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projeto da ponte
Criada no final do ano passado, a Secretaria Extraordinária do Sistema Viário Oeste Ponte Salvador–Itaparica (SVPonte) já gastou quase R$ 160 milhões apenas nos primeiros meses de 2026, conforme dados disponibilizados de forma institucional pelo portal da transparência do governo da Bahia.
Os pagamentos, que somam R$ 159,96 milhões, foram realizados em março deste ano, conforme o sistema do estado. A verba, segundo a gestão Jerônimo, serviu para regularizar o primeiro aporte no contrato de concessão firmado entre o estado e as empresas CRCC e CCCC, ambas da China.
O valor milionário representa 96% dos custos com pagamentos realizados pela SVPonte, criada há menos de sete meses pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT), a fim de gerenciar o equipamento prometido desde 2009 pelo ex-governador petista Jaques Wagner (2007-2014).
O investimento é o primeiro dos R$ 3,3 bilhões em aportes públicos prometidos contratualmente pelo governo da Bahia. De acordo com o novo contrato avalizado no ano passado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-BA), a gestão baiana deve pagar, nos primeiros 10 anos de vínculo, até R$ 271,6 milhões anualmente. Desta forma, mais R$ 114,3 milhões devem ser depositados ainda em 2026 pela Bahia para construção da ponte, cujas obras ainda não iniciaram.
O valor estimado do contrato é de R$ 6,9 bilhões, dos quais R$ 3,3 bilhões serão apenas de investimentos públicos do governo da Bahia, e o restante da concessionária operada pelas empreiteiras CCCC e CR20. Durante os 35 anos de concessão, no entanto, os valores projetados são de R$ 8,9 bilhões em recursos privados, dos quais R$ 8,6 bilhões serão realizados nos seis primeiros anos.
O contrato anterior tinha valor estimado de R$ 7,6 bilhões, mas os aportes públicos eram menores: R$ 1,5 bilhão.
MOVIMENTAÇÃO NA OBRA
Com isso, na manhã desta terça-feira (19), o governador do estado, Jerônimo Rodrigues (PT), confirmou a chegada dos materiais para o início da construção da Ponte Salvador-Itaparica. O gestor estadual relatou que um navio vindo da China atracou no porto da capital baiana durante a madrugada, transportando os insumos para a construção. A previsão é que as obras da ponte sejam iniciadas em junho deste ano, a partir do estabelecimento de três principais canteiros de obras em Maragogipe, Vera Cruz e Salvador.
Segundo Jerônimo, “esse material será transportado para Maragogipe, onde ali na enseada terá um canteiro de obras”. “Parte desse material também será encaminhado para Veracruz para que os canteiros de obras possam ser instalados, e a partir daí, o início da obra da ponte começa já a partir dessa chegada do material. As licenças ambientais, tudo cuidado. As tratativas estão sendo coordenadas pela Secretaria Estadual que cuida do SVO, do Sistema Viário e da Ponte”, garante.
Com 12,4 km de extensão sobre a Baía de Todos-os-Santos, a estrutura será a maior da América Latina sob lâmina d’água e vai se conectar na região do Terminal Marítimo São Joaquim (Ferry-Boat). O projeto também conta com uma nova rodovia em Vera Cruz e a duplicação de trechos da BA-001. O prazo final de entrega é junho de 2031.
CONSULTORIA
Além dos aportes mencionados, a pasta da Ponte desembolsou outros R$ 673,5 mil para a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) em abril. O valor é referente à primeira "mediação do contrato de consultoria conforme entrega do plano de trabalho".
Esse não foi o único pagamento feito para a empresa. Em setembro de 2025, foi divulgado que a gestão Jerônimo Rodrigues (PT) contratou a Fipe para prestar serviços técnicos especializados de consultoria e apoio multidisciplinar por R$ 4,95 milhões. À época, o governador tentou descredibilizar o próprio relatório contratado ao classificar como "ridículo e fake".
Já em janeiro de 2026, o governo baiano publicou uma nova movimentação referente ao projeto de implementação da Ponte Salvador-Itaparica. Na ocasião, a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) foi novamente contratada, através da Secretaria Extraordinária criada para o novo equipamento, para prestação de serviços técnicos especializados de consultoria para apoio e assessoria.
O valor estimado do contrato é de R$ 18.347.448, com vigência prevista de 36 meses, e ele foi fechado por dispensa de licitação. O ato foi assinado, no dia 6 de janeiro de 2026, pelo secretário da SVPONTE, Mateus da Cunha Dias.
CEO FORA
Outro tema envolvendo a Ponte nos últimos meses foi a substituição do diretor-presidente da concessionária responsável pela construção do equipamento. Em paralelo, o projeto voltou ao centro do debate público após a autorização de uma dragagem de grande porte na Baía de Todos-os-Santos, alvo de questionamentos por especialistas e ambientalistas.
GARANTIAS DADAS
Para assegurar os recursos para viabilizar o equipamento, o ex-governador Rui Costa (PT) criou, em 2021, o Fundo Garantidor do Aporte da Ponte (FGAP) - conforme Lei Estadual n°14.290/21 -, com objetivo de prestar garantia de pagamento do aporte de recursos. O valor total máximo desde fundo, estipulado em lei, é de R$ 750 milhões.
Dados publicados no portal da transparência indicam que, entre 2021 e 2025, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues injetaram R$ 1,3 bilhão neste fundo garantidor. No entanto, parte dos recursos foi devolvida ao estado, segundo a Secretaria da Fazenda (Sefaz). O governo não detalha se os recursos do primeiro aporte são oriundos deste fundo, tampouco quanto, no momento, há investido neste mecanismo de crédito.
A plataforma institucional estadual aponta apenas os pagamentos realizados ao fundo. Somente na gestão de Jerônimo, foram aplicados R$ 748 milhões. Entre R$ 2021 e 2022, Rui Costa depositou R$ 500 milhões. No total, houve R$ 1,25 bilhão em aplicações no fundo garantidor da ponte. Não há detalhamento do quanto foi retirado neste período.
O ex-senador e especialista em planejamento urbano-regional Waldeck Ornélas voltou a criticar o projeto da Ponte Salvador-Itaparica, classificado por ele como uma iniciativa “inadequada em termos de temporalidade e localização”.

Waldeck Ornélas | Foto: Reprodução / Redes Sociais
Em entrevista ao Bahia Notícias, Ornélas reafirmou a posição contrária à construção da ponte e defendeu a implementação de um sistema de transporte coletivo de passageiros na Baía de Todos-os-Santos como solução mais eficiente para a mobilidade e o desenvolvimento econômico da região.
Segundo o ex-senador, a ponte tem um caráter basicamente rodoviário, em que beneficia apenas o tráfego de veículos, e não atende às necessidades da população que se desloca entre as cidades. “A ponte resolve o problema do fluxo veicular, mas não o da mobilidade cotidiana das pessoas. A revitalização econômica do entorno da baía só ocorrerá com um sistema eficiente de transporte de passageiros”, afirmou o também ex-ministro da Previdência do governo FHC ao Bahia Notícias.
Ornélas argumenta que o empreendimento, orçado atualmente em R$ 11 bilhões, deveria ser reavaliado. Ele destacou que o custo final pode ser ainda maior, já que estudos de fundação indicam a necessidade de intervenções mais profundas do que o previsto inicialmente.
“Meu receio é que apresentem um novo orçamento. Por isso, questionei em um artigo recente ‘quanto custa não fazer?’. É essencial compreender o impacto financeiro total dessa obra”, observou.
O ex-parlamentar também lembrou que já existe um sistema de transporte aquaviário na Baía de Todos-os-Santos, com rotas que conectam Salvador a cidades como Madre de Deus, Maragogipe e Cachoeira, as duas últimas no Recôncavo. Para ele, o modelo precisa ser aperfeiçoado e integrado a outros modais terrestres, e não substituído por uma ponte que privilegia apenas o transporte individual.
“A Baía de Todos-os-Santos é um recurso natural extraordinário e subutilizado. Temos um complexo portuário amplo, com potencial para reativar a economia local, como demonstra o caso do estaleiro Paraguaçu [Maragogipe], que pode gerar cerca de sete mil empregos. Isso exige soluções de transporte voltadas para os trabalhadores, e não apenas para automóveis”, completa Ornélas.
O ex-senador também comparou o projeto à Ponte Rio-Niterói, construída nos anos 1970. Para ele, o contexto atual é completamente diferente. “Naquele período havia uma metrópole na outra margem. Hoje, o cenário é outro, e o pedágio seria inviável para boa parte dos usuários. Estamos repetindo um modelo de desenvolvimento ultrapassado”, afirmou.
Waldeck Ornélas frisou que a posição contrária ao projeto não é recente. Desde 2019, ele publica artigos e notas técnicas em que critica a proposta, especialmente após a redução do vão central da ponte, que, segundo ele, comprometeu a viabilidade náutica da Baía de Todos-os-Santos.
“Tenho tratado desse tema há anos, antes mesmo da assinatura do contrato. Sempre defendi que a prioridade deve ser um sistema integrado de transporte de passageiros, capaz de impulsionar a economia local e melhorar a mobilidade de forma sustentável”, concluiu.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
Mário Frias
"Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá? Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?".
Disse o ex-secretário especial de Cultura ao comentar com o banqueiro Daniel Vorcaro sobre a articulação do filme biográfico “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.