Marcelo Barreto

Por Maurício Naiberg
Bahia Notícias - Marcelo, por que escolheu o jornalismo? Houve alguma inspiração para seguir na profissão?
Marcelo Barreto - Eu queria escrever. Essa sempre foi a minha onda. No segundo ou terceiro ano, eu já fazia o jornalzinho da escola. Mimeografava em casa - Mimeógrafo é um instrumento utilizado para fazer cópias de papel escrito em grande escala.
BN - Quando decidiu enveredar pelo esporte?
MB - Minha opção pelo jornalismo esportivo começou com um x. Passei na prova de estágio do jornal O Globo e tinha de escolher uma área. Recebi uma lista com as editorias, fui olhando... E quando passei pelo quadradinho do esporte simplesmente marquei um x ali. Nunca mais trabalhei em outra área.
BN - Nunca pensou em mudar para outra área, como política?
MB - Várias vezes. Tinha medo de ficar rotulado, de acharem que só poderia trabalhar como jornalista esportivo. Mas as coisas foram dando certo no esporte, não havia um motivo concreto para mudar. E quanto mais o tempo passava, mais difícil ficava a decisão de começar em outra área, voltar para o fim da fila. Agora já não sei se saio do esporte até o fim da carreira.
BN - A maioria dos jornalistas esportivos de sucesso trabalhou no Lance!, jornal que ajudou a fundar. Qual o diferencial desse veículo?
MB - Como produto, o LANCE! tinha muitas características que o tornavam único. Era todo colorido, grampeado, trazia as notícias dos jogos que terminavam tarde, tinha redações no Rio e em São Paulo. Mas para quem trabalhou lá, o que havia de mais especial era a equipe. Conseguimos reunir jornalistas de destaque, vindos de redações como a do Globo, com uma turma de estagiários escolhida num grande e criterioso processo de seleção. A mescla deu certo. O LANCE! segue sua trajetória de sucesso e muitos dos profissionais que o diário revelou têm uma carreira de destaque em vários veículos do Brasil.
BN - Você ajudou a criar o núcleo de jornalismo do Sportv. Teve muita dificuldade, por ser uma “aposta” da Rede Globo?
MB - Fui o primeiro chefe do Núcleo de Produção. Os desafios eram muitos: criar um novo processo de trabalho, implantar a proposta editorial da TV Globo numa redação que já tinha seuas métodos... E a minha inexperiência em TV. Cheguei ao Sportv com uma experiência de um ano como editor de texto e repórter da TV Globo. Mas acabou dando certo.

BN - Você apresentava o Redação Sportv. Tem vontade de voltar à bancada?
MB - Voltei para divulgar meu livro, "Os 11 maiores camisas 10 do futebol brasileiro". Deu saudade, principalmente do pessoal da equipe. Mas gosto de novos desafios. Editar e apresentar o Sportv News deu um novo gás à minha carreira. O que mais gosto de fazer, hoje, é liderar um projeto novo.
BN - O que significou Armando Nogueira para o jornalismo esportivo brasileiro?
MB - Escrevi no meu blog que Armando trouxe a poesia ao texto do jornalismo esportivo. Ele é uma referência, ajudou a inventar um novo modo de escrever sobre esporte. Era um grande jornalista que amava o esporte. Foi um privilégio conviver com ele nas bancadas de quarta-feira do Redação Sportv.
BN - Você cobriu duas Olimpíadas, uma Copa do Mundo, duas Copas das Confederações e outros eventos importantes. Qual o que te deixou melhores lembranças?
MB - O Mundial de Basquete Feminino de 1994, na Austrália. Era minha primeira grande competição internacional. Viajei sem a menor expectativa em termos de desempenho da seleção, queria apenas curtir a experiência profissional e aproveitar a oportunidade de conhecer um país tão diferente e distante. Mas, além das fotos com cangurus, guardei a lembrança de testemunhar o primeiro e único título mundial do basquete feminino brasileiro, com atuações inesquecíveis de Paula, Hortência e Janeth.
BN - A realização maior de um jornalista esportivo é cobrir uma Copa do Mundo de futebol. Tem algum evento que supere essa competição?
MB - Eu achava que seria difícil superar as Olimpíadas. mas realmente a Copa tem um borogodó. É difícil de explicar. O mundo inteiro se une em torno de um esporte, um esporte que tem um significado especial para um brasileiro. Estar no centro dos acontecimentos naquele momento não tem preço.
BN - Qual a importância das novas ferramentas de internet no jornalismo em geral? Você acha que o jornalismo de teor literário, mais romântico, pode deixar de existir?
MB - As novas ferramentas mudaram a forma de consumir informação - principalmente porque permitiram que se faça muito mais do que apenas consumir a informação. Os meios de comunicação têm de se adaptar a essa nova realidade, e a melhor forma é abraçá-la. E não acho que haja uma influência tão direta no estilo de texto. O jornalismo de teor literário também cabe na internet - aliás, cabe até muito bem, porque há menos limite de espaço. Só depende de decisão editorial.
BN - Com o blog “É muito pênalti” – jargão criado por você –, qual tem sido a resposta do público? O nível de diálogo entre os internautas tem agradado?
MB - Nem sei se fui eu mesmo o criador desse bordão, mas pegou. A resposta do blog tem sido muito interessante. Claro que há exageros, mas os comentários que se seguem a cada post nos ajudam a dar uma visão do público sobre os assuntos que comentamos na TV. E hoje não se faz mais jornalismo sem conhecer a resposta do público.
BN - Conte um pouco sobre o livro “Os onze maiores camisas dez do futebol brasileiro”.
MB - Foi um convite da Editora Contexto, por indicação de meu bom amigo Mauricio Noriega, autor do primeiro livro da série, "Os 11 maiores técnicos do futebol brasileiro". A ideia é retratar os 11 melhores de cada posição, e tive a sorte de escolher os camisas 10, uma posição que para mim é a cara do futebol brasileiro. Tive de fazer um trabalho criterioso de pesquisa e seleção, mas é claro que as cornetas soaram. Eu já esperava por isso, aliás tinha de esperar - seria muita arrogância achar que minha lista seria definitiva.

BN - Falando mais do meio esportivo. Qual a melhor entrevista que já realizou e por quê?
MB - Foi com o Antonio Callado, escritor, quando ainda estava na faculdade de comunicação em Juiz de Fora. Ele me recebeu por mais de uma hora em seu apartamento no Rio. Quando voltei com a fita casste - as pessoas ainda sabem o que é uma fita cassete? - meus colegas de sala achavam que era mentira. Aprendi ali que é possível, sim, entrevistar os grandes.
BN - Você tem acompanhado o futebol da Bahia? O que tem achado?
MB - Não consigo acompanhar muito de perto, porque nesta época de estaduais nossa atenção acaba dividida por todo o Brasil. Exibimos uma reportagem no Sportv News sobre o crescimento do futebol em Feira de Santana, mas acredito que os grandes farão a final mais uma vez. Tenho curtido os gols de falta do Bida e acompanhado as brigas do Renato Gaúcho com a diretoria. Torço muito para o Bahia voltar à Série A. É uma das torcidas mais fiéis do Brasil.
BN - O futebol do nordeste não ganha um Brasileiro desde 1988, quando o Bahia foi campeão. Para você, o que falta aos clubes dessa região para que entrem na disputa de títulos importantes?
MB - Dinheiro. Os clubes do Sudeste e do Sul, que concentram o título, têm mais capacidade de arrecadação (não só de bilheteria, mas de direitos de TV e patrocínio). E no futebol o que desequilibra é o orçamento.
BN - Não falta apelo da mídia, já que os grandes clubes do eixo sul-sudeste conseguem muitos patrocínios por causa dessa movimentação publicitária?
MB - Futebol, no Brasil, é regional. É muito difícil um clube se impor nacionalmente. Os clubes nordestinos têm o alcance limitado a suas regiões, que em muitos casos não têm a força econômica - e por consequência a capacidade de atrair o investimento publicitário - de cidades do Sudeste e do Sul.
BN - Para você, qual o melhor jogador do futebol brasileiro e mundial na atualidade?
MB - O melhor jogador em atividade no Brasil é o Neymar. Ele tem potencial para se tornar o melhor jogador do mundo, sem exagero. No futebol mundial, ainda acho que o Kaká pode se impor aos queridinhos da mídia, que são o Messi e o Cristiano Ronaldo. A Copa vai ser fundamental para isso. Se ele chegar saudável - porque seu estilo depnde muito da velocidade - e liderar a seleção a um título mundial, vira unanimidade.
BN - E o melhor time – mais bonito de se ver jogar?
MB - Essa é fácil. O Santos é a melhor coisa que aconteceu ao futebol brasileiro nos últimos anos. Torço muito para que esse time tenha sucesso e passe a mensagem de que é possível vencer com talento.
BN - Falando em Copa do Mundo no Brasil e Olimpíadas no Rio de Janeiro. Qual a sua opinião sobre o assunto, já que temos problemas sociais muito mais urgentes do que construções para esse tipo de competição?
MB - Se formos esperar a solução dos problemas sociais urgentes, nunca teremos Copa nem Olimpíadas. E continuando nesse raciocínio, melhor não ter futebol - por que gastar milhões para montar um time num país pobre? O que temos de evitar - e fiscalizar - é o uso indiscriminado de dinheiro público na construção de estádios. o governo pode gastar dinheiro com esses grandes eventos, mas numa medida razoável, que possa ser compensada com o que o país vai atrair em investimento interno com eles.
BN - Todos afirmam que jornalistas esportivos não têm time, ou deixam de torcer quando começam a trabalhar no meio. Você é Galo ou Raposa?
MB - Jornalista esportivo tem time. Ninguém se envolve com futebol por outro caminho que não seja o do amor a um clube. Trabalhando no meio, é claro que temos de aprender a lidar com a paixão, deixá-la apenas para os momentos em que não estamos no ar. Eu tenho meu time do coração, mas não posso revelá-lo publicamente por orientação editorial.
BN - Manda um recado para o público da Bahia que lê o Bahia Notícias.
MB - Eu amo a Bahia. Sem a menor demagogia. Salvador é minha cidade preferida no Brasil. Eu e minha mulher já visitamos várias vezes, desde quando éramos apenas namorados, e já levamos nossa filha Nina, de 7 anos, e nosso filho Pedro, de 2, para conhecer. E ainda quero voltar muitas vezes!
