Suplente de vereador – A (quase) outra versão
Waldir Santos
Advogado da União, Conselheiro da OAB e Professor. (www.concurseiros.com.br)
Suplente de vereador – A (quase) outra versão
Fui diplomado suplente de vereador ano passado, em minha pequena São Filipe - BA (é essa mesma, que chamam de São Felipe) e me incomodo com a generalização feita pela mídia a respeito do tema. Após o resultado, em que tive mais votos que alguns vereadores empossados, passei a ocupar meu tempo livre com o lançamento de um livro, com viagens para fazer palestras, com o cargo de Diretor da OAB, e com algumas causas sociais do meu interesse. Não acompanhei o desenrolar da aprovação da PEC que tem sido tão falada. Percebo, porém, que a crítica fácil, com o presumível apoio do povo, tem contribuído para imbecilizar a discussão sobre o tema.
Meu avô foi vereador 3 vezes num tempo em que não havia remuneração, essa invenção de brasileiros. Remunerar quem trabalha dez minutos por semana, na grande maioria das cidades, quando muito, é o pior dos absurdos, e quanto a isso nada se fala. Dizem os mais velhos, e isso eu percebo pessoalmente, que o nível, a ética e a qualidade das intenções dos não remunerados eram muito superiores. Afirmar que a falta de remuneração aumentaria a corrupção é desconsiderar a existência de tantas entidades sem fins lucrativos que praticam o bem sem recursos públicos, ou pensar que um corrupto se contentaria com salário. Certamente muita gente boa que hoje “não se mete em política”, por achá-la uma coisa suja, ajudaria a purificar os legislativos, pois passaria a ter chance, já que a grande maioria dos atuais vereadores perderia o interesse pelo cargo.
Afirmei, por escrito, em dois lugares diferentes, antes do registro da candidatura, que se eu coligasse com o grupo “A” seria eleito com metade dos votos, e com o grupo “B” seria eleito com 35% a menos dos votos que imaginava ter. Errei por dez votos. Fiquei onde estava, e na minha primeira candidatura percebi que o voto consciente é uma realidade, capaz de eleger 2 vereadores em uma cidade de 20 mil habitantes (o outro perdeu por um voto). Mesmo um considerável número de vereadores, seus familiares e equipes, tendo espalhado na zona rural, nas duas últimas semanas de campanha, que eu, por ser do Partido Verde (eles diziam IBAMA), iria fechar as casas de farinha para não queimarem lenha, tive quase 5 % dos votos. Recebi também sinceros telefones de pessoas do campo, dizendo que não poderiam mais votar em mim caso eu “não saísse do Ibama”. E não votaram, mesmo eu nunca tendo entrado no Ibama.
Tive mais votos do que esperava, sem comprar nenhum deles, confirmando a impressão de que a população quer mudança, ainda que ela se dê de forma lenta. Os amigos mais experientes, antigos compradores de votos, diziam que sem “ajudar o povo” eu não conseguiria 1 % dos votos. O que atrapalhou, na verdade, como previsto, foi a legenda partidária.
O que eu considero grave na atual exposição do tema é que, semelhantemente ao que a grande mídia começou a fazer durante a ditadura militar, estão sendo confirmados nos mesmos sacos de gatos pessoas que não têm unhas grandes. Isso confirma para a população que são todos ladrões, que não adianta escolher, e que sempre vai ficar tudo na mesma. Ótimo para os ladrões, péssimo para o povo.
A questão que deveria ser tratada permanentemente pela mídia é que em câmaras de vereadores onde a atividade é quase honorífica não deveria haver salário, ou quando muito, um salário-mínimo para renovar o paletó e pagar o transporte. Torço para que os suplentes não tomem posse antes da próxima eleição, e para que as câmaras não repitam o absurdo da Assembleia Legislativa da Bahia, que garantiu a ex-deputados servidores públicos o salário de deputado eternamente.
Gosto de ver a imprensa lutar contra absurdos como o aumento do número de vereadores, que já são muitos, mas torço para que ela passe a colaborar mais na conscientização do povo. Por que as câmaras de vereadores no mundo inteiro funcionam sem salários, e aqui não se fala disso?