Opinião: Lula na Liberdade antecipa "Super Trunfo" do PT na Bahia, mostra força, mas deixa alerta aceso
Por Fernando Duarte
A vinda de Luiz Inácio Lula da Silva à Bahia na última sexta-feira (28) pode ser analisada sob diversos prismas. O primeiro deles é, sem dúvidas, o poder de mobilização do PT em torno da candidatura dele e de aliados. Por isso, a relevância de, diuturnamente, salientar quem é parte do chamado "time de Lula". Outra perspectiva importante é que a vinda antecipada dele na campanha sinalizada que há um alerta aceso sobre a real eleitoral do próprio presidente e de seus aliados.
Lula não garante transferência automática de votos. Mas desde 2006 é o grande eleitor da Bahia, capaz de influenciar indiretamente ao menos três dos últimas cinco pleitos estaduais. Achar que os primeiros mandatos de Jaques Wagner, Rui Costa e de Jerônimo Rodrigues não experenciaram Lula enquanto "grande eleitor" é minimizar a força de um fenômeno cristalizado no imaginário popular desde o início do século. As reeleições de Wagner e Rui beberam nessa fonte, mas conseguiram um distanciamento regulamentar para a autossugestão de que se tornaram eles os principais ativos das campanhas. Agora, com Jerônimo, a situação parece ligeiramente distinta.
Apesar de forte, Lula enfrenta desgastes em proporções maiores que o mensalão em 2006 e o petrolão em 2014 (ali, Dilma Rousseff era a protagonista, mas tinha seu antecessor como "fundo garantidor"). Somado ao ciclo de 20 anos do PT na Bahia, quando há certo esfacelamento das relações políticas e com a sociedade civil, Jerônimo enfrenta desafios extras que podem comprometer não apenas a própria reeleição, como também a margem que Lula precisa ter na Bahia no enfrentamento ao bolsonarismo, ora representado por Flávio Bolsonaro (PL).
A vinda de Lula ao bairro da Liberdade, popular, com ruas estreitas e excelente representação étnico-social, mostrou pujança, especialmente para imagens. Tudo ali pareceria muito cheio. Tudo ali pareceria fervilhar à visita do presidente. Somado aos quase 12 anos de Rui Costa repetindo o mantra de "menino pobre da Liberdade que virou governador", foi o combo perfeito para uma campanha que começou com ressalvas do potencial nas urnas. Jerônimo é quem melhor pode aproveitar o suco eleitoral de sexta, caso consiga converter a estratégia em resultado. Lula é a carta "Super Trunfo", tradicionalmente usava mais à frente, mas antecipada em 2026.
A situação não é tão simples quanto pode parecer, ou como tentam pintar os aliados de Lula e de Jerônimo. Ganhar a eleição para governo da Bahia é importante, mas há quem avalie que é mais importante garantir uma votação expressiva para Lula no quarto colégio eleitoral brasileiro, permitindo compensar eventuais perdas em outras praças. A caminhada na Liberdade resume tudo isso. Mas ninguém vai tratar do assunto publicamente.
