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Futebol pode dar exemplo para sociedade de como tratar racismo, diz diretor de observatório
Foto: Matheus Amorim / FEC

“Stop racism”. A mensagem, direta, foi vista nesta quinta-feira (5) em mosaico feito pela torcida do Fortaleza no Castelão (veja aqui), antes do duelo contra o River Plate, pela quarta rodada do Grupo F da Libertadores. Ela pede o fim do racismo, evidenciado durante as competições sul-americanas de futebol deste ano. Foram registrados casos em 2022 em partidas envolvendo seis equipes brasileiras: Fluminense, Flamengo, RB Bragantino, Corinthians, Palmeiras e Fortaleza. 

 

O problema não é novidade, e a Conmebol, entidade responsável por organizar Libertadores e Copa Sul-Americana, prometeu endurecer as penalidades contra o racismo e “projetar e implementar novos programas e ações que visem banir definitivamente este problema do futebol sul-americano” (lembre aqui). 

 

Na visão de Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, essa é a oportunidade de “dar o exemplo para a sociedade de como tratar casos de racismo”. 

 

“Estamos vivendo um momento em que temos um discurso de ódio muito forte por parte de diversas autoridades, não só no Brasil, que acabam dando uma certa ‘permissão’ para que as pessoas sejam racistas. O futebol não pode permitir esse retrocesso”, afirmou, em entrevista ao Bahia Notícias.

 

Nesta sexta-feira (6), o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o baiano Ednaldo Rodrigues, enviou um documento à Conmebol com a proposta de punição esportiva aos clubes em casos de racismo. O dirigente da entidade brasileira solicita a perda de pontos aos times cujos torcedores se envolveram em atos racistas em jogos da Libertadores e Copa Sul-Americana.

 

Todos os casos foram registrados em partidas de equipes de outros países contra brasileiros. Na partida entre River Plate e Fortaleza na Argentina, no dia 13 de abril, por exemplo, um torcedor atirou uma banana na direção dos torcedores do Leão do Pici. Segundo o jornal Clarín, o autor do ato, Gustavo Sebastián Gómez, foi afastado dos estádios de Buenos Aires por quatro anos.

 

O episódio que gerou maior indignação foi o que ocorreu na partida entre Corinthians e Boca Juniors, disputada na Arena Corinthians, no dia 26 de abril, pela terceira rodada da Libertadores. Na ocasião, um torcedor argentino foi preso após imitar um macaco e fazer gestos racistas na direção dos corintianos. Contudo, o próprio consulado argentino pagou uma fiança de R$ 3 mil (saiba mais aqui) e ele retornou a Buenos Aires. 

 

A punição só veio após uma intensa repercussão da mídia. Leandro Germán Ponzo está proibido de frequentar estádios na capital argentina por dois anos. 

 

“Isso acontece até hoje porque em diversas ocasiões aconteceu e nada foi feito. Olhando a maneira que esses torcedores olham para o Brasil. Eu creio que é pelo fato de 56% da população brasileira ser negra. A outra questão, também, é que nem todos os países tratam o racismo como tratamos aqui no Brasil, que é crime, não pode o gesto, o grito. A Argentina vai punir esses torcedores, mas mais por força da repercussão do ato”, avalia Marcelo. 

 

O termo “macaco” é utilizado há séculos de forma pejorativa por determinados argentinos para se referir a brasileiros. Ele foi cunhado pela primeira vez durante a Guerra do Paraguai, na segunda metade do Século 19, em diferente forma: os soldados brasileiros eram, em sua maioria, negros, e passaram a ser chamados de “macaquitos” pelos argentinos. 

 

Em 1920, o Brasil parou na Argentina para um amistoso e foi recebido por uma charge do jornal “Crítica”: “Macacos em Buenos Aires”, dizia o título, seguido de uma imagem que representava os brasileiros como macacos. 

 

Charge retrata brasileiros como macacos | Foto: Reprodução / Jornal "Crítica"

 

PROBLEMA INTERNO

Apesar do problema estar enraizado em diversos outros países da América do Sul, Marcelo Carvalho alerta que também é preciso olhar para o que acontece dentro do Brasil. Em 2021, por exemplo, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol identificou 53 casos de racismo no futebol brasileiro, um dos números mais altos da série histórica iniciada em 2014. 

 

“Precisamos tomar providências, as autoridades precisam punir os casos para que os torcedores não se sintam à vontade. Estamos vendo torcedores indo ao estádio cometer atos racistas, indo com símbolos nazistas e fascistas no corpo (entenda aqui). Precisamos olhar para cá. É um risco muito grande acharmos que só o argentino ou outro sul-americano é racista. Aqui nós também temos problema”, lamenta. 

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