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Após retorno à AL-BA, Luciano Ribeiro descarta disputa pela reeleição e diz estar focado na campanha de ACM Neto
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Fernando Duarte
Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia. Trabalhou nos jornais Tribuna da Bahia e A Tarde, além do site Bahia Todo Dia e nas rádios Tudo FM e Vida FM. Apresentou ainda o programa "Isso é Bahia", uma parceria entre o Bahia Notícias e o Grupo A Tarde, na rádio A Tarde FM. É colunista político e comanda o podcast "Projeto Prisma".
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A celeuma de Geraldo Jr. e do MDB chegou ao fim, tal qual a Via Crucis de Cristo na Sexta-feira da Paixão. Em um evento ligado à Igreja Universal, braço religioso do partido Republicanos, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) encerrou as crescentes especulações sobre a substituição de Geraldinho. Uma vitória dos emedebistas e do grupo do senador Jaques Wagner, que sustentava a manutenção do atual vice-governador no posto.
Apesar das contendas, a definição de Geraldo Jr. evita mais fragmentações numa base que já tinha sofrido a traumática cisão do senador Angelo Coronel (há quem diga que foi tudo simples e natural, mas na política não há rompimento sem fraturas). O MDB bancou a permanência do vice, frente a negociações abertas pelo próprio Jerônimo nas tentativas de aplacar a pressão do agora ex-ministro Rui Costa (PT), que tentava minar Geraldo Jr. para ter mais controle sobre o processo eleitoral.
Ainda que tenha sido salvo da crucificação, não dá pra dizer que Geraldinho tenha saído maior da fritura imposta a ele. O silêncio, todavia, fez o vice se preservar diante dos reiterados esforços do fogo amigo em desprestigiá-lo, humilhá-lo e fazê-lo arder frente a ataques indiretos e recados - parte deles repassados somente pela imprensa. Diferente de 2022, quando chegou grande para compor a chapa, agora Geraldo Jr. passará por uma reafirmação contínua de que mereceu permanecer como vice - frisando, inclusive, que não lhe faltou lealdade até quando foi colocado à prova publicamente.
O alerta dado pelo experiente Mário Kértesz, de que a chapa governista se preparava para perder, pareceu ter dado a última chacoalhada necessária no grupo do PT. Wagner provou, mais uma vez, a força que possui e engoliu Rui logo após ele deixar o cargo todo poderoso de ministro da Casa Civil. O timming do anúncio coincide com a saída dele do cargo e consequente presença mais constante na Bahia até a eleição. Jerônimo "acordou" a tempo de evitar que seu antecessor poderia deixar a condição de aliado para se tornar um carma. E também a tempo de empoderar o único que, nos bastidores, nunca teria deixado de trabalhar para que o governador desistisse da reeleição para um "retorno triunfal" do ex que nunca quis deixar de ser.
Agora, com a maior parte dos times já conhecida, cabe aos políticos arregaçarem as mangas para a campanha. À imprensa e aos cidadãos, resta assistir o que promete ser o processo mais acirrado das últimas décadas nas eleições da Bahia.
A deputada estadual Fabíola Mansur possui um futuro encaminhado com o PSD e pode anunciar sua filiação já nesta quarta-feira (31). A parlamentar se despediu do PSB, partido que esteve filiada por 18 anos, nesta terça (30) e chegou a realizar um discurso emocionada na Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA).
De acordo com informações obtidas pelo Bahia Notícias, as tratativas estão bastante avançadas e dependem apenas de pequenos ajustes para se concretizar. Até então, Fabíola tinha conversas com o PDT, PV e chegou a ser convidada pelo deputado estadual Robinson Almeida (PT) a ingressar no PT.
Figura querida dentro da Casa, Fabíola acabou ficando na suplência do PSB após o resultado das eleições de 2022. Todavia, ela ocupou o mandato praticamente em toda legislatura, pois o titular, Angelo Almeida, esteve à frente da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE). No último pleito, a ex-PSB registrou 58 mil votos.
Com Irecê sendo um de seus redutos eleitorais, Fabíola chega ao PSD depois da saída de Cafu Barreto para o grupo de oposição. O parlamentar era um dos políticos da sigla com forte atuação na região. Vale ressaltar que o PSD ainda mantém o deputado estadual Ricardo Rodrigues, que também é atuante no território de Irecê.
Recentemente, o partido comandado pelo senador Otto Alencar também filiou os deputados estaduais Niltinho (ex-PP) e a deputada Ludmilla Fiscina (ex-PV).
O prefeito Bruno Reis (União) confirmou, nesta terça-feira (31), a substituição de três nomes na estrutura do Palácio Thomé de Souza que serão candidatos nas eleições de outubro. Dois deles, Cacá Leão (PP) e Igor Dominguez (PL), são ligados fundamentalmente às relações políticas do gestor da capital baiana.
A legislação eleitoral estabelece que, para secretários municipais, o prazo de desincompatibilização é de seis meses; ou seja, aqueles que pretendem concorrer no pleito deste ano, em 4 de outubro, devem deixar as atuais funções até o dia 4 de abril.
Cacá deixa a Secretaria de Governo para ser candidato a deputado federal, cadeira que ocupava até 2022, quando substituiu o pai, João Leão, na disputa pelo Senado naquele ano. Para o lugar dele, o próprio pai assume a secretaria. Com a licença do parlamentar, o vereador de Salvador, Jorge Araújo assume temporariamente o mandato como deputado federal.
Dominguez é secretário particular do prefeito e, nos bastidores, é tratado como a grande aposta de Bruno Reis para a Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA). Para o posto dele, o prefeito nomeou Alex Santana. A licença de Alex provoca a ascensão do ex-deputado Marcelo Nilo (Republicanos) cumpre o mandato, deixando a suplência. O deputado federal licenciado ficará responsável pelas relações institucionais da prefeitura, além de ocupar a chefia de gabinete.
Fora dos radares – mas sem ser uma completa surpresa - o secretário de Infraestrutura, Luiz Carlos (Republicanos), também deixa o cargo para assumir a coordenação de campanha do Republicanos. Para o comando da Secretaria de Infraestrutura, Bruno Reis indicou Julio Santos, que já havia assumido a pasta em 2022. Luiz Carlos retoma o mandato na Câmara, mas Julio Santos fica licenciado, mantendo Beca no legislativo municipal. (Atualizado às 10h56 para atualizar a filiação de Igor Dominguez)
Lançado extraoficialmente como candidato a governador da Bahia nesta segunda-feira (30), o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) reuniu aliados para tentar mostrar força, especialmente no interior da Bahia. Tanto que escolheu Feira de Santana como palco para o evento, uma forma de evidenciar que o prefeito da cidade, José Ronaldo (União), não abandonou o grupo. E trouxe o quase ex-prefeito de Jequié Zé Cocá (PP) para a cadeira de vice. São apostas de estratégia distintas da derrota em 2022, quando centrou expectativas nos grandes municípios, com destaque à Região Metropolitana de Salvador.
No mesmo dia, ACM Neto ganhou um candidato à presidência da República para chamar de seu. O ex-correligionário Ronaldo Caiado foi lançado formalmente como pré-candidato por Gilberto Kassab e incorporou o discurso da direita, com destaque à proposta de anistia geral e irrestrita aos condenados do 8 de janeiro. Assim, mesmo fugindo do bolsonarismo com o sobrenome Bolsonaro de Flávio, o candidato do União Brasil ao governo da Bahia vai ter que lidar com cargas negativas das campanhas da extrema-direita (apesar de, frise-se, ACM Neto ser representante da direita, não do extremismo dela).
Isso, claro, somado à aliança com o PL e à demanda por um palanque para a candidatura de Flávio Bolsonaro, já consolidada como legítima herdeira do ex-presidente Jair. Ainda que torcesse por um nome de “terceira via”, ACM Neto ficará restrito, no palanque nacional, a apoiar um Bolsonaro literal e outro simbólico – Caiado e Kassab escolheram aglutinar a direita, porém por um caminho menos central do que esperado. Nesse caso, os adversários vão surfar com as acusações (justas) de que, para além de opositor a Luiz Inácio Lula da Silva - o grande eleitor na Bahia -, ACM Neto se torna também um braço avançado do bolsonarismo na Bahia.
Enquanto a oposição na Bahia lançava com festa a chapa praticamente formada – incluindo João Roma (PL) e o senador Angelo Coronel (Republicanos) como candidatos ao Senado -, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) ainda tentava apagar os incêndios criados em torno da possível (e até provável) substituição de Geraldo Jr. (MDB) da cadeira de vice para 2026. Na mesma segunda-feira, Jerônimo se reuniu com Geddel Vieira Lima (MDB) e Otto Alencar (PSD), dando sinais do esforço para manter a coesão na base aliada.
A cereja do bolo da estratégia de comunicação do governo para tentar abafar o lançamento da candidatura adversária foi o anúncio de que a Bahia iria aderir, formalmente, ao programa do governo federal para subsidiar o diesel em R$ 1,20, para conter a alta dos combustíveis causada pela volatilidade do mercado. O posicionamento de Jerônimo sobre o ICMS incidente sobre combustíveis gerou mobilizações, especialmente na capital baiana, que acabaram capitalizadas por adversários. A metade assumida pelo governo da Bahia não deve ser suficiente para aplacar os sucessivos reajustes, mas traz um alívio do ponto de vista da comunicação para quem só apanhava desde que Lula indicou a intervenção federal no tema.
A última semana antes do fim do prazo de filiações e desincompatibilizações começou aquecida na cena política baiana. Sinal de que, até outubro, quem gosta de política não deve ficar sem um balde de pipoca para assistir os próximos passos.
Se ao ser anunciado como candidato a vice de ACM Neto (União), Zé Cocá (PP) foi tratado como “traidor” pelo ministro Rui Costa, como classificar o processo de fritura pelo qual o atual vice-governador Geraldo Jr. (MDB) tem passado publicamente no processo de construção da campanha de reeleição de Jerônimo Rodrigues (PT)? O ex-presidente da Câmara de Salvador, em 2022 apresentado como um marco da articulação política do PT na Bahia, virou uma espécie de “patinho feio”, quase como elemento tóxico que precisa ser substituído.
A fritura de Geraldo Jr. começou antes mesmo da suicida missão política de enfrentar Bruno Reis (União), quando o prefeito tentou a reeleição em Salvador em 2024. O vice era tratado como uma figura menor, incapaz de ocupar uma cadeira no primeiro escalão e foi colocado como “coordenador” de festas como o Carnaval e São João. Para além do suposto simbolismo do cargo, pouco se viu efetivamente de Geraldo Jr. participando da gestão. No máximo, com o fogo-amigo do excesso de policiais lotados na vice-governadoria ou o séquito de seguranças que o acompanhava em eventos públicos.
De dezembro até agora, Geraldo Jr. passou a ser ainda mais “queimado” dentro da base do governo – que já torcia o nariz para ele em 2022, quando ele mudou de lado para apoiar Jerônimo e ser catapultado a vice. A gota d’água foi a mensagem por “confusão tecnológica” em que o vice encaminhou um pedido para viralizar nas redes uma crítica ao ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), candidato ao Senado na chapa governista. O segundo no comando do Executivo baiano caiu ainda mais de patamar. Virou meramente um papagaio de pirata para fotografias.
Vide uma declaração do governador, com Geraldo Jr. ao lado, sobre a possibilidade de a cadeira de vice ser ocupada pelo PSD de Otto Alencar. Sem nenhum constrangimento, o emedebista manteve o sorriso amarelo enquanto ouvia o chefe diminuir as chances de manter uma parceria para outubro. Enquanto isso, o MDB envidava esforços para que não apenas a vaga de vice permanecesse com o partido como também fosse Geraldo Jr. a continuar no posto.
Geddel Vieira Lima foi a voz mais robusta nesse caminho. O cacique do MDB deixou claro que não aceitaria ver Geraldo Jr. limado do processo sem ter uma destinação considerada justa e com hombridade (visto que o cadafalso da eleição de 2024 foi alimentado especialmente por líderes maiores do PT baiano como Jaques Wagner). E o tema acabou nacionalizado, em meio aos esforços do entorno de Luiz Inácio Lula da Silva em manter os emedebistas próximos o suficiente para não caírem no colo do adversário (até substituir Geraldo Alckmin como vice teria sido cogitado, superando o trauma de Michel Temer). Ao que se percebe até aqui, foram esforços em vão.
Ainda que seja mantido como vice na chapa de Jerônimo para o próximo pleito, Geraldinho tornará o apelido no diminutivo quase que imperativo. A condição de “traído” cairá como uma luva para quem mostrou lealdade até quando houve esforços reiterados para humilhá-lo. Haja resiliência. Todavia, é mais um exemplo de que a política imita a vida. Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Ser vice em uma chapa para eleições na Bahia tem sido mais árduo do que se imagina.
Ainda prefeito de Jequié, Zé Cocá (PP) foi de vice dos sonhos a Judas Iscariotes para o grupo político que controla o governo da Bahia. A mudança radical foi em um curto espaço de tempo, dadas as apostas que, até há alguns poucos meses, o colocavam como um bom nome para ocupar a cadeira de vice na tentativa de reeleição de Jerônimo Rodrigues (PT). Coube ao ex-governador Rui Costa (PT) explicitar a pecha de traidor de Cocá, ex-prefeito em dois mandatos de Lafaiete Coutinho e, em breve, de dois mandatos na Cidade Sol. É o republicanismo teórico que só cabe quando serve para criticar adversários.
Entre ser prefeito de dois municípios, Zé Cocá exerceu um mandato temporário na Assembleia Legislativa da Bahia. À época, o Progressistas era base aliada de Rui Costa (João Leão era vice-governador), porém, ainda assim, o então governador dividiu o palanque em Jequié com uma candidatura do PSD - por questões não exclusivamente políticas, visto que a primeira-dama Aline Peixoto insistiu para que o deputado estadual fosse candidato dele nas urnas. Quando ganhou as eleições, Cocá fez movimentos para se aproximar ainda mais do governo do governo e houve reciprocidade de Rui. O resultado foram obras e intervenções na cidade governada por ele, tanto enquanto Rui estava no Palácio de Ondina quanto após a ascensão dele a ministro da Casa Civil (e todo o poderio de gerentão que o acompanha).
Reeleito em 2024 com o melhor percentual da Bahia - mais de 90% dos votos -, Zé Cocá se tornou a "menina dos olhos" do governo, na região de origem de Jerônimo, onde o próprio governador não possui votos próprios. Antes mesmo do processo de fritura do atual vice, Geraldo Jr., capitaneado por Rui Costa, o nome do prefeito de Jequié subiu nas bolsas das "bets dos bastidores": era o nome ideal para enfraquecer a oposição, pois a trajetória no PP seria um golpe de misericórdia contra os adversários. No entanto, nem todos acompanharam a estratégia. Especialmente, o principal envolvido - e interessado - na história: o próprio Zé Cocá.
Político conhecedor dos meandros das articulações, ao longo dos últimos meses, o prefeito de Jequié deu sinais trocados. Ora deixaria a oposição para se juntar ao governo, ora seria um apoiador da oposição na região que comanda, associado a cerca de 15 prefeitos. Quando estava ao lado do governo, era um exemplo de gestor. Quando flertava com a oposição, era um indeciso que preferia não sair do muro. Agora, que se encaminha para ser anunciado como vice na chapa do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União), Zé Cocá se transmuta em pária para Rui, como se os laços pretéritos que os unem não tivessem nascido em uma rede que incluiu traições do lado do governo.
Apesar da condição de Judas estampada pelo governo e por Rui, Zé Cocá é sim o "vice dos sonhos". Entretanto, para a chapa da oposição ao petismo na Bahia. E, dentro da democracia e do republicanismo que Rui e seus compadres tanto pregam, não há espaço para rebaixar a política a adjetivos mesquinhos. Ainda mais quando quem os profere acumula relações bem pouco fiéis e leais. E olha que nem tive linhas para relembrar episódios com Lídice da Mata, Fernando Haddad, Jaques Wagner, Angelo Coronel, Geraldo Jr. e o próprio Jerônimo Rodrigues. Às vezes, olhar o próprio umbigo faz bem para quem fala sobre os outros. Zé Cocá pode sair maior dessa eleição do que ao entrar, ainda que as urnas possam não ser favoráveis a ele. (Atualizado às 12h03 para corrigir a informação sobre o apoio de Rui Costa a Zé Cocá em 2020)
O escândalo do Banco Master tem abalado estruturas da República, especialmente nos altos círculos do poder em Brasília. Os sucessivos vazamentos ampliam as especulações de quem pode ser atingido pelo lodo revolvido por Daniel Vorcaro e a trupe dele. Todavia, na Bahia, o alerta vem de ativos adquiridos e posteriormente vendidos pelo Banco Master, ligados ao CredCesta, que serviram de catapulta para que o banco escalonasse o acesso a movimentações financeiras milionárias.
Apesar da tendência a demonizar as relações criadas entre as elites políticas e econômicas, é preciso ter cuidado para não colocar tudo em um mesmo balaio. Há promiscuidade nessas relações – dada as especificidades das informações que circularam relacionadas a Vorcaro. Todavia, nem todo contato resultou em conexões sombrias para enriquecimento ilícito e/ou desvios de recursos públicos. Por essa razão, a investigação formal, feita pelas autoridades competentes, é fundamental para que os desdobramentos não afetem os rumos do Brasil – e da Bahia, já que uma parte importante do escândalo registra o nascedouro aqui.
Até aqui, políticos baianos das mais diversas matizes foram citados, direta ou indiretamente, por proximidade com um coadjuvante no episódio do Master, o empresário Augusto Lima. A começar pela venda da Cesta do Povo para ele, durante a gestão do então governador Rui Costa e sob influência do então secretário do Desenvolvimento Econômico, Jaques Wagner. Depois, já durante o governo de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, os laços se estenderam ao então ministro da Cidadania, João Roma.
Na última semana, foi a vez de ACM Neto aparecer na tela, com o recebimento de R$ 3,6 milhões do Banco Master, identificados por notas fiscais emitidas por uma empresa da qual ele é sócio. Ou seja, da mesma forma que os tentáculos de Vorcaro se espraiam em Brasília, o caminho é similar na Bahia. No caso de ACM Neto, entretanto, foi a primeira vez em que apareceram cifras ao lado de um nome da cena política baiana, ainda que tudo registrado e, pelas justificativas dadas, lícito.
A lógica do uso das folhas de pagamento funcional para crédito consignado, criticada após a publicação de que a prefeitura de Salvador concedeu exclusividade ao CredCesta, se repete entre o funcionalismo estadual e não houve o mesmo alarde. E, no caso do governo da Bahia, os limites para consignado junto a esse ente bancário é maior do que para outros similares. Prefeituras da Bahia, como Alagoinhas e Ilhéus, também usaram o mesmo expediente para “garantir” acesso a crédito aos servidores públicos utilizando o modelo criado a partir da venda da Cesta do Povo para a iniciativa privada. À época da assinatura dos convênios, os gestores eram do PSD, o que acaba por confirmar que a teia de relações políticas e econômicas não obedece a ideologia – e não necessariamente são ilegais ou imorais.
É óbvio que ilicitudes devem ser investigadas e punidas. Contudo, a partir de vazamentos seletivos e limitados, é preciso tomar muito cuidado para não criminalizar ainda mais a atividade política que, por vezes, é problemática. Para Vorcaro e companhia chegarem aonde chegaram foi necessário desenvolver habilidades que incluem o trânsito com atores do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. E com todos os espectros políticos possíveis. Sob o risco de vivermos um vórtex parecido com a Operação Lava Jato que, ao fim e ao cabo, nos legou bem menos do que prometeu.
Ainda que parte da direita brasileira celebre que o senador Flávio Bolsonaro (PL) tenha aparecido bem em sondagens de opinião para a Presidência da República, na Bahia qualquer consolidação do filho de Jair Bolsonaro como único candidato viável desse estrato político preocupa ACM Neto (União). Pesquisas quantitativas e qualitativas apontam que a associação com o clã Bolsonaro torna um candidato pesado demais para enfrentar a tendência lulopetista observada na Bahia desde 2002.
Há quatro anos, ACM Neto optou por não se comprometer na corrida pelo Palácio do Planalto. No primeiro turno, fingiu apoiar a candidatura do próprio partido, de Soraya Thronicke, enquanto, no segundo turno, dava indícios de não ser a favor de um novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva ao mesmo tempo em que mantinha distanciamento regulamentar de Bolsonaro. Permaneceu em cima do muro, apesar dos adversários o colocarem dia sim e outro também como bolsonarista de carteirinha – o que, frisemos, nunca foi um fato.
Para essa “direita limpinha”, o cenário ideal era que Bolsonaro e sua estirpe fossem afastados da cena política. Até o final do ano passado, quando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ainda flertava com a candidatura a presidente, tudo parecia bem. Porém, sabedor que perderia ascendência sobre um orbe que segue a família independente de qualquer coisa, Jair fez uma opção, da prisão, de lançar o filho mais velho como sucessor do legado familiar. A história do bolsonarismo, então, passa a ser reescrita com uma versão mais leve e menos densa, como uma pitada de moderação que inexistiu desde 2018.
Agora, com Flávio se mostrando competitivo eleitoralmente, esse grupo político precisa traçar um cenário em que existe uma alternativa da direita que não passe pelo clã fluminense – especialmente no Nordeste, onde Lula e as políticas com perspectiva social adotadas fazem diferença no dia a dia da população. Para ACM Neto, essa possibilidade seria a candidatura do PSD, seja com o ex-correligionário Ronaldo Caiado, seja com nomes tão menos expressivos eleitoralmente quanto, como Ratinho Jr. e Eduardo Leite.
Contudo os números apresentados até aqui pelos nomes do partido de Gilberto Kassab mostram que não vai ser fácil manter uma candidatura até o fim, principalmente se o capital financeiro fizer uma opção clara por Flávio Bolsonaro – ou mesmo por Lula, dado que a perspectiva de vitória move montanhas para interesses econômicos. Caso Kassab e a turma da terceira via siga com viabilidade excessivamente questionável, a eleição nacional tende a manter a polarização vista nos dois últimos pleitos, com a possibilidade até de uma decisão em um único turno (improvável, convenhamos).
A oposição na Bahia precisa de uma candidatura de direita que não seja bolsonarista para chamar de sua para tentar lidar com a força de Lula já consolidada por essas bandas. ACM Neto sabe disso e não deixa de trabalhar para que haja uma alternativa que o permita criticar os governos petistas sem o jogar integralmente para o lado de Flávio Bolsonaro. Além, é claro, de resistir à pressão que o PL vai fazer para que a dobradinha entre a candidatura dele e Flávio exista na campanha. Sob o risco de entrar na disputa com sérios problemas para ele próprio se manter viável.
Não há cenário de vitória antecipada ou de terra arrasada para o governo ou para a oposição na Bahia. Há uma indefinição grande sobre os rumos das urnas no próximo mês de outubro e é isso que se presume a partir da pesquisa Séculus divulgada nesta quarta-feira (4) pelo Bahia Notícias. Apesar da margem de frente apresentada pelo ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União), o percentual de largada de Jerônimo Rodrigues (PT) é relativamente positivo, principalmente quando se dispõe de uma máquina a seu favor.
De certo, a única conclusão palpável é que a chance de uma disputa baiana em dois turnos é bem remota. Sem uma candidatura como a de João Roma (PL), em 2022, que “reservou” parte dos votos numa terceira via, o embate entre Jerônimo e ACM Neto, que se viu no final de outubro daquele ano, caminha para se repetir em 2026. Ou seja, as candidaturas do Novo e do PSOL podem demarcar posição, mas só e apenas isso.
Tal qual aconteceu há quatro anos, ACM Neto possui recall eleitoral explicado pela administração em Salvador e pela própria história que o nome carrega. Já Jerônimo Rodrigues não é mais um ilustre desconhecido, o que diminui a margem de crescimento que vimos no passado. Somado às rejeições que ambos apresentam, formam-se linhas tênues para falar em favoritismo de um ou de outro – ainda que haja esforço para descredibilizar a pesquisa por parte dos governistas, enquanto a oposição celebra os dados apurados.
Para além da pesquisa para a corrida ao governo da Bahia, é preciso avaliar também os números apresentados na disputa ao Palácio do Planalto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não atinge (ainda) 50% das intenções de voto em um primeiro turno. Mesmo em uma segunda rodada de disputa, contra Flávio Bolsonaro, não atinge o percentual. É esse o principal alerta que os governistas tendem a ficar de olho, visto que não há de se falar em crescimento de Jerônimo sem o crescimento de Lula na Bahia.
Em 2022, o grupo de ACM Neto lutava para que Lula não atingisse 70% dos votos. Terminou o segundo turno com 72,12%. Em 2026, a leitura é que o presidente não poderia atingir 60% dos votos – especialmente quando a disputa local deve se limitar a um único turno. Então o esforço da oposição é tentar conter o avanço de Lula e a potencial “transferência” de votos dele para Jerônimo. Caso atinjam o intento, as chances de vitória oposicionista aumentam, razão pela qual existe a esperança do grupo.
Acreditando ou duvidando das pesquisas, os levantamentos mostram caminhos e expectativas a serem cumpridos pelos envolvidos no processo eleitoral. E eles servem, especialmente, para animar os bastidores da política local – quer amando, quer odiando os resultados.
As próximas semanas serão decisivas para as construções das chapas proporcionais para deputado federal e deputado estadual. Trata-se da aguardada janela partidária, quando os parlamentares podem trocar de legenda sem correr o risco de terem os mandados reivindicados. Assim, é nesse período que se consolidam as alianças para definir quem fica e quem sai, bem como a lista daqueles que desejam se candidatar em outubro (o prazo limite para filiação acontece no início de abril).
Na Bahia, será o período para observar se a promessa de crescimento do Avante, reestruturado após 2022, vai se confirmar. À época em que Ronaldo Carletto assumiu a direção, havia a expectativa de uma robusta bancada na Assembleia e a filiação de ao menos Neto Carletto - essa deve ser a única 100% confirmada. Essa janela será interessante para entender a robustez com que a sigla chega nas urnas, dado o desempenho bom nas disputas por prefeituras.
Outra expectativa criada em terras baianas é o destino dos egressos do Progressistas, que preferiram ficar com o governo Jerônimo Rodrigues ao invés de seguir o direcionamento nacional de ser oposição ao PT. O destino provável dos deputados estaduais deve ser o PSB, mas isso depende também da costura envolvendo a candidatura de João Campos em Pernambuco - em um contexto de que pode haver aliança ou não com o PT por lá. Já dois federais, Mário Negromonte Jr. e Cláudio Cajado tendem a ir para o PSD, ligeiramente atingido com a saída do clã de Angelo Coronel.
O PL também deve sofrer perdas já esperadas na Assembleia. Parte dos deputados eleitos na onda do bolsonarismo não são bolsonaristas e tendem a buscar outros caminhos para continuar na política. Esses, inclusive, tendem a ir para partidos da base aliada do PT, o que mostra que nunca foi uma questão ideológica estar filiado ao PL. Nada mais rotineiro no padrão sopa de letrinhas da política partidária nacional.
Há ainda a situação do PDT, que em 2022 esteve com a oposição e agora caminha para marchar com o governo. Léo Prates estaria inicialmente "apalavrado" com o Republicanos, enquanto Emerson Penalva não falou explicitamente qual destino deve tomar. Todavia, ambos estão certos a permanecerem como oposição a Jerônimo e devem fazer as contas sobre qual o melhor caminho a seguir.
É tudo uma questão de contas. Não há ideologia nesse processo partidário. Claro que alguns parlamentares conseguem construir o posicionamento com alguma base firme, mas oscilando, no máximo, entre governo e oposição. A fidelidade partidária no Brasil é fluída demais para encararmos com surpresa quaisquer mudanças que venham a acontecer até o final da janela partidária, em abril.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
Geraldo Alckmin
"Quem defende ditadura não deveria ser candidato".
Disse o vice-presidente Geraldo Alckmin, durante sua despedida do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços ao indicar ter ficado “honrado” com o convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para compor novamente a chapa nas eleições de 2026, e também fazer duras críticas ao principal adversário do atual governo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).