Opinião: Wagner caiu não apenas pelo Banco Master, mas pelo fogo amigo contrário à “República do Dendê”
Por Fernando Duarte
Jaques Wagner saiu da liderança do governo no Senado, mas não foi culpa exclusiva do episódio do Banco Master. É claro que a narrativa de que ele poderia ter beneficiado Augusto Lima e Daniel Vorcaro com ações no Congresso Nacional vai ser predominante, especialmente em um contexto eleitoral. Todavia, engana-se quem acreditar piamente que apenas esse “tropeço” tenha sido responsável pela queda do ex-governador baiano. Wagner caiu, principalmente, por causa do fogo amigo e pelo esforço reiterado em diminuir a ascendência da “República do Dendê” sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sobre o Palácio do Planalto.
Desde que Lula retornou ao Planalto, parcelas expressivas do PT, especialmente ligadas ao diretório de São Paulo, tentam tornar inviável a permanência de tantos nomes relacionados ao PT da Bahia no centro do poder. Tanto que o fogo amigo sempre esteve presente enquanto Rui Costa esteve como ministro da Casa Civil, com esforço, em diversos momentos, para fragilizá-lo na relação com a Câmara e o Senado. Ainda assim, Rui se manteve até o limite da desincompatibilização, e Wagner continuou com certa ascendência sobre Lula.
O senador da Bahia é amigo do presidente há quase 50 anos, desde os tempos em que ambos eram sindicalistas e estavam bem longe dos espaços de poder palacianos. Ele detém a confiança de Lula e, dificilmente, o colocaria em risco de ser atingido pelo escândalo do Banco Master. Entretanto, no mesmo dia em que Wagner foi alvo de uma fase da Operação Compliance Zero, foi iniciado um processo de fritura para que a função de líder do governo no Senado tivesse a vacância determinada.
O desgaste não é novo, inclusive. Recaiu sobre Wagner a responsabilidade pela não aprovação de Jorge Messias para ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) – apenas para ficar no exemplo mais recente e mais visível do roteiro de desgastes. Para além disso, a “República do Dendê” desagradava demais os eixos petistas que arrotam a influência sobre Lula – ainda que o presidente seja bem menos influenciável do que pregam o entorno e a imprensa de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Ou seja, tirar Wagner da liderança era uma questão importante para a demarcação de espaço e poder.
“Pedir licença” foi a maneira cortês de Lula e Wagner dizerem que não houve rusga entre eles. Para evitar mais constrangimento, principalmente para Wagner, era melhor pedir para sair antes que o fogo amigo se transformasse em algo mais sério – e, consequentemente, entornasse o caldo em desfavor da reeleição do presidente.
Ainda assim, a “República do Dendê” ainda resiste. Sem Rui e sem Wagner, há ainda Sidônio Palmeira na Secretaria de Comunicação, pelo menos até um melhor desenho da corrida eleitoral de outubro, quando pode haver a necessidade de o marqueteiro migrar para a campanha. E, convenhamos, os baianos podem não estar em funções de destaque, mas mantêm ascendência sobre Lula – ainda que outros petistas tentem minorar essa influência.
