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Guerra na Ucrânia, Paulinha Abelha e eleições: o inimigo é o patriarcado

Por Firmiane Venâncio

Guerra na Ucrânia, Paulinha Abelha e eleições: o inimigo é o patriarcado
Foto: Arquivo Pessoal

 

A pergunta, que no modo afirmativo, talvez tenha se tornado um clichê, na teoria feminista constitui importante ponto de partida para análise da posição das mulheres nas relações sociais e espaços de poder. Assim, diante de qualquer fato histórico ou cotidiano, notícia ou dado divulgado, o primeiro exercício a se fazer, seguindo o método da jurista estadunidense  Katharine Barlett é questionar: onde estão as mulheres?

 

Muito embora esse método tenha sido pensado para refletir sobre o lugar das mulheres no Direito, trata-se de um instrumento útil de avaliação sobre equidade em diversos campos do conhecimento. É como se colocássemos as chamadas lentes de gênero, ao fazermos, por exemplo, a leitura das notícias mais veiculadas num período. Vale aqui um teste.

 

Na última semana, os noticiários internacionais, nacionais e regionais dividiram seus espaços entre a guerra na Ucrânia, a partida prematura de uma jovem artista nordestina, a definição das candidaturas do grupo da situação ao governo do estado e senado, feminicídios tentados e consumados. 

 

Sobre o primeiro assunto, guerra na Ucrânia, muito embora saibamos que historicamente as guerras signifiquem para mulheres de territórios invadidos, violência sexual perpetuada por gerações (pela gravidez que dela decorre), o debate em torno das mulheres ficou a cargo de ucranianas empunhando armas tornarem-se a maior busca em sites pornôs.

 

A constituição dos corpos das mulheres como objeto de posse e desejo numa sociedade erguida sob o patriarcado também fez vítimas aqui pelo Brasil. A morte da cantora sergipana Paula Abelha revelou que mais uma vez a imposição de um padrão estético feminino assimilado como belo, tem levado mulheres cada vez mais jovens a um desfecho fatal.

 

Nesse caso, assim como nas já incontáveis situações de feminicídio tentado ou consumado, é importante lembrar como a percepção da população brasileira sobre o lugar/condição das mulheres tem se mostrado distorcida ao culpabilizar a vítima. Pesquisa recente realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e Locomotivas, com apoio do Fundo Canadá, revela que 65% das pessoas entrevistadas consideram que o homem que comete feminicídio é o responsável pelo crime, mas 1 em cada 3 pessoas também culpa a mulher pelo feminicídio.

 

É preciso que se diga então, que o querer das mulheres, em toda diversidade que essa categoria traduz,  foi construído em torno de um paradigma contra o qual temos nos insurgido há mais de meio século e explica não somente onde estamos ou queremos estar, como também as nossas ausências eloquentes.

 

Neste particular, o debate das últimas semanas em torno do cenário eleitoral na Bahia para 2022, mais uma vez, consegue equalizar situação e oposição num ponto: a secundarização do papel das mulheres na definição dos destinos da política baiana. Quadro que se agrava quando falamos de mulheres negras. 

 

Então, será mesmo que  lugar de mulher é onde ela quiser? É urgente atualizarmos essa reflexão, para não cairmos na armadilha da meritocracia de gênero na luta pela equidade. A questão aqui, definitivamente, não é apenas de querer, mas de uma transformação profunda na percepção social sobre nossa existência e nossos corpos.

 

Constituir o maior contingente populacional desse país ainda não tem sido suficiente para assegurar às mulheres, a justiça histórica de disputar os espaços, de construir as próprias narrativas e comandar os destinos próprios e coletivos. E essa luta precisa ser travada  por  todos e todas que irão colher as imensas contribuições que a nossa atuação pode promover onde quer que possamos plenamente estar.

 

*Firmiane Venâncio é subsefensora pública geral da Bahia e doutoranda em estudos interdisciplinares sobre mulheres, gênero e feminismo pela UFBA

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias