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Duas Rosas: Geddel teria feito cobranças para receber R$ 1 milhão de Uldurico Jr. após eleições de 2024, diz depoimento

Por Eduarda Pinto / Fernando Duarte / Leonardo Almeida / Mauricio Leiro

Duas Rosas: Geddel teria feito cobranças para receber R$ 1 milhão de Uldurico Jr. após eleições de 2024, diz depoimento
Foto: Valter Campanato / EBC

Uma das principais lideranças do MDB na Bahia, o ex-ministro Geddel Vieira Lima foi citado no depoimento da ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, como um possível beneficiário da propina de R$ 2 milhões pela facilitação na fuga de 16 detentos da unidade prisional, ocorrida em dezembro de 2024. Conforme delação premiada, Geddel teria acordado com o ex-deputado federal Uldurico Júnior, à época filiado ao MDB, o recebimento de metade da quantia, ou seja, R$ 1 milhão.

 

“Oportunamente, observa-se que o investigado GEDDEL VIEIRA LIMA foi apontado pela colaboradora como possível beneficiário de valores oriundos da fuga do presídio de Eunápolis, ao passo que ULDURICO ALVES PINTO, genitor de ULDURICO JR., foi indicado como intermediário no repasse de vantagens indevidas decorrentes de atos de corrupção. Diante de tais elementos, o aprofundamento das investigações revela-se medida imprescindível”, apontou o Ministério Público da Bahia (MP-BA).

 

O Bahia Notícias obteve acesso ao depoimento da ex-diretora e detalha as informações encontradas na delação ao longo de cinco reportagens em uma série chamada “Duas Rosas”, sendo esta, a segunda. Na primeira matéria detalhamos a relação de Joneuma com Uldurico Jr. e procura feita após as eleições de 2024.

 

CONSULTOR
Ao longo do depoimento de Joneuma, é percebido que Geddel é identificado nos diálogos de um aplicativo de mensagens como “chefe”. Nas conversas, o ex-ministro, ao mesmo tempo que fazia cobranças, é mostrado como uma espécie de consultor, auxiliando Joneuma e Uldurico durante embates entre os dois.

 

Nas mensagens, a ex-diretora demonstrava nervosismo após a fuga dos detentos e, principalmente, após ser afastada do cargo de diretora em Eunápolis por decisão da Justiça. Em uma mensagem datada no dia 18 de dezembro, um dia após ela ser retirada do comando, Uldurico tentou acalmar Joneuma dizendo: "Geddel pediu tempo". 

 

Em outra ocasião, no mesmo dia, Uldurico afirmou que Geddel teria orientado Joneuma a "mergulhar" (manter discrição), pois, segundo ele, decisão da Justiça se limitaria apenas ao afastamento administrativo. 

 

 

Ainda no dia 18, em um dos momentos de nervosismo, quando se preocupava com um decisão por prisão preventiva, Joneuma critica o superintendente de Gestão Prisional da Secretaria de Adminsitração Penitenciária (Seap), Luciano Teixeira. Em mensagem, a ex-diretora chega a insinuar, inclusive, que a Seap estaria fazendo os servidores a deporem contra ela e sugere que a situação estaria ocorrendo em “conluio” com o desembargador Roberto Maynard Frank.

Durante as conversas, com o nervosismo de Joneuma, também houve menções de que Geddel poderia indicar um advogado para atuar no caso.

 

 

DISTORCER
Uldurico alegava que Geddel iria ficar com metade da propina de R$ 2 milhões que seria paga pela facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE) em razão da facilitação da fuga de dezembro de 2024. No entanto, durante as conversas, não há menções diretas de que o ministro tinha conhecimento da colaboração entre o ex-deputado federal e o grupo criminoso.

 

No dia 21 de dezembro de 2024, Uldurico enviou mensagens a Geddel com o objetivo de atribuir a culpa a terceiros, mais especificamente, no então superintendente de Gestão Prisional da Seap, Luciano Teixeira. Em uma dessas mensagens, Uldurico afirma expressamente: "Parece que o Luciano está por trás da fuga dos presos de Eunápolis".

 

Uldurico também enviava a Geddel links de matérias jornalísticas encomendadas por ele no site “Gazeta da Bahia” e documentos oficiais de cobrança para sustentar a tese de que a culpa seria da Seap e de sua cúpula.

 

 

A tentativa, no entanto, foi repreendida por Geddel. No dia 22 de dezembro de 2024, ele encaminhou um áudio enfurecido a Uldurico. Na gravação ele afirmou que as reclamações “estavam chatas” e que iria mostrar “as cagadas” feitas por Joneuma no presídio de Eunápolis. Veja a transcrição:

 

Oh Rico [Udulrico], para com essa mania, Rico, tá ficando chato, de negócio de voto fala mais alto, de viad*s que eu indico. Porr*, o viad* que eu indico, caralh*, você fica falando de uma secretaria eminentemente técnica, secretaria podre como essa SEAP, que foi o que sobrou, caralh*. E não é assim, o governo que você... Eu chego lá, bato a pic* na mesa e digo quem eu quero, porr*. A coisa é uma construção, você fica todo dia batendo a mesma punhet*, a mesma punhet*, a mesma punhet*, porr*. Entendeu? Porr*, eu indiquei uma pessoa minha. O governador não gostou da indicação. O cara que a gente podia emplacar naquele momento é esse secretário que tá aí, que era o subsecretário. Esse Luciano, você fica encarnando, tava lá. O problema é que eu vou sentar com você e vou mostrar, caralh*, uma série de cagadas que foi feita lá nessas porra que tá lá com essa mulher e companhia. E porr*, e você com esse temperamento seu, pior do que o meu, briga com todo mundo, fica gerando inimizades, porr*. Para com isso, fica toda hora com dedo na mesma ferida.Enfim, mas vamos sentar, conversar com calma, tranquilidade. Pode ser essa semana. Vamos olhar pra frente e ver o que é que pode construir. Pronto, é assim que funciona.

 

Uldurico reagiu e se colocou à disposição para se reunir com Geddel, sem rebater as críticas feitas no áudio enviado pelo ex-minsitro:

 

COBRANÇA
No diálogos de Joneuma com Uldurico, é mostrado que Geddel estaria realizando cobranças ao ex-deputado federal após o fim do pleito de 2024. Ele, inclusive, encaminhava para Joneuma capturas de tela de conversas que ele teria tido com o cacique do MDB, onde este supostamente cobrava o dinheiro.

 

No dia 7 de janeiro de 2025, antes do encontro prometido por Geddel, Uldurico demonstrou nervosismo, questionando o que diria ao "chefe" quando ele perguntasse pela "rosa" (termo codificado para o dinheiro), pois, na cabeça do cacique do MDB, o valor já deveria ter sido pago.

 

*Chorar a rosa se refere a “pagar o dinheiro”

 

No entanto, quando Uldurico informou que os valores ainda não haviam sido entregues, na ocasião a propina pela fuga dos detentos, a reação de Geddel foi de "só risada". A resposta do cacique emedebista assustou Uldurico, que passou a dizer para Joneuma que o partido iria articular para “lhe fud*r”.

 

“Vem bomba para mim. Ainda com fama de não cumprir compromissos. Desdém como se eu fosse mentiroso. Não acreditam que não tenho nada. Me queimei a toa. Vão para cima de mim quente. Tá tudo armado para me fud*er. Vão vim com tudo. Vão me fud*er, hoje a ficha caiu”, disparou Udulrico em mensagens para Joneuma.

 

Ainda na conversa, o ex-deputado federal citou o atual titular da Seap, José Castro, que é indicado pelo MDB, falando que ele teria “lhe queimado” dentro do partido.

 

 

Uldurico também encaminhou capturas de tela de outros credores para Joneuma. Nas mensagens, o ex-deputado federal relatou em diversas oportunidades que, caso não recebesse os R$ 2 milhões do PCE até o dia 13 de janeiro de 2025, ele “estaria morto”.

 

 

VEREADOR
Geddel não foi o único político mencionado. Um ex-candidato a vereador de Eunápolis, identificado como Cley da Autoescola (PSD), é citado como um dos articuladores da fuga.

 

De acordo com o MP-BA, ele possuía relação próxima com familiares de líderes da facção PCE, tendo inclusive fotos em suas redes sociais com a esposa de "Dada" e com a mãe e avó de Sirlon (braço direito de Dada).

 

No dia 2 de novembro de 2024, Cley e sua esposa levaram um emissário de confiança do detento "Dada" até o Hotel Oceania, em Eunápolis, onde Uldurico Jr. e Joneuma os aguardavam. Esse emissário saiu do carro de Cley e entrou no de Uldurico para realizar a chamada em viva-voz que selou o acordo de R$ 2 milhões para a fuga.

 

Cley também é suspeito de participar de encontros-chave, como um almoço em sua própria residência em 16 de outubro de 2024 e uma reunião no "Restaurante da Bernarda" em 03 de novembro de 2024, onde se discutiu o adiantamento da propina.