Davidson pelo Mundo: Fidelidade sem retorno, ainda vale apostar nas milhas aéreas?
Entre mudanças repentinas e regras voláteis, programas de fidelidade no Brasil colocam em xeque a lealdade do passageiro e fortalecem o protagonismo dos cartões de crédito.
Há um desconforto crescente entre viajantes frequentes no Brasil, uma sensação de que a relação com os programas de milhagem deixou de ser uma via de mão dupla. Durante anos, acumular pontos em companhias como LATAM Airlines Brasil, Gol Linhas Aéreas e Azul Linhas Aéreas era quase um pacto de fidelidade em troca de benefícios tangíveis, previsibilidade e, acima de tudo, respeito ao passageiro recorrente.
Hoje, esse pacto parece fragilizado. Mudanças frequentes nas regras, desvalorizações silenciosas de pontos, aumento no custo de emissões e promoções cada vez mais direcionadas ao “momento de baixa” criaram um ambiente de incerteza. O cliente fiel, aquele que voa o ano inteiro, muitas vezes percebe que o melhor resgate não está reservado para ele, mas sim para quem aparece pontualmente, aproveitando uma campanha específica.
É o fim da fidelidade como estratégia racional? Talvez estejamos vivendo uma transição. Em vez de concentrar milhas diretamente em programas como LATAM Pass, Smiles ou TudoAzul, cresce o movimento de centralização nos cartões de crédito. Não por acaso, cartões premium hoje oferecem acesso a salas VIP, acúmulo acelerado, bônus agressivos de transferência e, talvez o mais importante, liberdade. Liberdade para decidir apenas no momento da emissão qual companhia oferece a melhor relação custo-benefício. É a fidelidade sob demanda, não mais por obrigação.
Nesse novo jogo, o passageiro deixa de ser “cliente de uma companhia” e passa a ser gestor do próprio portfólio de pontos.
Isso muda tudo. Ao concentrar gastos em cartões, o viajante ganha poder de barganha. Ele não está preso a tabelas dinâmicas imprevisíveis nem a regras que podem mudar sem aviso relevante. Ele observa, compara e decide. Em vez de acumular milhas que podem perder valor, acumula opções.
Por outro lado, há um preço invisível: perda de status consistente. Benefícios como upgrades, prioridade e reconhecimento ainda são mais facilmente conquistados dentro de um único programa. A pergunta que fica é se esses privilégios ainda compensam a volatilidade do sistema. No fim, a resposta talvez seja menos emocional e mais estratégica.
Ser fiel hoje pode não significar exclusividade, mas inteligência. Talvez o viajante contemporâneo precise abandonar a ideia romântica de lealdade e adotar uma postura mais pragmática: usar os programas quando forem vantajosos, ignorá-los quando não forem e manter o controle sempre nas próprias mãos.
Porque, no cenário atual, a fidelidade cega não é recompensada.
Mas a flexibilidade, sim!
