Epifânio Carneiro
Fotos: Edson Ruiz/ Footpress

Por Maurício Naiberg
Bahia Notícias - Você está no clube há mais ou menos dois anos. Como encontrou a divisão de base?
Epifânio Carneiro – Encontrei a divisão de base em uma situação muito complicada, realmente, a começar pelas instalações. Fui no alojamento dos meninos, refeitórios, enfim. Todas as situações prediais estavam em um nível deplorável e não tinha nenhuma condição de deixar um atleta alojado. Isso foi o meu primeiro grande trabalho e preocupação: tornar a coisa habitável e digna de ser usada pelos atletas.
BN – Você era um empresário muito bem sucedido em um ramo que não tinha nada a ver com o futebol. Por que resolveu mudar?
EC – O futebol realmente é uma coisa inexplicável. Não é demagogia, não. O que eu quero é ver o Vitória bem, um dos maiores times do Brasil no futuro. Tem certas coisas que só faço pelo Vitória, assim na vida pessoal, profissional. Na vida em família eu não faço, não.
BN – E como estão as instalações do time agora?
EC – Hoje estão muito bem. A gente melhorou todas as condições dos alojamentos, rouparias, refeitório. Estamos trabalhando agora na rouparia e estamos construindo uma área só para os atletas que vêm fazer teste. Eles vão ficar num lugar separado dos que já estão na casa.
BN – Antigamente o Vitória tinha grandes revelações na base, especialmente no gol, mas hoje não tem acontecido mais isso. Que tipo de problema ocorre na base do time para que o desempenho já não seja tão bom quanto antes?
EC – Com toda a honestidade, pra mim, hoje o grande problema da divisão de base é a concorrência. Aquela avalanche de revelações não vai mais acontecer, temos que ser bem realistas. Todos os clubes do Brasil e no mundo, em qualquer lugarzinho no interior, tem uma divisão de base. Além dos clubes, grandes empresários, ex-jogadores, empresários de vários ramos de atividade, como a Traffic, enfim. Eles também investem maciçamente em base. Então este, pra mim, é o maior problema que as divisões de base de clubes vêm enfrentando. Eu não sei se você chegou a ver uma reportagem na Placar de Novembro falando no Internacional, que investe R$ 11 milhões por ano nas divisões de base. Sendo que deste dinheiro, R$ 6 mil são para advogados e olheiros? Qual o esquema? Eles colocam os olheiros pelo Brasil inteiro e até no exterior, vê a situação que eles estão nos clubes, de preferência em fim de contrato, acertam tudo, vasculham tudo na CBF e compram o garoto com 16, 17 anos. É por isso que o Internacional tem tantas revelações hoje. Mas não é por isso que a gente vai deixar de trabalhar. Tem que trabalhar mais, ser competente. O Vitória tem que se conscientizar que tem que investir mais em todos os sentidos, mas nós não vamos deixar de revelar.
BN - E nos torneios que acontecem por aí? Não tem como tirar alguém de lá e colocar na base do Vitória?
EC - Antigamente, em um torneio, a gente via um jogador que se destacava e a gente facilmente trazia ele para o Vitória. Os meninos queriam vir jogar no Vitória e até mesmo no Bahia. Hoje, quando você vai no menino, um empresário já foi neles antes, já negociou com os pais, o procurador, dono da escolinha, com um clube de menor porte. Como a gente não tem condições de competir financeiramente, fica para trás. Então, o que nos resta? Puxar garotos de 12 anos no máximo, porque até mesmo no infantil não se acha atletas mais dando bobeira. Eles já têm acertos com empresários e clubes.
BN – Jogadores da base do Vitória, como Artur Maia, Jefferson e Romário, já fizeram estágios em grandes clubes da Europa. Como acontecem estes estágios e o que o clube ganha em troca?
EC – Estes estágios, pra gente, é uma oportunidade de mostrar os nossos atletas. Na realidade, quando um atleta é convidado para um estágio, é porque um olheiro destes grandes clubes, que está em todo o Brasil, já viu o jogador e percebeu o talento dele. Isso hoje é um fato. O investimento que estão fazendo hoje em divisão de base nos clubes da Europa é muito grande. Este êxodo de jogadores do Brasil para o exterior vai diminuir, porque eles já estão pegando os meninos de 10, 12 anos para levar a família inteira para morar lá. Então a tendência nestes cinco ou seis anos é reduzir muito esta venda de jogadores para o exterior em função deles já pegarem o garoto bem novo e já preparar ele na Europa e até com mais condições dele virar um grande jogador lá fora. Pra gente é interessante, porque o jogador começa a conhecer a realidade do futebol europeu: língua, clima, alimentação. É interessante também porque lá na frente também já viabiliza uma possível contratação.
BN – Quanto custa a manutenção da divisão de base do Vitória?
EC – Eu fechei o orçamento agora e fiquei até assustado porque cresceu bastante. Principalmente os salários dos novos contratos que a gente faz. Antigamente, o primeiro contrato de um garoto era um salário mínimo. Hoje, estamos tendo que pagar valores bem mais altos até para se proteger das multas rescisórias, porque com elas se pode perder jogadores, como já perdemos recentemente. E também para nos protegermos da concorrência, senão eles chegam aqui, fazem uma proposta melhor para o menino e levam. A gente ta tendo que aumentar o salário dos garotos e isto tem influenciado bastante no custo. Fizemos um orçamento, esperamos que seja cumprido, que é de R$ 4 milhões para 2010.
BN - E este dinheiro é suficiente para manter a base?
EC – É um bom valor se trabalhado com cuidado, cortando desperdício e gastos desnecessários. Bem administrado, dá para ser feito um grande trabalho. É um grande valor.
BN – Recentemente, o Vitória perdeu jogadores como Manteiga. Por que isto acontece?
EC - Exatamente por causa das multas rescisórias, de contrato inicial, com valor baixo, o que é até normal no clube. Pela qualidade do atleta, o empresário se interessa, paga alguma coisa aos pais do atleta, deposita a multa e você não pode fazer absolutamente nada. Está na Lei Pelé.
BN – E esta ação dos empresários prejudica em quanto o clube?
EC – Quantificar isso é muito difícil. Depende da quantidade de jogadores diferenciados e que tenham um valor e mercado alto. Mas que a ação de alguns procurados é muito nociva, isso é. Esta é uma grande preocupação minha desde que eu cheguei, mas também não tem como deixar de conviver com a figura do procurador e do empresário. Até um garoto que chega para fazer um teste hoje já tem um procurador. É a bendita Lei Pelé, que trouxe grandes prejuízos aos clubes formadores. Infelizmente isto é uma realidade com a qual a gente tem que conviver mas, claro, tem que tentar proteger o clube de todas as formas. Não se deixar levar pela ganância destes procuradores e empresários.
BN – Vocês já chegaram até a proibir a entrada de empresários aqui, não é? Quem são estes inimigos do clube?
EC – Olha, quem criou problema pra gente realmente foi o (empresário) Fernando Sérgio, que levou dois atletas com a multa barata, que estava na lei. Na realidade, era o que estava vigorando. Este mesmo a gente teve de falar abertamente com os nossos jogadores: se algum deles tivesse como procurador Fernando Sérgio, ele teria de ou trocar de representante ou então estava liberado do Vitória. A gente trabalha para manter o patrimônio do clube. E teve um outro também, o Sr. Bismarck, que tentou levar o nosso goleiro Gustavo, da geração 93, no primeiro contrato, mas graças a Deus nós conseguimos contornar com os pais do garoto e tiramos o procurador da jogada. É uma concorrência difícil, mas também tem procuradores sérios e que trabalham em comum acordo com o clube, vêem o nosso lado. Então a gente não pode generalizar. O nosso trabalho é afastar aqueles que só pensam única e exclusivamente neles.
BN – Este ano, o Vitória perdeu as três partidas que disputou na Copa São Paulo de Juniores. O que aconteceu? Houve alguma ação de empresários, alguma briga interna? Este resultado, para o Vitória, não é normal.
EC – É verdade. Apesar de eu até achar que pegamos uma chave forte, isto não é desculpa e eu não gosto de arranjar desculpas. O que aconteceu foi a queda para terceira divisão. Claro que, nesta época, a receita caiu drasticamente. É um degrau de queda, pois quando você cai da primeira para a segunda, da segunda para a terceira, o seu nível de receita cai drasticamente, especialmente com a cota de TV do Clube dos 13. Se não tem receita, você não pode manter o que tinha quando era um clube de primeira divisão. E a base foi quem mais sofreu com isso no Vitória. Tanto que até as próprias instalações estavam em um estado deplorável e, com isso, se deixou de se fazer a busca de novos atletas. Porque, na divisão de base, você tem que trabalhar todos os 365 dias do ano. É uma renovação constante. E houve uma estagnação desta busca em 2006 e 2007 e o reflexo disso se deu exatamente agora, na categoria 1990. E não tínhamos uma categoria de qualidade, não é fácil achar atletas de júnior, porque se achar tem que pagar e o Vitória não tem recursos. Então tivemos que levar quem a gente tinha, com jogadores de 92, 93. Não poderia ser diferente do que aconteceu.
BN – Houve algum jogador do Vitória de grande potencial que foi prejudicado por empresários?
EC - (pensativo) Eu posso citar o caso de Manteiga e Alan, que saíram daqui e fizeram muita falta na Copa São Paulo. Estes dois foram levados por Fernando Sérgio, que pagou a multa rescisória.
BN – Vários clubes inexpressivos conseguem ganhar a Copinha e o Vitória nunca ganhou, apesar de ter chegado perto em 1996. Por que acha que isto acontece?
EC – É exatamente a ação daqueles grandes investidores que falei há pouco. Existem realmente muitos grupos que investem em garotos, comprando eles e arranjando clubes de aluguel. Eles vão onde têm garotos bons e colocam na vitrine, que é a Copa, para ganhar dinheiro. É isto o que acontece. São grandes grupos investindo pesado e também, ás vezes, tem um grupo que encaixa. Futebol também tem dessas coisas. Às vezes, quando você menos espera, o grupo encaixa e você faz uma campanha em um torneio curto e se dá bem. E vence até os times de grande estrutura são derrotados. E tem também o detalhe de que, na Copa São Paulo, se você perde um jogo está praticamente fora. Tem que ganhar os outros dois e ainda ficar torcendo para entrar na repescagem. É muito complicada a Copa São Paulo.
BN – Há alguns anos, o Vitória participava de grandes torneios internacionais e, nos últimos anos, isto vem caindo muito. A questão aí é só financeira?
EC – É só financeira. Houve uma que a gente até quis retornar agora, mas como ficamos muitos anos fora, colocaram outros clubes no lugar e agora temos de esperar uma nova oportunidade. Mas até isso também tem que ser revisto, porque não é só participar por participar. Até isso tem que ser escolhido. Temos de participar de torneios que tragam não só retorno financeiro, mas também de parâmetro, para saber se vale a pena. Porque não adianta só dizer que ganhou um título lá fora. Claro que o objetivo é formar o jogador para colocar no time principal e obter retorno financeiro. A divisão de base não é feita para ganhar títulos. Claro, ganhar títulos sempre é bom, mas a qualidade dos torneios é que a gente também está escolhendo. Na Alemanha, ficamos muito satisfeitos, porque tinha grandes equipes do país, da Espanha. Aí vale a pena competir, com clubes de nível para avaliar as nossas categorias. Mas participar por participar nós não vamos mais.
BN – Tem algum jogador hoje que seja A promessa? Você aposta em alguém?
EC – Esse negócio de apostar em garoto é complicado. Às vezes, o garoto de quem você mais espera não dá em nada e aquele em que não apostava nada de repente desponta. Mas sempre tem, não é? Hoje se fala muito de Artur Maia, mas tem o goleiro Gustavo, de 93. Atualmente temos tido muitas convocações: os zagueiros Guido e Josué, Allan, para o sub-20, tem Romário, que foi para o sub-17. Tem Mineiro, Jefferson. Foram 10 convocações nos últimos 12 meses. Então, para gente, é um sinal muito positivo da qualidade do nosso parâmetro. Isso é um ótimo parâmetro.
BN – Ano que vem tem eleição para presidente do Vitória. Muita gente fala em Epifânio Carneiro. Você acha que pode ser o presidente do Vitória.
EC – Esse assunto de eleição não deve nem ser falado agora. Alexi Portela tem mandato até dezembro de 2010 e é o nosso candidato, com a diretoria toda fechada, para ficar mais três anos. Isto é assunto morto aqui no Vitória e já criou muita confusão. Pelo amor de Deus, deixa quieto (risos)!
