Antropóloga afirma que tráfico de órgãos no Brasil é crime consentido
Foto: Reprodução
O crime de venda de órgãos, no Brasil, é um crime consentido, segundo a antropóloga americana Nancy Scheper-Hughes, que estuda desde o começo da década de 90 o tráfico humano para a venda de órgãos. Em 1999, ela fundou a organização Organs Watch, que reúne dados sobre o tema. Em sua pesquisa, a antropóloga descobriu que as principais vítimas do tráfico de órgão são pessoas de comunidades pobres. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (ONU), todos os anos, 15 mil rins são vendidos no mercado negro mundial. “São pessoas em situação muito vulnerável, que precisam desesperadamente de dinheiro. Em alguns lugares, como no sul da Ásia, nas Filipinas e em favelas da América Central, a obrigação de vender um rim para salvar a família é passada de pai para mulher, depois para os filhos mais velhos e até para crianças. Os corpos dessas pessoas passam a ser como ‘bancos’”, explicou. Nancy começou sua pesquisa no Brasil em 1987, em Pernambuco, quando ouviu boatos sobre crianças sequestradas por estrangeiros que eram evisceradas e depois tinham seus corpos abandonados perto de estradas e hospitais. A partir daí, passou a colaborar com a polícia e com a Justiça de diversos países para a condenação de traficantes e médicos envolvidos, como por exemplo, na prisão de dois homens da alta patente militar, o oficial da reserva do Exército israelense Gedalya Tauber, e o capitão da reserva da PM de Pernambuco Ivan Bonifácio da Silva, investigados na Operação Bisturi da Polícia Federal, em dezembro de 2003.

Prisão do israelense Gedelya Tauber, acusado de chefiar o esquema de tráfico internacional de órgãos em Recife, preso na Itália em 2013 e extraditado para o brasil em agosto deste ano Foto: Divulgação / PF
Em entrevista concedida à Folha de SP, a antropóloga frisou que a justiça brasileira deve punir os médicos cirurgiões que praticam os crimes. As vítimas brasileiras, segundo ela, tinham conhecimento de que a venda de órgão era ilegal, mas que foram enganados em muitos pontos, no trato feito entre eles: Em quanto iam ganhar pelo rim, quanto tempo duraria a cirurgia, o quanto ela doía e se ela era segura. Ela revelou que muitos médicos e hospitais dizem que foram enganados, mas muitas vezes eles consentem com o que está acontecendo “Os cirurgiões são responsáveis, por lei, de saber de onde está vindo o órgão que eles estão transplantando: se ele é saudável, se ele tem procedência legal. A responsabilidade final é do cirurgião. Afinal, quem está segurando o bisturi?”, questionou. Segundo ela, a Polícia brasileira precisa atuar com mais agilidade para prender e condenar médicos e traficantes envolvidos em esquemas de tráfico de órgãos. “A polícia fez um bom trabalho no caso do Recife, mas ela também levou 25 anos para prender e processar os cirurgiões corruptos no famoso caso de Taubaté: Rui Sacramento, Pedro Torrecillas e Mariano Fiore Jr, que foram sentenciados à prisão por remover órgãos de pessoas que ainda não haviam tido morte cerebral e distribuí-los em hospitais particulares do país”, concluiu.
