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Com gramados ruins e dificuldades, Bahia e Vitória disputavam Série C há 10 anos

Por Matheus Caldas

Com gramados ruins e dificuldades, Bahia e Vitória disputavam Série C há 10 anos
Foto: Max Haack / Ag. Haack / Bahia Notícias
Bahia e Vitória são duas das maiores forças do futebol nordestino. O Tricolor foi campeão brasileiro em 1959 e 1988. O Vitória foi vice em 1993 e na Copa do Brasil de 2010 ficou na segunda colocação. Mas o ano de 2006 foi atípico para os dois clubes baianos. A dupla BaVi viveu o calvário da até então última divisão do futebol brasileiro na época: a Série C.

No dia 10 de setembro de 2005 o Vitória recebia a Portuguesa (SP) no Barradão. O Rubro-negro precisava vencer o confronto para manter-se na segunda divisão. A Lusa vencia o jogo por 3x1, quando o Vitória conseguiu uma reação e empatou o jogo. Com a derrota do CRB (AL) para o Criciúma, o Leão não teria chances de rebaixamento. Foi então que o técnico Renê Simões mandou o time tocar a bola. Ao final, o empate no Barradão foi comemorado. Mas esqueceram do CRB. Nos acréscimos, o clube alagoano virou o jogo, decretando o descenso do rubro-negro fundado em 1899. O clube havia disputado a semifinal da Copa do Brasil no ano anterior, mas desceu a ladeira - foi rebaixado no mesmo ano  e viveria um dos piores momentos de sua história. Dez anos após, Paulo Carneiro, presidente da época, não esconde a decepção. “Isso não agrega em nada à história do clube”, recusando-se em ceder entrevista ao Bahia Notícias.

Renê Simões | Foto: Divulgação / EC Vitória

No mesmo dia o Bahia foi derrotado pelo Paulista, em Jundiaí: 3 a 2, resultado suficiente para selar um rebaixamento praticamente anunciado. Essa fase de desastres começou com o rebaixamento em 2003, sofrendo uma goleada de 7x0 para o Cruzeiro em plena Fonte Nova. Após isso, foram anos sem títulos e sem figurar na Série A. Émerson, goleiro do clube na época, definiu como ‘vergonha aquele momento’. “Foi o pior momento da historia dos dois clubes”, disse o atual presidente do Ypiranga, em entrevista ao Bahia Notícias. No outro ano, ele acertaria com o Vitória.
 
Era chegado o ano de 2006. Os dois clubes se enfrentaram na semifinal do Baianão. O Bahia ficara pelo caminho e o Vitória se classificaria, quando seria derrotado pelo Colo Colo de Ilhéus na final. “A imaturidade era problema daquela equipe. Perdemos o Baiano por total imaturidade”, disse Sinval Vieira, vice-presidente de futebol do Vitória na época. Aliás, o ex-dirigente, que agora é comentarista da rádio Transamérica, revelou os problemas de montar uma equipe competitiva na época. “O problema maior na época era trazer jogadores. A maior parte do clube foi formada por jogadores daqui. Apodi, Índio, Bida, etc. De fora, só o Vanderson e o Preto Casagrande. Contamos também com jogadores da base, que foram cruciais em nosso acesso, como o David Luiz e o Leandro Domingues”.
 
Dificuldade maior houve no Bahia. Newton Mota, ex-diretor de futebol do clube, disse que o teto salarial do clube na época era de apenas R$ 5 mil. Só três jogadores ganhavam acima desse valor: Darci, Luciano Baiano e Sorato, artilheiro da Série C daquele ano. Parte do salário dos três era pago pela Turma Tricolor, grupo de torcedores. No entanto, os salários dos jogadores não foram o principal empecilho na gestão de Mota. “O Bahia naquele momento viveu um dos piores momentos de sua história. No dia que eu assumi, houve greve dos funcionários. No outro dia os funcionários de campo também. Tinha muitos atrasos de salário”, revelou.

Outro profissional do Bahia a revelar as dificuldades foi Rafael Bastos, que acabara de ser promovido ao profissional. “Eu recebia pouco. Uma vez um torcedor me pediu uma camisa, e eu fui sincero. Disse que a camisa era muito cara e eu não podia dar, porque era cara. Como eu ganhava muito pouco, poderia me ajudar. Ele entendeu, riu e me agradeceu pela sinceridade”, brincou o atual meio-campo do América-MG, que também tinha seus salários atrasados. 
 

Rafael Bastos | Foto: Divulgação 

Campos ruins, horários absurdos, times de baixo poder técnico: Bahia e Vitória passaram por tudo isso. Naquele ano, o Vitória chegou a jogar às 10h, num jogo contra a Tuna Luso no Pará. Nesse dia, o Rubro-negro perdeu por 3 a 2.  O Bahia jogou no acanhado Presidente Vargas antes da reforma e sofreu uma sonora goleada: 7 a 2 para o Ferroviário. Esse era um período de inúmeros vexames para o Tricolor da capital. 

Contudo, os vexames do Bahia tinham justificativa. Nesse período, o clube passava por problemas administrativos e financeiros. Newton Mota revelou que, antes de um jogo, os atletas quase ficaram sem ter o que comer. “Teve um dia de um jogo no domingo, às 11h não tinha carne no almoço por falta de pagamento ao fornecedor. Tivemos que comprar frango às pressas em um mercadinho em Itinga para os atletas comerem”, relatou. Para Mota, aquele foi o único momento da história em que o Bahia foi ‘pequeno’. “O ônibus era velho. Os jogadores ficavam espremidos. Ali o Bahia era um time pequeno. Foi um dos momentos mais terríveis da história do clube”, completou.
 
Os problemas estruturais do clube foram reiterados também por Emerson, que já estava do lado vermelho e preto. “Um fato determinante para uma volta do Vitória mais rápida foi a estrutura que o clube já tinha. Isso ficou nítido pra mim, quando saí do Bahia para o Vitória”, contou. Além disso, ele ainda criticou as diretorias anteriores, que colocaram o clube naquela situação. “No Vitória, a queda para a Série C foi uma ruptura. Vinha há mais de uma década com Paulo Carneiro. Com essa queda, saiu a diretoria que levantou o clube, mas que o derrubou também. No Bahia não houve isso. A mesma diretoria que os rebaixou seguiu na Série C. Não houve uma mudança de pensamentos. Tanto é que o Bahia ficou dois anos. As práticas se mantinham”, lamentou.
 
O Bahia teve a melhor campanha nas três primeiras fases do torneio, mesmo com as dificuldades. Mas o octogonal foi decisivo para a não subida do clube. Segundo Newton Mota, a parte física foi preponderante para isso. “Nós trocamos o preparador físico. O que chegou era um surfista. Chegou com a prancha no carro. Os atletas sentiram. Você sabia que o Bahia não iria reagir, não tinha pernas”, revelou o ex-dirigente, não citando o nome do profissional.
 
Naquele octogonal, os dois clubes já estavam virtualmente eliminados na primeira fase. Contudo, um BaVi foi a guinada do Vitória para o acesso. Ao final do primeiro turno, o Vitória perdeu para o Bahia no Barradão por 2 a 1. Na virada, Sinval Vieira se viu obrigado a mexer no time. Problemas extracampo atrapalhavam o time. “Depois do BaVi nós deslanchamos. Coloquei Marcelo Moreno e Índio pra morar na toca. Eles nem jogaram nesse BaVi. Ficaram comigo nas cabines. Nós nos concentramos de forma forte depois daquilo; eu tinha que intervir. Após esse jogo nós tivemos uma reviravolta”, revelou Sinval Vieira. Nesse dia, o Vitória venceu por 2 a 1, com gols de Leandro Domingues e Jorge Henrique; André Pastor descontou para o Bahia.

Chute de Leandro Domingues no primeiro gol | Foto: Reprodução / Youtube
 
Símbolos das duas equipes neste século, Vanderson e Ávine estrearam nos clubes naquele ano. O volante vinha do Juventude (RS) e disse que, apesar de ter aceitado o desafio, ficou assustado com os campos. “Troquei jogar em Morumbi e Maracanã, e você chega numa série C totalmente diferente”. Já Ávine, que continua no Tricolor até hoje, considera que por sua grandeza, o Bahia nunca deveria ter jogado uma terceira divisão. “O Bahia hoje conta com uma estrutura muito melhor que tinha na época, as contas estão em dia e os jogadores contam com todo o suporte necessário para fazer bem o seu papel em campo. O clube mudou muito desde aquela época”, ponderou.
 
O Vitória deslanchou e o Bahia ficou pelo caminho. No dia 19 de novembro a agonia do Vitória acabaria. Recebendo o Ferroviário (CE), mesma equipe que aplicou sete no Bahia, Leandro Domingues brilhou e fez três gols na partida que selou o acesso do Vitória, com duas rodadas de antecedência. O placar de 4 a 0 foi suficiente. Índio também marcou. Agora só faltava o título. Na penúltima rodada o Leão enfrentaria o Cricíuma. A goleada de 6 a 0 garantiu o título ao time catarinense. Nada que estragasse a festa de um clube que renascia das cinzas. “No Vitória começou uma nova filosofia que foi dando certo. Podemos encarar isso como um renascimento, mesmo tendo grandes momentos em anos anteriores.”

Em pé: Vanderson, Bida, David Luiz, Sandro, Marcelo Moreno e Emerson 
Agachados: Índio, Leandro Domingues, Alysson, Preto Casagrande e Jean
Foto: Orlando Lacanna
 
O Bahia amargaria mais um ano no fundo do poço do futebol brasileiro. A torcida ficou na bronca. Numa partida contra o Ipatinga, torcedores invadiram o campo da Fonte Nova – o clube recebeu punição após o fato. Contudo, mesmo com isso, Newton Mota exalta a participação dos fãs tricolores nessa época.” A torcida do Bahia estava presente no pior momento de sua história. Ali foi onde a torcida foi mais testada, e eles estiveram presentes”, exaltou Mota, que hoje tem uma academia de futebol em Salvador.
 

Invasão na Fonte Nova | Foto: Reprodução / Youtube
 
O futebol mudou muito nos últimos 10 anos. Nesse tempo, o Bahia conseguiu seu acesso a série B em 2007. O Vitória prontamente voltou à Série A. Em 2010, mesmo com um novo rebaixamento, o Vitória chegou à final da Copa do Brasil. Junto com Bida, Vanderson era o remanescente da equipe que frequentou a terceira divisão. “Eu não esperava ter todo esse sucesso. Mas agradeço principalmente pela torcida, por ter me chamado de Pitbull até o final de meu ciclo”, agradeceu Vanderson. O Bahia conseguiu sua democratização em 2013, tendo hoje Marcelo Sant’Ana eleito diretamente pela torcida. O clube voltou à Série A em 2010, após sete anos de angústia. Em 2012, acabou com um jejum de 10 anos sem título, ao vencer o principal rival na decisão do Baianão. Dez anos depois, a grandeza dos dois maiores clubes da Bahia os faz ficar bem distantes dos confins do futebol brasileiro. O Vitória na Série A e o Bahia ainda na Série B.