Opinião: Flávio Bolsonaro "rascunhou" repetir Aécio Neves em 2014, mas recuou
Por Fernando Duarte
O pragmatismo de Valdemar Costa Neto e do PL, dessa vez, devem ter sido decisivos para que Flávio Bolsonaro recuasse da constrangedora ideia de questionar a legitimidade das urnas no último domingo (25). Menos de 24h depois de sugerir que não reconheceria a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, o Bolsonaro reserva não apenas recuou, como também tentou se autoproclamar "o líder da oposição". Parece um filme repetido com algumas pequenas mudanças.
Em 2014, o PSDB e Aécio Neves questionaram a reeleição de Dilma Rousseff (PT), então o roteiro que Flávio rascunhou era conhecido. A história parecia se repetir, nesse caso como comédia. Todavia, antes que o riso fosse disseminado, Bolsonaro reserva parece ter "engolido a seco" a derrota. Evitou, assim, postergar a chance de ser jogado aos leões pelos políticos profissionais que o cercavam. Porém, tal qual Aécio, Flávio também tem uma perspectiva policial à frente, o que amplia as semelhanças entre os dois casos.
Para o tucano mineiro, o destino na esfera jurídica-policial foi favorável. Responsável indireto pela fagulha de questionamento das urnas eletrônicas, Aécio ficou no ostracismo na segunda metade do mandato de senador e, em 2018, voltou a ser deputado federal, num raquítico PSDB. Agora, em 2026, ensaiou voltar a ser governador de Minas, mudou de planos para ser candidato ao Senado e amargou a sétima posição na corrida eleitoral. Aécio se tornou um fantasma ainda vivo da própria história, após 40 anos de sucessivos mandatos.
No caso de Flávio Bolsonaro, a partir de fevereiro ele deixa de ter cargo eletivo depois de 24 anos herdando votos do pai ("ele é só um sobrenome", parafraseando o senador Otto Alencar). Bem menos tempo do que Aécio. A comparação chega a ser injusta com o tucano, pois, apesar dos pesares, ele tinha muito mais consistência política do que o agora derrotado no segundo turno. E ela se limita ao fato de ambos tentarem ser maiores do que a soberania das urnas. Mesmo porque entre o mineiro e o carioca, o primeiro ainda reúne qualidades não identificadas no segundo para "comandar a oposição" - algo que nem Aécio conseguiu pós-2014.
PASSAPORTES APREENDIDOS
Quem sugeriu uma fuga de Flávio Bolsonaro em caso de derrota foi o irmão, Eduardo, radicado nos EUA após ele próprio fugir do Brasil. Ao somar com o não reconhecimento do resultado da eleição, o Bolsonaro reserva tinha razões de sobra para seguir o conselho.
A apreensão do passaporte no dia seguinte ao pleito, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, contribui - e muito - para o vitimismo que cerca o bolsonarismo (contém ironia). A medida, se baseada em convicções "à la" Moro, deve ser questionada. Entretanto, o histórico do entorno da cúpula golpista sugere preocupação, é claro. Ainda assim, "quem não deve, não teme", já diriam os mais velhos.
