Iphan notifica administração da Igreja da Graça após identificar falhas e “patologias” na conservação
Por Leonardo Almeida
Uma das primeiras igrejas do Brasil, sendo erguida antes mesmo da fundação de Salvador na primeira metade do século XV, a Igreja de Nossa Senhora da Graça, localizada na Avenida Princesa Leopoldina, foi alvo de uma vistoria no âmbito de uma força-tarefa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O ato resultou em uma notificação ao Mosteiro de São Bento da Bahia, responsável pela administração do prédio histórico, após a identificação de “patologias” na conservação.

Igreja da Graça, na Av. Princesa Leopoldina | Foto: Iphan
Em documento obtido pelo Bahia Notícias, o Iphan determinou que o Mosteiro preste esclarecimentos sobre o estado de conservação da Igreja da Graça. Além disso, a entidade solicitou que sejam realizadas as providências referentes à necessidade de manutenção do imóvel para evitar danos ao patrimônio cultural tombado.
A reportagem apurou que a notificação foi enviada no dia 31 de março neste ano, sendo estabelecido um prazo de 15 dias para que o Mosteiro se posicionasse em relação aos requerimentos do Iphan. Foi solicitado que um ofício fosse encaminhado à Defesa Civil de Salvador (Codesal) e ao Corpo de Bombeiros para a realização de uma nova vistoria no imóvel e manifestação sobre suas condições.
“Fica o Mosteiro de São Bento da Bahia, notificado a prestar esclarecimentos quanto ao atual estado de conservação do imóvel, tomando providências referente à necessidade de manutenção do imóvel em prol de evitar danos ao patrimônio cultural tombado. Recomenda-se, ainda, que sejam acionados os órgãos de prevenção de desastres e combate à incêndio e pânico para que também façam vistoria no imóvel e se manifestem, de acordo às suas competências institucionais”, escreveu o Iphan.
O Bahia Notícias também recebeu informações de que o Instituto realizou uma cobertura fotográfica do imóvel, sinalizando falhas em áreas internas e externas. Em relatório, a entidade destaca a ocorrência de infiltrações, além da ausência de telhas na cobertura da Igreja da Graça.
Veja imagens:



Fotos recolhidas do relatório do Iphan obtido pelo Bahia Notícias
O laudo também destaca a ausência de bens integrados que compõem o coro da igreja. O relatório indicou que alguns desses elementos do coro foram identificados armazenados em uma das clausuras, e sua recolocação é recomendada. O Iphan sinalizou que as fechadas “necessitam de pequenos reparos na pintura e tratamento de áreas com descascamento e biofilme”.
Confira:



Fotos recolhidas do relatório do Iphan obtido pelo Bahia Notícias
PATRIMÔNIO
Tombada pelo Iphan em 1938, a construção foi erguida por volta dos anos de 1535, sendo a primeira igreja de Salvador. No entanto, além do patrimônio em suas estruturas, o edifício também recebe um dos acervos mais valiosos da Bahia. Um exemplo são os restos mortais de Catarina Paraguaçu, um dos nomes mais importantes da história do país.

Túmulo de Catarina Paraguaçu na Igreja da Graça | Foto: Reprodução / Redes Sociais
A Igreja, inclusive, foi erguida a mando de Paraguaçu após o retorno de uma viagem do Caramuru à França. Uma reportagem do AratuOn conta que o historiador Zé Raimundo Lima, coordenador do Complexo Cultural da Igreja da Graça, revelou que Catarina teve um sonho com uma imagem, que seria de Nossa Senhora da Graça.
"Logo em seguida, após o sonho de Catarina, foi encontrada, num naufrágio na região Sul da Bahia, uma imagem de Nossa Senhora da Graça. Foi então que Catarina pediu que fosse erguida uma igreja. O terreno foi cedido por ela para a construção", disse o historiador.

Foto: Acervo Digital / Iphan
O edifício também recebe os restos mortais de Júlia Fetal, uma jovem assassinada pelo noivo por ciúmes em 1847, na Avenida Sete, sendo um reconhecido como 'o crime da bala de ouro', em 1847. O caso serviu também de inspiração para a novela "Espelho da Vida", da TV Globo.
Segundo a lenda, a bala era de ouro, feita do derretimento da aliança de noivado. Entretanto este relato não é verídico, a bala foi retirada em meados do século XX e foi confirmado que o material era de chumbo.
Voltando a falar sobre o acervo, a Igreja da Graça ainda tem um apanhado valioso de documentos, obras de arte, objetos como lavabos e madeiramento original, além de telas do baiano Manuel Lopes Rodrigues, um dos mais importantes pintores brasileiros do realismo, e peças artísticas do século XVIII.
