Brusque é punido com perda de pontos e multa após ofensas racistas de dirigente a Celsinho
O Brusque foi punido, nesta sexta-feira (24), pelo caso de discriminação racial de um dirigente contra o jogador Celsinho, do Londrina. A Quinta Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) decidiu tirar três pontos da equipe na Série B do Campeonato Brasileiro. Além disso, foi estabelecida uma multa de R$ 60 mil para o clube e R$ 30 mil para Júlio Antônio Peterman, presidente do Conselho Deliberativo, responsável pelo ato. Ele ficará suspenso por 360 dias. Cabe recurso.
Atualmente na 15ª posição, com 29 pontos, a equipe de Santa Catarina ficará com 26. O STJD enquadrou o caso no artigo 243-G, que prevê punição para quem "praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência".
A injúria racial ocorreu no dia 28 de agosto, durante partida entre Brusque e Londrina, pela 21ª rodada da Série B. Nos minutos finais do primeiro tempo, o árbitro da partida relatou ter ouvido as seguintes palavras direcionadas a Celsinho: "vai cortar esse cabelo seu cachopa de abelha”. O infrator foi identificado como presidente do Conselho Deliberativo do clube.
"É pesado e constrangedor eu ter que dar satisfação ao meu filho mais velho, de 14 anos, que entende mais, que as pessoas ainda usam esse tipo de crime. O maior peso, onde realmente me machucou emocionalmente, foi pelo lado familiar, ver minha esposa chorando, meu filho chorando, meu filho mais novo sem entender e eu tendo que explicar que ele não tem que aceitar isso. É por isso que eu vou até o final nesses casos, justamente por isso, por mexer com meu lado familiar. Em nenhum momento eu vou ao estádio pedir que as pessoas me insultem. O tom que ele usou foi de raiva, mas o que me incomodou mais foi que ele se sentiu muito confortável em falar isso, como se de fato ele tivesse atingido o que queria, como se fosse algo prazeroso e conseguiu, porque eu fiquei fora de mim", afirmou Celsinho, em seu depoimento.
No dia 10 de setembro, o Londrina ingressou com uma Notícia de Infração juntando o documento do jogo, o Boletim de Ocorrência registrado pelo atleta, um vídeo do segundo tempo da partida em que afirma ser possível ouvir alguém gritar “macaco” e matérias jornalísticas veiculadas sobre o caso. O clube citou ainda a nota oficial do Brusque após o episódio em que critica e tenta desqualificar Celsinho, além da nota posterior com pedido de desculpas do clube catarinense ao meia (veja aqui).
"Na realidade, o que aconteceu é que eles estavam entre o banco e o alambrado se aquecendo e ali e estavam xingando o Brusque. Teve uma hora em que me irritei e realmente proferi ‘cachopa de abelha vai jogar bola’. Isso foi um momento inadequado, onde o jogo estava quente, o pessoal xingando a gente. Queria aproveitar e pedir desculpas, se eu realmente o ofendi, e a todo o pessoal que eu possa ter ofendido. De maneira nenhuma eu quis ofender e não imaginei que pudesse dar essa confusão toda. Nessa região é muito comum chamar pessoas assim (sic) de cachopa de abelha. Jamais iria proferir isso para ofender o Celsinho ou qualquer outra pessoa", defendeu-se o dirigente.
Contudo, o STJD não abriu espaço para brechas. "Considero incontroversos os fatos em razão da confissão do denunciado. Houve ato discriminatório em razão da raça e cor? Sim, uma pessoa branca ofendeu o cabelo de um jogador negro. Jamais o jogador seria chamado assim se fosse branco. O objetivo foi atingir e ofender o jogador. Afirmo que o denunciado tinha ciência das histórias anteriores sofridas. A provocação trazida pela defesa não pode legitimar um revide em ato discriminatório. Refuto também a defesa que a cachopa de abelha tinha o contexto cultural e sim de ofensa e ridicularização. Muito me entristece saber que os filhos do Celsinho chegaram as lágrimas e deve ser muito difícil sofrer um ato discriminatório. Se o dirigente não for punido a altura, com que moral poderemos exigir a conduta dos torcedores?", pontuou o relator, João Gabriel Maffei.
