A síndrome do confeiteiro

Estou ficando de saco cheio com esse negocio de "fair play". Essa historinha de ser legal e entender tudo, tomar tapa na cara e dar a outra face, ou acontece em filme de Hollywood ou então, amigo, em novela de televisão. Porque na vida real, vacilou, nego, toma até suas calças. Aliás, sem perder o rumo da prosa: ô música chata essa das Empreguetes. Que coisa mais tosca e irritante ouvir três mulheres cantando num carioquês meloso e modista, uma música que, de tão ruim, tem momentos que você não entende o que está sendo cantado. Um verdadeiro clássico da canção depressivo-suicida (risos!) e ter que ouvir isso como se fosse a coisa mais legal do mundo. Me deixe, viu!
Mas, enfim, por um acaso alguém além da minha pessoa está percebendo o espaço que a música da baiana vem perdendo – mais ainda – ultimamente? Será que até agora ninguém notou que até o arrocha mudou de dono e de estado? Pois é isso mesmo. Enquanto em terras baianas um monte de confeiteiros fica brigando pela fatia maior do bolo, os sertanejos, agora em uma nova roupagem, vêm, aos poucos, tomando um espaço em muito conquistado pelo nossa música.
Olha, não estou falando nenhuma bobagem não. Em tudo quanto é lugar tem um sertanejo tocando. O mais tragicômico de tudo é que usando os elementos percussivos musicais da musica baiana – congas, bongo, marcação, timbal –, e tocando do jeito que o axé toca, tendo como forma de diferenciar, uma sanfona que entra em cena pra dizer que o ritmo é o sertanejo universitário. Ou seja, pra ser sertanejo é só colocar a sanfona. (risos!)
Mas os caras (sertanejos) estão ficando tão à vontade, mas tão à vontade, que até do termo arrocha, termo criado na região de Candeias (Região Metropolitana de Salvador) os caras tomaram posse. Só que, ao invés de manterem a batida original que vem de um órgão eletrônico que faz a base da música, enfiaram uma bateria acústica e uma percussão. E mesmo sabendo que já existia um formato original, fingiram não saber, jogaram o ritmo na rua, e já foi. Prova maior disso é a coletânea da gravadora Som Livre de Arrocha, no qual nem sombra de um representante baiano no CD.
E não venha ninguém me dizer que a grande mídia de fora não sabia do ritmo, pois no mais recente festival de verão, creio eu que na quarta-feira, quando o maior fenômeno da música baiana dos últimos tempos, o cantor Pablo subiu ao palco e tirou todo o público que iria assistir ao show principal, toda a cúpula que produziu o evento ficou estarrecida e querendo saber o que estava acontecendo. O porquê daquela multidão ir atrás daquele cantor.
Acho eu, inclusive, que a partir daí, que algum esperto que veio de fora resolveu “criar” o arrocha e dizer que era obra dos sertanejos. Agora, voltando ao principal, faço uma pergunta: por que isso esta acontecendo? Simples. Por que aqui na Bahia todo mundo só olha para o umbigo. Isso mesmo, aqui os principais ditados são: cada um por si e Deus por todos e farinha pouca meu pirão primeiro.
Acho um absurdo a forma fácil e rápida com que estamos perdendo espaço no mercado. Não que sejamos os reis da cocada, ou coisa assim, mas a nossa falta de entendimento, os interesses pessoais, e até a dita "síndrome do confeiteiro" - a que diminui a fatia do bolo – (risos!) tem feito com que espaços tradicionalmente nossos comecem a ser divididos e/ou tomados de forma total por todo tipo de música universitária que não a nossa (risos!).
E sabe por onde passa tudo isso? Pela renovação da música baiana. Isso mesmo. A falta de vontade que temos de abrir as portas para o novo, tem feito com que toda a sorte de novidade que apareça venha de fora. Somente para ilustrar, se conta nas pontas dos dedos as novas apostas da nossa música. Enquanto isso, as duplas sertanejas que nascem todo o dia Brasil a fora, tocam juntas, fazem DVD juntas, quem está em cima puxa o de baixo, ou seja, os caras podem até brigar, mas o fazem somente depois que dominam o território.
Por isso, sou totalmente a favor da renovação nem que seja a base de fórceps. Precisamos agora mais do que nunca defender os interesses comuns e esquecer um pouco os pessoais. Quem está no topo pode muito bem ajudar a quem está chegando. Não será somente espaço puro e simples que perderemos, mas empregos, trabalho e renda, tudo isso que vem junto com o sucesso de um mercado estará sendo colocado em risco, e tudo isso por quê? Pelo medo de dividir, pelo medo de partilhar.
E pra começar a campanha em favor da música da Bahia seja ela qual for já tenho o meu novo hashtag: #pablonaglobo.
