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Águas de São Tomé: Moradores lutam por dignidade e saída de empresas após desastre ambiental

Por Eduarda Pinto

Águas de São Tomé: Moradores lutam por dignidade e saída de empresas após desastre ambiental
Foto: Alana Dias / Bahia Notícias

Com quase 9 mil habitantes, São Tomé de Paripe é um pequeno pedaço de área verde no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Conhecida pelas belezas naturais da Baía de Todos os Santos, a praia de São Tomé é o centro da vida social e econômica do bairro: fonte de lazer, trabalho e até locomoção. Acontece que, desde fevereiro deste ano, a normalidade da vida litorânea deu lugar a uma preocupação crescente após a identificação de uma contaminação por metais pesados na praia.

 

Desde então, moradores e ambientalistas buscam respostas para as causas e soluções para o problema que limitou o acesso da comunidade a uma de suas “forças vitais”. Na série de reportagens “Águas de São Tomé”, o Bahia Notícias relembra o histórico deste acidente ambiental que impactou a vida e sociabilidade da comunidade de São Tomé de Paripe e expôs fragilidades na gestão ambiental na Baía de Todos os Santos.

 


Foto: Alana Dias / Bahia Notícias

 

Em entrevista realizada nesta quinta-feira (7), o Bahia Notícias conversou com Jocival David e Joilda Borges dos Santos, representantes da comunidade que hoje se articulam com os órgãos públicos na tentativa de encontrar soluções e promover um acordo para a reestruturação ambiental do bairro. Jocival, de 48 anos, narra que é nascido e criado no bairro e, apesar de não depender financeiramente do mar, se envolveu na mobilização para manter a tradição do local.

 

“Como eu trabalho, tenho o meu emprego, não tenho muita coisa a ter direito, só tenho o direito de brigar pela minha comunidade”, afirma. Ele conta que realiza “vistorias” independentes todos os dias na praia, fotografando os pontos de contaminação, a morte dos animais e possíveis movimentações no Terminal.

 

Por outro lado, Joilda, de 48 anos, tem o mar como parte do sustento. Permissionária e dona de uma barraca de praia, ela conta que ainda emprega outros três funcionários no local. “Por trás de uma barraca já existem mais três ou quatro famílias sem trabalho e geralmente eles me ligam: minha cozinheira, meus garçons, a auxiliar. ‘E aí, Jo, quando é que a gente volta a trabalhar?’ e eu digo ‘Não sei, não sei’”, conta.

 

Ela completa ainda dizendo que “é complicado a gente estar aqui nessa situação de desemprego porque a gente vive disso. A gente até está pensando em colocar um cachorro-quente na praia, mas vender a quem? Se o nosso bairro agora é um bairro que é um cemitério, é um bairro fantasma”, destaca.

 

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O eletrotécnico narra que a luta dos moradores começou ainda durante o Carnaval, período de alta estação em Salvador, quando a praia da região tende a atrair soteropolitanos e turistas que desejam explorar o Subúrbio ou até viajar para a Ilha de Maré.

 

“No finalzinho ou meados de fevereiro, nós descobrimos esse problema na faixa de areia, ali no período do carnaval, e num passo de brincadeira a gente viu a coloração da água azul, do outro lado amarela, do outro lado verde, então resolvemos investigar o que era. Então, de acordo com o grande odor de amônia, aí a gente viu que era uma coisa bem mais grave. Aí foi que nós procuramos os órgãos ambientais”, destacou Jocival.

 

Por meio das redes sociais, apoio de figuras públicas e manifestações pacíficas na comunidade, os moradores de São Tomé de Paripe chamaram a atenção da mídia e de parte dos órgãos públicos acerca do tema.

 


Manifestação de moradores, com a presença da Polícia Militar, em frente a Intermarítima em São Tomé de Paripe. Foto: Arquivo pessoal da comunidade

 

“O Ministério Público já tem praticamente 70 dias caminhando junto com a comunidade de São Tomé de Paripe”, afirma Jocival. Ele detalha que “quando acionamos o Ministério Público, nós registramos alguns boletins de ocorrência na Polícia Civil, na Polícia Federal, aí também o Ministério Público Federal entrou no caso, porque viu a gravidade do acontecido”.

 

Desde então, explica o representante do bairro, “o Ministério Público se comprometeu de que teria uma solução para o nosso bairro”. Quem acompanha o caso é a promotora de Justiça Hortênsia Gomes Pinho, da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente e Habitação e Urbanismo da Capital. Com parte do trâmite do caso em esfera cível, o Ministério Público realiza, semanalmente, reuniões de situação para o monitoramento e a gestão do andamento de processos. Na reunião desta quarta-feira (6), estiveram presentes representantes da comunidade local, do Inema e das empresas envolvidas.

 

“Já fizemos a primeira reunião de mediação, ali no Ministério Público do Centro Administrativo [sede do Ministério Público no CAB], e depois as nossas reuniões passaram a ser na sede do Ministério Público em Nazaré, onde a doutora Hortênsia tem sido bastante sensitiva nas suas pronúncias, nas suas palavras, no objetivo, naquilo que a comunidade quer”, destacou o morador.

 

Segundo Jocival, o objetivo do grupo é garantir que as atividades da empresa Intermarítima no local não voltem a ocorrer. Desde março, o Terminal Itapuã, como é conhecida a unidade, foi interditado pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) em meio às investigações relacionadas à contaminação.

 

Em entrevista ao Bahia Notícias, a promotora Hortênsia destacou que o objetivo do MP-BA é garantir a suspensão da licença ambiental do Terminal como um todo, além de estabelecer um acordo de responsabilização entre as partes, que garanta um ressarcimento de um salário mínimo (atualmente fixado no valor de R$ R$ 1.621) por seis meses a cada uma das 800 famílias afetadas pela contaminação.

 

“A gente espera que aconteça, é que essa empresa não funcione mais. O nosso bairro não foi preparado para receber grandes cargas de fertilizante. Para quem não conhece, são 4 a 5 navios por mês de grande porte, são em torno de 500 carretas subindo e descendo diariamente aqui no nosso bairro, vocês vieram e viram que as nossas vias são todas apertadas, não tem estrutura para isso, e o Ministério Público está mediando isso”, narra Jocival.

 

Para Joilda, uma das maiores dificuldades desse processo, que já se arrasta há quase três meses, é a falta de acolhimento de parte das autoridades.

 

“A Secretaria do Mar, quando a gente foi pedir um apoio e que viesse ver a situação que a gente estava vivendo aqui, o que a gente ouviu lá foi: ‘e lá vocês não têm um restaurante popular, onde vocês possam comer?’, porque a gente já estava em uma situação aqui precária, sem trabalhar muitos dias, pais e mães de família pescadores, marisqueiros e barraqueiros permissionários, sem poder trabalhar. E a gente foi buscar um auxílio para poder ver se eles iam ter como ajudar a gente e o que a gente ouviu lá foi muito triste”, narra a moradora do bairro.

 

Após o ocorrido, em abril, as secretarias de Promoção Social (Sempre) e do Mar (Semar), ambas vinculadas à Prefeitura de Salvador, realizaram o cadastro e entrega de cestas básicas a cerca de 600 famílias em São Tomé. O que a permissionária ressalta, no entanto, é que “a gente não quer um restaurante popular, a gente quer nossa dignidade. A gente quer nossa praia limpa, a gente quer trabalhar e o que a gente precisa agora é que a empresa repare o dano que eles fizeram na nossa água, que eles tirem a contaminação deles daqui e saiam daqui”, explica.

 

IMPACTOS ‘ALÉM-MAR’
Apesar da revelação deste episódio de contaminação, o que os moradores de São Tomé de Paripe revelaram ao Bahia Notícias é que os impactos ambientais das operações no Terminal local não são novidade e muito menos se resumem ao mar.

 


Foto: Alana Dias / Bahia Notícias

 

O eletrotécnico Jocival David, que vem atuando ativamente na campanha contra o funcionamento do espaço, relata que o problema da própria contaminação de materiais na praia não é novidade. “Quando chove e a correnteza vem com maior força, todo esse produto tanto da lavagem da pista dele [do Terminal], quanto das águas que vazam do pátio cai para o mar e mata muito animal marinho mesmo. Já aconteceu antes, já foi pauta no Ministério Público, já foi denunciado para o Ministério Público Federal em 2018, 2022, 2024, não é a primeira vez”.

 

David explica que, como vizinho próximo do terminal, a poluição do ar e a poluição sonora provocada pela atuação das empresas operadoras do Terminal no bairro também são motivo de briga há anos. “Eu venho brigando com a Intermarítima desde 2022 por ser um dos vizinhos mais próximos. E em suas operações, alguns dos seus produtos exalam poeira, a poluição é uma ação muito forte que toma todo o bairro praticamente”, afirma.

 

Segundo ele, as operações causam “uma nuvem de poeira muito, muito forte mesmo, dependendo do horário, quando eles precisam produzir, eles levantam os seus transportadores e o vento joga [a poeira] para a parte do bairro, toda essa poluição. E é uma briga, como eu já falei. Se agravou agora, decorrente desse produto vazar na praia, foi aí que as coisas complicaram mais para o lado da empresa, mas eles conhecem a operação deles, não é necessário a gente estar aqui falando muita coisa, porque é prejudicial à comunidade, é prejudicial ao bairro”, relata o morador.

 

NOVO NORMAL 
Há cerca de dois meses vivendo em uma realidade onde a praia deixa de ser um “porto seguro”, os moradores de São Tomé relatam a dificuldade em se adaptar ao “novo normal” provocado pela interdição da praia.

 

Um deles é Clenio Dias, de 63 anos. Conhecido na comunidade como um dos pescadores mais antigos da região, ele relata que o trabalho ficou “mais distante”. “Eu sou pescador que sempre pescava por aqui por perto. Bom, a desconfiança do pessoal, claro que eu não vou pescar por aqui por causa da contaminação. E eu tenho que pescar em uma área mais distante, lá para o lado da Ponta de Nossa Senhora e Paramana. Eu pesco lá próximo à Ilha de Itaparica, a Boca da Barra e, mesmo assim, eu estou sendo prejudicado, porque ninguém está querendo comprar, todo mundo desconfiado”, ressalta.

 


Foto: Alana Dias / Bahia Notícias

 

Ele diz ainda que a solução é doar os peixes para evitar perdas e ajudar a comunidade. “Como é que o pessoal vai comprar peixe na minha mão? Eu tenho que dar peixe. É um vício eu pescar. Entendeu? Então eu tenho que fazer doação de peixe para não ter prejuízo de jogar peixe fora, meus pescados. Então, eu estou sendo — e não só eu, como outros pescadores estão sendo — prejudicado de várias maneiras”, relata.

 

Joilda, que é permissionária, narra que a comunidade se esforça para manter a esperança de que o bairro possa voltar às suas origens. “A normalidade daqui é a gente ver nossas crianças correndo para lá e para cá, a gente ter a segurança e saber que elas não vão ser contaminadas. É a gente receber um turista aqui e a gente poder chegar na faixa de areia, botar a nossa barraca. Um pai de família levantar de manhã cedo e ir para a sua maré e buscar o seu marisco, a sua esposa esperando em casa, ferventar os seus frutos do mar, catar, embalar e sair para poder fazer as suas vendas”, conta.

 

Para a moradora, que também tem participação ativa nas negociações, não é apenas o retorno financeiro que importa. “É isso que é importante para a gente, a nossa normalidade é isso: a gente saber de manhã quando a gente acorda, eu tenho um destino, eu vou trabalhar, eu vou buscar o meu pão. Não é chegar aqui na praia e ver esse desespero, ver urubus comendo restos mortais de peixes”, completa.

 

Ainda nesta sexta-feira (8), a comunidade de São Tomé se reuniu em frente à praia, ao lado do terminal, para discutir os rumos das negociações envolvendo o Ministério Público e as empresas envolvidas. É por meio destas reuniões que os moradores que conseguem participar das reuniões de situação repassam as informações aos vizinhos.

 


Foto: Arquivo pessoal da comunidade.

 

Ainda no local, em frente à praia, que é santuário do bairro, os moradores realizam atividades coletivas para compartilhar alimentos, doações, além de fazer companhia e garantir o lazer durante a espera de soluções e respostas definitivas.

 

Confira a entrevista completa logo abaixo: