Opinião: Lula dosa falas mesmo em ambiente confortável e demarca espaço como candidatíssimo à reeleição
Por Fernando Duarte
Luiz Inácio Lula da Silva ainda encanta bem seu público cativo. Na última sexta-feira, no 14º Encontro Nacional do MST, em Salvador, foi assim. O presidente não apenas se lançou mais uma vez como candidato à reeleição, como fez vibrar uma plateia ávida por ouvi-lo. Foi a junção da fome com a vontade de comer. E o MST era um espaço confortável, inclusive, para eventuais deslizes - o que não aconteceu.
Candidatíssimo ao quarto mandato, Lula mediu bem as palavras e falou dos temas relacionados ao MST, mas não só. Tratou da crise envolvendo a remodelação das relações internacionais a partir de Donald Trump, brincou sobre potenciais adversários nas urnas e rechaçou a violência contra a mulher, chamando de "voto maldito" eleitores que cometem esse crime. Levou à loucura aqueles eleitores que estavam presentes. A cada nova "tirada", as famílias que ali estavam gritavam como se o presidente fosse um astro do rock. Melhor palco não haveria.
No entanto, há sempre um certo exagero nas tentativas de tornar Lula ainda maior do que é. As palavras laudatórias daqueles que o antecederam, seja nos discursos no ato em si, seja nos momentos em que a espera pela chegada dele de Maceió - um atraso de mais de 3h -, fazem com que o petista seja endeusado demais. Esse excesso, por muitas vezes, explica as razões pelas quais os adversários enxergam paralelos entre a esquerda e o bolsonarismo. E isso acontece mais pelo entorno do que por Lula, já que o presidente se mostra humano nas mais diversas oportunidades e falas.
Ao tratar da iminente reconfiguração do que se convencionou chamar multilateralismo, Lula foi tão preciso que não necessitou fazer ataques diretos a Trump. Pelas beiradas, o presidente deu o recado que não concorda com o norte-americano e que vai se posicionar contrário a essa "nova ordem mundial". Honrou, inclusive, a história da diplomacia brasileira, sem, por exemplo, entrar no mérito que o próprio MST incitou com defesas desvairadas do ditador Nicolás Maduro. O determinismo dos povos foi o destaque, sem excessos de defesa ou ataque - algo que a experiência de três mandatos no Palácio do Planalto e os 80 anos explicam com certa facilidade.
Mesmo para tratar dos adversários em outubro, o petista acertou o tom ao brincar que ainda não sabe quem vai enfrentar. Com a fragmentação da direita, Lula se mantém como favorito e não parece entrar numa onda de "já ganhou". Trata o pleito de outubro com responsabilidade, enquanto aqueles que o acompanham costuram para evitar um Congresso Nacional ainda mais refratário às políticas defendidas pelo lulismo (e aqui o presidente se faz muito maior que o petismo).
Seja para o MST, seja para a militância de esquerda, Lula continua um mestre na arte de medir e falar com o público. Entre qualidades e defeitos, o que ele ainda não conseguiu foi encantar as serpentes que moram do outro lado da cena política brasileira...
