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Marca Bahia Notícias Justiça

Entrevista

Luiz Gabriel Neves - Empreendedorismo Jurídico

Por Felipe Campos

Luiz Gabriel Neves - Empreendedorismo Jurídico
Bahia Notícias: Quase 80% dos estudantes de Direito preferem a carreira pública. Por que vocês optaram por empreender o próprio negócio assim que saíram da faculdade?
 
Luiz Gabriel Neves: Na minha sala poucos optaram por seguir a advocacia. A grande maioria dos estudantes de Direito é seduzida pela estabilidade da carreira pública. Boa parte optou por estudar para concursos públicos para magistratura, Ministério Público, advocacia pública, entre outros ramos públicos do Direito. Até mesmo em cargos de analistas processuais no Tribunal Regional do Trabalho, de técnico... A nossa opção de montar um escritório de advocacia foi pensando que, da mesma forma que aquele que se prepara para uma carreira pública desde o início da faculdade pode conseguir lograr êxito, aquele que opta por uma carreira privada, também irá conseguir, mas desde que se planeje desde o início. Então, nós fizemos estudo de mercado, pensamos quais áreas do Direito gostaríamos de explorar, e o que a gente precisaria fazer para conseguir sucesso, como os cursos que precisaríamos fazer. Visitamos escritórios em São Paulo, no Rio de Janeiro - grandes escritórios - vimos o formato e como o mercado se comporta hoje em dia, e a partir disso - e por uma questão íntima e pessoal - a gente optou pela carreira da advocacia.
 
BN: Você falou que visitou os escritórios em São Paulo, no Rio de Janeiro... Conte mais sobre esse preparo.
 
LGN:
A faculdade não prepara advogado. O curso é de Direito. Até no corpo de professores que tivemos, tínhamos poucos advogados. Nós tínhamos magistrados, promotores de Justiça, procuradores do Estado... Eram poucos os advogados, e não ensinam para a carreira de advocacia. É muito mais fácil eu sair com o conteúdo teórico, dogmático, que certamente em um concurso público será explorado, do que pensar em empreendedorismo: mercado, finanças, administração de escritório, planejamento, aluguel e diversas questões que o próprio mercado lhe exige. O primeiro ponto que a gente verificou é que é preciso ter conhecimento técnico e específico. A advocacia mudou. Não há mais bancas de advocacia explorando todas as áreas. Os escritórios que vêm dando certo na Bahia são os que se especializaram. A gente pensou qual área do Direito gostaríamos de explorar. Eu, por exemplo, atuo na parte criminal e o meu sócio na parte eleitoral.

 
BN: E o que os levou a escolher essas áreas de atuação?
 
LGN:
Desde o início da faculdade que eu tenho essa aptidão para advogar na área criminal. Meus estudos, os congressos que participei, tudo foi voltado para área criminal, como os diversos estágios que eu fiz em grandes escritórios em Salvador, foi sempre pensando na área criminal. Hermes Hilarião [sócio], por sua vez, tinha vontade de advogar na área eleitoral por questões familiares. Ele vem de uma família com herança política e tinha o desejo de trabalhar com a área. Ele se seduz muito por essa área. O Rodrigo Salazar [outro sócio] é um professor universitário, com longos anos de carreira. Ele sempre advogou entre a seara trabalhista e empresarial. Ele também visualizava a captação de clientes e a expertise oferecida para os clientes de forma diferenciada, mesmo que inicialmente tivéssemos que abrir mão de algumas fontes imediatas pensando a carreira em longo prazo visualizando o que ela nos pode proporcionar futuramente por oferecer um trabalho específico.
 
BN: É difícil concorrer em um mercado com nomes da advocacia já consolidados?
 

LGN: O primeiro ponto que o jovem advogado tem que compreender é que a estrutura da advocacia hoje está mais empresarial, mas, na minha visão, não perdeu algumas essências. Entre elas, a de que advocacia é uma profissão a médio, ou longo prazo, ou seja, não pode o jovem advogado pensar que vai montar um escritório, por maior que seja o investimento, e em pouco tempo depois será consagrado como grande advogado. Segundo, é preciso pontuar que o mercado aponta que cada vez mais alguns clientes estão procurando escritórios de médio porte, e neste fator aparecem as oportunidades aos jovens advogados. Isso porque, muitas vezes, pela demanda de trabalho que um escritório de grande porte absorve e a quantidade de advogados que está ali envolvido, a prestação de serviços não é toda especializada. Vale dizer, o atendimento é feito pelo sócio que aparece na mídia dando entrevistas nos principais canais de comunicação, em revistas jurídicas, que tem artigos publicados, mas o pós-atendimento fica a cargo de outro advogado do escritório: o acompanhamento em audiência, a elaboração das petições, o contato telefônico...  A advocacia criminal e eleitoral, como praticamos, requer um atendimento personalizado e alguns dos nossos clientes confessaram que tiverem receio de contratar um grande escritório baiano pela quantidade de pessoas que teriam conhecimento da sua causa, pelo receio do trabalho não ser desenvolvido completamente pelo advogado que lhe dedicou o atendimento inicial. Mas eu acho que a advocacia é você conseguir transformar a sua rede de amigos em rede de contatos. É conseguir traduzir a confiança que você tem dessas fontes em confiança jurídica. Por exemplo, quando você tem um problema de saúde, e você tem amigos que são médicos, em alguns você não vai confiar por diversas razões. Se o cara é irresponsável com essas questões, você pensa: 'eu não vou confiar neste cara por aquele fator. Eu não vou confiar em um médico dessa natureza, que tem esse comportamento'. Então, na carreira jurídica isso também é válido. Não há como confiar, em meu modo de ver, em um profissional que foi um péssimo estudante.
 


BN: Atualmente a categoria reclama do baixo salário para se começar a carreira. Isso também o motivou a montar o próprio escritório?
 
LGN: Essa questão do salário é realmente polêmica. Eu concordo que os salários praticados estão muito abaixo do que realmente se deveria pagar. O Rodrigo foi paraninfo da nossa turma, e que agora é meu sócio, diz que hoje em dia nós temos uma sociedade jurídica e que é muito difícil você não ter alguém da família ligada ao Direito. Nós tornamos a sociedade baiana em uma sociedade jurídica, ou seja, o mercado está encharcado. E todo mundo pensa em estudar Direito, em boa parte almejando a carreira pública. E o salário é baixo por essa razão, pela saturação do mercado. E nós pensamos em montar o escritório, dentre outros motivos, por a remuneração inicial ser baixa. Embora, eu quando me formei, tive duas propostas que superavam, de certa forma, o que comumente se paga ao um recém-formado e que era interessante. Mas a gente acreditava em um projeto pensado a médio e longo prazo. A gente constrói um patrimônio próprio, não só de uma marca, mas também intelectual, de uma marca ou de um serviço a ser prestado, que em curto prazo pode não ser satisfatório, mas que a médio e longo prazo se terá essas respostas. E como foi que a gente pensou para obter respostas mais curtas? Pode ser uma dúvida de quem está pensando em advogar. A gente pensou a advocacia desde o início da faculdade. A gente já saiu sabendo onde a gente queria se instalar, quais áreas a gente queria explorar, o que a gente deveria ou não fazer, como funcionaria o escritório, quais meios tecnológicos a gente deveria utilizar. Então, a gente já saiu sabendo coisas, como o valor médio de aluguel de espaço, porque a gente se preparou ainda na faculdade.
 
BN: Você recomendaria aos estudantes de Direito que empreendam as suas próprias atividades e quais seriam as suas dicas?

 
LGN: Recomendo. Tem nichos que ainda não estão sendo explorados, como por exemplo - não é a minha área - Direito Farmacêutico. Eu andei pesquisando e vi que é uma área que movimenta milhões e que ainda não é explorado dentro da Bahia. Show Business, por exemplo, em Salvador, muitas bandas produzem valores significativos e eu não conheço um advogado que ofereça serviços só em Show Business. E recomendo porque é um mercado que você pode trabalhar com ética, com dedicação, com honestidade, com compromisso com clientes, se mantendo expressivo, você consegue ter ganhos, sim, tanto a médio e longo prazo. E isso vai aumentando de forma gradativa à medida que vai tendo resultados positivos. Outra dica que eu poderia dar é a de planejar o seu futuro e a instalação do escritório de advocacia. Esses pontos, de planejar o seu futuro com responsabilidade, se especializando naquilo que você quer empreender, sem dúvida é uma fórmula que pode dar sucesso. Apesar de não haver fórmulas exatas. A fórmula é você planejar: o que eu quero, aonde eu quero e como eu quero.