Da esquerda à direita: Diálogo pela democracia deveria ser amplo, pena que falte disposição
Foto: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil

Quando a dita direita do país se der conta da escalada autoritária que vivemos, vai ser tarde demais. Porque, para que ela exista, é necessário que haja democracia. É assim que se constrói um Estado, dentro da ótica aristotélica com certos graus de atualizações. No entanto, boa parte dessa direita segue apoiando o tom ditatorial de ameaça à República adotado por figuras do entorno do Palácio do Planalto. Enquanto isso, a esquerda segue se digladiando em busca de protagonismo e a tal “frente ampla em defesa da democracia” caminha para desaparecer sem nunca ter efetivamente existido.

 

A direita no Brasil é, em seu alicerce, conservadora. É engraçado o conceito bem local de “conservadora nos costumes e liberal na economia”. Tirando as contradições meio explícitas, esse grupo é parte dos 30% que mantém o apoio incondicional ao presidente Jair Bolsonaro. Parte deles compartilha os ideais dele desde 2018, quando houve a eleição. Ainda assim, aparentemente esse grupo flerta com a democracia, tanto que foi até as urnas apresentar sua opção. Ninguém, até aqui, pareceria apoiador de um novo monarca, ainda que Bolsonaro tenha dado toda pinta de que quereria ser assim considerado.

 

Esse segmento social é tão importante quanto todos os outros, apesar de menosprezado durante muito tempo por certo pensamento hegemônico que ascendeu ao poder pós-socialdemocracia tucana. Por isso há certo regozijo dele ao chegar ao Planalto com Bolsonaro. Abrir o diálogo com esse grupo para evitar uma teocracia no Brasil é relevante. Mas estariam os demais blocos interessados em iniciar as conversas?

 

Tirando pela forma como têm acontecido as trocas de farpas públicas entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-candidato à Presidência, Ciro Gomes, por exemplo, vai ser difícil chegar a um denominador comum. Lula segue autocentrado na narrativa de que ele é maior do que o PT e a democracia. Ciro mantém o ritmo retroescavadeira do irmão Cid e não esquece a forma como foi tratado no pleito de 2018. Enquanto isso, Fernando Henrique Cardoso, que já fora um alvo preferencial de críticas por manter-se impávido como figura intelectual e distante, emerge como personagem menos odiável do que quando deixou o Planalto.

 

Se existe algum tipo de busca de “frente ampla pela democracia”, o projeto tem que passar por todas as vertentes que ainda creem na democracia. Mesmo que estejam em campos ideológicos completamente distintos. Contra uma escalada autoritária, nada mais democrático do que o diálogo.

 

Este texto integra o comentário desta quinta-feira (4) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios A Tarde FM, Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM, Alternativa FM Nazaré e Candeias FM. O comentário pode ser acompanhado também nas principais plataformas de streaming: Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts e TuneIn.

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