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Marca Bahia Notícias Justiça

Entrevista

Nartir Weber - Vice-presidente eleita de Interiorização da AMB

Por Cláudia Cardozo

Nartir Weber - Vice-presidente eleita de Interiorização da AMB

Presidente da Associação de Magistrados da Bahia (Amab) desde 2010, Nartir Dantas Weber passa o bastão do comando da entidade para a sucessora Marielza Brandão no início do próximo ano. No próximo biênio ela será vice-presidente de Interiorização da Associação de Magistrados do Brasil (AMB). Em entrevista ao Bahia Notícias, ela defende que a profissão seja mais valorizada. “Sim, o salário é razoável, salário digno. Mas o cargo impõe que o juiz more em um lugar diferente, que se comporte diferente, que se vista diferente. Se você chega a uma audiência e vê o juiz de calça jeans, de chinelo, vai dizer: 'o que é isso?". O filho do juiz estudar em escola pública? Ave Maria. Isso na comunidade é um absurdo, não pode. A própria sociedade criou este mito, do juiz que é um juiz muito rico, que acha que poder significa riqueza”, avaliou. Para ela, as ações da profissão devem ser mais divulgadas à sociedade. Nartir também comentou a posição divergente da entidade em relação ao colegiado de presidentes das subseções da Ordem dos Advogados do Brasil na Bahia (OAB-BA), que desejava intervenção do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no Tribunal de Justiça da Bahia. “O CNJ vai fazer o que? Suspender o que nós temos hoje em obras? O fórum de Itabuna, que está hoje em obras? Não, não adianta, a gente tem que conhecer o problema. O futuro presidente tem de ver onde é que estão os problemas e ele próprio, juntamente com seus pares, resolver. Não adianta trazer uma pessoa de fora”, considerou. Segundo ela, os problemas que culminaram no afastamento do presidente e ex-presidente da Corte máxima estadual começaram “há muito tempo”. “Todo mundo sabia que mais cedo ou mais tarde ia explodir”, refletiu.

Bahia Notícias: A senhora assumiu a direção da Associação dos Magistrados da Bahia (Amab) por duas gestões. Foi a primeira mulher a presidir a entidade e já encontrou o Judiciário baiano em crise. De lá para cá, o que a senhora observou que mudou na Justiça baiana e como é que a senhora avalia sua gestão do órgão?

Nartir Weber: Quando eu assumi a Amab, a entidade estava com 45 anos e eu fui a primeira mulher - dá para você ter uma ideia de que era realmente um ambiente muito masculino. Fui convidada por um colega que depois veio a ser presidente, mas eu não estava muito envolvida com isso, nunca havia sido candidata a nada. Coincidiu que eu fui eleita para o conselho deliberativo e, a partir daí, tomei gosto. É aí que você começa a se preocupar. Eu estava no interior e, chegando a Salvador, foi melhor. Na capital é que você vê as coisas mais de perto. Você vai aqui, vai ali e começa a ficar aquele grito [na garganta]. Quando nós rompemos depois com esse colega, por questões políticas, lançamos uma candidata, uma pessoa para poder mostrar que nós tínhamos rompido com aquele grupo e nos queríamos uma gestão mais avançada, mais aberta e transparente. Então, Marielza [Brandão] foi candidata, contra tudo e conta todos, porque havia uma influência muito forte do Tribunal [de Justiça] na associação. Era o Tribunal quem mandava. Então, quando os presidentes criavam um ambiente de resistência, então a Amab era destroçada, porque o Tribunal queria que fôssemos um apêndice deles. Nessa campanha de Marielza, o Tribunal veio para apoiar o outro candidato e Marielsa perdeu assim. Na outra campanha, a gente ficou sem nome e decidiram colocar Nartir. Eu disse: “Ai, meu Deus do céu, não quero ser presidente de nada”, e me disseram: “Mas não se preocupe que a gente não vai ganhar, é para a gente firmar [posição], fechar os compromissos”. Eu disse: “Já que é assim, que não é praa ganhar, vamos lá, vamos nos organizar”. Eu perdi por 17 votos, com toda a influência do tribunal. O colega que ganhou era um menino muito direito, e ele começou me mostrando um pouquinho das coisas e começamos a conversar. Aceitou que déssemos algumas ajudas e falássemos alguma coisa. Isso foi criando um ambiente favorável. Tanto que, quando ele saiu, eu fui candidata única. Já estava, então, completamente contaminada. Foi uma ótima gestão. Fui candidata de novo e ganhei de Rosalvo. Agora, na magistratura, nós não temos dificuldades assim, homem e mulher. Todos são tratados de forma igual. Lógico que tem alguns que são chegados a alguns desembargadores, mas no geral o tratamento bem tranquilo. É um dos lugares que nós não vemos discriminação. As mulheres sofrem como os homens, mas também ganham as vantagens e tudo mais. Quando nós assumimos, a própria Amab passava por uma situação difícil. Nós tínhamos saído de uma gestão que não avançou muito. Nós encontramos dificuldades financeiras e também a perda da credibilidade da associação em relação aos seus associados. Era uma associação que funcionava não se sabe como, porque tinha problemas financeiros, administrativos, de representatividade tanto em nível estadual quanto em nível nacional perante AMB [Associação dos Magistrados Brasileiros] e demais associações. O primeiro ano de gestão foi impactante para mim, porque eu tive de administrar, de resgatar a credibilidade da associação perante a classe, depois de mostrar que a associação tinha um papel importante já em nível nacional e também de ter essa interlocução com o Tribunal e com o CNJ para tentar ver o que poderíamos fazer. Enfim, chamar a classe para perceber o momento delicado que estávamos passando e, dali, conseguirmos criar um ambiente favorável de trabalho, detectar os maiores problemas, que é o que mais afligia. O sistema E-SAJ é visto por aí como por um sistema deficitário, muito complicado, depois veio a questão da qualificação dos servidores e dos magistrados para o sistema E-SAJ, que também ainda encontramos dificuldades, e o Ipraj [Instituto Pedro Ribeiro de Administração Judiciária] –  em que a criatura sobrepõe-se ao criador, porque o Ipraj passou a ser o comando geral do Tribunal de Justiça da Bahia. As ordens praticamente vinham de lá, porque o instituto administrava o dinheiro e o presidente ficava refém. Até hoje a gente tem como consequência os altos salários – que vêm dessa parte dos funcionários do Ipraj. O CNJ veio. A ministra Eliana Calmon, por ser baiana também, ouvia mais de perto as reivindicações da sociedade, e passou a cobrar muito mais do Tribunal de Justiça. Então, os dois primeiros anos da minha gestão no Amab foram, por um lado, difíceis. Mas também nós tivemos na presidente Telma Britto, na época, um olhar mais voltado para o primeiro grau. A magistratura gostava muito da presidente, porque era uma presidente que atendia, falava com qualquer juiz, onde estivesse. Ela voltou muito os olhos para os juízes do interior e isso fez com que ela fosse muito aplaudida nas ações. Ela enfrentou muitas dificuldades, como a extinção do Ipraj, e começou a privatização dos cartórios. Na gestão da desembargadora Telma, ela enfrentou uma greve de servidores, porque ela tentou tirar algumas gratificações. Você vê que não foi nada fácil.

BN: Na época, se discutiu muito se seria realizado um concurso para a magistratura e/ou para servidores, não é?

NW: Exatamente. E a gente cobrando. Eu, inclusive, reclamei com o ministro Dipp sobre os servidores que os desembargadores tiram do primeiro grau e levam para os gabinetes. Eu sempre bati nisso, porque não só eles levam, como os que já foram não voltam. Tem desembargador que passou seis meses, montou o gabinete, quando esse desembargador aposentou, estes servidores que deveriam retornar para os seus lugares não voltaram mais. É uma ida sem volta. Isso é triste, porque a gente tem cartórios que há dez anos o servidor está no Tribunal. Daí não pode ocupar a vaga porque é escrivão, está no Tribunal. Então, ele fica sem direito de ter o diretor de secretaria. Isso foi levado ao conhecimento do CNJ, na inspeção do [Gilson] Dipp, depois na inspeção de Eliana Calmon e agora na inspeção do [Francisco] Falcão.

BN: A falta de servidores no primeiro grau.

NW: No primeiro grau, porque o segundo grau vai muito bem, obrigada, né? Muito bem. São gabinetes com no mínimo dez servidores, tem toda uma estrutura. No Tribunal, as coisas funcionam de uma forma bem tranquila. O difícil é você estar em uma comarca de Mata de São João, que o juiz me disse que tem dois servidores no cartório dele, sendo uma escrevente que está fazendo o papel de uma oficial de justiça. Então, você imagina uma comarca de Mata de São João, uma comarca relativamente grande, numa situação dessa. A Amab quer mostrar que o primeiro grau precisa de apoio e não conseguimos muito avanço.

BN: Os presidentes das subseções daqui da OAB têm clamado muito que o presidente daqui, Luiz Viana, posicione o conselho daqui para que peça intervenção do CNJ. A Amab, em nota, se colocou contra esta intervenção. Qual seria o melhor jeito, a melhor solução para o problema do Tribunal de Justiça da Bahia?
 
NW: Tudo o que a OAB fala a gente concorda plenamente. Tanto que a OAB tem feito alguns eventos em Feira de Santana, Itabuna, Barreira. Na medida do possível, a Amab tem acompanhado e participado. A gente se coloca contrário à intervenção porque acreditamos que nós temos no quadro do Tribunal de Justiça pessoas que sejam capazes de resolver. Falta vontade política, não falta capacidade política. Falta vontade política e é isso que nós esperamos do novo presidente. O Tribunal está de uma forma que ninguém consegue entendê-lo a ponto de dizer: "Não, este é o problema, a gente vai sair por aqui". São tantos os problemas que não se consegue pegar um e começar por esse. Ficam: "Não vamos fazer isso, vamos fazer isso". Se vier um interventor, o que é que ele vai dizer de uma folha de pagamento? Porque ele não tem como deixar de suspender os salários das pessoas. Ele vai fazer o que? Suspender o que nós temos hoje em obras? O fórum de Itabuna, que está hoje em obras? Não, não adianta, a gente tem que conhecer o problema. O futuro presidente tem de ver onde é que estão os problemas e ele próprio, juntamente com seus pares, resolver. Não adianta trazer uma pessoa de fora. Foi isso que a gente disse: "O CNJ vem aqui, passa um mês, dois, vai embora e pronto, acabou? Mídia só?". A gente tem que enfrentar o problema e saber que isso não é em curto prazo. É de médio para longo. Não pode ficar é como está.

BN: A senhora irá compor a direção nacional da AMB, como vice-presidente de interiorização. Como é a situação do Judiciário no interior?

NW: A Bahia não é melhor e nem pior que ninguém. Cada estado tem suas características próprias. Nós somos um estado imenso, com muitos municípios, com muitos problemas, com muita miséria, enfim. A gente já sabe que tem e isso se estende também em muitos outros estados. Meu projeto é visitar alguns estados, ver a estrutura desses juízes, chamar os colegas para discutirmos, porque, por exemplo, aqui na Bahia, a gente age de alguma forma, nós temos alguns benefícios, algumas vantagens. No estado de Sergipe, já são diferentes as vantagens que a gente ganha aqui e eles não têm. Trabalham em plantão aqui de uma forma. Lá, é de forma diferente. Vamos tentar unificar isso, ver o que é melhor não só para a magistratura, mas para a sociedade como um todo, para os advogados que atuam, para o Ministério Público. Precisamos colocar todo mundo no mesmo ambiente e tentar cortar algumas diferenças, igualar um pouco as dificuldades e também os benefícios e as condições de trabalho.

BN: Como é que a AMB pode contribuir para valorizar a magistratura e como pode ajudar a melhorar o Judiciário brasileiro? Ela pode propôr políticas públicas e projetos de lei?

NW: Não. Normalmente, as associações fazem estudos, entendem sobre determinado assunto, criam uma comissão ou dentro da própria vice-presidência legislativa vê um deputado ou um senador, dependendo da iniciativa, e faz um encaminhamento. A gente se organiza com os presidentes das associações e vai trabalhar esse projeto junto com esses parlamentares. Nós não temos a iniciativa de fazer encaminhamento. A AMB vai colocar numa reunião o que é que a gente tem de bom e de melhor. A gente vê novas práticas, como "AMB vai à Escola". Algumas políticas públicas também para aproximar a magistratura da sociedade, como "Conheça o seu Juiz" ou "Veja o que seu Juiz Faz". É uma campanha de valorização. Isso já vem sendo defendido há algum tempo e a valorização da magistratura passa necessariamente pelo reconhecimento do trabalho prestado a sociedade. Se quem é o dignitário do serviço não valoriza o serviço que recebeu, então não tem como, a gente fica desvalorizado. A própria sociedade vai criando este ambiente favorável para que o Poder Judiciário seja respeitado e bem visto pela sociedade.
 
BN: Em sua visão, a carreira da magistratura foi desvalorizada nos últimos tempos, com perdas salariais e desprestígio diante da crise em que se encontra o Judiciário?

NW: Isto é um fato que o próprio presidente do Supremo [Tribunal Federal], Joaquim Barbosa, em debates também como presidente do CNJ, demonstra preocupação. E todo mundo tem essa percepção, de que a magistratura hoje não atrai. Só os vocacionados que realmente permanecem. Nós temos colegas que deixam de ser juízes para serem delegados, oficiais de justiça, procuradores ou para não fazer nada, só para estudar. Existe um desestímulo muito grade. Uma coisa que nos chamou muita atenção foi a perda do Adicional de Tempo de Serviço [ATS]. Isso fez com que muita gente não ingressasse e outros saíssem [da carreira]. A cada cinco anos, um magistrado, na carreira jurídica, tinha direito a um quinquênio, em que ele ganha 5% a cada cinco anos trabalhados. Ao chegar ao fim da carreira, com 30 anos de trabalho, ele ganhava mais um plus de 30%. A magistratura é uma vida de dedicação, porque você é mandado para uma comarca do interior, em que você nunca viu ninguém, não conhece os hábitos, costumes, não conhece nada, sofre de todos os lados e tem medo de ser morto. É uma vida muito difícil. Quem pensa que são só flores está muito enganado. Hoje, a gente vive lutando para ter de volta este ATS. O juiz que começa hoje praticamente ganha igual ao juiz que tem 20, 30 anos de serviço. O que é que esses juízes mais velhos estão fazendo hoje? “Vou me aposentar e advogar”. Quer dizer que, enquanto você esta em plena sabedoria, que você esta ali cheio de conhecimento, você está deixando uma magistratura com 50 anos para poder cuidar da vida, porque o salário hoje já não dá? Mas dizem: "Ah, mas o salário é maravilhoso". Sim, o salário é razoável, salário digno. Mas o cargo impõe que o juiz more em um lugar diferente, que se comporte diferente, que se vista diferente. Se você chega a uma audiência e vê o juiz de calça jeans, de chinelo, vai dizer: "O que é isso?". O filho do juiz estudar em escola pública? Ave Maria. Isso na comunidade é um absurdo, não pode. A própria sociedade criou este mito, do juiz que é um juiz muito rico, que acha que poder significa riqueza. Nós temos o poder de decidir, mas sermos ricos, aí é bem diferente. Antes de virem para a magistratura, as pessoas também pensam nessa questão econômica, da dedicação exclusiva. Você pode apenas ser professor em uma faculdade e não tem nem tempo. E aí vem o salário e a cobrança excessiva. Nós temos relatórios do CNJ, nós temos metas, temos que atender advogados, despachar processo, dar sentenças, fazer a audiência, resolver os problemas das contas das comarcas. Aqui na Bahia, tem unidade gestora em que o Tribunal manda o dinheiro para a comarca e aquele diretor do fórum é que fica responsável por pagar luz e aluguel. O juiz não ganha nada para isso. Ele deveria, a rigor, ser pago para jugar, mas ele também administra e é uma administração com dificuldades que deixaM o juiz nervoso, como guardar armas. O que mais sobrecarrega o juiz é atividade cartorária. Você ter de desempenhar esta administração dentro da comarca e dentro do cartório.

BN: Atualmente, em muitas comarcas, há servidores cedidos pelas prefeituras. Em algum momento essa cessão coloca o magistrado em uma situação delicada?
 
NW:
Olhe, eu já passei por isso e muita gente no interior ainda passa por isso. Se tirássemos hoje os servidores de prefeituras dos fóruns, certamente muitas comarcas teriam de fechar os seus fóruns, porque praticamente funcionam com servidores cedidos. A questão dos servidores cedidos passa por vários problemas. Primeiro: se o juiz dá uma sentença desfavorável ao gestor em uma ação de improbidade administrativa, o que é que ele vai dizer: "Ótimo, eu estou bancando o fórum que abre que fecha porque eu estou lá e [o juiz] me dá uma sentença. Vou agora dizer que não tenho mais condição de pagar e vou recolhê-lo". Aí, você tira o servidor, desfalca a comarca e leva de volta. Outra coisa é que o juiz não ficar muito à vontade com um servidor que ele não responde e que não tem as mesmas responsabilidades, inclusive na esfera administrativa e penal, que o servidor público. Embora, por força de lei, exista equiparação, mas administrativamente a gente não pode fazer com que ele perca o cargo, porque nós não somos donos do cargo. Felizmente, por onde eu passei, as pessoas são boas, realmente vestem a camisa como se do Judiciário fossem.

BN: As metas impostas pelo CNJ são viáveis de serem cumpridas pelos magistrados ou geram algum tipo de desgaste, estresse, assédio?

NW: Geram. Na época da ministra Eliana Calmon, com quem eu tive uma maior proximidade pelo fato de ela ser baiana, eu dizia a ela: "Ministra, não tem condição de seguir a meta" e ela me dizia: "Nartir, as metas são parâmetros, você tem que se adequar àquilo ali. Não pode ser mais e nem menos. Vamos procurar chegar a um equilíbrio. As metas são para isso". Mas eu dizia isso para os juízes: "Olhe, gente, pelo amor de Deus, não se desesperem, porque meta é para ser cumprida se há condições de ser cumprida". Como é que você vai cumprir uma meta com dois servidores, se você não pode fazer a audiência, se você não pode dar a sentença, se você está digitando as audiências? Não tem quem não fique nervoso.

BN: A gestão de [Henrique] Calandra, presidente da AMB, por diversas vezes foi criticada e considerada um tanto corporativista. O que essa nova direção se propõe a fazer, visto que concorreu como chapa de oposição?

NW: Nós reclamamos muitos nesses três anos da gestão do desembargador Calandra porque com toda essa pressão da mídia, do CNJ, da sociedade sobre a magistratura de primeiro grau - diga-se de passagem, porque quando a gente fala: "O juiz que demora", você só pensa em juiz, não pensa em desembargador. Então toma toda a pancada. "O juiz que não julga", "o juiz que não faz". Nós, que somos juízes de primeiro grau, é quem recebemos estas críticas mais pesadas. Nós achamos que o presidente ficou muito acomodado com isso e ele não fez um trabalho de mostrar a questão da valorização, que nós trabalhamos sim e trabalhamos muito. Se tem alguém que está errado, mostre, que ele vai responder a processo. E o desembargador Calandra foi um presidente de gabinete. Ele interagia muito com os senadores, com os deputados, com os ministros, mas na prática, para a magistratura, realmente nada foi feito, nada avançou, parou completamente. Fora as questões administrativas, porque ele teve as contas rejeitadas por 25 associações. Nós não concordamos com as contas prestadas, mas ele conseguiu aprovar por um método que conseguiu criar e achou que deveria ser daquela forma. Como ele vivia nos gabinetes, na alta esfera do poder, para ele foi cômodo ficar ali. Ele não vestiu realmente a camisa de um presidente de associação, ele vestiu a camisa de um ministro. Ele se sentia um ministro dentre os outros com quem que ele convivia. E a gente quer fazer o diferencial, uma associação voltada para defesa intransigente da magistratura, seja no âmbito geral, seja no particular.
 


BN: A Lei Orgânica da Magistratura (Loman) precisa ser revisada?

NW: Precisa porque foi feita sobe a égide de um Estado ditatorial, um mundo diferente. A Lei Orgânica da Magistratura nos engessa em muitas situações. Os códigos nos engessam, mas você tem todo um procedimento que tem de cumprir de A a Z sob pena de depois vir a arguir que houve quebra de cumprir alguma regra e invalidar este ato. Já existe a proposta do Estatuto da Magistratura. Está no Supremo para fazer uma análise e encaminhamento, mas a cada dia as coisas evoluem. Se você deixar um ano, parada, pode jogar fora que não serve mais. Hoje, o Ministério Público, que sempre esteve atrelado à magistratura ao contrário, evoluiu e nós, hoje, estamos pedindo a simetria com a carreira do Ministério Público. Conseguimos, inclusive, a simetria no CNJ, que está sendo discutida agora se pode realmente prevalecer no Supremo Tribunal Federal.

BN: O CNJ, em uma decisão recente, restringiu os patrocínios aos eventos dos magistrados. Quais impactos essa decisão trará para a realização de congressos, seminários e eventos diversos da entidade?

NW: Eu entendo que é um problema. Nós, aqui na Amab, normalmente fazemos eventos e cada qual quer vender o seu produto. Quando fazemos um evento, um congresso, e temos os parceiros. Em contraprestação, utilizamos a marca do parceiro, que vai distribuir o material dele. Se ele é um banco, vai dizer: "Olha, tenho esse produto aqui, seguro de carro mais barato". Não atrela em absoluto ao conteúdo do congresso. Se eu faço um congresso sobre orquídeas, por exemplo, e digo ao parceiro: "Vocês podem nos ajudar?", eles respondem: "Podemos, mas, por acaso, podemos distribuir canetas com o telefone da minha agência?", "Claro". Então existe sempre uma troca. Mas não é uma troca de favores jurídicos, é uma troca de benefícios que são colhidos por aquela estrutura que você monta. O CNJ deve ter que pode ter excesso. Numa visão minha, eu acho que não vai além disso. Eu não posso conceber que alguém faça patrocínio para eu pegar parte do dinheiro, colocar no bolso, ou então para dar uma sentença favorável. Isso não existe, não perpassa na cabeça de ninguém. Até porque, normalmente, [as patrocinadoras] eram Petrobras, Banco do Brasil, empresas públicas e bancos que não temos nem acesso a quem quer tenha qualquer interesse. Com isso, nós perdermos oportunidade de ter grandes eventos, porque cada palestrante pode cobrar até  R$ 50 mil para dá uma palestra. Foi uma atitude que realmente repercutiu duramente nos nossos eventos.

BN: Como a senhora avalia a gestão do desembargador Mario Alberto Hirs, que apesar de estar afastado, ainda é presidente do TJ-BA? E como foi a relação da Amab com o TJ durante a gestão dele?
 
NW: O trato com a gestão do desembargador Mario Alberto já veio permeada desde o início de problemas. Você viu que terminou resultando no afastamento. Eram problemas, que eu digo até na manifestação, que vieram crescendo ao longo do tempo. Ele não criou esta situação.

BN: Não, veio muito antes...

NW: De muito. E que todo mundo sabia que mais cedo ou mais tarde ia explodir, e explodiu nas mãos dele, infelizmente, para ele e para todos nós. Porque nós esperávamos que a gestão da desembargadora Telma – que foi uma gestão de conhecimento, porque ela conhecia a estrutura do Poder Judiciário – veio criando uma expectativa de que deixaria para o sucessor não somente a obrigação, digamos assim, administrativa de consolidar aquilo que ela fez. Só que as coisas caminham de uma forma tão complicada que tudo explodiu. Ao invés de consolidar um modelo de gestão que viesse a ser melhorado, não, explodiu e começou do zero. Foi culpa do desembargador Mario Alberto? Em parte sim, porque quando você assume um cargo de presidente você tem que estar preparado para tudo isso e tem de começar logo a ir cortando estes males pela raiz. Como ele deixou as coisas irem acontecendo em todas as esferas, as coisas de repente começam a acontecer desenfreadamente e desorganizadamente. Terminou com essa explosão que poderia ser contida com ações administrativas mais fortes desde o começo da gestão. Foi difícil a relação com a associação, foi muito difícil porque ele enfrentava, segundo ele, problemas orçamentários graves e a magistratura também, porque vinha de uma administração mais voltada para a magistratura de primeiro grau. A desembargadora Telma sentiu esse impacto, e ele diz: "Bom, eu tenho prioridades e vou fazer cumprir estas prioridades". Fez o concurso e isso foi um espetáculo. As pessoas quando olham assim não veem as coisas que foram feitas. Ele fez o concurso. Tem uma série de coisas que realmente ele fez em prol da magistratura, da sociedade. Mas o que fica mesmo é que não houve um trabalho administrativo interno, bem feito e que tenha repercutido externamente. Se ele tivesse puxado um freio mais duro, toda essa situação que todo mundo já sabia no Tribunal [seria contida]. Se ele tivesse tido essa percepção de que "agora é o momento de eu esbarrar". "É o CNJ que está na minha cabeça todos os dias? Vamos ver, CNJ, qual o problema? O que é que vocês podem me oferecer? Onde é que nós estamos errados?". Às vezes você tem de ser humilde sem ser subserviente. "Me diga onde é que estamos errados. Aponte". "Então tudo bem, vamos criar aqui...". Eu brinco sempre que o CNJ quer fazer um Termo de Ajustamento de Conduta com o Tribunal. Eu sou presidente da associação e eu sei que tem muitos colegas que trabalham e tem muitos colegas que não trabalham tanto. Tem outros colegas que têm problema de saúde. Então, a gente tem essa percepção. O Tribunal tem a obrigação de ter esta percepção. O Tribunal não conta com grandes nomes na área administrativa. Ouvia a desembargadora Telma falar que ninguém quer vir trabalhar no Tribunal porque o salário para uma pessoa que seja realmente qualificada é de R$ 30 mil. É um CEO. Hoje nós temos um secretário de administração, um menino excelente, mas que entrou no Tribunal em um cargo que não tem nada a ver com o administrativo. Ele é formado em arquitetura, entendeu? O Tribunal aproveita os quadros que tem, mas são quadros, ainda precisam evoluir profissionalmente. Enfim, eu acho que o erro é essa questão toda girar em torno do Tribunal, por incrível que pareça, porque no primeiro grau, com todas estas dificuldades que estou lhe dizendo, os juízes se reinventam. Eles fazem situações em que você diz: "Não é possível que isto esteja funcionando", mas funciona. Então a máquina maior, a máquina que está com engrenagem fora do lugar, é a máquina do Tribunal, do segundo grau, porque no primeiro grau todo mundo tem se virado para poder funcionar.

BN: Como será a transição de sua gestão para a gestão de Marielza Brandão, eleita para gerir a Amab nos próximos anos?

NW: Marielza tem participando da administração desde o começo, na escola e também nestas situações mais adversas, as causas mais complicadas. Nós temos aqui um conselho deliberativo, administrativo de fato, que é composto por vários colegas. Quando as coisas apertam, reunimos o colegiado para discutir estas questões e Marielza sempre esteve presente em tudo isto. Temos um jeito bem parecido de administrar. Eu creio que ela própria vai se superar, porque quando hegamos aqui, em um instante aprendemos a se reinventar também. E é uma alegria para mim, porque era o que nós realmente queríamos. Eu tenho dito para os nossos colegas o seguinte: que nós já estamos passando da fase de associação. Eu já estou com mais de 50 anos, Marielza também está por aí, então a gente criou um ambiente e eu tenho certeza que ela vai continuar ou vai avançar. A partir de Marielza, quem deve assumir aqui a Amab já são os juízes mais novos, para poder continuar, e a gente fica com o conselho consultivo, porque a gente nunca vai deixar de estar aqui apoiando.Vamos o bastão realmente para novas gerações e Marielza, eu acho, será a última do ciclo desse grupo que, desde 2002, está caminhando para chegar aonde chegou. Depois Marielza vai para AMB e eu me aposento.