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Fernando Duarte
Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia. Trabalhou nos jornais Tribuna da Bahia e A Tarde, além do site Bahia Todo Dia e nas rádios Tudo FM e Vida FM. Apresentou ainda o programa "Isso é Bahia", uma parceria entre o Bahia Notícias e o Grupo A Tarde, na rádio A Tarde FM. É colunista político e comanda o podcast "Projeto Prisma".
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O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), declarou guerra ao Executivo e ao Judiciário em nome do Congresso Nacional. A primeira ação foi a rejeição do nome de Jorge Messias, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Supremo Tribunal Federal (STF). O segundo “ato” será a derrubada do veto presidencial ao PL da dosimetria, que prevê abrandamento de penas a condenados no 8 de janeiro de 2023, com o ex-presidente Jair Bolsonaro incluído. O equilíbrio na Praça dos Três Poderes voltou a um momento limítrofe da existência da República.
Os parlamentares vivem em um processo de fortalecimento que remonta à eleição de Eduardo Cunha à presidência da Câmara dos Deputados em 2015. Ali, nascia o embrião do impeachment de Dilma Rousseff (PT), tornando o Congresso uma espécie de “moderador” das decisões das urnas (como se no Brasil existisse parlamentarismo). Cunha, que chegou a ser superpoderoso, viu ruir a engrenagem que o colocou no posto e acabou descartado pouco tempo depois.
Ainda durante o mandato tampão de Michel Temer (MDB), a força da Câmara dos Deputados foi demarcada com rejeições de pedidos de investigação contra o então ocupante do Palácio do Planalto. À época, Rodrigo Maia foi artífice da não persecução penal de Temer, ainda que enviados dele tenham sido flagrados carregando malas de dinheiro em uma ação coordenada com a Polícia Federal e os irmãos Joesley e Wesley Batista. Maia, que também outrora fora poderoso, foi suplantado por outro nome, Arthur Lira (PP-AL), que se fortaleceu especialmente na administração de Jair Bolsonaro (PL) e a desastrada coordenação política voltada a enfraquecer o Executivo.
Junto com o alagoano, houve a emergência de Davi Alcolumbre. Coube a ambos a orquestração do que se convencionou chamar de “orçamento secreto”, com bilhões em emendas impositivas que sequestraram a atuação do Executivo para (olha só) executar o orçamento público federal. De lá para cá, com alguns poucos momentos nas “sombras”, Lira e Alcolumbre se tornaram maiores do que qualquer pessoa que passou pelas cadeiras de presidentes da Câmara e do Senado. E seguem assim.
Do “pequeno” Amapá, Alcolumbre jogou contra a parede o governo Lula, eleito com uma base extremamente frágil no Congresso Nacional. De ministérios ao loteamento de escalões mais baixos, o presidente do Senado manteve o mise-en-scène de que era um aliado de Lula, ainda que tenha feito acenos ao movimento anti-STF da extrema-direita. Agora, com a tempestade perfeita, arremessou aos tigres as relações com o Executivo e o Judiciário, desequilibrando o que já não estava organizado.
O Senado é soberano para aprovar ou rejeitar nomes ao STF. Disso, não restam dúvidas. Todavia, com o contexto atual, os recados deixaram de ser indiretos e passaram a ser explícitos. Aliados de Lula sinalizam uma espécie de contraofensiva, com exonerações e perda de espaços para o Judas da vez. O STF deve permanecer com o quadro de ministros incompletos até o próximo governo – a não ser que haja uma reviravolta de novela que permita uma nova indicação antes de outubro. E o brasileiro seguirá preocupado com as eleições majoritárias, enquanto a próxima legislatura tende a ser pior, como diria o célebre Ulysses Guimarães. Com Alcolumbre praticamente já reeleito como presidente do Congresso Nacional.
Apenas a Justiça Eleitoral acredita que a campanha não começou. Afinal, a pré-campanha tem os mesmos elementos, só não há pedido explícito de votos. Nesse contexto, dá pra notar o tom que as candidaturas devem utilizar no período propriamente dito. E também observar as estratégias que os candidatos pretendem utilizar. O ex-ministro Rui Costa (PT), por exemplo, é candidato ao Senado, mas se comporta como candidato a governador e, ainda por cima, tem ponto focal em atacar a gestão de Salvador, sob a tutela de Bruno Reis (União), aliado e afilhado político de ACM Neto (União).
Derrotado na disputa pela vaga de vice de Jerônimo Rodrigues (PT), Rui, em tese, passaria um tempo submerso. O "ruizismo" perdeu para a ascendência de Jaques Wagner, que defendia a permanência de Geraldo Jr. (MDB) na cadeira. A partir daí, a operação foi tentar conter eventuais tensões que foram criadas. Só que Rui, ao invés de silenciar temporariamente, partiu para uma posição de candidato - mas não ao Senado, como esperado. O ex-governador parece acreditar ser candidato ao Palácio de Ondina, fazendo frente a ACM Neto, enquanto nomes como Angelo Coronel (Republicanos) e João Roma (PL), adversários diretos ao Legislativo, não ganham a atenção do ex-ministro.
Há um quê de soberba nisso. E também, ao que aparenta, um desejo reprimido de ser candidato ao governo mais uma vez. É certo que as duas últimas campanhas de Rui foram para governador, então talvez seja falta de prática para entender que a candidatura ao Senado não envolve embates diretos sobre modelos de gestão. Não que exista uma fórmula para uma campanha de senador, mas ela passaria ao longe de ser meramente crítica ao gerenciamento da prefeitura de Salvador, como o ex-todo-poderoso do governo federal tem insistido em fazer. Enquanto isso, Jerônimo segue, indiretamente, sendo fragilizado pelo comportamento do aliado.
Rui é franco favorito a ser eleito ao Senado, segundo as pesquisas de intenção de voto (sempre descredibilizadas pelos aliados do PT). Porém, caso insista nessa perspectiva de candidatura ao Senado com comportamento de candidato ao governo, pode incorrer na classificação de "traidor". Essa pecha é cara no ambiente político - somada à dúvida que paira no ar de uma eventual substituição das candidaturas ao governo na Bahia e no Ceará, caso Luiz Inácio Lula da Silva enxergue chances de derrota nos dois estados. Por isso, os alertas permanecem ligados, já que, diferente de 2010 e 2018 nas últimas reeleições, o PT da Bahia chega sem o mesmo favoritismo de outrora.
Do lado adversário, tanto ACM Neto quanto o entorno dele têm optado por não responder diretamente a Rui. Mesmo os "cães de guarda" da oposição, a exemplo de Bruno Reis, focam em rebater Jerônimo e o governo, e Rui fica falando para as paredes e para o eleitorado que já tende a votar nele. Jaques Wagner segue um caminho de jogar parado, pois percebe ser mais saudável e menos arriscado - e Rui, em alguns momentos, parece enxergá-lo como concorrente direto, quando, definitivamente, não é o caso. É a campanha de 2026 tomando cada vez mais forma. Ainda que a Justiça Eleitoral prefira fingir que não é esse o caso.
As relações entre o Estado e o poder paralelo acumulado por facções criminosas sempre foram faladas "à boca miúda" pela população. Desde que o Rio de Janeiro passou a exportar um modelo de negócio relacionado ao narcotráfico, a Bahia passou a lidar com tais relações de mutualismo, por uma questão estratégica para os dois lados da moeda. A colaboração premiada de Joneuma Neres e a implicação do ex-deputado federal Uldurico Jr. são "a prova que faltava" de que os limites entre o que é Estado e o que é um estado paralelo já não são invisíveis.
Uldurico Jr. é de uma família tradicional da política na região Extremo Sul da Bahia. Eleito por dois mandatos para a Câmara dos Deputados, não dava para tratá-lo como um mero principiante. Tanto que o poderoso MDB não teve constrangimento em tê-lo em seus quadros, apoiado na campanha para prefeito de Teixeira de Freitas por partidos como PT, PCdoB, PSDB e PSB. Foi naquela campanha, de 2024, que a imbricação da história dele com o tráfico começou, segundo o relato de Joneuma. Ali, Uldurico iniciava negociações por votos de maneira nada republicanas.
Porém, o ex-deputado federal foi além da troca de votos por dinheiro via cooptação. Para evitar lidar com dívidas de campanha, aceitou tratar diretamente com o chefe do Primeiro Comando de Eunápolis, Ednaldo Pereira de Souza, o Dada, uma fuga do presídio em troca de R$ 2 milhões. Nesse meio tempo, Uldurico ainda casou, tendo uma festa de pompa com direito a convidados ilustres no Litoral Norte. Enquanto mantinha relações extraconjugais com Joneuma, que, grávida, viu a vida ir ao fundo do poço. A colaboração foi a alternativa para sobrevivência de uma mulher acuada e abandonada.
Só que a delação não levou apenas Uldurico Jr. ao olho do furacão - e consequente prisão. Jogou no colo da administração penitenciária da Bahia a incapacidade de controlar a influência de agentes políticos sobre atividades privativas do Estado. O ex-deputado federal repassava à Joneuma que Geddel Vieira Lima cobrava metade dos dois milhões de reais prometidos por Dada. A ex-diretora do presídio de Eunápolis expunha que, não só ela, mas a cúpula da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocializacão (Seap) fingia não enxergar o crime organizado tomar conta dos centros de detenção. Sob a tutela do MDB, que ficou com uma "secretaria podre", nas palavras de Geddel, e com anuência do governo Jerônimo Rodrigues.
Aqui, há um ponto de atenção. Geddel vociferou contra Uldurico e as declarações dele à Joneuma. Já o governo optou pelo silêncio, ainda que após a fuga de Dada tenha corrido para tentar estancar a sangria que se abriu. Agora, com a delação, o governo Jerônimo ficou silente demais. E sequer debateu a chance de tornar a Seap mais técnica do que o loteamento político ao MDB, que permanece de dezembro de 2024, na fuga de 16 detentos em Eunápolis, até hoje. Ou seja, justificando os ataques da oposição de que o governo coaduna com o crime - e sem muito esforço (a filiação de Uldurico ao PSDB, no entanto, limita esses ataques).
Para a sorte de Jerônimo, a sintonia entre Ministério Público da Bahia (MP-BA) e a Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA) tende a conter impactos ainda mais negativos nas acusações de que o governo nada fez para conter o estado paralelo que se formou dentro e fora das prisões baianas. Uldurico Jr. tende a se tornar boi de piranha nesse processo. A não ser que ele opte pelo mesmo caminho da amante. Aí, os dados a serem compartilhados poderiam implicar atores bem proeminentes da política baiana. Ou a operação abafa falará mais alto?
A troca de mensagens entre a ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, e o ex-deputado federal Uldurico Júnior revela que, após a fuga dos 16 detentos da unidade, ambos passaram a adotar um discurso convergente de críticas à atuação da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap), ao mesmo tempo em que tentavam reagir ao avanço das investigações.
O Bahia Notícias obteve acesso ao depoimento da ex-diretora e detalha as informações encontradas na delação ao longo de cinco reportagens em uma série chamada “Duas Rosas”, sendo esta, a segunda. Nesta quinta e última matéria, iremos detalhar as críticas de Joneuma e Uldurico à Seap, afirmando que a pasta costumava acorbertar as fugas, além de contar sobre um plano para transferir a culpa do plano de escape dos detentos para a cúpula da pasta.
O ABAFA
Em um diálogo registrado no dia 18 de dezembro de 2024, um dia após ser afastada do cargo por decisão judicial, Joneuma afirmou de forma direta: “Sim, mas quando a seap quer ela abafa”.
A mensagem foi enviada após Uldurico comentar que o caso já havia chegado ao conhecimento de lideranças políticas, mas ganhava repercussão. Nas mensagens consultadas pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), a resposta da ex-diretora sugere a percepção de que a secretaria teria, quando conveniente, minimizado ou contido a repercussão de episódios semelhantes.
Segundo os elementos reunidos pelo MP-BA, a percepção de que a Seap “abafava” situações críticas passou a ser incorporada como linha de defesa pelo grupo. Em construções narrativas alinhadas entre Joneuma e Uldurico, a ex-diretora chegou a listar fugas ocorridas, incluindo episódios com uso de armamento pesado em anos recentes, numa tentativa de relativizar a gravidade do caso investigado.
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As mensagens analisadas também descrevem Joneuma em estado emocional abalado. Em meio ao avanço das investigações, ela buscava apoio em Uldurico, relatando medo de prisão e sensação de abandono, especialmente após o afastamento do cargo. Em uma dessas conversas, ela chega a dizer que a nova direção que assimiu a penitenciária já estaria articulando contra sua administração.
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COVARDIA E COMBINADO
Enquanto Joneuma sustentava essa leitura, Uldurico Júnior adotava um tom mais direto nas interlocuções políticas. Em mensagens enviadas ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, no dia 21 de dezembro de 2024, ele criticou a condução da secretaria diante das oitivas realizadas com servidores. “Olha o que a seap está fazendo lá. Forçando gente a fazer depoimento contra mim e a primeira mulher diretora da história. Estão sendo covardes”, escreveu.

Uldurico tenta culpar Seap e argumenta que Joneuma seria perseguida
As conversas também mostram que havia preocupação constante com o conteúdo desses depoimentos. Joneuma monitorava quem estava sendo ouvido e chegou a identificar, em diálogo com seu advogado, ao menos duas testemunhas que poderiam incriminá-la, citando nominalmente um prestador de serviço.
Esse movimento foi descrito nos próprios diálogos como uma espécie de “caça a depoimentos”, em referência à tentativa de identificar e antecipar o que estaria sendo dito por funcionários do presídio às equipes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e do Grupo de Atuação Especial de Execução Penal (Gaep).
O nível de tensão aumentou em relação ao coordenador operacional da unidade, Welington Oliveira. Joneuma demonstrava receio de que ele tivesse sido “mal instruído” em seu depoimento e que suas declarações pudessem embasar pedidos de prisão. Ao ser informada da possibilidade de uma ordem judicial contra o servidor, ela articulou uma forma de avisá-lo, temendo que ele comparecesse às oitivas e revelasse informações sob pressão.
Na mesma linha, Joneuma também buscou atribuir responsabilidade à cúpula da pasta. Ela afirmou ter encaminhado ofícios ao então superintendente de Gestão Prisional, Luciano Teixeira Viana, relatando falhas estruturais e riscos na unidade, mas que as demandas não teriam sido atendidas. A estratégia indicava uma tentativa de transferir a omissão para instâncias superiores da administração penitenciária.
TRANSFERÊNCIA
Uldurico e Joneuma chegaram a planejar a transferência da culpabilidade da fuga à Seap e sua cúpula. A ex-diretora resgatou as mensagens que teriam sido enviadas a Luciano Teixeira, pedindo as ações corretivas na unidade penitenciária. Uma espécie de “ofício retroativo”, com referência ao mês de julho de 2024, chegou a ser montado por Joneuma para servir como uma comprovação.
Persistindo no plano, no dia 21 de dezembro de 2024, Uldurico enviou mensagens a Geddel com o objetivo de atribuir a culpa a terceiros, mais especificamente, no então superintendente de Gestão Prisional da Seap, Luciano Teixeira. Em uma dessas mensagens, Uldurico afirma expressamente: "Parece que o Luciano está por trás da fuga dos presos de Eunápolis".
Uldurico também enviava a Geddel links de matérias jornalísticas encomendadas por ele no site “Gazeta da Bahia” e documentos oficiais de cobrança para sustentar a tese de que a culpa seria da Seap e de sua cúpula.
Todavia, a tentativa, no entanto, foi repreendida por Geddel. No dia 22 de dezembro de 2024, ele encaminhou um áudio enfurecido a Uldurico. Na gravação ele afirmou que as reclamações “estavam chatas” e que iria mostrar “as cagadas” feitas por Joneuma no presídio de Eunápolis.
A SÉRIE DUAS ROSAS:
O INÍCIO DE TUDO
A primeira reportagem mostrou que Joneuma conheceu Uldurico Júnior ainda quando atuava em Teixeira de Freitas e que a aproximação evoluiu para uma relação de confiança. Segundo a delação, ele já frequentava unidades prisionais e realizava reuniões a portas fechadas com detentos.
Com a nomeação dela para a direção do presídio de Eunápolis, em março de 2024, o MP-BA aponta que Uldurico passou a ter influência direta na unidade, utilizando a posição para viabilizar interesses ilícitos. Logo no início da gestão, foram autorizadas entradas de eletrodomésticos e concessão de benefícios a presos ligados ao PCE, em um contexto que também envolvia captação de votos de detentos e seus familiares mediante pagamento.
Ainda na primeira matéria, foi detalhado que, após a derrota eleitoral em 2024, Uldurico passou a pressionar Joneuma para obter recursos junto à facção. A negociação evoluiu para um acordo de R$ 2 milhões — as chamadas “duas rosas” — para viabilizar a fuga de lideranças criminosas. A execução ocorreu em 12 de dezembro de 2024, com uso de ferramentas dentro da unidade e apoio armado externo.
Após o episódio, Joneuma foi afastada, exonerada e posteriormente presa. As mensagens revelam ainda o nervosismo da ex-diretora, que relatava estar “no pior momento da vida” e temia a prisão, além de um encontro com Uldurico em Salvador, onde, segundo ela, houve ameaça para que não revelasse detalhes do esquema.
COBRANÇA DE GEDDEL?
Na segunda reportagem, a delação apontou o ex-ministro Geddel Vieira Lima como possível beneficiário de parte da propina, com indicação de que metade do valor ficaria com ele. Nas mensagens, Geddel aparece como “chefe” e atuava como interlocutor político, orientando cautela e, em alguns momentos, repreendendo Uldurico.
Também há registros de cobranças relacionadas ao pagamento da propina e preocupação do ex-deputado com a repercussão dentro do MDB, temendo retaliações caso não cumprisse compromissos financeiros.
DETALHAMENTO DA FUGA
A terceira matéria descreveu a organização da fuga ao longo de cerca de 40 dias. A negociação foi formalizada em novembro de 2024, após encontros presenciais e ligações mediadas por integrantes da facção. Presos foram concentrados em celas específicas e tiveram acesso a ferramentas como furadeiras.
A fuga contou com apoio externo de homens armados com fuzis, que atacaram a unidade enquanto os detentos escapavam. Há ainda relatos de regalias concedidas dentro do presídio, incluindo eventos atípicos, como a realização de um velório.
FAMILIARES DE ULDURICO
A quarta reportagem detalhou o pagamento de valores antecipados, incluindo cerca de R$ 170 mil repassados a Uldurico e pessoas próximas. O dinheiro foi entregue em espécie, armazenado em caixas de sapato, e também transferido via PIX.
Parte dos valores foi direcionada ao pai do ex-deputado, conforme registros de mensagens e dados de geolocalização. A delação aponta ainda novos pedidos de dinheiro e a atuação de Joneuma como intermediadora após o primeiro pagamento.
O ex-deputado Uldurico Júnior e seus familiares teriam recebido cerca de R$ 170 mil em propinas relacionadas à fuga de detentos do presídio de Eunápolis, em dezembro de 2024. Conforme depoimento de Joneuma Neres, ex-diretora do Conjunto Penitenciário, presa em abril de 2025, junto ao Ministério Público estadual (MP-BA), o valor seria um "adiantamento" da negociação entre Uldurico Júnior e Ednaldo Pereira Souza, o "Dada", líder da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), orçado em R$ 2 milhões a serem pagos pela colaboração na fuga de criminosos.
O Bahia Notícias obteve acesso ao depoimento da ex-diretora e detalha as informações encontradas na delação ao longo de cinco reportagens em uma série chamada “Duas Rosas”. Em sua delação junto ao MP, Joneuma, que era aliada e parceira do ex-deputado, narra que após a confirmação da aliança entre o político e o líder do PCE, no dia 02 de novembro de 2024, Uldurico ligou novamente para a "Dadá" — até então preso — para acordar os detalhes do pagamento pela facilitação da fuga.
Esta segunda ligação entre os envolvidos ocorreu no dia 03 de novembro de 2024, no Restaurante da Bernarda, localizado na Av. Dom Pedro II, no centro de Eunápolis. No local, ambos negociaram os detalhes para o pagamento das "duas rosas", termo que se refere aos R$ 2 milhões acordados.
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Dados de geolocalização obtidos por meio dos celulares apreendidos de Joneuma no Restaurante da Bernarda.
A primeira menção a familiares do político ocorre neste momento. Segundo a denúncia do Ministério Público, com base na delação de Joneuma, "o valor seria pago em espécie no dia 31/12/2024, na cidade de Porto Seguro, quando um Funcionário de Ednaldo levaria o dinheiro para a casa do primo de Uldurico Jr.". O nome deste "primo" não foi citado, no entanto.
No entanto, dado o cenário pós-eleitoral, com a derrota do ex-deputado do pleito à Prefeitura de Eunápolis, "Uldurico Jr. informou que necessitava com urgência de um adiantamento de R$ 350.000,00 (trezentos e cinquenta mil reais) para a prestação de contas e em razão de dívidas que possuía. Ednaldo aceitou adiantar o pagamento de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) antes da data da fuga".
A análise dos dados encontrados nos quatro aparelhos celulares de Joneuma, cujas senhas foram cedidas por ela em negociação de colaboração com o MP, mostra os diálogos por mensagem entre a ex-diretora do presídio e familiares de Uldurico com relação ao pagamento. O pagamento da propina teria ocorrido no dia 04 de novembro, quando Joneuma se dirigiu a uma residência no bairro Juca Rosa, em Eunápolis, para coletar o pagamento, feito em espécie dentro de uma caixa de sapato.
No mesmo dia, em um dos celulares, o Ministério Público encontrou mensagens entre Joneuma e o ex-deputado federal Uldurico Alves Pinto, pai de Uldurico Júnior, que se apresenta como "Uldurico pai".

Primeiro contato entre Joneuma Neres e o ex-deputado federal Uldurico Alves Pinto, pai de Uldurico Júnior.
Na manhã seguinte, o contato entre ambos foi retomado, com Joneuma perguntando onde deveria encontrar Uldurico Alves para a entrega do dinheiro. Ele respondeu, por sua vez, que ela deveria encontrá-lo em um endereço no bairro de Santa Rita, em Teixeira de Freitas, a cerca de 160 km de Eunápolis.

Mensagens sobre o encontro entre Joneuma Neres e o ex-deputado federal Uldurico Alves Pinto, pai de Uldurico Júnior, em Teixeira de Freitas.
As análises de geolocalização do Ministério Público confirmam que, no dia, "a colaboradora dirigiu-se à casa de Uldurico Alves Pinto e, em seguida, diretamente para uma agência do Banco do Brasil". Na casa de Uldurico Alves Pinto estavam presentes a madrasta de Uldurico Júnior, uma funcionária doméstica e um homem identificado como assessor da família. O assessor conferiu o dinheiro na caixa de sapato e cerca de R$ 150 mil foram retidos pelo genitor de Uldurico Júnior.
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Foto: Dados de geolocalização sobre a visita de Joneuma à residência de Uldurico Alves Pinto, pai de Uldurico Júnior, em Teixeira de Freitas.
As informações do MP-BA detalham ainda que o resto do valor, R$ 50 mil, foi "dividido em dois pagamentos, sendo um deles, no montante de R$ 21.600,00 (vinte e um mil e seiscentos reais) diretamente para a conta de ULDURICO JR, conforme comprovantes extraídos do celular da colaboradora". Outros R$ 24 mil foram repassados via PIX para uma conta em nome de Gustavo Frazão.
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Foto: Comprovante de pagamentos de Joneuma a Uldurico Júnior e Gustavo Frazão.
Em delação ao MP, a ex-diretora da penitenciária de Eunápolis narra uma segunda solicitação de propina em formato de "adiantamento" por parte de Uldurico Júnior. O ex-deputado teria solicitado um novo pagamento por parte do líder do Primeiro Comando de Eunápolis, no dia 25 de novembro de 2024.
"Ao final do mês de novembro, em 25/11/2024, Uldurico Jr. disse que necessitava de mais dinheiro, requerendo a quantia de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) de Ednaldo. Ednaldo informou que não dispunha da quantia no momento, razão pela qual a colaboradora adiantou recursos próprios", detalha a denúncia do MP. Segundo Joneuma, R$ 15 mil foram entregues em espécie a Cristiane Pinto da Paixão, genitora de Matheus Brandão, figura vinculada a Uldurico. A entrega ocorreu na casa de Joneuma. Os outros R$ 5 mil foram transferidos via PIX à mesma destinatária.
O valor, segundo Joneuma, foi ressarcido por Ednaldo por meio de uma entrega realizada por um interlocutor, dentro de uma caixa de sapato, durante encontro em frente ao Hotel Oceania, no dia 02 de dezembro de 2024. Em espécie, foram entregues R$ 15 mil na caixa, os outros R$ 5 mil foram entregues por Cley (Cley da Autoescola), Alberto Cley Santos Lima, candidato a vereador pelo Partido Social Democrata (PSD), em um papel de pão em frente a uma agência do Banco do Brasil. Ambos os encontros foram mapeados pelo Ministério Público por meio dos dados geográficos obtidos no celular da depoente.
ROSAS MILIONÁRIAS
Os detalhamentos da investigação ainda demonstram que os valores acordados pela colaboração na fuga de lideranças do PCE não foram pagos. A delação de Joneuma narra que, ainda nas negociações pelo adiantamento, as tratativas entre Dadá, líder do PCE, e Uldurico eram feitas em relação direta. O cenário mudou após o pagamento do primeiro adiantamento, quando ela passou a atuar como intermediadora entre ambos.
"A colaboradora informou que, antes do pagamento do adiantamento, Uldurico Jr. conversava pessoalmente com Ednaldo. Depois do pagamento do adiantamento de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais), Uldurico Jr. passou a solicitar à colaboradora que intermediasse a comunicação. Informou que as reuniões que teve sozinha com Ednaldo na Unidade Prisional visavam realizar esta negociação e ganhar a confiança de Ednaldo para que ele adiantasse os valores", aponta a denúncia do MP.
Joneuma delata que passou a ser pressionada por Uldurico Júnior pelo pagamento das "duas rosas", ou seja, o restante do valor acordado de R$ 2 milhões, e ameaçada a reter as informações sobre o esquema.
Em sua delação, Joneuma ainda cita que, segundo o ex-deputado, os valores seriam igualmente divididos entre ele e Geddel Vieira Lima, um dos caciques do MDB, a quem ele se referia como "chefe".
"A colaboradora esclareceu que as mensagens trocadas com Uldurico Jr. em 03/01/2025, nas quais falam sobre 'chorar as rosas', referiam-se a quando ocorreria o pagamento do restante do valor acordado pela fuga", detalha o Ministério Público.

Foto: Mensagens de Uldurico Júnior e Joneuma sobre pagamento de propina no dia 03 de janeiro de 2025
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Foto: Mensagens de Uldurico Júnior e Joneuma sobre pagamento de propina no dia 04 de janeiro de 2025
A fuga de 16 detentos no Conjunto Penitenciário de Eunápolis, no Extremo Sul da Bahia, foi organizada em 40 dias, por meio de visitas privilegiadas, escavação em celas e operação institucional e armada. As informações foram apuradas pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), conforme registros da delação de Joneuma Silva Neres, ex-diretora do presídio de Eunápolis.
O Bahia Notícias obteve acesso ao depoimento da ex-diretora e detalha as informações encontradas na delação ao longo de cinco reportagens em uma série chamada “Duas Rosas”. Nos documentos, aos quais o BN teve acesso, Joneuma narra as ações da rede criminosa entre os meses de outubro e dezembro, a partir da conexão entre o ex-deputado Uldurico Júnior, até então filiado ao MDB, e Ednaldo Pereira Souza, o "Dada", líder de uma facção criminosa chamada Primeiro Comando de Eunápolis (PCE).
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Conforme a delação da colaboradora, a fuga dos detentos do Presídio de Eunápolis, ocorrida em 12 de dezembro de 2024, foi um projeto "encomendado" por Dada pela sua libertação no valor de R$ 2 milhões, valor referido pelos envolvidos como "duas rosas".
Uldurico Júnior foi preso, na última terça-feira (14), no âmbito da Operação Duas Rosas, do Ministério Público da Bahia (MP-BA). Ao todo, foram cumpridos três mandados de uma investigação que apura uma suposta prática de corrupção eleitoral, organização criminosa e outros delitos na Bahia.
Conforme informações do (MP-BA) e da Corregedoria-Geral de Justiça do Tribunal de Justiça da Bahia, a operação da PF também estaria ligada à existência de aliança entre um então candidato à prefeitura de Teixeira de Freitas [que seria Uldurido Jr.] e líderes de facções criminosas custodiados em presídios do estado, como no caso de Ednaldo Souza.
ENCONTROS E VELÓRIOS
Elementos probatórios reunidos pelo órgão ministerial apontam que a influência política de Uldurico no Conjunto Penal teve início com a indicação de Joneuma como Diretora do Presídio de Eunápolis — cargo para o qual foi politicamente indicada pelo político.
"Uldurico Jr. frequentava o Conjunto Penal de Eunápolis e realizava reuniões a portas fechadas com o interno Ednaldo, vulgo 'DADA', líder da organização criminosa PCE. A regularidade dessas visitas, aliada ao caráter reservado dos encontros — realizados à margem dos procedimentos ordinários de controle e supervisão da unidade prisional —, afasta qualquer interpretação de cunho meramente institucional ou advocatício", diz a exposição do Ministério Público na peça judicial. A organização entende que existia um canal direto de comunicação entre o ex-deputado e o líder da organização criminosa.
Essa relação, que também possui intermédio por Joneuma, permite a concessão de "regalias" não apenas a Uldurico, mas também aos líderes do PCE. Em trecho da denúncia, os "escolhidos" para a fuga foram concentrados nas celas 44 e 45 do pavilhão B e eram conhecidos pela posição de "correrias" e possuíam livre circulação no pavilhão. Entre os demais benefícios aos vinculados ao PCE, a direção do Conjunto Penal permitiu acesso irrestrito a eletrodomésticos introduzidos na unidade, refeições diferenciadas, equipamentos sonoros e visitas íntimas nos pavilhões.
As visitas também tinham caráter inusitado. As lideranças criminosas realizaram um velório no presídio e solicitaram a presença de uma baiana de acarajé, em ocasiões distintas. O corpo velado no local pertencia à avó de Sirlon Risério da Silva, braço direito de Ednaldo no PCE. Não foram detalhados os procedimentos para a liberação.
Sobre o ocorrido, a declaração da Defensoria Pública (DPE-BA), entidade que representa legalmente a ex-diretora do presídio, destaca que Joneuma "concordou realmente com a entrada do caixão, por entender, no momento, que não seria algo ilícito, entendendo como uma atitude humanitária".
TRAMA DA FUGA
Os documentos da operação traçam uma linha do tempo entre a negociação entre as lideranças, aqui consideradas como Uldurico e Ednaldo, e a execução da fuga.
A negociação foi oficialmente firmada no dia 02 de novembro de 2024, conforme as informações obtidas pelo MP-BA. No entanto, a relação entre os atores teve início no mês anterior, outubro. "No dia 14/10/2024, após ter perdido a eleição, Uldurico Júnior compareceu à cidade de Eunápolis, pressionando a colaboradora para ter mais contato com Ednaldo Pereira Souza, líder da facção PCE, com a finalidade de conseguir recursos financeiros.", diz a manifestação do Gaeco.
Joneuma relata que Uldurico a procurou afirmando que "precisava de dinheiro com urgência para prestar contas" e pagar dívidas após o pleito eleitoral.
A primeira negociação formal com relação à fuga ocorreu, no entanto, alguns dias depois, por meio de uma ligação telefônica entre Dada e o ex-deputado, por mediação de "uma pessoa de confiança" do líder da facção e na presença de Joneuma. A colaboradora narra que, no dia 02/11, ela e Uldurico Júnior estavam no Hotel Oceania, em Eunápolis, quando um interlocutor, Cley da Autoescola e sua esposa, "trouxeram uma pessoa de confiança de Ednaldo, a qual saiu do veículo de Cley e ingressou diretamente no veículo de Uldurico Jr.".
No veículo em trânsito, a negociação entre os atores ocorreu por meio de ligação viva-voz, pelo celular do mediador da facção, incluindo a negociação do valor da colaboração para a fuga: R$ 2 milhões.
A partir daí, é possível destacar os principais pontos da trama de fuga que libertou 16 detentos do Conjunto Penal. A preparação interna já pode ser considerada a partir da concentração dos detentos nas celas indicadas no pavilhão B. Tendo livre trânsito no local e permissão para a entrada de materiais clandestinamente, os presidiários vinculados ao Primeiro Comando de Eunápolis fizeram uso de uma furadeira para escavar o teto da cela 44, com o conhecimento e aval de Joneuma, então diretora da unidade prisional.
Apesar da denúncia de agentes penais sobre a ação dos detentos, o MP destaca na denúncia que a ex-diretora aguardou a conclusão da escavação para recolher o objeto, no dia 02 de dezembro de 2024.
Na delação, Joneuma destaca que a fuga, inicialmente combinada para o dia 31 de dezembro, foi antecipada após Ednaldo receber a informação, por meio de um policial que trabalhava sob sua influência, de que haveria uma intervenção na Unidade Prisional de Eunápolis. A negociação entre Uldurico Jr. e Ednaldo previa a fuga de duas pessoas, o Dada e o segundo em comando da facção, porém acabou ampliada para os 16 fugitivos.
Nestes termos, a narrativa da fuga antecipada começa às 23h do dia 12 de dezembro. As informações reunidas no processo indicam que 9 membros externos do PCE escalaram os muros do Conjunto Penal e dispararam em direção às torres de vigilância por mais de dez minutos. Os homens estavam armados com fuzis calibres 7,62 e 5,56.
Assim, 16 detentos fugiram do presídio com êxito. A denúncia cita ainda que "há notícia de que, após a fuga, os foragidos se deslocaram para o Rio de Janeiro, onde estão sob proteção do Comando Vermelho (CV), organização criminosa parceira do PCE".
Uma das principais lideranças do MDB na Bahia, o ex-ministro Geddel Vieira Lima foi citado no depoimento da ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, como um possível beneficiário da propina de R$ 2 milhões pela facilitação na fuga de 16 detentos da unidade prisional, ocorrida em dezembro de 2024. Conforme delação premiada, Geddel teria acordado com o ex-deputado federal Uldurico Júnior, à época filiado ao MDB, o recebimento de metade da quantia, ou seja, R$ 1 milhão.
“Oportunamente, observa-se que o investigado GEDDEL VIEIRA LIMA foi apontado pela colaboradora como possível beneficiário de valores oriundos da fuga do presídio de Eunápolis, ao passo que ULDURICO ALVES PINTO, genitor de ULDURICO JR., foi indicado como intermediário no repasse de vantagens indevidas decorrentes de atos de corrupção. Diante de tais elementos, o aprofundamento das investigações revela-se medida imprescindível”, apontou o Ministério Público da Bahia (MP-BA).
O Bahia Notícias obteve acesso ao depoimento da ex-diretora e detalha as informações encontradas na delação ao longo de cinco reportagens em uma série chamada “Duas Rosas”, sendo esta, a segunda. Na primeira matéria detalhamos a relação de Joneuma com Uldurico Jr. e procura feita após as eleições de 2024.
CONSULTOR
Ao longo do depoimento de Joneuma, é percebido que Geddel é identificado nos diálogos de um aplicativo de mensagens como “chefe”. Nas conversas, o ex-ministro, ao mesmo tempo que fazia cobranças, é mostrado como uma espécie de consultor, auxiliando Joneuma e Uldurico durante embates entre os dois.
Nas mensagens, a ex-diretora demonstrava nervosismo após a fuga dos detentos e, principalmente, após ser afastada do cargo de diretora em Eunápolis por decisão da Justiça. Em uma mensagem datada no dia 18 de dezembro, um dia após ela ser retirada do comando, Uldurico tentou acalmar Joneuma dizendo: "Geddel pediu tempo".
Em outra ocasião, no mesmo dia, Uldurico afirmou que Geddel teria orientado Joneuma a "mergulhar" (manter discrição), pois, segundo ele, decisão da Justiça se limitaria apenas ao afastamento administrativo.

Ainda no dia 18, em um dos momentos de nervosismo, quando se preocupava com um decisão por prisão preventiva, Joneuma critica o superintendente de Gestão Prisional da Secretaria de Adminsitração Penitenciária (Seap), Luciano Teixeira. Em mensagem, a ex-diretora chega a insinuar, inclusive, que a Seap estaria fazendo os servidores a deporem contra ela e sugere que a situação estaria ocorrendo em “conluio” com o desembargador Roberto Maynard Frank.

Durante as conversas, com o nervosismo de Joneuma, também houve menções de que Geddel poderia indicar um advogado para atuar no caso.

DISTORCER
Uldurico alegava que Geddel iria ficar com metade da propina de R$ 2 milhões que seria paga pela facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE) em razão da facilitação da fuga de dezembro de 2024. No entanto, durante as conversas, não há menções diretas de que o ministro tinha conhecimento da colaboração entre o ex-deputado federal e o grupo criminoso.
No dia 21 de dezembro de 2024, Uldurico enviou mensagens a Geddel com o objetivo de atribuir a culpa a terceiros, mais especificamente, no então superintendente de Gestão Prisional da Seap, Luciano Teixeira. Em uma dessas mensagens, Uldurico afirma expressamente: "Parece que o Luciano está por trás da fuga dos presos de Eunápolis".
Uldurico também enviava a Geddel links de matérias jornalísticas encomendadas por ele no site “Gazeta da Bahia” e documentos oficiais de cobrança para sustentar a tese de que a culpa seria da Seap e de sua cúpula.

A tentativa, no entanto, foi repreendida por Geddel. No dia 22 de dezembro de 2024, ele encaminhou um áudio enfurecido a Uldurico. Na gravação ele afirmou que as reclamações “estavam chatas” e que iria mostrar “as cagadas” feitas por Joneuma no presídio de Eunápolis. Veja a transcrição:
Oh Rico [Udulrico], para com essa mania, Rico, tá ficando chato, de negócio de voto fala mais alto, de viad*s que eu indico. Porr*, o viad* que eu indico, caralh*, você fica falando de uma secretaria eminentemente técnica, secretaria podre como essa SEAP, que foi o que sobrou, caralh*. E não é assim, o governo que você... Eu chego lá, bato a pic* na mesa e digo quem eu quero, porr*. A coisa é uma construção, você fica todo dia batendo a mesma punhet*, a mesma punhet*, a mesma punhet*, porr*. Entendeu? Porr*, eu indiquei uma pessoa minha. O governador não gostou da indicação. O cara que a gente podia emplacar naquele momento é esse secretário que tá aí, que era o subsecretário. Esse Luciano, você fica encarnando, tava lá. O problema é que eu vou sentar com você e vou mostrar, caralh*, uma série de cagadas que foi feita lá nessas porra que tá lá com essa mulher e companhia. E porr*, e você com esse temperamento seu, pior do que o meu, briga com todo mundo, fica gerando inimizades, porr*. Para com isso, fica toda hora com dedo na mesma ferida.Enfim, mas vamos sentar, conversar com calma, tranquilidade. Pode ser essa semana. Vamos olhar pra frente e ver o que é que pode construir. Pronto, é assim que funciona.
Uldurico reagiu e se colocou à disposição para se reunir com Geddel, sem rebater as críticas feitas no áudio enviado pelo ex-minsitro:
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COBRANÇA
No diálogos de Joneuma com Uldurico, é mostrado que Geddel estaria realizando cobranças ao ex-deputado federal após o fim do pleito de 2024. Ele, inclusive, encaminhava para Joneuma capturas de tela de conversas que ele teria tido com o cacique do MDB, onde este supostamente cobrava o dinheiro.
No dia 7 de janeiro de 2025, antes do encontro prometido por Geddel, Uldurico demonstrou nervosismo, questionando o que diria ao "chefe" quando ele perguntasse pela "rosa" (termo codificado para o dinheiro), pois, na cabeça do cacique do MDB, o valor já deveria ter sido pago.
*Chorar a rosa se refere a “pagar o dinheiro”
No entanto, quando Uldurico informou que os valores ainda não haviam sido entregues, na ocasião a propina pela fuga dos detentos, a reação de Geddel foi de "só risada". A resposta do cacique emedebista assustou Uldurico, que passou a dizer para Joneuma que o partido iria articular para “lhe fud*r”.
“Vem bomba para mim. Ainda com fama de não cumprir compromissos. Desdém como se eu fosse mentiroso. Não acreditam que não tenho nada. Me queimei a toa. Vão para cima de mim quente. Tá tudo armado para me fud*er. Vão vim com tudo. Vão me fud*er, hoje a ficha caiu”, disparou Udulrico em mensagens para Joneuma.
Ainda na conversa, o ex-deputado federal citou o atual titular da Seap, José Castro, que é indicado pelo MDB, falando que ele teria “lhe queimado” dentro do partido.
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Uldurico também encaminhou capturas de tela de outros credores para Joneuma. Nas mensagens, o ex-deputado federal relatou em diversas oportunidades que, caso não recebesse os R$ 2 milhões do PCE até o dia 13 de janeiro de 2025, ele “estaria morto”.
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VEREADOR
Geddel não foi o único político mencionado. Um ex-candidato a vereador de Eunápolis, identificado como Cley da Autoescola (PSD), é citado como um dos articuladores da fuga.
De acordo com o MP-BA, ele possuía relação próxima com familiares de líderes da facção PCE, tendo inclusive fotos em suas redes sociais com a esposa de "Dada" e com a mãe e avó de Sirlon (braço direito de Dada).
No dia 2 de novembro de 2024, Cley e sua esposa levaram um emissário de confiança do detento "Dada" até o Hotel Oceania, em Eunápolis, onde Uldurico Jr. e Joneuma os aguardavam. Esse emissário saiu do carro de Cley e entrou no de Uldurico para realizar a chamada em viva-voz que selou o acordo de R$ 2 milhões para a fuga.
Cley também é suspeito de participar de encontros-chave, como um almoço em sua própria residência em 16 de outubro de 2024 e uma reunião no "Restaurante da Bernarda" em 03 de novembro de 2024, onde se discutiu o adiantamento da propina.
A ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, fez um acordo de delação premiada para dar detalhes sobre a fuga dos 16 detentos da unidade prisional, ocorrida em dezembro de 2024. O depoimento dela trouxe à tona sua relação com o ex-deputado federal Uldurico Júnior, à época no MDB e atualmente filiado ao PSDB, e as negociações com o líder do Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), Ednaldo Pereira Souza, conhecido como “Dada”.
O Bahia Notícias obteve acesso ao depoimento da ex-diretora e detalha as informações encontradas na delação ao longo de cinco reportagens em uma série chamada “Duas Rosas”, começando por esta.
Para formalizar a colaboração premiada, foram realizadas audiências virtuais nos dias 15 de dezembro de 2025 e 22 de janeiro de 2026 com a presença da colaboradora, da Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE-BA) e representantes do Ministério Público (MP-BA). A formalização da delação ocorreu no dia 5 de fevereiro deste ano.
Para cumprir o acordo, Joneuma foi obrigada a detalhar espontaneamente todos os esquemas criminosos envolvendo Uldurico Júnior e Dada, indicando provas e identificando outros participantes.
O acordo para a delação prevê o cumprimento de uma pena privativa de liberdade total de seis anos, o que representa uma redução de dois terços em relação à pena máxima possível. No intervalo, ela cumpriria apenas um ano em regime fechado, enquanto os cinco anos restantes seriam entre o semiaberto e o aberto, sem uso de tornozeleira eletrônica.
O Ministério Público também se comprometeu, caso ela solicite, a incluí-la de forma imediata no Programa Federal de Proteção Especial ao Depoente, garantindo a segurança dela e de sua família.
O INÍCIO DE TUDO
Na delação ao MP-BA, Joneuma Silva Neres contou que conheceu Uldurico Júnior por meio da deputada estadual Claudia Oliveira (PSD). Segundo o depoimento, eles se encontraram pela primeira vez quando ela trabalhava em um cargo administrativo na unidade prisional de Teixeira de Freitas. A data não foi especificada, mas a reportagem apurou que ela é concursada e chegou ao cargo em 2016.
Conforme a delação premiada, Uldurico já frequentava a unidade para realizar reuniões a portas fechadas com os detentos, o que era tratado como algo "normal" pelos colaboradores. O ex-deputado federal seria acompanhado por David Loyola, secretário de Desenvolvimento Econômico de Teixeira de Freitas e irmão do secretário estadual de Relações Institucionais (Serin), Adolpho Loyola, além do vereador do município, Jonatas dos Santos (MDB).
O MP-BA indicou que, em 2024, quando Joneuma foi nomeada diretora em Eunápolis, Uldurico Júnior já possuía forte influência dentro da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (SEAP). Desde a época, a pasta era comandada por indicação do MDB, partido do ex-deputado federal no período.
O depoimento não detalhou quando a relação amorosa entre Joneuma e Uldurico teria se iniciado, mas a ex-diretora afirmou que enxergou sua nomeação à Diretoria do Conjunto Penal de Eunápolis como uma “promoção”. As investigações do MP-BA afirmam que Uldurico já planejava ter uma pessoa de sua confiança instalada na unidade penitenciária, visando viabilizar seus interesses e propósitos ilícitos.
A oficialização de Joneuma como diretora em Eunápolis ocorreu em posse no dia 14 de março de 2024, sendo a primeira mulher na chefia de um presídio masculino no estado.
VOTOS
Joneuma afirmou que, já no dia seguinte após tomar posse do cargo, Uldurico Júnior compareceu à unidade com uma comitiva e realizou reuniões a portas fechadas com líderes da facção PCE. Logo nessas primeiras semanas, Joneuma, atendendo a pedidos de Uldurico Jr., passou a autorizar a entrada de freezers, aparelhos de som e alimentação diferenciada para os detentos.
Inicialmente, conforme as investigações, as conversas entre Uldurico e Dada seriam uma troca para garantir eleitores “cativos” a Uldurico, por meio de um grupo composto por presos provisórios com direito a voto, seus amigos e familiares. Cada voto captado era recompensado com R$ 100,00, em dinheiro vivo, e era pago por intermediários da facção.
ACORDO, FUGA E ELEIÇÕES
Conforme a delação, o cenário mudou após Uldurico Júnior perder a disputa pela prefeitura de Teixeira de Freitas em outubro de 2024. Depois da derrota, o ex-deputado federal teria pressionado Joneuma para obter recursos com a facção PCE para pagar dívidas de campanha, o que culminou no acordo de R$ 2 milhões para facilitar a fuga dos presos.
A fuga foi concretizada e ocorreu na noite de 12 de dezembro de 2024, envolvendo uma ação coordenada dentro e fora do Conjunto Penal de Eunápolis. Segundo as investigações, 16 detentos que estavam na cela 44 usaram uma furadeira para abrir um buraco no teto e acessar outra área da unidade.
Joneuma acabou sendo afastada do cargo em 17 de dezembro de 2024, por decisão da 1ª Vara de Eunápolis, exonerada no dia 7 de janeiro de 2025 e presa duas semanas depois.
NERVOSISMO
As investigações também tiveram acesso a diálogos entre Joneuma e Uldurico por meio de um aplicativo de mensagens. Com início após a concretização da fuga, as conversas demonstram como a então diretora do presídio de Eunápolis estava nervosa com a situação, com receio de afastamento e prisão.
O “estopim” ocorreu após a concretização de sua retirada do comando da penitenciária. Em mensagens encaminhadas a Uldurico, ela relata estar “no pior momento da vida” e “grávida e sozinha”. Vale destacar que Joneuma alega que o ex-deputado federal é pai da criança e atualmente há um processo para um possível reconhecimento da paternidade.
No dia 18 de dezembro de 2024, um dia após o afastamento, a ex-diretora procurou Uldurico para informar que o MP-BA já teria encaminhado dois pedidos de prisão contra ela e que o jornalista e radialista Edvaldo Alves, conhecido na região de Teixeira de Freitas, planejava “expor o caso”.
Na troca de texto, Uldurico pedia calma a Joneuma e chega a sugerir que ela fizesse uma viagem a Salvador para “esvair” a mente. Eles se encontraram no dia 23 de dezembro, no Hotel Mercure, localizado no Rio Vermelho. Segundo Joneuma, o ex-deputado federal a ameaçou, caso ela revelasse qualquer detalhe sobre a participação dele ou a negociação financeira com Dada.
Na ocasião, eles também teriam aproveitado o encontro para combinar que seguiriam a mesma linha de defesa perante o Ministério Público, fazendo versões idênticas para possíveis depoimentos.
TENTATIVA DE FUGA
Em janeiro de 2025, diante do iminente mandado de prisão preventiva, Joneuma articulou um encontro para evadir-se da justiça. As conversas foram com um contato salvo como "Geneçi Glizard".
O plano envolvia uma pessoa ("o menino") que a pegaria em um endereço específico para levá-la a um destino não identificado através de estradas de terra para evitar fiscalização. Há registros de fotos de uma parada para refeição durante esse deslocamento em 08 de janeiro de 2025. Não há detalhes do que ocorreu com o plano de fuga.
Olhares mais atentos podem começar a traçar paralelos entre o modelo de comunicação adotado pelo ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União), e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com uma diferença de mais de duas décadas. A transformação de ACM Neto numa versão ligeiramente mais “leve” teve início com a chegada do marqueteiro João Santana ao grupo, reproduzindo a estratégia que consagrou Duda Mendonça em 2002, com “Lulinha paz e amor”. Nada se cria, tudo se transforma.
Até o começo de 2026, o tom adotado por ACM Neto ao criticar o governo de Jerônimo Rodrigues foi duro. Após um hiato de quase um ano depois da derrota em 2022, o ex-prefeito de Salvador retornou aos holofotes como oposição aguerrida e com escolhas temáticas e estéticas que sinalizavam um enfrentamento excessivamente combativo. Nesse contexto, os aliados de Jerônimo minimizavam os ataques e colocavam na conta de ACM Neto o que eles costumam tratar como “herança maldita”, como se fosse possível falar disso 20 anos depois do PT chegar ao poder.
A mudança é discreta. E não necessariamente havia um erro de condução. É uma rota recalculada, para tentar reverter o resultado do último pleito, quando a disputa foi encerrada apenas no segundo turno. Como em outubro a probabilidade de uma eleição em dois tempos é praticamente nula, ACM Neto e seu entorno preferiram se adaptar a um modelo que deu certo no começo dos anos 2000, quando não se imaginava de maneira tão enfática a chance de Lula chegar ao poder.
A versão “ACM Neto paz e amor” pode ser sentida nos dois últimos grandes eventos públicos relacionados à campanha eleitoral. Na apresentação de Zé Cocá (PP) como candidato a vice-governador, em Feira de Santana, e na adesão de José Carlos Aleluia, então candidato a governador pelo Partido Novo (sic), ao projeto do ex-prefeito. Em ambos, as críticas mais contumazes não vieram de ACM Neto, mas do entorno dele, evitando um desgaste maior para o candidato com nomes que possuem grande apelo nas urnas, como o próprio Lula.
Talvez o exemplo mais emblemático tenha sido a partir da resposta do prefeito Bruno Reis à provocação de Jerônimo sobre a inauguração de um conjunto residencial com a presença de Lula. Em alguns tons acima do próprio padrão, o prefeito da capital baiana sugeriu que os adversários ficaram “tomando uísque até tarde”, razão pela qual cancelaram a agenda. Bruno sabia não ser verdade, pois o cancelamento foi no dia anterior. Porém Bruno precisava acenar para os antipetistas que insistem na classificação de Lula como um “bêbado”. Logo, ele aproveitou a oportunidade para vociferar contra o presidente, exercendo um papel de “cão de guarda” do aliado.
Caso se mantenha essa estratégia, a versão mais “leve” de ACM Neto tende a ampliar as chances de ele conquistar votos que são simpáticos a Lula e contrários ao modelo de gestão do PT na Bahia. Foi assim que Lula conquistou o Palácio do Planalto em 2022 – com uma série de outros fatores, obviamente. A fórmula até parece simples. Só precisa ver se João Santana vai manter os acertos que permearam a carreira dele.
Mesmo com uma intensa troca de cadeiras - especialmente na Assembleia Legislativa da Bahia -, a janela partidária chegou ao fim sem surpresas. Todos os políticos que tinham sinalizado a hipótese de troca de legenda ao longo dos últimos quatro anos sacramentaram mudanças. As raras exceções foram os potenciais egressos do Progressistas, Hassan Youssef e Cláudio Cajado, que acabaram permanecendo após reconfigurações internas. Ao fim e ao cabo, a sobrevivência política se mostrou mais relevante do que identidade partidária.
A oposição fez ajustes aqui e acolá para contemplar aliados que poderiam não garantir a reeleição. Na ponta do lápis, nomes como Paulo Câmara (ex-PSDB) e Samuel Jr. (ex-Republicanos) engrossaram a turba do PL e os quase órfãos do bolsonarismo. Câmara há tempos reclamava da lista tucana e preferiu não pagar pra ver. Já Samuel viu o Republicanos "inchar" com a família e aliados de Angelo Coronel e saiu antes de arriscar a reeleição - e olha que a igreja por si só já garanta bons votos.
Ainda teve a definição de espaço para Emerson Penalva, que precisava de uma legenda de oposição após ver o PDT voltar para os braços do governo. Ficou no União Brasil, que também não passou incólume, porém assistiu a dança das cadeiras acontecer com o PP, permanecendo todos dentro da federação. Marcelinho Veiga é um dos casos.
Já o governo viu um rearranjo que fortaleceu especialmente um já forte PSD. Houve promessas de eleição "garantida", quando na verdade era a suplência que importava. No entanto, nada vai superar o PV voltando a ser barriga de aluguel, tal qual aconteceu em Salvador em 2016 e na Bahia em 2022. A cereja do bolo, sem dúvida, foi a filiação de um legítimo representante do agronegócio ao partido mais ambientalista do mundo. Eduardo Salles no PV é tão autêntico como o argumento que Flávio Bolsonaro é uma versão "mais leve" do pai. A lógica de manter cadeiras é válida e justificada.
Já o PT, como sempre, teve briga interna e recuo de candidaturas como Lucinha do MST e Fabya Reis. No entanto, vai para a disputa com o mesmo número de deputados e com chance de ampliar a bancada, a depender do desempenho da campanha majoritária.
O PSB, que chegou a ser uma menina dos olhos, por pouco não sai muito menor do que estava. O ganho adicional foi, sem dúvidas, a chegada de Mário Negromonte Jr., cujos votos podem auxiliar a sigla a atingir a tão sonhada terceira cadeira em Brasília (ainda que haja o risco de somente ele ter o mandato garantido). A definição dele, inclusive, deve provocar, nos próximos dias, a nomeação de Camila Vasquez como conselheira do Tribunal de Contas dos Municípios. Para enganar bobos, o governador Jerônimo Rodrigues chegou a dizer que a nomeação da esposa de Negromonte Jr. independia da migração dele para a base aliada, agora é esperar a confirmação já aguardada.
Agora, com as listas definitivas, os partidos conseguem ter um melhor horizonte sobre como lidar com as urnas em outubro. O engraçado é que, para dar conta das expectativas das legendas, o número de cadeiras na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa deveria ser bem maior. Felizmente, para isso, há limite.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
ACM Neto
"Para eles, pesquisa certa só é a que traz boas notícias".
Disse o pré-candidato ao governo ACM Neto ao avaliar o cenário político da Bahia e defendeu cautela na interpretação de pesquisas de opinião. A declaração aconteceu no lançamento do programa “Sua voz é a nossa voz”, em que o ex-prefeito pretende dialogar com municípios baianos.