Jogador baiano transforma sonho pessoal em projeto para dar visibilidade ao futsal de atletas com nanismo
Por Thiago Tolentino
Existem histórias em que o futsal começa muito antes de a bola rolar. No caso de Gabriel Cerqueira, atleta baiano com nanismo, o esporte é um espaço de identidade, resistência e construção coletiva.
Indo além dos desafios fora das quatro linhas, ele encontrou nas quadras uma forma de se afirmar e, acima de tudo, representar outras pessoas com nanismo, abrindo caminhos para quem busca oportunidades no paradesporto.
"Sonhador e determinado", como ele próprio se define em entrevista ao Bahia Notícias, Gabriel construiu sua trajetória superando barreiras que, segundo ele, são impostas pela própria sociedade. Desde a infância, o futebol teve papel central em sua vida.
"Desde criança, o esporte sempre foi muito importante para mim. É na quadra e no campo que eu consigo me encontrar e ser eu de verdade", afirmou o jogador.
Como atleta de alto rendimento, Gabriel carrega a responsabilidade de dar visibilidade à causa. Seu principal objetivo no momento é consolidar seu espaço na Seleção Brasileira e disputar a Copa do Mundo da modalidade, prevista para acontecer no Marrocos.
No ano passado, o ala integrou o elenco brasileiro que conquistou o terceiro lugar na Copa América, disputada no Paraguai. Agora, o foco está em buscar o topo do mundo.
"Meu maior sonho é continuar representando a Seleção e conquistar a Copa do Mundo no Marrocos. Se tudo der certo, estarei lá este ano. Embalados pelo pódio na Copa América, vamos em busca da tão sonhada taça mundial", declarou.

Foto: Instagram / @gbonfim.14
O NASCIMENTO DA UNIÃO BAIANA
A trajetória individual de Gabriel ganhou um novo capítulo há cerca de três meses, quando ele e seu pai deram vida à União Baiana, primeira equipe do estado formada exclusivamente por atletas com nanismo. O sonho pessoal se transformou em um projeto institucional de impacto nacional.

Foto: Divulgação
Mesmo com pouco tempo de estrada, a União Baiana já é uma realidade competitiva. Com o apoio familiar e o auxílio do Governo do Estado da Bahia, o time viajou ao Rio de Janeiro para disputar a Copa do Brasil de Pessoas com Nanismo e surpreendeu ao conquistar a medalha de bronze logo na estreia.
“Com muito esforço e a ajuda do Governo do Estado, tivemos a oportunidade de representar nossa bandeira na primeira competição nacional. Voltar para casa com o terceiro lugar tornou o início de tudo isso ainda mais especial”, relembrou Gabriel.
Atualmente, a equipe conta com cinco atletas da Bahia, enquanto o restante do elenco é composto por jogadores apoiadores espalhados por outros estados. O plano da diretoria é atrair novos talentos locais para territorializar o clube e transformá-lo em uma referência nacional de futsal inclusivo, incluindo metas para estabelecer uma sede própria em Salvador.
BUSCA POR PATROCÍNIO
Apesar do início promissor, Gabriel reconhece que o projeto enfrenta sérios obstáculos financeiros. A principal dificuldade é a escassez de patrocínio e de incentivo comercial. Para o atleta, muitos projetos inclusivos no Brasil sobrevivem apenas pela "força de vontade" dos envolvidos, sem uma estrutura sólida.
Para mudar esse cenário e profissionalizar a gestão, a União Baiana já tirou CNPJ e está em processo avançado de federação. No entanto, o preconceito velado e a falta de informação ainda são adversários duros.
"Ainda existe um desconhecimento muito grande. Muitas pessoas sequer imaginam que existem atletas com nanismo treinando, competindo e representando o estado com dedicação, disciplina e talento de alto nível", desabafou.
Gabriel reforça que o investimento no paradesporto não traz apenas retornos de marca, mas cumpre um papel social fundamental.
"Quando existe patrocínio, os atletas ganham oportunidades e o esporte inclusivo ganha voz. Esse incentivo contribui diretamente para a transformação social. Queremos que a União Baiana seja uma referência para as futuras gerações, para que crianças com nanismo cresçam sabendo que elas podem competir, conquistar objetivos e viver o esporte de forma digna e profissional", concluiu.
