Opinião: ACM Neto chega às urnas como azarão, e Jerônimo chega com menos prestígio que antecessores
Por Fernando Duarte
Ainda que apareça à frente em alguns levantamentos, o ex-prefeito de Salvador (ACM Neto) chega às urnas na condição de azarão na disputa pelo governo da Bahia, com chances reais de vitória. Meses atrás, era possível até tratá-lo como favorito, diante de um governo cuja expressividade era desproporcional à simpatia do governador – sim, a única qualidade exaltada em Jerônimo Rodrigues (PT) ao longo do governo era o modo simpático com que tratava aliados e até adversários. Agora, Jerônimo reassumiu o posto de que sempre lhe coube, por estar sentado na cadeira e ter a máquina ao seu favor: é favorito para a reeleição. Isso não quer dizer que a disputa baiana já esteja com favas contadas.
Com a proximidade do primeiro turno, o PT baiano retomou a força vista desde 2006, quando venceu o Palácio de Ondina pela primeira vez. Como propôs o colunista Victor Pinto, o partido é “de chegada”, razão pela qual boa parte da militância descredibiliza pesquisas realizadas em fases iniciais da campanha, que colocam a oposição à frente. No entanto, em 2026, essa força não foi inteiramente prevista, mesmo por institutos de pesquisa que, no passado recente, traziam dados favoráveis ao petismo. O empate técnico entre Jerônimo e ACM Neto não apenas persiste, como se mantém até o dia anterior ao pleito. Ora com Jerônimo liderando, ora com o próprio ACM Neto liderando – a depender da metodologia e da técnica utilizada para mensurar.
Para quem teve a máquina na mão, não apenas no estado, mas no plano federal, Jerônimo foi o mais claudicante dos governadores petistas candidatos à reeleição. Jaques Wagner, em 2010, e Rui Costa, em 2018, sobravam nas campanhas, mesmo com nomes que, potencialmente, poderiam exercer uma força antagônica nas urnas. Paulo Souto já era um ex-governador de dois mandatos e José Ronaldo sequer conseguiu repetir, em Feira de Santana, a força que o mantém no comando da segunda maior cidade da Bahia há alguns bons mandatos. Ambos, todavia, não eram ACM Neto.
O ex-prefeito de Salvador demorou para se restabelecer após a derrota no segundo turno de 2022. Entretanto, não dá para dizer que ele fez uma oposição radical ou imponderada. Quando retomou a agenda política, ACM Neto manteve um nível crítico que remete à civilidade que outrora víamos no Brasil. Ainda assim, durante a campanha, ele foi acossado com ataques sucessivos de aliados do governador, sem revidar na mesma moeda – vide a forma como ele reagiu às denúncias contra Jaques Wagner, no caso do Banco Master, e a forma como ele mesmo fora tratado em episódio similar. Ainda que petistas e aliados queiram colocá-lo no patamar de bolsonarista, nem de longe o candidato do União Brasil segue a linha antidemocracia, presente no discurso (e nos atos) do grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A condição de azarão que agora cabe a ACM Neto não é, necessariamente, por ele ter menos chances de vencer a disputa na Bahia. É resultado dele estar contra uma corrente bem típica de quem controla a máquina, como Jerônimo, e de quem não possui um “grande eleitor”, como Luiz Inácio Lula da Silva. E, por mais que a tese do voto Lula-Neto tenha sido amplamente combatida pelo PT, inclusive judicialmente, é um fato que parte da população baiana enxerga essa combinação como benéfica para o estado.
Já Jerônimo não pôde ser tratado como azarão em qualquer momento da campanha. Na condição de governador, ele tem a obrigação da reeleição, tanto quanto qualquer outro candidato que, com mandato no Executivo, controla a máquina pública para benefício próprio (e não sejamos inocentes de achar que ninguém o faz, independente da matiz política). Por isso, nas urnas, surpresa real seria ele não chegar como favorito.
É muito provável que, quem sair das urnas, vai ter que lidar com uma outra metade da Bahia como crítica ao modelo proposto – ainda que decidida em primeiro turno, a disputa tende a ser apertada, nos mesmos moldes de quatro anos atrás. A “eleição peruana”, proposta pelo cientista político Antonio Lavareda, para classificar uma decisão “voto a voto” cabe por aqui. E olha que o número de votos brancos e abstenções também tende a ser mantido em altos percentuais, como nos últimos pleitos. A torcida é para que essa bipolaridade arrastada há anos na Bahia não gere fraturas como vemos no plano nacional.
