A boiada estudantil com a conclusão do ensino médio com notas mais baixas no Enem
Por Fernando Duarte
Comecei o ano ainda mais revoltado com a situação do ensino público na Bahia. Não porque ainda inexiste qualquer tentativa de retomar as aulas do ano letivo que muitos fingem ter acontecido, nesse grande pacto de mediocridade. É que, como se não bastasse isso, agora a conclusão do ensino médio utilizando a nota do Enem ficou ainda mais facilitada. Pelo menos é o que uma portaria da Secretaria Estadual de Educação (SEC) autorizou - tudo, claro, absolutamente dentro da legalidade. Mas e a moralidade?
Desde 2012 é possível utilizar o exame como certificado de conclusão do ensino médio por maiores de 18 anos. É parte da falsa premissa de que uma prova é capaz de certificar se um estudante está apto ou não para pôr fim a uma parte importante do currículo escolar. Para quem evadiu da escola há muito tempo, por razões diversas, não só é válido como também importante. Se torna uma ferramenta relevante para o início de um curso superior, por exemplo. O problema não são esses casos. A questão é quando envolve estudantes que já são vítimas de um ensino de qualidade duvidosa e que podem acelerar esse processo de “emburrecimento” de longo prazo da sociedade.
E a crítica aqui não é direcionada aos profissionais da educação. Eles são vítimas desse sistema tal qual os estudantes. A diferença básica é que eles já têm algum tipo de formação, algo que está sendo claramente negado aos alunos por incompetência do ensino público. Não que a rede privada não passe por situações similares. Eu mesmo tenho amigos que aceleraram a conclusão do ensino médio com o Enem após aprovação no vestibular. Só que, ao invés de admitir o problema, a portaria da Secretaria Estadual de Educação empurra a sujeira para debaixo do tapete, como se isso fosse resolver algum tipo de problema.
A suspensão das aulas em 2020 trará consequências extremamente graves para uma geração de estudantes. No caso dos concluintes do ensino médio, ela será ainda pior. Além do desestímulo ao ingresso em um curso superior, agora os alunos podem se dar por “formados” com a nota do Enem mais baixa e apenas sem zerar a redação. E a decisão pode ser tomada agora, quando a prova acontece, diferente do passado, quando havia a exigência desse pedido de certificação no ato da inscrição. O sistema decidiu nivelar ainda mais por baixo a qualidade do ensino e nós, sociedade, ficaremos inertes para mais esse desmonte da escola pública.
A portaria da SEC vai no padrão permitido pelo próprio Ministério da Educação. Não é nada ilegal, frisemos. Inclusive, a medida vai provocar um “desafogamento” das salas de aula de 2021, quando haverá uma migração natural de alunos da rede privada para a rede pública após a crise econômica da pandemia do novo coronavírus. A medida pode até ser considerada pouco errática. Mas até quando vamos fingir que aprovar estudantes para concluir o ensino médio é algo correto? É a boiada passando...
Este texto integra o comentário desta terça-feira (5) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para a rádio A Tarde FM. O comentário pode ser acompanhado também nas principais plataformas de streaming: Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts e TuneIn.
