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Entrevista

Dito Lopes

Dito Lopes
Fotos: Éder Ferrari/Bahia Notícias

 

Por Éder Ferrari

 

BN – Quando e o que o levou ao rádio?


Dito Lopes – Bem, eu era supervisor de uma empresa chamada COGEL. Um dos donos era Paulo Teixeira, que era comentarista esportivo e trabalhava com Enaldo Rodrigues. Paulo dizia sempre que eu entendia muito de futebol, que poderia ser cronista esportivo. Daí me apresentou ao Enaldo e comecei a trabalhar fazendo plantão com o Edmundo Filho, isso na Band FM em 1992.


BN - Para um repórter veterano de rádio, como tem sido esse início como comentarista na TV Aberta, no programa Jogo Aberto Bahia, na Band?


Dito Lopes – Uma experiência extraordinária. A princípio tive receio dos companheiros e também do público, até por que sou repórter há 18 anos e setorista de clube, no caso o Bahia. Mas, os colegas e o público me receberam muito bem, a audiência do programa depois que passou para meia hora aumentou. Aonde vou sou reconhecido e parabenizado pelo público, o que me deixa muito lisonjeado e cheio de responsabilidade.


BN – Como foi sua carreira de jogador de futebol. É verdade que você a abandonou por que era reserva de Neo e Rubão?


Dito Lopes – Isso é lenda! Aconteceu por que Oswaldo Júnior (falecido radialista) certo dia, no meio dos colegas na tribuna de imprensa da Fonte Nova, disse: “tava vendo as minhas anotações hoje pela manhã. Vi seu nome em um jogo do Vitória no banco de reservas e os titulares eram Neo e Rubão”. Ai pegou, sabe como é a galera, não perdoa! Comecei no Botafogo em 1982 e fiquei até 1984. Daí, fui contratado pelo Vitória. Fui capitão do time júnior em 1984 e 1985. Em 1986 fiquei com os profissionais. Mas, como era muito novo, fiquei no banco de reservas o Campeonato Baiano todo e, em 1987, fui emprestado ao Galícia, Fui capitão do time no Baiano, mas acabei abandonando o futebol.


BN – Seu programa na rádio Excelsior, Nação Tricolor, está perto de completar 11 anos. Você enfrenta preconceito da torcida do Vitória por isso?


Dito Lopes – Por incrível que pareça não. Ando normalmente pela torcida do Vitória, converso com todos e nunca tive o menor problema com eles, muito pelo contrário. Sou amigo de muitos e depois que fui trabalhar na Band, recebo emails deles parabenizando pela imparcialidade. Fico muito feliz com isso, sabe? 


BN - Como surgiu a idéia do Nação Tricolor?


Dito Lopes – Comecei com o Mário Freitas na Excelsior em 1996. Fiquei até o final do ano. Daí ele me pediu pra fazer a Copa São Paulo de Juniores no início de 1997, mas quando eu voltasse ia sair por que o dinheiro era pouco e eu trabalhava também na Salvador FM, com José Ataíde. Porém, quando voltei, ele e Fernando Cabús me chamaram pra conversar. Queriam que eu ficasse, mas não chegamos a um acordo. Quando eu estava abrindo a porta da sala pra sair, veio a idéia do Cabús, “por que você não cria um programa para os sábados sobre turismo ou outra coisa?” Vale lembrar que tínhamos o Show de bola nos sábados, que era um saco e ninguém queria fazer. Daí nós três tivemos a idéia: “que tal um programa do Bahia? Já temos o do Vitória...” (Grito rubro-negro com Renato Lavigne, hoje na Metrópole FM). Ai meu amigo, aceitei na hora! Foi só acertar como ficaria o dinheiro e no dia 31/07/1999 começamos o Nação Tricolor, que, não tenho dúvida, está entre os três mais ouvidos da Bahia.

 

 

BN – É melhor trabalhar com quem: Juliana Guimarães ou Mário Freitas?


Dito Lopes – Jú é um doce. Me deixou muito à vontade quando cheguei: foi compreensiva, soube conduzir muito bem a minha chegada com todos. Conversa comigo antes de entrarmos no ar. Estou muito tranquilo com ela. Mário, não o considero chefe: é meu amigo e ele sabe disso. Me ajudou e ajuda muito em todos os sentidos. Muito do que sei, tenho e sou, devo a Mário, que foi e é um grande amigo.


BN – Por estar a muito tempo cobrindo o Bahia e seus bastidores, tem muita coisa que a torcida nem desconfia?


Dito Lopes – Eu acredito que não, é claro que muitas coisas ainda não foram ditas, mas a gente sabe que isso é normal. Entra presidente sai presidente e não muda nada, ninguém diz nada. A gente fica sabendo de algumas coisas, mas se eles não querem falar. Não sou eu, que não tenho nada com isso, que vou me expor.


BN – Como é o dia a dia de um setorista?


Dito Lopes – Hoje em dia está mais difícil. Antes chegávamos já com todas as notícias na agenda. Hoje tem que ser bem relacionado, senão fica para trás. Têm regras a serem seguidas. Antes, até na sala do presidente íamos. Éramos chamados sempre para consultas e até decisões. Hoje eles erram sozinhos. Para entrevistar jogadores agora tem que marcar antes. Vai chegar o dia que não vão querer nem que entremos mais nos Centros de Treinamentos.


BN – O que você acha de Paulo Maracajá e Marcelo Guimarães?


Dito Lopes – O Paulo Maracajá foi um ganhador de títulos - uma raposa. Sabia lidar com todos, tinha uma liderança extraordinária, mas deixou o bonde passar. Atrasou muito o clube, não deu oportunidades, viveu o melhor momento do Bahia em 1988/1989 e não tirou proveito disso. Já o Marcelo, acho um injustiçado, é certo que não ganhou tantos títulos, mas sabe por quê? Foi tratar da parte patrimonial do clube. Construiu aquela sede do Fazendão, fez a hotelaria da base; reformou todos os troféus que estavam jogados as traças; tentou fazer o esporte olímpico; armou um grande time em 1998 - campeão daquela Taça Maria Quitéria, que até Wanderlei Luxemburgo disse que o Bahia era o melhor time do Brasil naquele momento. Classificou o Bahia em 2000 e em 2001 para as fases finais do Brasileiro da Série A. O time foi muito bem. Ganhou o Baiano, dois Campeonatos do Nordeste, mas não foi o suficiente.


BN – Acha que o afastamento total de Maracajá das coisas do Bahia, foi útil para o clube?


Dito Lopes – Tem horas que a pessoa tem que dizer para si própria, “já dei o que tinha que dar”. Acho que foi isso que aconteceu com ele.


BN - Marcelo Guimarães Filho é só mais do mesmo, ou você acredita que ele tem feito diferente?


Dito Lopes – É diferente. Tem muita gente que diz que Marcelinho é robô do pai, mas não é não! Certa feita, Marcelão me ligou chateado com o Tiú - empresário do jogador Maurício – por que Tiú queria levar o jogador pra França. Ele falou: “não vamos deixar!” Isso no domingo pela manhã e quase eu embarco nessa. Liguei pra Marcelinho e ele me disse que o Maurício ia viajar sim, na terça feira, e assim aconteceu. Marcelinho tem idéias novas, tem fechado bons contratos para o clube, está querendo fazer um CT bem moderno, parcerias para a modernização estrutural... Enfim, é diferente sim.


BN – Você como diretor da ABCD, concorda com as críticas sobre a qualidade da imprensa esportiva baiana?


Dito Lopes – Não concorri a este mandato. O presidente Márcio Martins, que me convidou para ficar a frente da sede do clube que está sendo comprada pela ABCD. Sobre os profissionais da crônica, acho que estamos em uma fase de transição, onde muitos têm mostrado escancaradamente o coração nos microfones da vida, coisa que antes não acontecia.


BN – Quem foi o melhor e o pior dirigente do Bahia desse seu tempo como setorista do clube?


Dito Lopes – Nesta, estou fora!


BN – O que precisa ser feito, dentro de campo, para o Bahia voltar a ser o que era?


Dito Lopes - Olha amigo, são tantas as necessidades... Um primeiro passo: não deixar, de forma alguma, atrasar salário. Buscar jogadores profissionais ao pé da letra, dar condições de trabalho a comissão técnica - bons campos, bons jogadores, boa alimentação, concentração adequada, mostrar para o grupo que está ali presente (a diretoria). Não se pode dar privilégio pra nenhum jogador, como já aconteceu no próprio Bahia, e outras coisas mais. São muitos detalhezinhos, que somando se chega ao topo.


BN – Qual o melhor e o pior treinador que passou pelo tricolor em sua época de setorista? E os jogadores?


Dito Lopes – Apesar de chato, no campo de jogo, pra mudar do difícil para o fácil, Evaristo de Macedo foi o melhor disparado. O pior, meu Deus, Luis Carlos Cruz. Gente boa demais, mas como treinador... Uéslei jogou muito pelo Bahia. O goleiro Emerson também teve uma fase sensacional no clube. Os piores nestes últimos anos? É melhor não falar por que ao tempo é curto...


BN – Tem alguma frustração por não ter obtido sucesso como jogador?


Dito Lopes – Pra falar a verdade, nunca gostei de jogar bola. Quem me conhece, de verdade, sabe disso. Eu ia para os campeonatos de clube ou de bairro apulso! Daí, era artilheiro de um campeonato aqui, outro ali... O tempo ia passando eu me escondendo de um e de outro. Quando via, estava eu jogando de novo, mas nunca me empolguei com futebol. Gosto mesmo é de uma boa pescaria!


BN – O investimento das rádios FM no futebol esvaziou as AM?


Dito Lopes – De maneira nenhuma! Eu, por exemplo, só gosto de ouvir futebol pela rádio AM. Acho legal, sou um cara AM. Já recebi vários convites, mas nunca quis sair da Excelsior onde sou bem tratado e com trabalho reconhecido por todos.


BN – Pretende algum dia fazer a transição para FM?


Dito Lopes – Nunca se sabe. Prefiro a AM, mas tem ótimas equipes hoje nas rádios FM. Me adapto muito rápido as coisas, se for da vontade de Deus, quem sabe.