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Altas doses e uso sem indicação da Ivermectina podem causar danos nervosos e hepatite tóxica
Venda de remédios sem eficácia contra Covid cresceu até 10x| Foto: Jade Coelho

Integrante da lista de medicamentos do “kit Covid”, a Ivermectina pode causar danos graves no sistema nervoso, cardiovascular e gastrointestinal caso seja utilizada na dose incorreta, para finalidade errada e sem indicação médica.

 

O medicamento é indicado no tratamento de vários tipos de infestações por parasitas, como verminoses e piolhos, e apenas para isso, ressalta o farmacêutico e professor da UniFTC, Mauro José Bitencourt. “Não serve para quem tem a Covid-19 e muito menos para prevenir a doença”, alertou.

 

Se administrado sem indicação e em altas doses, o uso do antiparasitário pode intoxicar o paciente e causar danos cerebrais e hepatite tóxica, adverte Bitencourt e também o infectologista Igor Brandão.

 

O farmacêutico explica que todo medicamento tem dose mínima, máxima e a tóxica. “Aquela dose que causa um dano que torna o remédio inviável”, enfatizou.

 

A ivermectina está ao lado da cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina entre os remédios sugeridos pelo Ministério da Saúde, mas que não têm eficácia contra a infecção pelo coronavírus. Em um comunicado oficial publicado na quinta-feira (4), a farmacêutica Merck, também conhecida como MSD – responsável pela fabricação do medicamento -, disse que não há evidências de que a substância seja eficaz como medicação contra a Covid-19 (saiba mais aqui).

 

Em julho de 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), após prefeituras anunciarem a distribuição do remédio como alternativa para o “tratamento precoce” da Covid-19, fez o alerta de que o uso do composto não é recomendado para isso (lembre aqui).

 

DOSE LETAL

Todo medicamento, quando está sendo desenvolvido, é submetido a testes laboratoriais, clínicos e análises de diversos especialistas para que seja garantida a eficácia. É também a partir desse processo que são determinadas as doses mínima, máxima e letal, e ainda as contraindicações.

 

Um desses testes, explica o farmacêutico Mauro Bitencourt, é o chamado "DL 50", que é quando um medicamento mata metade da população estudada.

 

“Imagina que eu estou testando a ivermectina e quero identificar qual é a dose letal. Eu pego uma população de 100 ratos e vou aumentando a dose do remédio em cada um até chegar àquela dose que começa a matar os ratinhos”, explica. “Então a dose que matou por exemplo dois ratinhos é DL 2, e vou aumentando essa dose até chegar uma que mata metade da população estudada, que é a DL 50 daquele medicamento, todo remédios passa por esse teste”, exemplificou o professor

 

Segundo ele, no caso da ivermectina a dose letal é em torno de 50 miligramas por quilo.

 

O profissional destaca que o problema não está no remédio, mas no uso indevido dele. “Na dose usual e para o fim de eliminar parasitas é segura”, disse.

 

TESTES CLÍNICOS X VIABILIDADE REAL

Bitencourt explica que um estudo australiano identificou, em testes in vitro feitos em laboratórios, que em doses muito altas a ivermectina mataria o coronavírus. Só que a pesquisa também concluiu que o uso em humanos não é viável para esse fim. “Mesmo que tivesse alguma ação para Covid-19 seria uma dose tão elevada que o paciente ia morrer pela dose tóxica da ivermectina”, frisou.  

 

Para deixar mais fácil a compreensão o especialista comparou o remédio com uma outra substância que adentrou a rotina das pessoas na pandemia da Covid-19: o álcool 70%.

 

É um fato comprovado cientificamente, com experiências bem documentadas, que o álcool 70% é eficiente para eliminar vírus e bactérias. Mas nem por isso as pessoas devem consumi-lo. A indicação de uso é apenas para higiene das mãos, superfícies e objetos.

 

“A ivermectina mata coronavírus em laboratório, em teste feitos in vitro, assim como álcool a 70%, como todo mundo sabe e está altamente divulgado. Mata assim como mata bactéria. Mas serve para tratar Covid? Não. Se tomar não vai se intoxicar? Sim, e vai causar lesão hepática e neurológica”, exemplificou o professor.

 

VENDA SEM PRESCRIÇÃO

Por um período no ano passado, diante da alta procura durante a pandemia da Covid-19, a venda da ivermectina ficou controlada e só poderia ser feita com receita médica, que ficava retida nos estabelecimentos. Mas uma decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em setembro suspendeu a determinação.

 

Um levantamento de dados feito junto ao Conselho Federal de Farmácia (CFF) mostrou que a venda dos remédios do “kit Covid”, sem eficácia comprovada contra a doença, disparou em 2020. O antiparasitário ivermectina por exemplo cresceu em pelo menos quatro vezes. Os dados mostram que em 2019 foram vendidas 11.452.021 unidades, enquanto no ano passado esse número saltou para 53.818.621 (saiba mais aqui).

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