Edilberto Crocotá

Por Éder Ferrari
BN – Em que modalidade você iniciou nas artes marciais?
Crocotá - A minha primeira arte foi o jiu-jítsu e a segunda o boxe, mas eu treino muay thai, treino chutes com amigos meus. Então eu faço estilo uma briga de rua. Você tem que treinar um pouco de tudo e ter um conhecimento de cada luta, mas na verdade minha casa hoje e sempre é o jiu-jítsu e o boxe.
BN – E como foi seu início no jiu-jítsu?
Crocotá - Comecei no jiu-jítsu aos 10 anos. Eu ia entrar no caratê e já fazia capoeira, só que eu não tinha nenhuma graduação. Aí, um amigo meu, Edinho, me chamou pra fazer um treino, pra visitar a academia de jiu-jítsu e eu gostei. Dei um rola e via crianças menores do que eu me mobilizando e me finalizando, me fazendo desistir do treino, mesmo eu sendo mais forte do que elas. Não estava conseguindo me mover. Então eu vi que aquela modalidade de arte marcial estava tendo eficiência maior que a minha força. Aí não teve jeito, tive que praticar jiu-jítsu, porque eu vi que não era força, é técnica.
BN – Quando se pratica um esporte com tão pouca idade, normalmente se tem algum ídolo. Em que você se espelhou?
Crocotá – Eu me inspirei nos grandes nomes, que faziam e fazem sucesso lá fora, como Rickson Gracie, Rodrigo Minotauro, que é meu ídolo até hoje, o próprio Rogério Minotouro. Tinha o japonês Kazushi Sakuraba, o Wanderlei Silva... Então, sou fã desses caras, me incentivaram no meu sonho, a ter mais vontade pra chegar até onde eles chegaram. Eu sempre quis fazer Vale Tudo por causa do estilo do Minotauro, que é um cara muito técnico, Wanderlei silva, um cara muito agressivo, Rickson Gracie, por causa da paciência e da técnica dele. Além dos famosos, também me inspirei no meu mestre no jiu-jítsu, Elder Menezes.
BN – Como foi a sua primeira luta no MMA?
Crocotá – Meu mestre no jiu-jítsu quis que eu lutasse Vale Tudo. Eu tive que fazer em Campo Formoso, minha terra. Armei o ringue e tive que lutar no mesmo dia. Depois apareceu uma luta pra mim aqui no Clube da Luta, e depois dessa luta eu não parei mais. Foi nesta luta que eu comecei a abrir minha cabeça pro mundo do Vale Tudo, o MMA. Tenho esses ídolos e penso um dia ser campeão do mundo como eles. Meu sonho sempre foi lutar no Pride (Evento japonês), mas o Pride acabou. No Japão, eles dão muita moral pros atletas, tem muito respeito. Meu sonho é lutar no Japão e voltar pro UFC também, mostrar que eu estou pronto, chegar lá e confirmar minha vaga. Quero mostrar que daquela vez eu não fui tão preparado como eu estou hoje.
BN – O que aconteceu na sua passagem pelo UFC. Por que não deu certo?
Crocotá - O atleta quando está lutando fica eufórico, acha que ele não perde pra ninguém. Então eu não tinha passado por uma experiência internacional ainda, não tinha a malícia. Hoje eu vejo que já sei a malícia de uma luta lá fora, o que você tem que fazer pra ser um campeão. Já sei o que vai ser bom pra mim, o que não vai ser, o que eu tenho que fazer e estou preparado para voltar. Naquela época meu corpo estava preparado, mas minha cabeça não estava para aceitar os grandes desafios que eu encontrei na minha frente. Hoje tenho outra cabeça, acredito muito em mim. Sei que estou preparado pra fazer parte de qualquer evento do mundo e dar um show pro público. Quando eu voltar, vai ser difícil alguém tirar o meu espaço de novo.
BN – Você é conhecido pelo seu estilo polêmico...
Crocotá – O público paga pra ver um show. Tem gente que gasta o dinheiro que não tem pra comprar o convite do evento, vai pra me assistir, pra ver se tem um cara mau na hora, ver um cara lutar de verdade, ver um cara mostrar a raça dele. Então eu tenho que dar o show pra mim, pro público, e pro meu oponente. Tenho que mostrar show sério, representar muito bem e nosso espírito de luta, porque não vai ficar nada agradável você chegar num evento de luta e dar um abraço, um beijo no cara. Com certeza, quando ele entra no ringue, está entrando pra me pegar, pra me acabar. Então, eu entro pra destruir e toda vez que encontro o meu oponente eu falo para ele: “estou aqui pra te pegar, boa sorte, venha pra cima, porque eu vou pra cima”. Isso não vai mudar nunca, porque eu gosto de trocar porrada. O público gosta de ver a madeira empenar em cima. Então se não tiver pronto, é melhor não entrar. Eu tenho meu estilo, não vou deixar de ser um cara palhaço lá em cima, não vou deixar de ser um cara polêmico porque faz parte do meu esporte. Hoje eu faço MMA, não estou fazendo balé, não estou desfilando na passarela. Estou lá pra mostrar minha técnica, minha raça, minha determinação e o meu treinamento pra provar que sou melhor do que o dele. Começo a provar para todos da entrada pra minha luta até na hora que acabo com ela, quando finalizo o meu oponente. Eu não estou entrando lá pra conversar com ele, pegar na mão dele. Depois que ele cair é diferente, mas, antes disso, não tem como. Eu vou pra deitar porrada nele!
BN – Na sua última derrota (perdeu por pontos para Bruno Carioca) você lutou machucado. Não seria mais prudente tratar a lesão ao invés de lutar?
Crocotá - Eu já vi grandes lutadores lutarem machucados e se saírem bem. Minotauro já lutou várias vezes machucado porque, devido ao treinamento pesado, nos machucamos muito. Wanderlei Silva já lutou lesionado; vários grandes lutadores já lutaram machucados. Na verdade, na maioria das vezes eu lutei machucado. Só que, dessa vez, na única derrota que eu tive aqui no Brasil, faltando três dias eu recebi uma porrada de meu parceiro de treino Júnior Cigano. Ele deu uma direta e ele bate muito forte, tem um murro muito potente e acabou quebrando meu ombro com o direto. Não tinha como colocar outra luta e eu não podia falar que eu estava mal. Tenho que mostrar segurança e acabei lutando os três rounds. Como era muito mais forte do que eu, tem uma força bruta mesmo, acabou ganhando a luta por pontos. Deram para ele a luta porque ele conseguiu me dar três quedas e segurava, amarrava. Eu como estava com o braço direito machucado, só podia golpear com a esquerda. Fiz uma grande luta, todo mundo aplaudiu e não era pra eu ter lutado naquele dia, mas eu não podia deixar de entrar porque as pessoas que estão de fora não entendem, pagam o ingresso e querem ver o atleta lá. Eu perdi pra um cara que não era pra perder, que eu sei que não perco pra ele, mas ele não me dá uma revanche. Tudo bem, ele sabe que se der revanche vou ganhar pra ele, mesmo ele acima do meu peso, vou bater nele.

BN – A revanche fica mais difícil por ele lutar numa categoria acima da sua?
Crocotá - Hoje eu estou lutando no meu peso, que é 77 quilos. Vinha de duas lutas no UFC no meu peso e eu lutei com ele até 83 quilos. Eu não consegui subir o peso, acabei lutando com 80 kg, enquanto ele pesou quase 84 um dia antes e deve ter vindo dos 94 quilos. Baixou o peso pra passar na pesagem e recuperou pra hora da luta. Mas é isso aí, ele ganhou, palmas para ele! Que ele vá atrás do sonho dele e que consiga o que tem que conseguir. Mas eu, como atleta que tenho muitas lutas e que a galera gosta de ver o meu show, achei que tinha que ter uma revanche mesmo ele acima do meu peso, só pra tirar essa prova dos nove, pra galera saber quem é o cara. Por que estão fazendo ele no WFE. O atleta não tem que ser feito, ele tem que se fazer. Acho que o lutador tem que mostrar que é bom, sair na mão com um cara bom e ganhar, finalizar, nocautear. Você vê que todas as lutas que ganhei foram por finalização ou nocaute. Até as que eu perdi foram desse jeito, mesmo pra esse cara que foi por pontos. Tenho três derrotas em minha carreira e não vou deixar mais ninguém passar por cima de mim.
BN – Por que você quer tanto essa revanche?
Crocotá - Eu acho que estão trazendo mais uma galinha morta pra ele. Estão crescendo o cara. Em toda minha vida nunca escolhi adversário, já peguei caras acima do meu peso, nunca cheguei a pensar duas vezes pra lutar com qualquer cara. O lutador tendo nome ou não, pra mim tanto faz como tanto fez. Quando queria lutar com esse carinha aí (Bruno Carioca), queria lutar pra mostrar que ele não sabe lutar. Reconheço que ele sabe derrubar e tem força, mas hoje não consegue me derrubar por que eu já sei a defesa das quedas dele e se ele tentar treinar o boxe, vai se atrapalhar todo. O forte dele é a queda, só pode ganhar a luta por queda, não por finalização. Agora mesmo, estão pagando um dinheiro grande para um cara de fora vir para cá lutar com ele, um cara ruim, com tanto atleta bom aqui na Bahia, no Brasil, no Rio, aqui mesmo em Salvador, nos interiores daqui, tantos atletas que podem chegar e ganhar para ele na boa e estão buscando cara fora por quê? Estão pegando uma galinha morta e estão jogando pra ele ganhar né? Queria provar, até mesmo para os donos do evento, que ele não tem condições de me ganhar. Quero sair na mão com ele pra mostrar pra todos que ele não é nada demais.
BN – Vocês lutaram em um campeonato de submission na praia em outubro. Como foi?
Crocotá - Eu lutei com ele na praia e ele não conseguiu me derrubar, viu que estou pronto para ele e minha onda não é a queda, a minha onda é o boxe e o jiu-jítsu. Vocês sabem que eu, mesmo com a mão machucada, quase quebrei o braço dele só com a esquerda e na praia ele não conseguiu me derrubar. No primeiro tempo deu 0 x 0 aí foi pro mata-mata e quem fizesse o primeiro ponto era o campeão. Eu não sabia, achei que ia continuar na contagem dos três pontos. Acabei colocando o pé fora da risca e deram pra ele. Foi o primeiro campeonato que eu disputei na praia e me dei bem. Ganhei no peso e fui 3º no absoluto. Levei o dinheiro todinho da galera, sinal que eu estou preparado para pegar ele. Ele viu minha pressão, meu corpo pequeno, mas sempre venenoso, estou pronto para lutar com ele, mas com certeza não vai acontecer essa luta, porque estão querendo preservar o garoto.
Crocotá - Não foi nada, não teve polêmica. O que aconteceu, na verdade, é que o Taigra é um cara que eu gosto, mas se for pra lutar com o ele, luto qualquer hora. O Taigra é um cara gente boa, merece crescer, vem aí fazendo grandes lutas, lutando com pessoas boas, passa uma vida difícil, como eu passo. O cara vem ralando muito pra conseguir o que quer. Eu não quero lutar com o Taigra porque vou embaçar a carreira dele e eu não quero, porque eu sei que ele tem um futuro. Falaram que eu o chamei de criança, mas não foi isso que aconteceu. O Taigra é um grande lutador e um grande cara, mas eu cheguei a um estágio que tenho que pegar caras de nome pra voltar a lutar lá fora. Vários moleques já me desafiaram por ego, até uns atletas da equipe do moleque lá (Bruno Carioca), mas viram que eu ia atropelar e desistiram. O Taigra vai seguir o caminho dele e quando estiver pronto, quem sabe em um nível internacional, lutadores sem o menor problema.
BN – O que você conhece do estilo do seu próximo adversário, Fabrício Monteiro, que valerá o cinturão do WFE?
Crocotá - Estava olhando as lutas dele. É um rapaz muito bom, experiente. Tenho que ter cuidado com todo oponente, tem que ter uma cabeça boa pra não subestimar o atleta, entrar concentrado, saber o que eu vou fazer. Marcelão (Cruz, treinador) está me ajudando nos treinamentos para eu já entrar com um foco bom em minha cabeça. O professor Luis Dória está sempre me colocando no meu lugar, no eixo, para eu chegar e fazer uma luta concentrada e sair com uma vitória. Fabrício Monteiro é muito bom, vi a luta dele com o José Pelé e outras lutas que aconteceram no Japão. Pretendo fazer uma luta show, pronto pra ser mais uma vez campeão e eu estou precisando do título. Estou fazendo bons treinamentos: resistência, técnica de chão, boxe, muay thai e o caratê estão em dia. Vou sentir a luta. Se tiver que ficar na trocação, vou até o final, se for pro chão, também estou seguro, mas quem vai pedir é ele, que vai ver o cardápio e vai pedir né? Eu só estou lá para oferecer o que ele vai querer, mas de uma coisa ele pode ter certeza: eu não estou entrando pra fazer brincadeira dessa vez. Como vocês vêm assistindo às minhas lutas, sabem que eu não estou mais brincando. Estou levando a luta muito a sério, que é meu trabalho e pretendo fazer uma grande luta. Ele vai que gastar a energia dele toda no primeiro round, que é quando eu estarei ainda estudando, concentrado. Segundo round em diante, o bicho vai pegar porque é quando eu vou para cima dele.

BN – Você tem falado que quer voltar a lutar no exterior. Acha que facilitaria sua se você se mudasse para os Estados Unidos, por exemplo?
Crocotá - Tudo é o momento, mas na verdade eu não vou deixar a Bahia. Me sinto bem aqui, tenho uma família, o professor Dória pra mim é um pai hoje. É único treinador que conhece os atletas dele de corpo e alma e sabe quando o atleta está bem só em olhar pro cara e, por isso, não posso ficar longe do professor Dória, porque ele está me ensinando muita coisa. Vou ser campeão treinando na Bahia, vou ser campeão do mundo treinando aqui em Salvador, porque eu sou baiano e tenho que levantar a bandeira da Bahia. Com os apoios que eu tenho hoje, dá para eu ficar muito bem aqui, porque hoje eu tenho o apoio da NOGI, do seu Valmir. Eu não penso em morar nos Estados Unidos, eu só quero lutar lá. Posso passar 15 dias e voltar pra minha cidade, que me dá esse ar fresco, me dá essa força. Tenho amigos muito próximos que podem me ajudar, todas as academias que eu ando aqui em Salvador estão com as portas abertas; o público me trata super bem e a galera sabe que eu sou um guerreiro baiano. Estou entrando pra defender a nossa cidade, levantar a bandeira da Bahia. Não adianta eu ir treinar nos Estados Unidos, que lá não vai ter o melhor treinador. Eu tenho grande amigos. O Marcelo Cruz é de São Paulo, bicampeão de boxe e lutou agora o muay thai na Copa Brasil e foi campeão, veio gastando muito pra ficar aqui me ajudando para essa luta. O professor Dória esteve comigo me ajudando nos treinamentos até poucos dias (atrás), mas ele teve que viajar pra luta do Rogério (Minotouro) no UFC 106, que vai acontecer no mesmo dia do WFE 5 (dia 21 de novembro). A pressão lá pro Rogério vai ser muito maior porque vai lutar em terras diferentes, com um público diferente, sua estreia no evento. E aqui estou em casa.
BN – Deixe um recado pra galera que vai assistir a luta pelo cinturão do WFE contra o Fabrício Monteiro.
Crocotá - Meu sonho é fazer a melhor luta da noite pra todo mundo bater palma. Eu não estou lutando com um cara iniciante. O Fabrício é um cara profissional, que tem uma carreira longa, tem grandes lutas, então eu não posso subestimar um cara que já tem uma carreira como essa. Tenho que ter um respeito por ele fora do ringe, mas dentro do ringue, só nós dois, eu não vou respeitá-lo e ele não vai me respeitar, vai ser um pra cima do outro. E que ele venha muito treinado, pois estou querendo confusão lá em cima, querendo briga. Eu quero sair com a vitória e eu estou indo buscar o cinturão. Quero deixar a vitória na Bahia. Quem chega aqui tem que vir com respeito, por que aqui é a cidade do respeito. É muito bom andar na rua e receber o reconhecimento dos fãs, que te admiram, que vão lá pra ver o crocodilo andar, e, com certeza, vou fazer mais um crocodilo (Crocotá comemora suas vitórias imitando o andar de um crocodilo) na Bahia. O crocodilo vai andar!
