‘Instituição centenária’: Projeto de Quinho no futebol feminino tenta reerguer Ypiranga
Por Gabriel Rios
Um dos principais times da Bahia, o Ypiranga agoniza em uma grave crise financeira. São cerca de dois anos sem disputar competições. O Amarelo e Preto é o terceiro clube com mais títulos baianos (10), atrás apenas de Bahia (47) e Vitória (29). Entretanto, um projeto no futebol feminino, idealizado pelo Professor Quinho, pode trazer novamente os dias de glória da agremiação. Como destacou Waldemar Filho, presidente do clube: “O futebol feminino está sendo uma luz no fim do túnel. Uma esperança. É como se estivesse num túnel escuro e você visse uma luz. Mostrar que o clube está vivo, que estamos buscando fazer da maneira correta. Encontramos o Ypiranga numa situação complicada. Quinho pra mim foi um grande projeto de reconstrução”.
Com vasto currículo no futebol feminino, tendo passagens por Bahia e Vitória, e conquistando o último Baianão Feminino pelo Lusaca, Quinho apostou na história do Ypiranga para tocar um grande projeto.
“Estamos representando uma instituição centenária e importante no futebol baiano. Tenho amigos que me ajudam muito. Preparador físico, roupeiro, todos fazendo um trabalho simplesmente por acreditarem em um projeto e em mim. Fui bicampeão pelo Lusaca, e tudo que tenho no futebol feminino me levou a ter confiança para fazer o que fiz. Temos um problema muito grande que é a parte econômica, mas usei o mecanismo da amizade e apresentei um projeto muito bom. Houve desconfianças, assumi uma responsabilidade grande, mas tomei a decisão de montar esse time. Tive uma conversa com o presidente e disse que poderíamos fazer um trabalho muito bom. Comecei a correr atrás e fomos montando esse quebra-cabeça. O presidente chegou para mim e disse que o futebol feminino é hoje o carro-chefe do time”, salientou.

Quinho usa sua experiência no futebol para tentar reerguer Ypiranga | Foto: Francisco Galvão / Divulgação Ypiranga
O time ainda conta com a ajuda de pessoas como a mãe de Quinho e de uma mulher que ele conheceu há muito tempo. “Ela faz a comida para as meninas, também disponibilizou uma TV para colocar no alojamento. É um projeto bacana. Com a ajuda de todos, estamos conseguindo montar um time bastante competitivo”, revelou Quinho. “As meninas estão alojadas em um apartamento de uma senhora que Quinho ajudou no Chile anos atrás. Pelo cuidado que Quinho teve com ela fora do Brasil, agora ela está retribuindo. Financeiramente o clube não tem condições nenhuma de bancar o futebol feminino, mas as pessoas se uniram para ajudar. É uma espécie de mutirão. Para você ver a força que o Ypiranga tem, das pessoas gostarem do clube. Abrimos as portas para o Quinho pra que ele realizasse o sonho dele”, completou o presidente da agremiação.
Quinho também faz questão de destacar o apoio do lateral Apodi e da sua esposa Thaís Lobo, goleira e capitã do time.
“Alguns amigos colaboram com passagens, fazemos bingo, rifa, festinha para arrecadar dinheiro. As mães das meninas pedem a parentes, recebemos cestas básicas... Temos um apoio fundamental do lateral Apodi com sua esposa, nos deu todo o material esportivo”, aponta o treinador.

Thaís é a goleira e capitã do time | Foto: Francisco Galvão / Divulgação Ypiranga
Ao BN, Thaís explicou o motivo de ajudar a equipe: "É um grupo que está começando agora, tem aquelas dificuldades e como faço parte e o Apodi nos apoia muito, resolvemos ajudar o grupo. Não tinha uniforme, uma coisa mais organizada. Mandamos fazer um uniforme padrão para participar do campeonato Baiano".
Thaís também elogiou o projeto do Professor Quinho e agradeceu pela oportunidade. “Quem o conhece sabe que ele é muito trabalhador, o que ele faz pelo futebol feminino é surreal. Todas as dificuldades que ele passa, mas mesmo assim se esforça para poder nos ajudar. Temos tudo hoje e é graças a ele”, reconheceu a goleira.
Além da ajuda nos uniformes, Thaís e Apodi também trouxeram a lateral Toró, bancando inclusive as passagens da atleta.
“Eu e a Thaís estávamos jogando na Chapecoense, e o Apodi também. Foi quando houve a rescisão de contrato do Apodi e a Thaís me ligou comunicando que iria embora e voltaria para Salvador. Começou o Catarinense, e como eu não estava sendo aproveitada, a Thaís viu a oportunidade de eu poder jogar um Campeonato Baiano junto com ela. Sou muito amiga dela e da família dela, e Apodi apoia muito e torce bastante. Não pensei duas vezes e vim. Agradeço a Deus por essa oportunidade e por colocar pessoas incríveis em minha vida”, explicou Toró.

Toró e Thaís atuaram juntas na Chapecoense | Foto: Francisco Galvão / Divulgação Ypiranga
A lateral aproveitou para comentar sobre o que acha de atuar no futebol baiano. “É uma experiência muito boa, pois nunca tinha jogado na Bahia, e estou gostando muito do time, que já tem uma linda história e estamos aqui pra reerguer. O elenco, a comissão e o grupo são bastante unidos e isso nos faz grande”, relatou.
Quinho revelou que procurou parcerias com escolas, para que as mais jovens não precisassem parar de estudar. Toró foi uma das beneficiadas.
“Fechei uma parceria com um colégio do Costa Azul, temos três atletas que trouxemos do interior e do Rio de Janeiro, e elas só podem jogar conosco se estiverem estudando. Vai além de um trabalho de futebol, é um trabalho social com essas atletas”, apontou o treinador.

Quinho auxilia Toró dentro e fora de campo | Foto: Francisco Galvão / Divulgação Ypiranga
Toró também destacou a preocupação do técnico em relação aos seus estudos: “Vim de Chapecó, pois estava jogando e estudando. Quando cheguei aqui na Bahia, o Quinho procurou saber como eu estava em relação à escola, então expliquei que tinha a transferência de Chapecó. Quinho falou que eu iria estudar e fomos atrás da escola para me matricular já no dia seguinte. Graças a Deus estou estudando para terminar o terceiro ano”.
O treinador explicou, contudo, que os entraves financeiros acabam inviabilizando maiores salários para as atletas. Por isso, conversou com cada uma e explicou o atual momento do clube.
“O salário praticamente não existe. Estamos tentando procurar parcerias para darmos ajudas de custo. Não temos condições nenhuma para pagar salários para elas. Conversei com cada uma delas que não teria nenhum recurso, que quem viesse seria para abraçar o projeto. Elas entenderam isso, me conhecem, e estão conosco para alcançar esse objetivo”, contou Quinho.
Por isso, se pensou em uma maneira para que o clube consiga arrecadar dinheiro para arcar com as despesas das atletas. “O Quinho é uma pessoa muito inteligente. A estratégia partiu dele. Ele faz uns tickets de adesão no valor de R$ 5 e R$ 10. Essa receita arrecadada é para comprar alimentação, despesas diárias das meninas”, concluiu Waldemar Filho.

O Ypiranga goleou o Rendenção por 18 a 0 na estreia do Baianão Feminino | Foto: Francisco Galvão / Divulgação Ypiranga
