Pai do VAR, Serapião avalia uso da tecnologia e diz que problema é de interpretação
Por Leandro Aragão
Idealizador do árbitro assistente de vídeo, da sigla VAR em inglês, o ex-árbitro Manoel Serapião fez uma avaliação do uso da tecnologia. Durante entrevista ao programa BN na Bola, da Rádio Salvador FM 92,3, com os jornalistas Emídio Pinto, Glauber Guerra e Ulisses Gama, na noite desta terça-feira (5), o baiano elogiou o "seu filho" e atribuiu alguns erros da arbitragem à interpretação.
"O VAR precisa evoluir, mas já produz efeito muito grande, extremamente útil. O grande problema são os lances de interpretação. Imagine, para você que está no VAR é pênalti claro, mas é lance de interpretação. Você chama ou não chama o árbitro? Se não chama e amanhã se descobre que errou, você vai ser omisso. Se você chama, mas não era para chamar, porque o lance não era de erro claro, você está sendo ineficiente. É uma situação muito complicada. Mas acho que o resultado é extremamente positivo", avaliou.
Integrante do Comitê Técnico da Internacional Board, Serapião ainda destacou o índice de acerto do VAR nas análises dos lances. A Série A do Brasileirão é o único campeonato no Brasil que utiliza o equipamento em todos os seus jogos.
"Eu sou ouvidor de arbitragem da CBF. Nós temos 42 reclamações de clubes em lances de jogos da Série A e mais 51 em jogos idas demais séries. Na Série A, o índice de acerto é de 98%. O árbitro erra quando o lance é de extrema dificuldade de interpretação que ele interpreta mal pela pressa, pela precipitação por querer dar a resposta imediata. Mas acho que os frutos são extremamente positivos, o futebol já sente os impactos positivos. O meu filho de um pouquinho mais de educação, de um pouquinho mais de treinamento para melhorar, mas já é efetivamente um menino que produz efeitos positivos", comentou.
O ex-árbitro baiano ainda falou do tempo gasto durante os jogos no processo de análise. Ele disse não ver problema desde que a decisão tomada seja a correta.
"Demora, porque a qualidade da imagem não é boa, às vezes a filmagem não é boa, o ângulo não é bom. Vi um jogo do Tottenham no Campeonato Inglês que só houveram dois lances que o VAR interveio. Um de expulsão e outro de impedimento. Mas demorou igual como demora aqui. Agora, existem lances que são dificílimos. O jogador está num extremo com o corpo inclinado, outro está na outra extrema com o corpo não inclinado, você tem que botar uma linha vertical, traçar uma linha completa em todo o campo para poder verificar. Isso é a parte do processo que ainda não evoluiu tecnicamente de modo satisfatório. Mas enquanto nós temos isso, vamos perder um pouco de tempo, mas é melhor perder tempo e fazer justiça do que você se precipitar. Quando o VAR tem que tomar a decisão tem que ter certeza que houve erro ou acerto. Ele não pode se precipitar para dar rapidez e tomar a decisão errado que aí seria um desastre total. No próprio protocolo da IFAB, a correção da decisão é mais importante do que a celeridade do processo. Queremos celeridade com correção, mas entre uma e outra coisa, preferimos a correção", falou.
IDEIA DO VAR
Manoel Serapião contou que a ideia da utilização da tecnologia para auxiliar o árbitro de campo surgiu num jogo entre Bahia e Galícia em meados da década de 70. Ele precisou decidir sozinho se uma bola tinha entrado ou não no gol.
Quase 20 anos depois, Serapião foi escalado para apitar o Mundial de Futsal, em Hong Kong. Na ocasião encontrou o presidente da Fifa na época, João Havelange, e o secretário-geral da entidade, Joseph Blatter. Numa conversa, o baiano apresentou a ideia. "Ele achou que era ruim, porque iria parar o futebol", lembrou.
No entanto, com o desenvolvimento das transmissões de jogos e os debates da imprensa esportiva sobre os erros dos árbitros em campo, Serapião não desistiu da ideia. "Era tradição, quando um árbitro errava num Mundial, mandá-lo de volta para casa. Quer dizer, você se preparava com o melhor árbitro do seu país, cometia um erro e era mandado de volta. Aí eu brinquei com Havelange: "Se na segunda-feira o futebol precisa do erro da arbitragem para poder ser esse esporte, então ao invés de mandar o árbitro embora quando erra num Mundial, você dá uma medalha para ele". Não faz sentido nenhum. Há lances que é impossível o homem perceber", contou.
O projeto do VAR foi escrito em 2005 e levado para Fifa, através de Ricardo Teixeira, que que era vice-presidente da Comissão de Arbitragem da entidade. Quatro anos depois, Serapião divulgou a ideia em alguns veículos imprensa do Brasil, chamando também atenção de jornalistas estrangeiros. "Até que em 2015, a CBF, pressionada por erros de arbitragem, resolveu encampar e enviamos nosso projeto para a Fifa", disse.
Segundo Serapião, o funcionamento do VAR é praticamente igual ao do seu projeto. A única diferença foi o monitor colocado na beirada do campo para que o árbitro principal possa rever o lance, o que para o ex-árbitro atrasa a tomada de decisão.
"Nosso projeto não teria o monitor no meio do campo para o árbitro reanalisar a jogada. Porque eu ainda continuo achando que se o objetivo é somente erros claros e indiscutíveis, e não paralisar o jogo, a gente não precisaria de um monitor, bastava que o VAR disse se a falta foi dentro ou fora da área, se a bola entrou na meta, se o jogador tirou a bola com a mão ou fez o gol de mão. Coisas indiscutíveis que o VAR apenas atuaria, tanto que nosso projeto era Árbitro de Vídeo, Árbitro Assistente de Vídeo. Mas os ingleses são muito conservadores e que a autoridade do árbitro não pode ser superada, o que acho uma bobagem. Se o árbitro está errado, não tem que ter autoridade nenhuma. Então, ele para o jogo só para olhar no monitor e a palavra final ser dele. Isso prejudica o desenvolvimento do jogo", finalizou.
OUÇA ABAIXO A ENTREVISTA DE MANOEL SERAPIÃO:
