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O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) fixou novas placas indicando a fiscalização e estudos de contaminação na praia de São Tomé de Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. A praia de São Tomé de Paripe está interditada há mais de dois meses.
Informações divulgadas por moradores ao Bahia Notícias indicam que as novas placas foram colocadas no local no início desta semana, após cobranças das lideranças locais. A primeira, e até então a única, placa adicionada pelo Instituto, na região foi fixada em local de baixa visualização e pouco movimento na praia, onde foram encontrados os primeiros vestígios dos metais pesados provenientes da contaminação por concentrações elevadas de nitrato e cobre.

Localização da primeira placal instalada pelo Inema. Foto: Alana Dias / Bahia Notícias
Ainda segundo os moradores do local, em entrevista ao Bahia Notícias, a má sinalização do local pelos entes públicos gerou mais um trabalho à comunidade: o de alertar os visitantes desavisados sobre a contaminação.
“Há pouco tempo vieram umas famílias que vieram de Goiás, outras vieram de Alagoas e não conheciam esse problema da praia. A gente fica aqui orientando, fazendo o trabalho que é do Estado, o pessoal continua consumindo o marisco da praia contaminada, o pessoal que não sabe, continuam vindo tomar banho e a gente aqui orientando as pessoas. Até aqui, está funcionando, mas vai chegar uma hora que a gente não vai ver essas pessoas e tudo que a gente não quer é que ninguém seja prejudicado”, explicou o morador Jocival David.
Respondendo a esta demanda, as novas placas foram fixadas em local de maior visibilidade: na principal entrada da praia, em frente a rotatória do final de linha de São Tomé de Paripe.

Foto: Reprodução / Acervo da comunidade local
O Bahia Notícias vai seguir acompanhando as atualizações e repercussões da contaminação da praia de São Tomé de Paripe. Relembre aqui as reportagens da série “Águas de São Tomé”, com mais detalhes sobre o tema.
Com quase 9 mil habitantes, São Tomé de Paripe é um pequeno pedaço de área verde no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Conhecida pelas belezas naturais da Baía de Todos os Santos, a praia de São Tomé é o centro da vida social e econômica do bairro: fonte de lazer, trabalho e até locomoção. Acontece que, desde fevereiro deste ano, a normalidade da vida litorânea deu lugar a uma preocupação crescente após a identificação de uma contaminação por metais pesados na praia.
Desde então, moradores e ambientalistas buscam respostas para as causas e soluções para o problema que limitou o acesso da comunidade a uma de suas “forças vitais”. Na série de reportagens “Águas de São Tomé”, o Bahia Notícias relembra o histórico deste acidente ambiental que impactou a vida e sociabilidade da comunidade de São Tomé de Paripe e expôs fragilidades na gestão ambiental na Baía de Todos os Santos.

Foto: Alana Dias / Bahia Notícias
Em entrevista realizada nesta quinta-feira (7), o Bahia Notícias conversou com Jocival David e Joilda Borges dos Santos, representantes da comunidade que hoje se articulam com os órgãos públicos na tentativa de encontrar soluções e promover um acordo para a reestruturação ambiental do bairro. Jocival, de 48 anos, narra que é nascido e criado no bairro e, apesar de não depender financeiramente do mar, se envolveu na mobilização para manter a tradição do local.
“Como eu trabalho, tenho o meu emprego, não tenho muita coisa a ter direito, só tenho o direito de brigar pela minha comunidade”, afirma. Ele conta que realiza “vistorias” independentes todos os dias na praia, fotografando os pontos de contaminação, a morte dos animais e possíveis movimentações no Terminal.
Por outro lado, Joilda, de 48 anos, tem o mar como parte do sustento. Permissionária e dona de uma barraca de praia, ela conta que ainda emprega outros três funcionários no local. “Por trás de uma barraca já existem mais três ou quatro famílias sem trabalho e geralmente eles me ligam: minha cozinheira, meus garçons, a auxiliar. ‘E aí, Jo, quando é que a gente volta a trabalhar?’ e eu digo ‘Não sei, não sei’”, conta.
Ela completa ainda dizendo que “é complicado a gente estar aqui nessa situação de desemprego porque a gente vive disso. A gente até está pensando em colocar um cachorro-quente na praia, mas vender a quem? Se o nosso bairro agora é um bairro que é um cemitério, é um bairro fantasma”, destaca.
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O eletrotécnico narra que a luta dos moradores começou ainda durante o Carnaval, período de alta estação em Salvador, quando a praia da região tende a atrair soteropolitanos e turistas que desejam explorar o Subúrbio ou até viajar para a Ilha de Maré.
“No finalzinho ou meados de fevereiro, nós descobrimos esse problema na faixa de areia, ali no período do carnaval, e num passo de brincadeira a gente viu a coloração da água azul, do outro lado amarela, do outro lado verde, então resolvemos investigar o que era. Então, de acordo com o grande odor de amônia, aí a gente viu que era uma coisa bem mais grave. Aí foi que nós procuramos os órgãos ambientais”, destacou Jocival.
Por meio das redes sociais, apoio de figuras públicas e manifestações pacíficas na comunidade, os moradores de São Tomé de Paripe chamaram a atenção da mídia e de parte dos órgãos públicos acerca do tema.

Manifestação de moradores, com a presença da Polícia Militar, em frente a Intermarítima em São Tomé de Paripe. Foto: Arquivo pessoal da comunidade
“O Ministério Público já tem praticamente 70 dias caminhando junto com a comunidade de São Tomé de Paripe”, afirma Jocival. Ele detalha que “quando acionamos o Ministério Público, nós registramos alguns boletins de ocorrência na Polícia Civil, na Polícia Federal, aí também o Ministério Público Federal entrou no caso, porque viu a gravidade do acontecido”.
Desde então, explica o representante do bairro, “o Ministério Público se comprometeu de que teria uma solução para o nosso bairro”. Quem acompanha o caso é a promotora de Justiça Hortênsia Gomes Pinho, da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente e Habitação e Urbanismo da Capital. Com parte do trâmite do caso em esfera cível, o Ministério Público realiza, semanalmente, reuniões de situação para o monitoramento e a gestão do andamento de processos. Na reunião desta quarta-feira (6), estiveram presentes representantes da comunidade local, do Inema e das empresas envolvidas.
“Já fizemos a primeira reunião de mediação, ali no Ministério Público do Centro Administrativo [sede do Ministério Público no CAB], e depois as nossas reuniões passaram a ser na sede do Ministério Público em Nazaré, onde a doutora Hortênsia tem sido bastante sensitiva nas suas pronúncias, nas suas palavras, no objetivo, naquilo que a comunidade quer”, destacou o morador.
Segundo Jocival, o objetivo do grupo é garantir que as atividades da empresa Intermarítima no local não voltem a ocorrer. Desde março, o Terminal Itapuã, como é conhecida a unidade, foi interditado pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) em meio às investigações relacionadas à contaminação.
Em entrevista ao Bahia Notícias, a promotora Hortênsia destacou que o objetivo do MP-BA é garantir a suspensão da licença ambiental do Terminal como um todo, além de estabelecer um acordo de responsabilização entre as partes, que garanta um ressarcimento de um salário mínimo (atualmente fixado no valor de R$ R$ 1.621) por seis meses a cada uma das 800 famílias afetadas pela contaminação.
“A gente espera que aconteça, é que essa empresa não funcione mais. O nosso bairro não foi preparado para receber grandes cargas de fertilizante. Para quem não conhece, são 4 a 5 navios por mês de grande porte, são em torno de 500 carretas subindo e descendo diariamente aqui no nosso bairro, vocês vieram e viram que as nossas vias são todas apertadas, não tem estrutura para isso, e o Ministério Público está mediando isso”, narra Jocival.
Para Joilda, uma das maiores dificuldades desse processo, que já se arrasta há quase três meses, é a falta de acolhimento de parte das autoridades.
“A Secretaria do Mar, quando a gente foi pedir um apoio e que viesse ver a situação que a gente estava vivendo aqui, o que a gente ouviu lá foi: ‘e lá vocês não têm um restaurante popular, onde vocês possam comer?’, porque a gente já estava em uma situação aqui precária, sem trabalhar muitos dias, pais e mães de família pescadores, marisqueiros e barraqueiros permissionários, sem poder trabalhar. E a gente foi buscar um auxílio para poder ver se eles iam ter como ajudar a gente e o que a gente ouviu lá foi muito triste”, narra a moradora do bairro.
Após o ocorrido, em abril, as secretarias de Promoção Social (Sempre) e do Mar (Semar), ambas vinculadas à Prefeitura de Salvador, realizaram o cadastro e entrega de cestas básicas a cerca de 600 famílias em São Tomé. O que a permissionária ressalta, no entanto, é que “a gente não quer um restaurante popular, a gente quer nossa dignidade. A gente quer nossa praia limpa, a gente quer trabalhar e o que a gente precisa agora é que a empresa repare o dano que eles fizeram na nossa água, que eles tirem a contaminação deles daqui e saiam daqui”, explica.
IMPACTOS ‘ALÉM-MAR’
Apesar da revelação deste episódio de contaminação, o que os moradores de São Tomé de Paripe revelaram ao Bahia Notícias é que os impactos ambientais das operações no Terminal local não são novidade e muito menos se resumem ao mar.

Foto: Alana Dias / Bahia Notícias
O eletrotécnico Jocival David, que vem atuando ativamente na campanha contra o funcionamento do espaço, relata que o problema da própria contaminação de materiais na praia não é novidade. “Quando chove e a correnteza vem com maior força, todo esse produto tanto da lavagem da pista dele [do Terminal], quanto das águas que vazam do pátio cai para o mar e mata muito animal marinho mesmo. Já aconteceu antes, já foi pauta no Ministério Público, já foi denunciado para o Ministério Público Federal em 2018, 2022, 2024, não é a primeira vez”.
David explica que, como vizinho próximo do terminal, a poluição do ar e a poluição sonora provocada pela atuação das empresas operadoras do Terminal no bairro também são motivo de briga há anos. “Eu venho brigando com a Intermarítima desde 2022 por ser um dos vizinhos mais próximos. E em suas operações, alguns dos seus produtos exalam poeira, a poluição é uma ação muito forte que toma todo o bairro praticamente”, afirma.
Segundo ele, as operações causam “uma nuvem de poeira muito, muito forte mesmo, dependendo do horário, quando eles precisam produzir, eles levantam os seus transportadores e o vento joga [a poeira] para a parte do bairro, toda essa poluição. E é uma briga, como eu já falei. Se agravou agora, decorrente desse produto vazar na praia, foi aí que as coisas complicaram mais para o lado da empresa, mas eles conhecem a operação deles, não é necessário a gente estar aqui falando muita coisa, porque é prejudicial à comunidade, é prejudicial ao bairro”, relata o morador.
NOVO NORMAL
Há cerca de dois meses vivendo em uma realidade onde a praia deixa de ser um “porto seguro”, os moradores de São Tomé relatam a dificuldade em se adaptar ao “novo normal” provocado pela interdição da praia.
Um deles é Clenio Dias, de 63 anos. Conhecido na comunidade como um dos pescadores mais antigos da região, ele relata que o trabalho ficou “mais distante”. “Eu sou pescador que sempre pescava por aqui por perto. Bom, a desconfiança do pessoal, claro que eu não vou pescar por aqui por causa da contaminação. E eu tenho que pescar em uma área mais distante, lá para o lado da Ponta de Nossa Senhora e Paramana. Eu pesco lá próximo à Ilha de Itaparica, a Boca da Barra e, mesmo assim, eu estou sendo prejudicado, porque ninguém está querendo comprar, todo mundo desconfiado”, ressalta.

Foto: Alana Dias / Bahia Notícias
Ele diz ainda que a solução é doar os peixes para evitar perdas e ajudar a comunidade. “Como é que o pessoal vai comprar peixe na minha mão? Eu tenho que dar peixe. É um vício eu pescar. Entendeu? Então eu tenho que fazer doação de peixe para não ter prejuízo de jogar peixe fora, meus pescados. Então, eu estou sendo — e não só eu, como outros pescadores estão sendo — prejudicado de várias maneiras”, relata.
Joilda, que é permissionária, narra que a comunidade se esforça para manter a esperança de que o bairro possa voltar às suas origens. “A normalidade daqui é a gente ver nossas crianças correndo para lá e para cá, a gente ter a segurança e saber que elas não vão ser contaminadas. É a gente receber um turista aqui e a gente poder chegar na faixa de areia, botar a nossa barraca. Um pai de família levantar de manhã cedo e ir para a sua maré e buscar o seu marisco, a sua esposa esperando em casa, ferventar os seus frutos do mar, catar, embalar e sair para poder fazer as suas vendas”, conta.
Para a moradora, que também tem participação ativa nas negociações, não é apenas o retorno financeiro que importa. “É isso que é importante para a gente, a nossa normalidade é isso: a gente saber de manhã quando a gente acorda, eu tenho um destino, eu vou trabalhar, eu vou buscar o meu pão. Não é chegar aqui na praia e ver esse desespero, ver urubus comendo restos mortais de peixes”, completa.
Ainda nesta sexta-feira (8), a comunidade de São Tomé se reuniu em frente à praia, ao lado do terminal, para discutir os rumos das negociações envolvendo o Ministério Público e as empresas envolvidas. É por meio destas reuniões que os moradores que conseguem participar das reuniões de situação repassam as informações aos vizinhos.

Foto: Arquivo pessoal da comunidade.
Ainda no local, em frente à praia, que é santuário do bairro, os moradores realizam atividades coletivas para compartilhar alimentos, doações, além de fazer companhia e garantir o lazer durante a espera de soluções e respostas definitivas.
Confira a entrevista completa logo abaixo:
Cerca de 58 dias após a interdição das operações da Intermarítima no Terminal Itapuã, em São Tomé de Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, no dia 11 de março, a responsabilização em torno dos metais pesados encontrados na água, sedimentos e animais marinhos na praia segue em negociação lenta. Nesta quinta-feira (7), o Bahia Notícias conversou com a promotora de Justiça Hortênsia Gomes Pinho, da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente, Habitação e Urbanismo da Capital, sobre o andamento do inquérito civil relacionado ao crime ambiental registrado na Baía de Todos-os-Santos.
Na série de reportagens “Águas de São Tomé”, o Bahia Notícias relembra o histórico deste acidente ambiental que impactou a vida e a sociabilidade da comunidade de São Tomé de Paripe e expôs fragilidades na gestão ambiental na Baía de Todos-os-Santos. Ao BN, a promotora relata que as reuniões de situação estão ocorrendo semanalmente para o monitoramento e a gestão do andamento do processos. A reunião desta quarta-feira (6), estiveram presentes representantes da comunidade local, do Inema e das empresas envolvidas.
A representante da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente explica que o caso faz parte de uma série de investigações envolvendo o Terminal Itapuã. O local hoje é operado pela empresa Intermarítima Portos e Logística.
“Tomei conhecimento através da mídia, através das reportagens que estavam ocorrendo. Eu já tinha um procedimento por poluição atmosférica, poluição sonora e problemas de mobilidade urbana pelo Terminal Itapuã, que é exatamente de onde estava saindo a contaminação química. Então, quando vi a reportagem, passei também a investigar essa poluição”, disse a promotora.
Segundo Hortênsia, as primeiras medidas para a investigação foram o diálogo com as partes, em especial a população, que atuou como denunciante do processo de contaminação. “A gente procurou saber o que existia, então solicitamos intervenções dos órgãos públicos e verificamos que já havia uma inspeção feita pelo órgão ambiental, o Inema [Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos], e, nesse procedimento, foi decretada a interdição da empresa”.
No entanto, para ela, a interdição temporária da empresa não é suficiente para o cenário que se desenrola: “A partir das deliberações dessa sala de situação, eu encaminhei uma recomendação ao Inema para o cancelamento da licença ambiental do terminal marítimo, cancelamento em caráter definitivo, e [encaminhei] um requerimento de instauração de inquérito policial à Polícia Federal”.
A promotora explica que a atuação do Ministério Público estadual (MP-BA), neste caso, se dá em instância de inquérito civil; já o inquérito da Polícia Federal foi confirmado ainda nesta quarta-feira (6). Conforme divulgado pelo BN anteriormente, a entidade já solicitou perícia na região.
A representante do MP explica que a indicação de um inquérito policial se deu pois, além do caráter “acidental” do caso, “vi ali elementos de que se assumiu o risco de provocar aquele dano e aquela catástrofe, porque as empresas já tinham conhecimento da contaminação desde 2020, através de laudos técnicos de uma empresa chamada Arcades”, afirma Hortênsia.
Para Hortênsia, o tamanho do impacto ambiental já é consideravelmente maior que em outras experiências registradas na Bahia, a exemplo do petróleo encontrado nas praias baianas em 2021. “Considerando que a gente tem 800 famílias que são vítimas, comprometidas em sua maneira de viver, de comer, seu estilo de vida, tudo comprometido, eu entendo que é um dano de grandes dimensões. Tecnicamente, [esse caso] é chamado de um acidente químico ampliado de uma catástrofe industrial”, destaca.
Ainda nesta quinta, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) informou ao Bahia Notícias que o novo laudo técnico relativo às amostragens de água superficial marinha, água intersticial, sedimento e biota (animais) foi oficialmente encaminhado aos órgãos envolvidos no caso. O parecer técnico, segundo a pasta, “permitiu confirmar a presença de contaminação no sedimento, na biota e na água intersticial da praia”.
RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA
Acontece que o atual Terminal Itapuã, em São Tomé de Paripe, já vinha sendo operado há cerca de 70 anos antes do episódio que se desenrola hoje. Para a promotora de Justiça, o problema é de responsabilidade compartilhada entre as empresas privadas e até órgãos públicos.
Entre os anos de 1968 e 1973, operava a Usina Siderúrgica da Bahia (Usiba), uma estatal, antes de a empresa ser privatizada e adquirida pela empresa Gerdau. Desde então, o local passou a ser o Terminal Marítimo Gerdau (TMG), também conhecido como Terminal Marítimo de Granéis. Em 2021, a Intermarítima concluiu a aquisição de 100% dos ativos deste terminal da Gerdau, assumindo sua gestão integral.
A busca do MP é pelo acordo de responsabilização entre as partes, que garanta um ressarcimento de um salário mínimo (atualmente fixado no valor de R$ 1.621, na cotação de abril de 2026) por seis meses a cada uma das 800 famílias afetadas pela contaminação. Dentre elas, não estão apenas os pescadores e marisqueiras de São Tomé; ambulantes e permissionários foram diretamente afetados pela interdição da praia, queda no comércio e no turismo na região.
O valor total desses pagamentos representaria, conforme contas básicas realizadas no âmbito desta reportagem considerando os números disponíveis, cerca de R$ 7.780.800 (sete milhões, setecentos e oitenta mil e oitocentos reais) para ambas as empresas.
Em resposta à solicitação da Promotoria, apenas a Intermarítima se manifestou até o momento. Segundo a promotora Hortênsia, “a Intermarítima disse que não tem culpa de nada, mas que só assumiria, a título de contribuir na investigação, 10% desses custos”. “Eu propus 30% para a Intermarítima e 70% para a Gerdau, porque a Gerdau é muito mais rica e operou lá por mais tempo”, explica.
O prazo para a primeira resposta a essa negociação seria esta sexta-feira (8). “A resposta da Gerdau eu vou receber amanhã [esta sexta]. Então, havendo essas duas recusas das empresas — porque 10% não é suficiente, teria que ser 30% —, a gente vai entrar com a ação na Justiça Federal. O MP Federal e o Ministério Público Estadual, juntos, vão provocar a Justiça Federal com a documentação já existente, que ainda não é a completa, não é uma investigação definitiva, mas já há demonstração clara de autoria e nexo causal entre a ação da Gerdau e da Intermarítima com a contaminação”, garante Hortênsia Pinho.
Em entrevista ao BN, a servidora da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente ressalta que, durante a aquisição do Terminal, a Intermarítima foi comunicada pelo Ministério Público sobre as implicações ambientais do uso do aparelho.
“A Intermarítima não é inocente. Quando ela foi comprar o terminal, esteve no meu gabinete e eu avisei ao dono: ‘Não compre’. E fiz formalmente, está em ata, a orientação do MP para ele não comprar o terminal porque já havia um estudo técnico feito pela Fundação José Silveira e pago pela Gerdau, que determinava que a solução era o fechamento do terminal”, garante a promotora.
“Já havia, desde 2021, essa constatação de contaminação por metais pesados do lençol freático ali. E foram adotadas medidas mitigadoras singelas de pavimentação, que atingiam o objetivo de proteger só os trabalhadores internos, o meio ambiente do trabalho, esquecendo o ambiente externo. E essa omissão e essa falta de providências de ambas as empresas, seja da Gerdau quanto da Intermarítima, é que provocou esse acidente atual”, diz Hortênsia Pinho.
“A Gerdau operou o terminal de 89 a 2022; e, de 2022 a 2026, essa empresa chamada Intermarítima, que é dona do Terminal Itapuã, passou a operar. No período de quatro anos em que a Intermarítima operou, ela mudou muito [o modelo de atuação], porque intensificou o fluxo do transporte e diversificou as matérias”, argumenta.
Em sua operação, a Gerdau movimentava cargas de granéis sólidos, principalmente minério de ferro bruto ou pelotizado e sucata de ferro. A Intermarítima concentra suas operações na movimentação de granéis sólidos com foco principal em insumos agrícolas e industriais, a exemplo de fertilizantes.
“Essa intensificação [das operações], essa diversificação, somada ao passivo e à contaminação que já existia, é que gerou essa contaminação. Então, a ureia, que tem amônia, se juntou com o que eles estavam comercializando, com o cobre que já estava desde a época da Gerdau, e gerou a contaminação atual. Então, a contaminação está saindo do lençol freático e está aflorando assim, exsudando [nome dado ao processo em que uma ferida elimina fluido], saindo lá do lençol freático e contaminando”, explica a promotora.
Segundo Hortênsia, os metais pesados encontrados na praia de São Tomé “têm o DNA” das empresas: “E daí é que você vê aquela substância azul, que é o cobre, e a substância amarela, que é o cloreto amoniacal. As duas têm o DNA da empresa. O cobre era o produto comercializado pela Gerdau e o nitrato amoniacal vem dos fertilizantes comercializados pela Intermarítima; e foi encontrada essa substância nas canaletas de drenagem da empresa, dentro da empresa”, afirma.
No entanto, não apenas as entidades privadas seriam responsáveis pelo caso, segundo a Promotoria. “A gente constatou que temos uma inércia burocrática, tem um alto sistema de irresponsabilidade organizada. Então, os órgãos estão atuando, mas não têm estrutura, então não há a celeridade necessária. Já são três meses de contaminação e a gente não tem uma resposta mínima”, afirma.
O Bahia Notícias entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e Vigilância Sanitária, e com a Secretaria Municipal de Promoção Social, Combate à Pobreza, Esportes e Lazer (Sempre), no âmbito da Prefeitura de Salvador; e com a Secretaria de Meio Ambiente (Sema), no âmbito do Governo do Estado da Bahia, para solicitar informações relacionadas ao atendimento às famílias afetadas em São Tomé de Paripe e ações referentes à fiscalização de pescados e recuperação ambiental do local.
Após a publicação da reportagem, a Bahia Pesca encaminhou posicionamento ao BN sobre sua participação na força-tarefa relacionada ao caso de contaminação ambiental. Segundo a empresa, a Bahia Pesca “é integrante ativa da Sala Situacional coordenada pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), colaborando diretamente na construção de soluções para o incidente”.
A entidade também afirmou ainda que sua atuação é “exclusiva e direta no suporte aos pescadores e marisqueiras da região, identificados como os principais impactados socioeconomicamente pelo ocorrido”. Entre as ações desenvolvidas pela empresa estão “apoio técnico, embarcações e coleta de biota (amostras biológicas)”, além de auxílio técnico no “levantamento e registro das entidades representativas e dos profissionais de pesca locais”.
(Nota atualizada às 17h51 para incluir manifestação da Bahia Pesca).
Há quase dois meses completos, a praia de São Tomé de Paripe, um dos cartões postais do Subúrbio ferroviário de Salvador, foi interditada sob indícios de contaminação por metais pesados. Nesta quinta-feira (7), o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos anunciou a conclusão de um novo parecer confirmando a contaminação da água, sedimentos e biota na região.
A mudança de coloração na água e efeitos inesperados no ecossistema já provocavam preocupação nos moradores desde fevereiro. Na série de reportagens, “Águas de São Tomé”, o Bahia Notícias relembra o histórico deste acidente ambiental que impactou a vida e sociabilidade da comunidade de São Tomé de Paripe e expôs fragilidades na gestão ambiental na Baía de Todos os Santos.
Em nota enviada ao Bahia Notícias, o Inema confirmou a conclusão de mais uma etapa da investigação sobre a ocorrência de líquidos de coloração azulada e amarelada na Praia de São Tomé de Paripe, em Salvador. A última atualização até então, era do dia 27 de abril, onde a entidade destacava a realização de uma segunda coleta de amostras de água e sedimentos e biota, entre os dias 2, 7 e 14 de abril.

Foto: Reprodução / Arquivo pessoal da comunidade de São Tomé de Paripe
O resultado apontou indícios de contaminação em todos os formatos de amostra: água, sedimentos e animais. “Os resultados laboratoriais identificaram concentrações elevadas de compostos nitrogenados e metais, principalmente cobre, em pontos próximos ao foco da contaminação, além de alterações em sedimentos e organismos marinhos coletados na região”, diz um trecho do resumo do laudo, o qual o BN teve acesso.
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Segundo o Instituto, “a ampliação da faixa de investigação permitiu confirmar a presença de contaminação no sedimento, na biota e na água intersticial da praia”. Especialmente no que tange à água, “os resultados indicaram violações pontuais dos limites previstos na Resolução Conama nº 357/2005 para parâmetros da série nitrogenada em pontos situados no entorno da empresa investigada”. Desde março, o Terminal Itapuã foi interditado após os primeiros diagnósticos de contaminação no trecho da Baía de Todos os Santos.
O novo laudo ainda retoma as preocupações de ambientalistas e moradores sobre a usabilidade da praia para fins de lazer e trabalho. “Em razão da presença de resíduos e substâncias com potencial risco à saúde e ao meio ambiente, a área permanece classificada como imprópria para banho e recreação de contato primário”, aponta o Inema.
“O Inema reforça a recomendação para que a população evite o trecho onde há ocorrência do material, incluindo atividades de banho, pesca e de contato direto com a água e sedimentos da região. O órgão avalia estratégias de instalação de novas placas no local”, diz outro trecho da nota. O local possui apenas uma placa de sinalização de investigação ambiental, localizada a cerca de 500 metros da principal entrada da praia.

Foto: Alana Dias / Bahia Notícias
Ainda em nota, o Inema informou que o laudo técnico foi encaminhado aos demais órgãos estaduais e municipais envolvidos no caso, “incluindo instituições da área de saúde e demais entidades competentes, para adoção das medidas cabíveis no âmbito de suas respectivas competências”, conclui.
Em nota enviada ao Bahia Notícias, a Bahia Pesca manifesta que informações sobre sua atuação na força-tarefa relacionada ao caso de contaminação em São Tomé de Paripe. Segundo a empresa, sua atuação é voltada exclusivamente ao suporte de pescadores e marisqueiras da região, considerados os grupos mais impactados socioeconomicamente pela contaminação.
Entre as ações desenvolvidas pela empresa estão “apoio técnico, embarcações e coleta de biota (amostras biológicas)”, além de auxílio técnico no “levantamento e registro das entidades representativas e dos profissionais de pesca locais”. A Bahia Pesca também destacou que participa das ações de cadastramento voltadas à comunidade pesqueira afetada pela contaminação ambiental na região.
O Bahia Notícias também entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e Vigilância Sanitária, e com a Secretaria Municipal de Promoção Social, Combate à Pobreza, Esportes e Lazer (Sempre), no âmbito da Prefeitura de Salvador; e com a Secretaria de Meio Ambiente (Sema), no âmbito do Governo do Estado da Bahia, para solicitar informações relacionadas ao atendimento às famílias afetadas em São Tomé de Paripe e ações referentes à fiscalização de pescados e recuperação ambiental do local, mas não obteve retorno até o momento desta publicação.
(Nota atualizada às 17h51 para incluir manifestação da Bahia Pesca).
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
João Roma
"A lei não pode ter lado político".
Disse o presidente estadual do PL na Bahia e pré-candidato ao Senado Federal pelo estado, João Roma, utilizou as redes sociais nesta sexta-feira (19) para comentar a operação de busca e apreensão realizada pela Polícia Federal (PF), com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), que teve como um dos alvos o senador Jaques Wagner (PT), líder do governo no Senado.