediata no Programa Federal de Proteção Especial ao Depoente, garantindo a segurança dela e de sua família.
O INÍCIO DE TUDO
Na delação ao MP-BA, Joneuma Silva Neres contou que conheceu Uldurico Júnior por meio da deputada estadual Claudia Oliveira (PSD). Segundo o depoimento, eles se encontraram pela primeira vez quando ela trabalhava em um cargo administrativo na unidade prisional de Teixeira de Freitas. A data não foi especificada, mas a reportagem apurou que ela é concursada e chegou ao cargo em 2016.
Conforme a delação premiada, Uldurico já frequentava a unidade para realizar reuniões a portas fechadas com os detentos, o que era tratado como algo "normal" pelos colaboradores. O ex-deputado federal seria acompanhado por David Loyola, secretário de Desenvolvimento Econômico de Teixeira de Freitas e irmão do secretário estadual de Relações Institucionais (Serin), Adolpho Loyola, além do vereador do município, Jonatas dos Santos (MDB).
O MP-BA indicou que, em 2024, quando Joneuma foi nomeada diretora em Eunápolis, Uldurico Júnior já possuía forte influência dentro da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (SEAP). Desde a época, a pasta era comandada por indicação do MDB, partido do ex-deputado federal no período.
O depoimento não detalhou quando a relação amorosa entre Joneuma e Uldurico teria se iniciado, mas a ex-diretora afirmou que enxergou sua nomeação à Diretoria do Conjunto Penal de Eunápolis como uma “promoção”. As investigações do MP-BA afirmam que Uldurico já planejava ter uma pessoa de sua confiança instalada na unidade penitenciária, visando viabilizar seus interesses e propósitos ilícitos.
A oficialização de Joneuma como diretora em Eunápolis ocorreu em posse no dia 14 de março de 2024, sendo a primeira mulher na chefia de um presídio masculino no estado.
VOTOS
Joneuma afirmou que, já no dia seguinte após tomar posse do cargo, Uldurico Júnior compareceu à unidade com uma comitiva e realizou reuniões a portas fechadas com líderes da facção PCE. Logo nessas primeiras semanas, Joneuma, atendendo a pedidos de Uldurico Jr., passou a autorizar a entrada de freezers, aparelhos de som e alimentação diferenciada para os detentos.
Inicialmente, conforme as investigações, as conversas entre Uldurico e Dada seriam uma troca para garantir eleitores “cativos” a Uldurico, por meio de um grupo composto por presos provisórios com direito a voto, seus amigos e familiares. Cada voto captado era recompensado com R$ 100,00, em dinheiro vivo, e era pago por intermediários da facção.
ACORDO, FUGA E ELEIÇÕES
Conforme a delação, o cenário mudou após Uldurico Júnior perder a disputa pela prefeitura de Teixeira de Freitas em outubro de 2024. Depois da derrota, o ex-deputado federal teria pressionado Joneuma para obter recursos com a facção PCE para pagar dívidas de campanha, o que culminou no acordo de R$ 2 milhões para facilitar a fuga dos presos.
A fuga foi concretizada e ocorreu na noite de 12 de dezembro de 2024, envolvendo uma ação coordenada dentro e fora do Conjunto Penal de Eunápolis. Segundo as investigações, 16 detentos que estavam na cela 44 usaram uma furadeira para abrir um buraco no teto e acessar outra área da unidade.
Joneuma acabou sendo afastada do cargo em 17 de dezembro de 2024, por decisão da 1ª Vara de Eunápolis, exonerada no dia 7 de janeiro de 2025 e presa duas semanas depois.
NERVOSISMO
As investigações também tiveram acesso a diálogos entre Joneuma e Uldurico por meio de um aplicativo de mensagens. Com início após a concretização da fuga, as conversas demonstram como a então diretora do presídio de Eunápolis estava nervosa com a situação, com receio de afastamento e prisão.
O “estopim” ocorreu após a concretização de sua retirada do comando da penitenciária. Em mensagens encaminhadas a Uldurico, ela relata estar “no pior momento da vida” e “grávida e sozinha”. Vale destacar que Joneuma alega que o ex-deputado federal é pai da criança e atualmente há um processo para um possível reconhecimento da paternidade.
No dia 18 de dezembro de 2024, um dia após o afastamento, a ex-diretora procurou Uldurico para informar que o MP-BA já teria encaminhado dois pedidos de prisão contra ela e que o jornalista e radialista Edvaldo Alves, conhecido na região de Teixeira de Freitas, planejava “expor o caso”.
Na troca de texto, Uldurico pedia calma a Joneuma e chega a sugerir que ela fizesse uma viagem a Salvador para “esvair” a mente. Eles se encontraram no dia 23 de dezembro, no Hotel Mercure, localizado no Rio Vermelho. Segundo Joneuma, o ex-deputado federal a ameaçou, caso ela revelasse qualquer detalhe sobre a participação dele ou a negociação financeira com Dada.
Na ocasião, eles também teriam aproveitado o encontro para combinar que seguiriam a mesma linha de defesa perante o Ministério Público, fazendo versões idênticas para possíveis depoimentos.
TENTATIVA DE FUGA
Em janeiro de 2025, diante do iminente mandado de prisão preventiva, Joneuma articulou um encontro para evadir-se da justiça. As conversas foram com um contato salvo como "Geneçi Glizard".
O plano envolvia uma pessoa ("o menino") que a pegaria em um endereço específico para levá-la a um destino não identificado através de estradas de terra para evitar fiscalização. Há registros de fotos de uma parada para refeição durante esse deslocamento em 08 de janeiro de 2025. Não há detalhes do que ocorreu com o plano de fuga.
O Ministério Público da Bahia apresentou a denúncia contra Joneuma Silva Neres, ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, em que detalha de forma minuciosa a atuação dela e de outros envolvidos na fuga de 16 detentos da cela 44, ocorrida em 12 de dezembro de 2024. O documento, obtido pelo Bahia Notícias, conta sobre o pagamento de R$ 1,5 milhão pela facilitação da fuga e o uso de uma furadeira a bateria como instrumento fundamental no plano.
De acordo com os autos, a intermediação de Joneuma nas atividades criminosas da facção Primeiro Comando de Eunápolis teria rendido a ela cerca de R$ 1,5 milhão. Esse valor teria sido pago pela organização criminosa como compensação pela facilitação da fuga, concessão de regalias e omissão deliberada frente a práticas ilegais dentro da unidade. O denunciado Vagno Oliveira Batista, o qual atuava como fornecedor de armas, e outras testemunhas afirmaram que ela era peça central na engrenagem do grupo, assumindo papel de confiança e comando ao lado do líder Ednaldo “Dada” - de quem seria amante.
A ex-diretora também teria planejado fugir para o Rio de Janeiro, com o líder do Primeiro Comando de Eunápolis (PCE). Conforme apuração do Ministério Público, lá, ela e Dada ficariam sob a proteção do Comando Vermelho (CV), facção aliada a organização criminosa baiana.
LAVAGEM DE DINHEIRO
A denúncia aponta que Joneuma usava uma falsa identidade — Barbara Thais de Jesus Ramos — para atuar em esquemas de lavagem de dinheiro da facção. Em sua posse, foram encontrados documentos, anotações, telefones e até comprovantes de compras que conectam suas ações aos fluxos financeiros do grupo criminoso.
Em um caderno apreendido, foram identificados CPFs e anotações de datas de nascimentos de pessoas diversas, além de um comprovante da compra de um equipamento de informática Macbook, que estava no nome de Bárbara Thais de Jesus. O aparelho, inclusive, foi encontrado na residência de Joneuma.
A FURADEIRA
A ferramenta utilizada pelos presos para abrir um buraco no teto da cela 44 foi uma furadeira a bateria. O som do equipamento foi percebido no dia 29 de novembro de 2024 por um supervisor do presídio. Ele tentou fazer a inspeção, mas foi impedido pelos próprios detentos. Ao acionar o coordenador de segurança, Wellington Oliveira Sousa, este adotou postura evasiva, alegando aguardar instruções de Joneuma. Ambos eram sabidamente aliados e, segundo a denúncia, estavam diretamente comprometidos com a execução do plano de fuga.
Apenas no dia 2 de dezembro, três dias após a constatação do uso da furadeira, Joneuma mandou recolher a ferramenta, já com a escavação praticamente concluída. Ela manteve a furadeira sob sua guarda na sala da diretoria e, depois da fuga, ordenou que Wellington levasse o objeto para o seu carro, a fim de entregá-lo pessoalmente. Além disso, ela o orientou a formalizar um comunicado falso, omitindo os detalhes da utilização da ferramenta e instruindo-o a apagar os registros do caso.
A denúncia aponta que Joneuma e Wellington elevaram o status de mais de 12 detentos da facção, transformando-os em “correrias” — internos com livre circulação e acesso privilegiado às áreas do presídio. Esses detentos foram concentrados nas celas 44 e 45, justamente para facilitar a organização da fuga.
Durante o planejamento e execução, os presos utilizaram a furadeira para abrir um buraco no teto, com conhecimento e autorização dos dois servidores. Além disso, os internos transportaram facas e outros instrumentos ilícitos em baldes durante uma mudança de pavilhão, tudo feito na presença da direção da unidade, sem qualquer interferência.
No dia da fuga, 12 de dezembro, nove homens fortemente armados invadiram o presídio, mataram um cão de guarda e atiraram contra os agentes penitenciários. Todos os 16 detentos escaparam. A ação contou com armamento pesado, incluindo fuzis AK-47, Parafal e AR-15.
Os denunciados, inclusive, no entendimento do MP-BA, devem responder solidariamente pela tentativa de homicídio de um dos vigilantes.
A denúncia descreve um esquema complexo, com divisão de tarefas clara entre os detentos, a liderança da facção e servidores públicos corrompidos.
Os principais acusados e seus papéis:
Joneuma Silva Neres (ex-diretora do presídio)
- Acusada de se associar à facção após assumir o cargo em março de 2024.
- Manteve um relacionamento amoroso com o líder da facção, Ednaldo "Dada", e permitiu regalias absurdas aos presos, como:
- Refeições de luxo (moqueca de camarão, lasanha, Chester).
- Entrada de caixões para velórios dentro do presídio.
- Visitas íntimas nos pavilhões.
- Uso livre de celulares e facas pelos detentos.
- Facilitou encontros políticos dentro do presídio, incluindo reuniões com o ex-deputado Uldurico Alencar Pinto, candidato a prefeito de Teixeira de Freitas.
- Lavagem de dinheiro: Movimentou cerca de R$ 1,5 milhão em propinas e usou laranjas para comprar bens, como um MacBook em nome de uma falsa identidade.
Welington Oliveira Sousa (coordenador de segurança do presídio)
- Omissão deliberada durante a escavação do teto da cela 44, que permitiu a fuga.
- Alterava laudos criminológicos para beneficiar membros da facção.
- Ameaçava servidores que não colaboravam com o esquema.
Dada (líder da facção)
- Comandou a fuga de 16 integrantes da facção em 12 de dezembro de 2024.
- Armou os resgatistas com fuzis (AK-47, AR-15, Parafal).
- Ordenou o ataque a tiros contra vigilantes durante a fuga, resultando em tentativa de homicídio.
Vagno Oliveira Batista (fornecedor de armas)
- Responsável por entregar os fuzis usados na fuga.Revelou que os fugitivos estão escondidos no Rio de Janeiro, sob proteção do Comando Vermelho (CV).
A ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, teria recebido R$ 1,5 milhão para facilitar a fuga dos 16 detentos em dezembro do ano passado, segundo novas informações divulgadas. Além disso, ela também teria planejado fugir para o Rio de Janeiro, junto Ednaldo Pereira de Souza, o Dada, apontado como líder da facção Primeiro Comando de Eunápolis.
A fuga, que até hoje mantém 15 foragidos, foi detalhadamente articulada. Segundo o processo revelado pelo BATV na noite desta quinta-feira (3), os detentos abriram um buraco no teto da cela com o uso de uma furadeira, cujo barulho chegou a ser percebido por agentes penais. Apesar disso, a diretora só teria autorizado a revista na cela dois dias depois.
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A ferramenta foi encontrada e, segundo depoimento do ex-coordenador de segurança da unidade, Wellington Oliveira Sousa, foi mantida por dias sob posse de Joneuma, guardada em sua sala. Só pouco antes da fuga é que ela teria ordenado que ele levasse a furadeira para sua casa. A cela de número 44, onde os presos estavam, abrigava apenas aliados de o Dada, apontado como líder da facção responsável pela fuga.
A reportagem também mostrou que Joneuma teria facilitado a entrada irregular de alguns objetos no presídio, sob pedido dos criminosos. A ex-diretora autorizou o ingresso de roupas, ventiladores, freezers e até sanduicheiras.
O advogado criminal de Joneuma, Arthur Nunes Gomes, informou que as regalias foram concedidas fruto de negociações visando estabelecer “a ordem dentro do sistema prisional”. Segundo ele, a entrada dos objetos ajudaria a evitar que ocorrerem rebeliões dentro da penitenciária.
ROMANCE COM DADA
De acordo com a reportagem, Joneuma teria mantido um relacionamento amoroso com Dada enquanto ele esteve preso na unidade.
Testemunhas revelaram que a ex-diretora tinha um relacionamento com Dada ainda dentro do presídio de Eunápolis. Além disso, o ex-coordenador de segurança da penitenciária, Wellington Oliveira Souza, mencionou em depoimento que Joneuma e o criminoso tinham “encontros frequentes” e “sempre a sós”.
O romance entre a ex-diretora e Dada, a informação foi negada pela advogada e irmã da acusada, Joceuma. “A gente não sabe quem está articulando tudo isso, mas ela está sofrendo as consequências de um crime que ela não cometeu. Ela nunca teve nenhum relacionamento com essa pessoa”.
A ex-diretora do presídio de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, teria mantido um relacionamento amoroso com Ednaldo Pereira Souza, conhecido como Dada e principal liderança da facção Primeiro Comando de Eunápolis. Ela está presa desde o início deste ano, suspeita de facilitar a fuga de 16 detentos durante ataque ao local em dezembro do ano passado.
Dada estava encarcerado no presídio de Eunápolis no momento da invasão armada que resultou na fuga dos detentos. A principal suspeita é de que o ataque foi realizado justamente para que criminoso realizasse a fuga. Ele continua foragido.
A informação do romance foi revelada pelo BATV na noite desta quinta-feira (3). De acordo com a reportagem, testemunhas revelaram que a ex-diretora tinha um relacionamento com Dada ainda dentro do presídio de Eunápolis. Além disso, o ex-coordenador de segurança da penitenciária, Wellington Oliveira Souza, mencionou em depoimento que Joneuma e o criminoso tinham “encontros frequentes” e “sempre a sós”.
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“Eles tinham encontros frequentes que ocorriam na sala de videoconferência, sempre a sós, com uma folha de papel ofício obstruindo a visibilidade da porta pela abertura do vidro. As reuniões eram sigilosas e causavam estranheza entre os funcionários devido a sua regularidade e longa duração” diz o depoimento revelado pelo BATV.
A reportagem também mostrou que Joneuma teria facilitado a entrada irregular de alguns objetos no presídio, sob pedido dos criminosos. A ex-diretora autorizou o ingresso de roupas, ventiladores, freezers e até sanduicheiras.
O advogado criminal de Joneuma, Arthur Nunes Gomes, informou que as regalias foram concedidas fruto de negociações visando estabelecer “a ordem dentro do sistema prisional”. Segundo ele, a entrada dos objetos ajudaria a evitar que ocorrerem rebeliões dentro da penitenciária.
Sobre o romance entre a ex-diretora e Dada, a informação foi negada pela advogada e irmã da acusada, Joceuma. “A gente não sabe quem está articulando tudo isso, mas ela está sofrendo as consequências de um crime que ela não cometeu. Ela nunca teve nenhum relacionamento com essa pessoa”.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
João Roma
"É possível. Cabe lembrar que a eleição foi muito antecipada esse ano. O prazo de 4 de abril, no qual nós já manifestamos e anunciamos uma chapa de pré-candidatos, na verdade era um período crucial para a filiação dos partidários. Mas a definição formal, burocrática, se dá no final de julho, quando se encerram as convenções partidárias".
Disse o ex-ministro da Cidadania, João Roma (PL), apontou a possibilidade do pré-candidato ao Governo da Bahia, ACM Neto (União), anunciar apoio e participar de palanque de candidatos que possam derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da presidência da República.