A questão racial na esquerda brasileira
Há um desafio histórico que a esquerda brasileira ainda precisa enfrentar com honestidade: compreender que não basta defender pautas sociais sem confrontar profundamente a estrutura racial que organiza o Brasil. E essa reflexão não deve ser feita como ataque, ressentimento ou tentativa de divisão, mas como necessidade política, ética e estratégica. Porque não existe transformação radical possível em um país construído sobre a escravidão sem que o enfrentamento ao racismo deixe de ser um tema periférico e passe a ocupar o centro do projeto político.
A esquerda brasileira foi fundamental em muitas conquistas populares, sindicais, democráticas e sociais. Seria intelectualmente desonesto ignorar isso. Parte relevante da esquerda brasileira aliou-se aos movimentos negros em marcos importantes para a aprovação da agenda de políticas de ações afirmativas no Legislativo federal, implementadas pelas universidades e nos concursos públicos. Mas também é verdade que, durante muito tempo, parte significativa dessa esquerda tratou a questão racial como uma contradição secundária, quase sempre subordinada à ideia de que a luta de classes, por si só, resolveria automaticamente o racismo. E a história aponta que não. Afinal, apesar desses avanços, a população negra ainda é minorizada nos espaços decisórios de poder.
O problema não está apenas no discurso. Está na forma como os espaços de poder, formulação e legitimidade continuam sendo organizados. Porque existe uma diferença profunda entre defender a população negra e construir um projeto político efetivamente atravessado pela experiência negra. Uma coisa é falar sobre racismo; outra é permitir que corpos negros definam prioridades, formulem estratégias e ocupem centralidade sem tutela política ou intelectual.
Parte da esquerda brasileira, especialmente a não negra, ainda opera dentro de uma lógica em que o antirracismo aparece como linguagem pública, mas não necessariamente como reorganização concreta de poder. E talvez essa seja uma das contradições mais difíceis de enfrentar. Porque é confortável defender igualdade sem abrir mão da posição histórica de mediação, interpretação e protagonismo. É confortável marchar ao lado do povo negro sem necessariamente aceitar que o povo negro conduza os caminhos dessa marcha.
Não se trata de negar alianças. Ao contrário. Nenhum processo de transformação estrutural acontecerá sem construção coletiva. O problema surge quando a solidariedade não suporta perder centralidade. Quando a escuta existe apenas até o momento em que ela exige redistribuição real de espaço, visibilidade e direção política. E isso não aparece apenas nas grandes estruturas partidárias. Está presente nas universidades, nos movimentos sociais, nos coletivos culturais, nos sindicatos e até mesmo nos ambientes onde o discurso antirracista é mais sofisticado.
A questão racial no Brasil não é um tema identitário. Ela organiza o acesso à cidade, à segurança, à renda, ao afeto, à educação, à saúde e até ao direito de existir sem suspeição permanente. O racismo não é um efeito colateral do capitalismo brasileiro; ele é uma das engrenagens que sustentam sua permanência histórica. Por isso, quando a esquerda trata o combate ao racismo como pauta complementar, ela enfraquece sua própria capacidade de interpretar a realidade brasileira.
E talvez esteja aí uma reflexão necessária: muitas vezes, a esquerda brasileira aprendeu a performar radicalidade sem necessariamente romper com os próprios lugares de conforto. Existe uma estética da resistência que produz símbolos importantes, mas que nem sempre produz deslocamentos concretos. Porque viver o racismo não é participar de um ato político em determinado dia; é habitar diariamente uma vulnerabilidade que não pode ser desligada ao final da manifestação.
Para a população negra, o medo não é conjuntural. Ele estrutura trajetos, linguagem, comportamento, aparência e sobrevivência. O avanço da extrema direita, do autoritarismo e do conservadorismo não representa apenas divergência ideológica. Representa aumento concreto do risco sobre determinados corpos. E essa dimensão nem sempre é compreendida em sua profundidade por setores que conseguem, após o debate político, retornar a espaços mais protegidos de existência.
Essa crítica não deve produzir afastamento, mas maturidade política. Porque uma esquerda verdadeiramente comprometida com transformação social precisa compreender que antirracismo não é solidariedade ocasional. É revisão permanente de estruturas, práticas e privilégios. É entender que presença não significa necessariamente compromisso e que representatividade sem redistribuição de poder corre o risco de se tornar apenas um símbolo vazio.
O movimento negro brasileiro há décadas produz teoria, formulação política, tecnologia social e leitura sofisticada do país. Lélia Gonzalez já denunciava como o racismo latino-americano operava pela negação de si mesmo. Clóvis Moura demonstrava que a resistência negra nunca foi periférica na formação política brasileira. Beatriz Nascimento ensinava que o quilombo era mais do que território: era projeto político de reorganização da vida. E Abdias do Nascimento insistia que democracia racial sem poder negro era apenas mito funcional à manutenção das desigualdades.
Talvez a grande tarefa da esquerda brasileira hoje seja compreender que não existe futuro democrático real sem centralidade negra na formulação do país. Não como concessão moral, nem como gesto simbólico de inclusão, mas porque a população negra sempre esteve na linha de frente da sobrevivência coletiva brasileira. Foi ela quem sustentou o trabalho, a cultura, a resistência e a capacidade histórica deste país de continuar existindo apesar de suas violências estruturais.
A autocrítica necessária não é para destruir a esquerda. É para aprofundá-la. Porque, no fim, uma esquerda que não enfrenta honestamente as estruturas raciais do Brasil corre o risco de repetir, dentro de si, as mesmas hierarquias que diz combater fora.
*Carlos Alberto Silva Junior é advogado, especialista em juvenicídio da população negra, mestre em políticas públicas em saúde e integrante da executiva nacional da Unegro.
*Daniele Costa é cientista política, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestra em Ciência Política (UFBA).
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