Ney Campelo
Fotos: Divulgação
Por Éder Ferrari
BN – Qual a função do Secopa?
Ney Campelo – É uma secretaria com esse viés de gestão, de integração de soluções, seja no âmbito interno do governo, seja articulando as secretárias e entes que, de alguma maneira, são chamados de entes sistemáticos da Copa por que vão atuar como ações relacionadas ao evento. Então, nós estamos falando de segurança pública, de saúde, cultura, educação, turismo, o próprio esporte, planejamento, etc., ela tem esses viés de articulação interna. Com os outros entes federativos que fazem parte desse concerto nacional de preparação do evento que, no caso prefeitura e governo federal, união, em relação com a FIFA e, sobretudo, com o LOC, Comitê de Organização Local, o órgão responsável pela organização da Copa no Brasil e também com o mundo esportivo e empresarial. O mundo esportivo porque nós entendemos que a Copa precisa ser uma indutora de legados que venham a somar para o mundo do esporte em geral, até porque teremos 2 anos depois as Olimpíadas, que Salvador será sub-sede dos jogos de futebol masculino e feminino. No mundo empresarial, por que queremos mobilizar o interesse do empresariado no sentido dos investimentos e também em resultante desses investimentos que são os legados de geração de emprego e renda, de empreendedorismo que podem vir desses investimentos relacionados ao evento.
BN – Então, essencialmente, a Secopa será um órgão fiscalizador?
Ney Campelo - Essencialmente, é isso. Uma secretaria que tem o objetivo de coordenação da preparação do evento mobilizando a sociedade e o Estado, para assim em conjunto de estratégias, de mecanismo que são desenvolvidos por ela. Fazemos isso a partir de um modelo de governança e de sistema de monitoramento que será inclusive iniciado a partir de abril. O modelo de governança é uma secretaria com esses aspectos que já falei, articulado a um comitê gestor do estado. Nós temos que estar com um comitê gestor por decreto do governador, funciona com 18 entes. Esse comitê gestor aprovou na sua última reunião em 9 de fevereiro, a criação de 8 câmaras temáticas ou grupos temáticos, que são grupos de arenas entorno.
BN – Quais são esses grupos?
Ney Campelo – O entorno é um; mobilidade, acessibilidade e infraestrutura são outro; turismo, hotelaria, promoção, hospitalidade é outro; capacitação é ¼; comunicação, ciência e tecnologia são 1/5; esporte também é um grupo. Então nós temos esses grupos temáticos que se articulam, são executivos operativos no sentido de assegurar agilidade e a efetividade nas ações. O comitê gestor é para a discussão? É, ele se reúne a cada 2 meses, vai reunir agora em Abril para projetar diretrizes, metas e objetivos mais gerais. Além disso, nós teremos o comitê gestor unificado, que é um comitê formado por 8 membros, 4 da prefeitura, 4 do governo do Estado, que devem, inclusive, estar sendo assinado e lançado esse acordo de cooperação no aniversário da cidade de salvador no dia 29, pelo governador e pelo prefeito da capital. Na sequência do plano diretor da Copa é um trabalho que nós vamos realizar nos próximos meses, de elaboração de um plano diretor. Esse plano vai apontar um conjunto de programas que serão desenvolvidos por estes grupos operativos apoiados também em consultorias dependendo do grau de especialização de cada tema. Ao final vamos falar, por exemplo, de um plano de inteligência para a segurança da Copa de 2014. Nós vamos reunir quem? Vamos reunir Ministério Público, vamos reunir a Secretária de Segurança Pública, a Polícia Militar do Estado da Bahia, órgãos afins do tema e eventualmente consultorias que possam dar apoio e suporte a esse tipo de temática. Então é mais ou menos esse o modelo de governança que coincide, inteiramente, com o modelo de governança proposto recentemente na reunião do dia 05 de março pelo ministro Orlando Silva, que coordenou uma reunião das 12 cidades sedes. Ele é exatamente o mesmo, e não por que é copiado não viu, nós até nos antecipamos e nem conversamos, coincidiram visões, isso é uma coisa, a outra coisa é o sistema de monitoramento, como que esse modelo de governança assegura, mesmo, que os prazos e as ações aconteçam.
BN – Como vai funcionar?
Ney Campelo - O Governo Federal vai nos disponibilizar um modelo de governança, ou desculpe, de um sistema de monitoramento, que é o mesmo sistema do PAC, adaptando as doze cidades sede para funcionar como: um sistema informatizado portador em PI, que as doze cidades terão, que alimentarão suas informações. A Bahia é um Estádio, vai começar a obra de demolição no dia x, aí agente alimenta aqui. Então o Governo Federal fica com a informação do que está acontecendo em todas as cidades sedes e agente pode replicar aqui o mesmo controle. A Secretária tal tomou a providência, assinou o contrato, tirou a licença, seja lá qual for à atividade necessária pra essa finalidade, e esse sistema nós vamos treinar colaboradores nossos na última semana de março e em abril eles disponibilizam em plano um sistema. A Secopa é uma secretária para acompanhar orçamentos e prazos e ações. Quer dizer, essencialmente, pra que nós tenhamos um evento que naturalmente, por exemplo, não repita erros como os cometidos recentemente, até no Panamericano, em que, por falta de existência de monitoramento, você teve orçamentos estourados.
BN – Como andam os prazos para o início da reforma da Fonte Nova? Em matéria do jornal A Tarde há alguns dias, houveram desencontro de informações do governo com o consórcio OAS/Odebrecht.
Ney Campelo - Nós estivemos - eu e o secretário Nilton Vasconcelos - no jornal A Tarde, e a primeira coisa que eu quis dizer é assim: houve, na verdade, não o desencontro de informações do Governo do Estado, houve desencontro das informações do jornal para o público. O que disse no jornal, a declaração que está ali é literal, é o que ele diz assim, o doutor Alexandre, do consórcio OAS/Odebrecht, “estamos com o governo na questão e nós vamos caminhar para cumprir nosso prazo”. Aí ele fez uma especulação, mas se fosse janeiro, saiu da parte dele uma especulação, ou fevereiro, quer dizer é pensando ele, se o evento da Copa das Confederações é julho então, entre dezembro de 2012 e janeiro ou fevereiro não teria grandes alterações, isso numa especulação, não que eles não fossem cumprir. Agora está especulação dele não encontra suporte no contrato estabelecido, o anexo nº 19 apresenta o calendário e no calendário ta lá dezembro de 2012. Então, não cumprir dezembro de 2012 do ponto de vista do consórcio, seria descumprir o contrato, mas não houve isso, não há uma sinalização. Estivemos em reunião com um dos dirigentes da SPE (Sociedade de Propósito Específico) e ele reafirmou que o consórcio irá cumprir o prazo e que nós vamos buscar as maiores sinergias, até porque, neste caso, nós somos sócios nessa ação. Uma APPP é uma sociedade entre uma SPE, formada por OAS e Odebrecht e o Governo do Estado. Nós estamos compartilhando uma ação, objetivos naturalmente diferentes, o deles é um objetivo de uma empresa, então é um sócio que pensa no lucro e o Estado é o sócio que pensa no interesse público, de ter uma praça esportiva a altura do desafio posto pela FIFA, mas, sobretudo, também da cidade. Nós não queremos atender apenas os requisitos físicos. Então não há nem falta de alinhamento entre os secretários do governo nem muito menos com o consórcio, nós estamos absolutamente afinados e o tempo vai mostrar isso, que nós estamos caminhando juntos na execução dessa importante obra.
BN – E os prazos?
Ney Campelo - Em relação a prazo, na verdade, é o seguinte: a uma interpretação que o jornal adotou - e que reiterou essa interpretação recentemente - que é uma interpretação equivocada. Quer dizer, quando a FIFA, inclusive o próprio Rodrigo Paiva que é citado na matéria, em nenhum momento se pergunta a ele: “o estádio da Fonte Nova está com”. Primeiro que ele não é qualificado para responder por que ele é um assessor de imprensa da CBF e, segundo, ele não é perguntado, o que o jornalista pergunta é como é que está a situação geral no país, de andamento e tal, aí ele diz, “existe problemas de atraso a FIFA está preocupada”, que é o papel dele defender a situação geral do país, mas, do ponto de vista local, não tenho dúvida em afirmar: nós permanecemos com o projeto mais avançado em relação a qualquer outra praça esportiva. Isso será mais compreendido pela imprensa baiana no dia 13 de abril, quando nós reuniremos as cidades sedes, porque aí a imprensa baiana vai ter oportunidade de conversar e saber o estágio. Então a interpretação tem sido adotada por um setor da imprensa, que no meu entendimento é uma interpretação equivocada, é de que a obra, só existe quando começar a ter picareta, pá e operário com um capacete de obra. É uma obra complexa com um conjunto de investimentos de situações.
BN – As edificações antigas são um empecilho grande...
Ney Campelo – Exatamente, é um local antigo, de estrutura antiga, com o metrô, com redes subterrâneas de água, energia e telefonia, com um aparelho da Oi Telemar colado no estádio que atende os 26 estados, ou seja, se der uma pane ali, uma paralisação, um problema, você prejudica as telecomunicações do país inteiro. Então o que está se fazendo é de maneira responsável. O Estado, liderado pela Secretária do Esporte, está acompanhando isso, solicitando as licenças. Já foi dada entrada, é uma notícia que eu já posso dizer, no projeto de demolição junto à prefeitura. Já existe um projeto também junto ao IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) aguardando pronunciamento de solicitação de parecer. Então prefeitura e IPHAN já estão devidamente, digamos, demandados e nós temos que aguardar o pronunciamento. Nós não vamos entrar com nenhuma ação física - que é a grande expectativa - antes desses pronunciamentos que antecedem qualquer obra, mas estamos fazendo todo o processo intenso de vistoria cautelar, de visitas na região, preparando lá, instalados onde hoje é a Sudesb (na Fonte Nova). Então, o consórcio está lá instalado operando as primeiras ações e aguardando essas licenças serem liberadas com a expectativa, volto a repetir a palavra, expectativa, que até o final de abril, início de maio já possa ter, de fato, essa obra física que é demolir o estádio.
BN – O senhor esteve recentemente na Alemanha.
Ney Campelo - Eu estive recentemente na Alemanha com o Marco Costa - meu assessor - e visitamos três estádios: o de Hannover que é o estádio que inspira o projeto, no Olímpia Stadium, que é o de Berlin, no Alianza Arena, o mais moderno da Europa, em Munique. O de Hannover e o de Munique foram construídos em 3 meses, exatamente no prazo que está sendo apresentado aqui que são estádios. Ambas são arenas mais sofisticadas do que nosso estádio, um nível de sofisticação, por exemplo, com um número maior de torcedores que é o caso do Alianza Arena, com um grau de sofisticação de luxo, troca as cores... Nós visitamos o Alianza inteiro. E ele foi construído em 30 meses. Então não há, digamos assim, nenhum risco temporal de que o consórcio não possa, é claro, a não ser que fatores supervenientes: demora das licenças ou qualquer outro fato superveniente, venha trazer qualquer tipo de dificuldade, mas o Estado não trabalha com outra posição. Até outro dia, o Thiago Mastroianni (repórter da TV Bahia), me perguntou assim: “secretário quando é que o primeiro operário vai estar lá com o capacete?”. Olha, eu estou preocupado menos com o primeiro operário que vai entrar e mais com o último que vai sair, porque ele tem que sair antes do dia 31 de dezembro de 2012, o Estado não trabalha com outra data, por que queremos e vamos abrigar a Copa das Confederações.
BN – O senhor parece meio chateado com a imprensa baiana.
Ney Campelo - Eu acho que a imprensa baiana, parte dela, precisava se inspirar no exemplo do Rio de Janeiro no caso das Olimpíadas. Agora o segundo exemplo com a questão do Pré Sal. Quer dizer, era a cidade inteira, o Estado inteiro, mobilizado e comemorando o fato do Rio escolhido para ser sede das Olimpíadas, agora com esse problema do pré – sal houve uma imensa manifestação no Rio de Janeiro pra assegurar, quer dizer, um movimento da sociedade do estado no sentido de defender este patrimônio. A Copa é um grande, é uma grande oportunidade pra Bahia, portanto ela não pode ser vista, nem contaminada, digamos assim, por visões de caráter político eleitoral, que transferem para Copa um problema que não é da Copa, porque ela vai ser feita independente de quem vai ser o novo governador ou prefeito em 2012. Ela vai acontecer e é uma enorme possibilidade para o estado. Se eu não estiver lá, não há importância nenhuma. Se o Secretário da Copa for outro, a importância é que a Copa se realize e que ela represente os legados pra cidade. Você imagina o que é ter um equipamento dessa natureza? Nós somos uma cidade com o processo mais avançado. Ao ouvir o representante do consórcio em reunião ele disse o seguinte: “Secretário nós não queremos fazer uma boa praça esportiva, a Odebrecht e a OAS querem fazer a melhor arena e o melhor centro de entretenimento da America do Sul”, palavras do presidente da Fonte Nova AS. Agente poder brindar a cidade com um equipamento desta natureza intervindo todo aquele centro histórico, trazendo também, inclusive, eternidade positivas pra ali. Não só bares e restaurantes, casas de show, etc., mas, por exemplo, minha intenção é discutir com o consórcio e com o governo do estado um projeto também de intervenção, de recuperação, de todo aquele entorno como foi feito em outros lugares.
BN – Quais serão os ganhos de infraestrutura que ficará na cidade?
Ney Campelo – Perfeito, Perfeito. São muitas as possibilidades, eu vou começar exatamente assim, contrariando um pouco a sua pergunta, por aquilo que eu considero que seja o maior legado do Brasil com a Bahia, que se chama capacitação. Para mim, o maior ganho dessa Copa de 2014 no Brasil e na Bahia é você formar, qualificar, o nosso povo na área de serviço, de bens, de produção, de comercialização, industrialização de bens, voltados ao evento Copa de 2014, mas que ficam depois da Copa. Nós somos um povo, digamos assim, reconhecidamente hospitaleiro, cordial, que recebe bem, mas não podemos confundir cordialidade com eficiência. Nós estamos muito aquém da prestação de serviços na qualidade que o mundo contemporâneo existe e como um evento como Copa vai demandar, não só para os turistas, para as Seleções, mas para qualquer cidadão que circula e que consome nesta cidade. Para mim o primeiro legado é um rigoroso, um consistente plano de capacitação em todas as áreas do pequeno e médio empresário, aos operadores de turismo, da hotelaria, dos bares e restaurantes, dos cinemas, dos Shoppings, quer dizer, é você formar pessoas, profissionais, empresas para atender bem. O outro legado é na área da infraestrutura, que o maior é o da mobilidade, você consegue fazer intervenções físicas do sistema viário e de soluções de acessibilidade e mobilidade que fiquem para o pós Copa. Existe uma pactuada que é o corredor expresso que vai ligar o aeroporto até o Iguatemi, se articulando com a estação do metrô, que pelo menos esses primeiros 6 Km nós confiamos que a prefeitura faça funcionar, claro que é um metrô municipal, por isso eu tenho que fazer esse tipo de acentuação, mas esperamos que se conclua pra que em 2011 já, quem sabe, esteja em operação. Então você faz um sistema que é intermodal, que vai articular diferentes modais de transporte com soluções também que vão ser realizadas em Lauro de Freitas, que são, fundamentais, sobretudo, um corredor expresso que vai cortar Lauro de Freitas por fora liberando os corredores do que é hoje é a BA 099, a Estrada do Coco, liberando aquilo ali que é a circulação dos turistas e das Seleções, já que grande parte delas vai ficar naquela região do litoral norte: Praia do Forte, Sauípe, Guarajuba, etc. Então, ali é uma ação importante também e outros pontos críticos da cidade, como a duplicação da Pinto de Aguiar - que vai acontecer - para poder facilitar o acesso ao estádio de Pituaçu, que poder ser potencialmente um estádio para treinamento.
BN – Essa duplicação era para ter ficado pronta junto com o estádio, mas até agora, quase um ano e meio depois, nada foi feito. Existe algum prazo?
Ney Campelo - O prazo que tem em mobilidade é agora em abril. O projeto básico fica pronto e no início do segundo semestre começa o processo licitatório para as obras desse corredor expresso, que é o da Paralela. Esse e outros estão em vias ainda em desenvolvimento de projetos básicos, então eu não tenho prazo para lhe dar, se você quiser assim ter mais detalhes sobre isso, aí eu posso lhe dar o contato de doutora Graça Torreão, da Secretária de Desenvolvimento Urbano, que ela pode até lhe dar informações mais detalhadas, mais precisas, mas está no âmbito do estado como compromisso, o Walter Pinheiro, como Secretário de Planejamento, tem afirmado que essa é uma obra compromissada pelo governo do estado. É bom lembrar que vem aí o PAC 2, deve estar sendo anunciado no final deste mês. Esse PAC 2 apresenta o ingresso de recursos federais do OGU (Orçamento Geral da União) paras obras. Então, pode ser que com o PAC 2 algumas dessas obras que estão mais lentas - e é verdade -, como este caso, ganhe maior agilidade, mas enfim, isso é o que está pensado em termos de mobilidade urbana. Vai representar também obras de arte, viadutos, passarelas, que vão ser construídas ali, principalmente em Pituaçu, que integra até aqui o centro administrativo - estava no projeto inicial e não saiu - mas, são essas coisas que valem a Copa. Isso que agente precisa ver, ao invés de com pessimismo que alguns pequenos setores, por que raramente eu vejo uma matéria como, por exemplo, a que saiu no jornal A Tarde, raramente ouço no rádio alguém fazendo uma crítica destrutiva.
BN – O que o senhor acha, de algumas críticas, que falam do governo estar usando a Copa como uma espécie de salvação urbana?
Ney Campelo - Sobre as críticas que você falou, nós não viemos como salvação não. Nós não vamos em 4 anos resolver os problemas acumulados há décadas nesse estado e na nossa cidade também, mas ela é, efetivamente, uma aceleração, um indutor de aceleração. Então, o que nós temos que apostar, ao invés de ficarmos assim numa atitude pessimista de que a Copa não vai resolver tudo, é começar a agir em relação a essas obras pra que agente use a Copa no bom sentido, como indutor de aceleração dessas obras. Se não foram feitas em 15, 20 anos, ao invés de ficar olhando pelo retrovisor, dizendo que a culpa foi do prefeito tal ou do governador tal que não fez há 15, 20 anos, etc., agente vai utilizar a Copa como um instrumento, mas não vai ser a salvação, por que o que vai se fazer em 4 anos não muda o estado.
BN – Mas, independente do governo, o estado, em si, está em descrédito com o povo. O exemplo disso são as obras do metrô, que entra governo, sai governo, continuam travadas.
Ney Campelo – Essa falta de crédito é uma coisa natural, você tem razão, mas veja o caso do estádio. Agente fala hoje muito quando é que vão começar as obras e esquece que esse equipamento estava abandonado. É só olhar o caso do Balbininho. O que era o Balbininho e o que é o Balbininho até ser demolido. Quer dizer, são equipamentos que realmente não vinham tendo a devida atenção dos governos que se sucederam. Agora nos cabe e, neste momento, volto a repetir, é olhar pra frente, é ver o seguinte: não acho que seja uma panacéia para solução, mas é de fato o evento mais importante e que potencialmente reúne mais condições para colocarmos a Bahia, cidade de Salvador em outro patamar. Daí é claro, você segue para frente. É a mesma coisa que eu lhe falei da capacitação. Continuo até repetindo, talvez pela minha formação como professor, educador, como o grande desafio, mas nós não vamos conseguir resolver o problema de formação e de qualificação em 4 anos, nós vamos dar um impute, nesse negócio, se tivermos um bom plano pra chegar em 2014, e você ter aí um grupo de pessoas, um conjunto de profissionais habilitados pra atender bem, pra exercitar bem, colocando em outro patamar, aí a coisa vai, aí é você mobiliza academias, as universidades, faculdades, Sebrae, etc., todos articulados, mas não é panacéia para solução de tudo, como educação. O que o Paulo Freire dizia: “educação não é a panacéia pra solução dos problemas no Brasil, mas sem a educação nada vai mudar nesse país”. Eu repetiria a mesma coisa, a Copa, parafraseando Freire, não é a panacéia para solução de todos os problemas, mas sem a Copa nós teríamos postergado muito mais, muitas soluções que virão. Portanto, precisamos ter aí uma ação integrada que, vamos dizer assim, junte o interesse da imprensa, do mercado, como tarefa de estado que a Copa é não no sentido de termos de fecharmos os olhos para críticas, absolutamente, mas queremos uma imprensa, aliás, temos uma iniciativa de que, em abril, devem acontecer reuniões periódicas, porque vocês são, eu disse isso no dia do evento, vocês são os maiores ouvidores dessa cidade. Então nos interessa muito, não só informá-los do que agente está fazendo, mas ouvir de vocês, coisas como outro dia estavam me dizendo na TVE que falavam que ia acontecer desapropriação de residências no entorno da Fonte Nova. Então, isso chega pra agente. Vocês são uma fonte importante de informação e de visão da opinião pública, pra agente somar medidas, nos ajuda muito esse relacionamento com a imprensa. Então não é, digamos assim, querer, de maneira alguma, reprimir ou represar as críticas que a imprensa faz, é agente começar um esforço coletivo de compreender que, acima de eventuais diferenças das críticas que são feitas, existe um evento de enorme importância e magnitude pro estado da Bahia.
BN – Outras críticas recorrentes, principalmente da torcida do Bahia, é sobre a redução da capacidade do estádio para 55 mil pessoas e sobre sua demolição. O senhor concorda com as duas decisões?
Ney Campelo - Eu estou absolutamente convencido que as duas decisões foram, no ponto de vista técnico e do ponto de vista também de sustentabilidade, as decisões mais corretas que o estado tomou e que serão comprovadas. Em relação à demolição foi um imperativo técnico, ou seja, aquele estádio é um estádio que agente tem que voltar a lembrar, porque é preciso que agente faça chegar à informação no nível, digamos, do detalhe pra que a compreensão se faça, senão fica só uma discussão, digamos assim, no imaginário popular. Claro que a Fonte Nova é um equipamento que tem um enorme vínculo afetivo com a população, é a memória da nossa cidade. Então se uma discussão for assim, não devia demolir, deveria demolir, fica uma discussão sem sentido. O que existe é o seguinte: o estádio foi construído em 1950, um anel em 1950 e a empresa que construiu em 1970, 20 anos depois, o segundo anel, foi outra empresa e ela não respeitou - os que conhecem tecnicamente sabem do que estou falando - no processo construtivo a integração com o anel inferior, tanto que você tinha ali 2 anéis, mas eram 2 anéis que não se articulavam em termo de unidade construtiva. Quando se teve o tal do episódio, do acidente em que foi verificar as condições, o que se constatou, e aí com exigências FIFA, é que seria impossível tecnicamente a manutenção do estádio naquelas características, porque não havia unidade, não atenderia absolutamente os critérios da FIFA. Nós não teríamos estádio ali se fosse manter e fazer reforma, por que a FIFA exige um determinado distanciamento entre o último assento e o estádio que é de no máximo 100 metros. A FIFA não quer estádios olímpicos, então você teria que retirar aquela pista de atletismo, como é que você faz, você empurra na reforma, empurra aí os dois anéis? Não empurra, não tinha como deslocar os anéis. Então, essas razões foram a que levaram as decisões técnicas para a demolição. Além disso, o comprometimento de vigas, não foram tomadas no processo da segunda reforma do anel superior, as medidas necessárias em relação - ao que eu não entendo disso -, mas em relação as ferragens, elas teriam que merecer um tipo de tratamento pra não sofrer a degradação que sofreu. Então, essas são as razões relativas à demolição, não há outro mecanismo ainda sim mantivemos a questão da ferradura que foi o que nós vimos lá no Olímpia Stadium. No Olímpia Stadium, que é um estádio de 1936, época de Adolf Hitler, que abrigou a primeira Olimpíada. Então nessa concepção de convivência harmônica entre o moderno e a historia nós vamos ter um estádio moderno, que mantém a concepção de ferradura em homenagem a Diógenes Rebouças.
BN – E a capacidade de público do estádio?
Ney Campelo - Em relação ao aspecto de sustentabilidade, aí é que tenho mais convicção, porque visitei lá e a conclusão que chegamos é simples: só existem seis estádios na Europa que são superavitários, todos os outros são bancados pelo estado, muitos deles se transformaram em elefantes brancos. Você faz um grande estádio aí depois que termina a Copa esse estádio é ocupado. A história e a trajetória do futebol brasileiro, particularmente futebol baiano, não sinalizam nessa direção aí a paixão do torcedor, a média que foi pesquisada, isso não foi feito assim, não foi 50 mil também da cabeça, foi feita uma média histórica de Bahia e Vitória, está aqui ó (mostra pesquisa): média histórica do Bahia nas séries A,B e C de 25 mil pessoas. Se pegar a média histórica dos últimos anos é muito pior. A do Vitória é mais baixa do que isso, deve ser 60 % disso ou alguma coisa por aí. Se pensarmos em pegar a média de agora, por exemplo, o Bahia tava com uma média inferior a do Vitória, que é uma coisa que nunca se teve notícias nesse sentido. Então, assim, você faz um estádio para receber um jogo, é claro que a torcida do Bahia ou até a torcida do Vitória, botam 80 mil num jogo, mas bota em um jogo, não bota toda semana. Além disso, o ticket médio não vai ser o mesmo, terão na nova Fonte Nova áreas Vips, camarotes... Sabe o que eu acho Éder? Nós temos que resgatar o futebol baiano, profissionalizá-lo e democratizá-lo, de gestão e profissionalização, então são grandes desafios para os clubes baianos, sobretudo os maiores e é óbvio que se este crescimento que pode ser um legado da Copa, ele evoluir para uma perspectiva nova, e eu torço por ela, que e um time baiano botar todo jogo em média 40 ,50 mil.
BN – Existe a possibilidade pós Copa, de aumentar a capacidade, já que o espaço aberto da fechadura continua?
Ney Campelo - Não está descartado. Em vários estádios, Londres agora vai fazer isso nas Olimpíadas, lá na Alemanha se faz a mesma coisa, que é você montar estrutura pós Copa, modeladas. Você pode montar ali 10 mil lugares a mais, uma coisa dessa natureza. Se o futebol baiano apontar nessa direção, ótimo, o estado vai rever. Agora o estado não poderia ser responsável para fazer uma praça pra um número de torcedores e ficar mantendo com dinheiro público um estádio de 70, 90 mil de capacidade. Aliás, para manter esse estádio, pelo menos um clube tem que fazer 33 jogos anualmente. O Bahia, que é o primeiro interessado, pelo que me parece, já informou que jogará lá, mas o Vitória tem que vir. Vou lhe dar um exemplo de insustentabilidade, porque houve uma mudança, isso aí agente vai aprendendo. Eu sou amante do futebol, mas nunca fui especialista em futebol e estou aprendendo muito. Por exemplo, os estádios na década de 1980 eram grandes praças, grandes monumentos, obras monumentais pra 90,100 mil pessoas. Porém, todas elas deficitárias, de péssima qualidade, todo mundo sentado no chão frio do concreto e etc. Isso evoluiu pra uma exigência do Estatuto do Torcedor, exigência da própria sociedade e, sobretudo, com a entrada das TVs fechadas, da importância da televisão na política da mídia esportiva, quer dizer, hoje o cidadão diz o seguinte: “não, eu fico em casa, então eu posso comprar uma TV de LED, uma LCD de 50 polegadas”. Hoje você compra uma LCD, classe média de 50 polegadas por 4 mil reais, 52 polegadas, vou assistir no conforto do meu lar, não vou sentar em um chão quente. Então assim, se passou a exigir torcedores de assentos, atendimento, conforto no acesso a bilheteria, isso foi encarecendo, e ao encarecer as praças esportivas, exige-se outro padrão nos estádios.
BN – Você tem utilizado os estádios alemães como modelo. Lá eles sempre realizam grandes shows nas Arenas.
Ney Campelo - Sabe quanto custa, dito lá pelo Hannover e também no Berlim, cada vez que eles fazem um show e trocam o gramado, são 100 mil euros, são 300 mil reais por vez. Como lá eles têm o problema da nevasca, da neve, eles trocam muito mais. Já tiveram show da Madonna, dos Rolling Stones, e a grama inteira é trocada. Então o custo de sustentação de um estádio hoje é alto, os nossos clubes não estão numa fase positiva e o estado, portanto, tem que ter a responsabilidade de criar uma praça esportiva, digamos assim, que esteja coadune com esse novo paradigma.
BN – Um exemplo desse paradigma é o Morumbi, que é tido como relativamente moderno aqui no Brasil, mas que a FIFA exige muitas mudanças, como a cobertura, por exemplo.
Ney Campelo - O custo de previsão contratual só de cobertura em PPFE, que é o mesmo de Hannover, são R$ 100 milhões. No nosso investimento de R$ 590 milhões, 20% é pra atender esse critério da FIFA. Só que não é apenas esse: ela quer a cobertura, ela quer a certificação verde que tem alto custo pra você fazer projeto e implementação, é uso de água, energia solar, etc. Tudo isso, os custos para a construção são custos altos e vinham de consequência para manutenção. A área de tecnologia de informação que hoje é essencial, a automação, você explorar o processo de acesso, então é altíssimo esse custo, assim nós não podíamos incorrer em um equívoco mesmo respeitando a paixão do torcedor, que era construir um elefante branco. Nós iremos construir ali é uma praça moderna que responde aos interesses da Bahia. Nessas próximas décadas até possível de adaptação, como falei se houver uma curva de crescimento no futebol brasileiro e baiano, que eu espero e torço que aconteça como torcedor, inclusive, eu quero isso.
BN – Fora isso, junto com os ganhos para futebol, a região do estádio tem tudo para crescer.
Ney Campelo - É uma praça moderna, integrada ao centro histórico e antigo da cidade, que vai transformar aquela região ali inteira do Dique do Tororó, por que ali vão surgir muitos empreendimentos no próprio entorno do estádio. No contrato está previsto isso, que é um ano após, o próprio consórcio pode apresentar uma proposta de intervenção. Então, o que você pode ter ali, realmente, é uma requalificação do meio urbano, volto a insistir, sem esquecer a população pobre que reside naquela região. Quando perguntei em Hannover, quantas pessoas trabalhavam, eles falaram que é em torno de 100, mas quando tem evento, duas mil pessoas são convocadas, ou seja, este trabalho de visita cautelar agente já conversou com o consórcio, por que são pessoas que podem ser futuramente treinadas, capacitadas pra grandes eventos, um grande show, uma Copa, etc., trabalho é renda pra essas pessoas, então essa que é a proposta.
BN – Outro questionamento é sobre um estouro do orçamento inicial, como ocorreu em Pituaçu – R$ 22 milhões iniciais, mas se gastou aproximadamente o triplo e ainda faltam as obras do entorno. Existe algum risco disto ocorrer com a Fonte Nova?
Ney Campelo - Na própria matéria do jornal A Tarde tinha uma declaração entre aspas do doutor Alexandre Barradas dizendo: “o APPP é diferente de uma obra pública, um APPP você discute antes qual o valor de investimento, as empresas analisam, apresentam suas taxas e fecham. Então, o valor do estádio, a não ser que o estado queira intervenções que não estejam ali estabelecidas atualmente, ele disse, textualmente, se houver alteração desse orçamento teremos que colocar do próprio bolso, palavras do consórcio. Então, nós não estamos cogitando, volto a dizer, exceto se surgir alguma obra nova que seja do interesse do estado, que sejam agregadas. Aí é outra discussão aditiva a isso. Aditivo no contrato. É perfeitamente possível alegar o cabível se caracterizada obra nova, agora para as obras ali estabelecidas e especificadas que estão no projeto, não cabe e o papel do Secopa é esse nós vamos estar lá atentos. Foi instalado o grupo de arenas entorno pra que garantamos essa multidisciplinaridade, cada um no seu canto de forma a acompanharmos, monitorarmos pra que não haja estouro de orçamentos nem de prazo esse é o nosso papel.
BN – Como funcionarão essas arenas de entorno?
Ney Campelo - A proposta é reunir especialistas do estado em diferentes áreas, desde a modelagem financeira, que é o empréstimo, financiamento do BNDES, a parte de licenças ambientais de questões relacionadas ao planejamento tributário fiscal, questões relacionadas com acompanhamento do projeto executivo, tudo isso vai ser respondido no âmbito desse grupo, que é um grupo importante que vai se reunir, sistematicamente, talvez a cada 15 dias, pra acompanhar o desenvolvimento da obra. É esse o propósito, é ter um grupo e o estado todo reunido.
BN – Qual a situação mais complicada em Salvador em termos de infraestrutura?
Ney Campelo - Para mim o mais complicado diz respeito à questão da mobilidade urbana, esse é o grande desafio, porque primeiro ele é uma ação compartilhada, o estado não pode intervir a seu bel prazer na cidade, por que a cidade tem um prefeito. Nós temos que respeitar a decisão no nível da municipalidade qual é a melhor opção. Se o prefeito, por exemplo, vai seguir pra uma opção de DRT ou VLT se é trilho ou se é pneu, então a decisão que cabe, essencialmente, a prefeitura e o que ela vai adotar. Segundo é que é uma cidade com problemas acumulados por muito tempo nessa área, portanto são ações que não são de alto valor de investimento só esse trecho são R$ 567 milhões. Então, observe, um trecho de mobilidade é praticamente o investimento do estádio, que é R$ 591 milhões, né? E isso já representa R$ 1 bilhão. Como têm outras tantas; duplicações, ampliações, como é o caso da Avenida Gal Costa - via regional pra chegar ao Barradão -, pontos críticos como a ligação entre o Iguatemi até a Lapa, pela Vasco da Gama, é outro investimento que não está pactuado na matriz de responsabilidade. Então pelo volume de investimento que receber e pela complexidade do tráfego e do transporte na nossa cidade este será, no meu entendimento, no campo da infraestrutura, o maior dos desafios. Agora existem outros que não são menos importantes e nem serão simples: a segurança e a saúde, eu destacaria como os outros dois mais complicados. A segurança, por conta, naturalmente, do porte do evento, da sua complexidade, e a saúde porque nós teremos que ter, também integrando com a prefeitura, uma rede de atendimento muito mais ampliada e qualificada no próprio estádio, fora do estádio, em nível de, digamos assim, dos serviços básicos, urgência e emergência, mas também de alta complexidade vai ver se o torcedor tem a necessidade de uma cirurgia complexa, tem que ter esse atendimento, então saúde e segurança eu associaria como dois outros grandes desafios. Se você me pergunta, “secretário” - até por que outro dia fizeram uma exploração de uma declaração que eu dei, dizendo que, “o secretario ta dizendo que não tem dinheiro”, em nenhum momento afirmei. Eu acho o seguinte: que a imprensa tem que ser livre para informar e fazer seu juízo de valor. Se você entender que as obras estão atrasadas, se quiser colocar no Bahia Notícias que as obras estão atrasadas é um mínimo juízo de valor, uma convicção, agente vai acompanhando e a vida vai mostrar quem é que estar certo. Então, acho que não cabe a imprensa é inventar, por exemplo, colocar palavras na boca das pessoas. Isso eu acho que é a falta do profissionalismo e houve uma manipulação.
BN – De que tipo?
Ney Campelo - Os investimentos para um evento como esse não estão nem sequer ainda determinados, por que nós estamos em processo de planejamento. É bom lembrar que nós estamos seis meses em uma Secretária. Não temos dois, nem três anos, são seis meses, então assim os investimentos vão ser decorrência de um planejamento estratégico. Nós esperamos nos próximos três, quatro ou cinco meses estar com esse planejamento pronto. Esses investimentos são investimentos muito altos. São investimentos que eu estimo hoje da ordem de R$ 5 bilhões. Quando pensarmos tudo, investimentos públicos e privados da ordem de R$ 5 bilhões, e isso não cai do céu. Então isso vai ter que representar um enorme esforço do estado, de elevação da sua arrecadação, de interação com a iniciativa privada, de acertos de novas APPP’S, de novas parcerias, de trazer recursos do governo federal: o governo federal precisa colocar mais recursos para Copa, por que esses primeiros investimentos que falei que da R$ 1 bilhão, são dois empréstimos, não é dinheiro, chamado dinheiro não reembolsado.
BN – É como falamos, o investimento para Copa não é só gastar milhões em um estádio. O maior gasto é na infraestrutura da cidade...
Ney Campelo – Habitação, Éder, pode surgir novos bairros só voltados a Copa. O que aconteceu, por exemplo, em Barcelona, em que bairros inteiros foram requalificados. Uma parte do próprio pessoal que vem, quer comprar imóveis, então você vai ter uma revitalização maior do centro histórico.
BN – Ainda assim, muitos críticos do Brasil sediar a Copa, afirmam que esse dinheiro poderia ser utilizado para educação e saúde.
Ney Campelo - Essa visão equivocada de que deveria botar dinheiro em educação, saúde, isso é uma visão pequena limitada do fenômeno de uma cidade, quer dizer, uma cidade ela não é uma relação de investimentos segregados, como se saúde fosse uma coisa, educação outra, cultura outra, esporte outra, tá tudo imbricado. Se eu conseguir, como secretário da Copa, estimular, por exemplo, através do nosso projeto Copa na escola - projeto que nós vamos fazer de uma exposição itinerante pra levar atletas, ex-atletas, a todas as escolas públicas -, se eu conseguir ajudar no sentido de que a educação se articule mais com esse tema e se nós tivermos mais políticas públicas de esporte no campo da educação - agora através da secretaria do esporte realizará uma conferência estadual de esporte. Se isso acontecer, você tem seres humanos tornados integralmente e com opções melhores do que o que agente vê quando abre os jornais e ver um rapaz de 25 anos, pedindo ajuda. Um cara que foi sucesso no carnaval de 2009, pedindo ajuda para sair do crack. Então, é menos investimento em saúde é menos dinheiro do estado aplicado para poder tratar gente e juventude. 75, 80% da população carcerária do nosso estado, meu irmão, tem de 19 a 29 anos. É uma população absolutamente jovem, desempregada ou em situação de subemprego e não escolarizada. Se agente consegue fazer investimentos no esporte, nós estamos economizando o dinheiro, porque o que o estado gasta com um preso em uma dessas unidades prisionais, é mais do que gasta com um aluno na rede pública. Então se gasta mais com a punição e a prisão do que com a educação. Se nós fizermos nessa Copa, esse mecanismo de contaminar o tecido social é uma estratégia de formação integral. Nós estaríamos evoluindo anos luz. Eu fiquei abismado com os exemplos de organização na Alemanha. Às vezes chega a ser até chato, exagerado, nós chegamos em uma esteira de Munique de tirar a mala e tinha uma TV LED, TV LCD, vôo não sei o quê vindo de Berlin, 4 minutos, a sua mala na esteira; “isso deve ser exagero”. Botei aqui o relógio, 4 minutos exatos liga a esteira e a primeira mala sai. Nós fomos ao Alianza Arena e tinha umas mesas e fizemos um pedido de suco, água e chá, aí serviram pra agente antes de começar o primeiro tempo. Aí tomamos o nosso suco, o funcionário perguntou: “vocês bebem o quê?” Eu quero isso suco e água, “ah então tá, suco e água”, e estávamos em quatro e fomos assistir ao jogo. Quando volto, uns 15 minutos, e chego à mesa, ainda estava tudo, água, suco, mas eu não pedir, não precisa pedir porque eles estão trazendo, “já que vão ficar aqui os 15 minutos, então pra vocês não perderem tempo de esperar”. Isso é o quê? Isso é produto de uma sociedade que evoluiu na linha do tempo, então é isso, é um povo que evoluiu na linha do tempo. Agente precisa também caminhar numa direção de um povo que não perca a sua identidade a sua característica.
BN – O senhor falou bastante sobre meio de transporte e sobre as observações que fez na Alemanha. Durante a Copa de 2006, os jornalistas brasileiros ficaram impressionados com estrutura como, por exemplo, de ter acesso a internet de qualquer lugar, como em um trem de uma cidade a outra. Existe algum projeto do tipo para Brasil?
Ney Campelo - Você tocou num assunto importantíssimo porque nós fomos a Finep, que é a financiadora de estudos e projetos, um órgão que fica no Rio de Janeiro, ligado ao ministério, por que nós queremos criar um centro de inovação e pesquisa voltado para a Copa. Vai ter até um edital agora em junho e já vai possibilitar isso. E lá, uma das ações, talvez a mais importante que a Sinep está desenvolvendo, é essa que estou dizendo, ou seja, é tentar fazer com que as 12 cidades se transformem em cidades digitais.
BN – Para ter acesso a internet de qualquer lugar?
Ney Campelo – É, ter acesso a internet de tudo quanto é canto. Se você chegar hoje, por exemplo, no Shopping Salvador, se você não tiver wireless você não sabe, “onde é que eu entro aqui na internet?” Procure! O notebook tem que ter seu wireless ou seu próprio modem, mas digo o mesmo, wireless já temos. O sistema que lá às vezes bloqueia, a velocidade é ruim, então você não tem, entendeu? Você tinha que ter o quê? Em tudo quanto é lugar espaços, digamos assim, público. O que agente precisa fazer é um investimento grande na área de banda larga, de banda mais interessante pra cidade toda. Então, são esses os legados pra que serve uma Copa. É por isso que eu acho assim: to insistindo nesse ponto pra agente encerrar a entrevista e assim, não me move, eu já tenho tido cobertura do Bahia Notícias, às vezes positiva, às vezes negativa e sei que isso faz parte, não sou um gestor de agora. Eu desde 1995 já tinha passagem pela administração pública e em 1983 era vereador com 20 anos de idade. Então não sou nenhum menino para não saber que isso faz parte do jogo, da política, da cidade, do papel próprio da imprensa, que tem que ser livre mesmo pra dizer o que ela pensa e tal. Eu só estou insistindo numa tese é o seguinte: tem algum erro do estado? Pontue, critique esse erro, embasado, chegue dizendo: “o estado tá atrasado, o estado cometeu tal falha”. Agora ter o cuidado a imprensa, daquela história que tem um ditado que diz assim, “não jogue a criança fora da bacia com a água suja. Jogue fora a água, mas deixe a criança”. Ou seja, a Copa é a criança, preservem como imprensa a Copa, como um objetivo importante do nosso povo. Que a crítica ao estado venha no sentido em que ele se coloque cada vez mais a altura desse desafio. Aí eu acho que nós vamos estar tendo um relacionamento ideal com a imprensa. Ninguém é perfeito, ser jornalista não é ser perfeito, nem eu sou como gestor, mas, assim, o meu esforço é de tentar constar estes seguimentos que são tão estratégicos para Copa, pra agente não ter uma visão de Terceiro Mundo, em relação a nós mesmos, de que o Rio de Janeiro, São Paulo, podem ter um estádio de ponta, mas agente não.
BN - Para finalizar, mudando completamente de assunto, o que o senhor acha da idéia de ter um carnaval durante a Copa?
Ney Campelo – O Carnacopa né? Na verdade, foi uma idéia que partiu da prefeitura, sem maiores detalhes, como não sei de que forma vai ser ou se vai ter, prefiro não comentar por enquanto.
