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Entrevistas

Entrevista

Alison

Alison
Foto: Éder Ferrari/ Bahia Notícias


Por Éder Ferrari

BN – Você já vem treinando normalmente com o grupo. Quando veremos novamente Alison em campo ainda esse ano?

Alison - Eu me lesionei dia 26 de fevereiro num jogo contra o Colo-Colo e a minha cirurgia foi dia 17 de março. Vai fazer oito meses da contusão e sete meses da cirurgia, e o momento em que eu me encontro é de trabalho com o grupo, trabalho físico, técnico, tático, mas não ainda no meu ideal, nas condições melhores, e ainda continuo fazendo um trabalho de fortalecimento, de fisioterapia. Porque no local ainda sinto muitas dores e o tornozelo também começou a me doer alguns dias pra cá. Mas venho treinado no dia-a-dia, trabalhando a fisioterapia, descendo pro campo e tentando aprimorar pra que o mais rápido possível tenha condições de jogar uma partida oficial, mas nesse momento não tenho condições.

BN – Com essas dores, a confiança para dividir bolas nos treinamentos ainda é baixa?

Alison - Ainda tem uma atrofia da perna direita para a esquerda e isso me prejudica muito na parte de força, estabilidade. A questão da dividida, eu não divido bola ainda, tiro o pé porque não tenho essa confiança. O joelho ainda me incomoda um pouco, mas quem passou por essa cirurgia e o doutor Fábio Costa falam que é normal. No dia-a-dia que eu vou começar a ter essa confiança, começar voltar a dividir. Essas dores vão sumir. Espero que possa sumir o mais rápido possível porque a ansiedade já toma conta. Quero poder voltar e tentar ajudar a equipe, que não se encontra numa situação boa.

BN – Ainda tem esperança de jogar esse ano?

Alison - Tenho. Tenho esperança de jogar os últimos três jogos da Série B, porque pretendo acabar o ano em condições de disputar partidas oficiais, para que ano que vem eu possa voltar com força total. A idade está chegando, está na hora de você dar que nem o boleiro fala: “o chute certo” pra poder conseguir uma independência, algo pra família. Então está mais do que na hora de eu voltar a brilhar, voltar a fazer que eu mais gosto e agora com mais intensidade ainda.

BN – Antes de fazer a cirurgia, você chegou a falar em entrevistas que pensava em abandonar a carreira.

Alison - Nos primeiros dias foram os momentos mais difíceis, sem sombra de dúvidas! Como eu tinha frisado no início da minha lesão, sempre procurei fazer o bem, o bem ao próximo, um cara correto, dentro das coisas certas, um bom pai, um bom filho, um bom marido, um bom colega. Sempre me perguntava por que comigo, o porquê disso acontecer, e os dias foram me mostrando o porquê de tudo. No início eu pensei muito em largar, não iria fazer a cirurgia, ia voltar ao meu estado, ia voltar pra perto dos meus pais, já que meus pais poderiam estar comigo, me dando uma condição (de viver). Depois eu refletir, vi que eu tenho uma criança totalmente dependente de mim e da minha esposa, então botei a cabeça no lugar e eu vi que tinha que seguir em frente. As coisas foram acontecendo, Deus foi me mostrando os propósitos, minha cabeça foi melhorando e cada dia que passa melhora mais.

BN – Qual a lição que você tirou dessa fase?

Alison - Nesses momentos mais difíceis que vemos quem é quem. (Você) Se surpreende muito, porque muita gente, quando você está numa fase boa, fazendo gols, recebendo propostas de clubes da Série A, de fora do país, essas coisas, as pessoas estão em cima de você, dizem que você é o melhor zagueiro do mundo, que você é zagueiro de Seleção Brasileira. Mas quando as coisas acontecem é que a gente vê. Na hora do vamos ver, mesmo, não ajudam. Mas isso aí eu não esperava muito de algumas pessoas, mas o mais importante é que quem eram meus verdadeiros amigos se tornaram mais ainda e minha família, como sempre, nunca abandona, sempre vai estar do lado nos momentos difíceis, nos momentos bons. Quando eu vivo um bom momento, eu vivo ao lado da minha família. Quando eu vivo um mau momento, minha família também está perto de mim, eu não diferencio. Quando eu estou vivendo um bom momento não largo a família pra ir pro mundão, não. Por isso que sou uma pessoa iluminada, sou uma pessoa abençoada, que está passando por essa dificuldade. Vou superar, tenho certeza, porque Deus é maior que todos nós.

BN – Você acha que estava em sua melhor fase no futebol quando se machucou?

Alison - Acho que sim, né? A Série C em 2007 também foi muito boa, mas foi mais pelo momento que eu passei no final de 2008. Fiquei em casa, tive alguns problemas familiares de doença e só Deus pra explicar, pra poder falar, só Deus sabe o que se passou, que não vem ao caso falar nesse momento. E voltei pra cá desiludido do futebol, sem objetivos, sem metas e as coisas no início do ano não aconteceram estando no banco de reservas de um coletivo, não indo pra relação. Mas, de repente, tudo revirou novamente. Deus me colocou no caminho, me colocou com a cabeça boa novamente pra eu brigar por meus objetivos e eu centrei na busca dos meus sonhos e voltei a jogar bem, a fazer gols, a ser titular, cair nas graças da torcida. A torcida, graças a Deus, voltou a me apoiar novamente. Então, voltei a fazer aquilo que eu mais gostava, que é jogar futebol com prazer, coisa que eu tinha perdido. Estava com aquela alegria, felicidade, na melhor fase, e, de repente, tomei um baque grande dessa cirurgia. Mas, como eu falei, agora é passado. É viver o momento. Tenho certeza que algo de bom vai acontecer em minha vida, porque estou fazendo por onde merecer essa benção do senhor.
 

Foto: Max Haack/Bahia Notícias


BN - Você e Nen estavam formando uma zaga muito segura e coincidiu dele cair de produção com sua saída.

Alison – A gente se encaixou muito bem, se entendia super bem. Estávamos sempre conversando dentro e fora de campo, inclusive moramos no mesmo condomínio, praticamente vizinhos. A gente também sempre está batendo papo, conversando, tentando de alguma forma ajudar. E, no início, as coisas andaram de uma forma impressionante, parecia que a gente já jogava junto há muitos anos. Estávamos vivendo um grande momento, brigando pela artilharia. Foi um momento maravilhoso, mágico, que infelizmente não vai voltar atrás, mas como você falou e muitos frisaram. Depois da minha saída e da minha lesão, o time teve uma queda de rendimento. Infelizmente isso aconteceu e não conseguimos o nosso objetivo que era ser campeão estadual, por causa de detalhes. Eu vejo que aquele jogo contra o Vitória poderia dar tanto pra um quanto para outro, porque criamos inúmeras oportunidades, tivemos com o título na frente e perdemos. Na Série B não começamos da forma que queríamos, apesar de ter começado com o pé direito a estréia contra o Paraná, mas o time não se encaixou.

BN – Em sua opinião, qual o motivo para esse time não ter encaixado?

Alison - Acho que depois da saída do professor Gallo a equipe sentiu muito. Era um cara que estava ali com a gente no dia a dia, tinha o nosso respeito, nosso apoio. Fomos tomados de surpresa com a demissão dele, que é um cara que eu sou muito grato pelo que ele fez por mim, tem minha admiração e ele sabe disso. Quando ele estava aqui, chegamos a ficar ali na 3º posição, brigando pra subir, mas alguns resultados ruins fora de casa e uma derrota em Pituaçu para o Figueirense foi tomada a decisão de mandar ele embora, que é uma coisa da diretoria. Temos no papel um plantel muito bom, mas dentro de campo as coisas não se encaixaram, não aconteceram. A diretoria fez um esforço muito grande, investiu muito no time e em estrutura, um sacrifício enorme para que essa equipe voltasse a Série A, mas estamos ai brigando pra permanecer na Série B, infelizmente. A estrutura melhorou muito, isso aí não tem nem o que falar. O Bahia melhorou e melhorou muito. Temos agora uma academia de primeiro mundo. Muita gente não dá valor, mas é importantíssima para o atleta profissional. Mas tenho certeza que vamos permanecer na Série B por que os jogadores estão imbuídos nisso e esse susto vai ser de aprendizado para não repetirmos mais os erros desse ano.

BN – Então para você a demissão de Alexandre Gallo foi fundamental para o Bahia estar nessa situação de disputar para não cair?

Alison – Como eu já disse, acho que o único momento que chegamos a disputar vaga no G4 foi com o Gallo. Mas, senão me engano, dois empates e uma derrota em sequência levaram à demissão dele, que foi uma decisão da diretoria e somos empregados do clube e temos que acatar, mas o baque foi muito grande no grupo. Não que os outros treinadores não tenham nos ajudado, mas foi o Gallo que montou essa equipe, ele que conhecia as características, a vontade, o potencial e como tirar o melhor de cada um. Depois, pelas circunstâncias das partidas, acabamos deixando de brigar pelo G4 e temos que viver o presente, que é esse ai, de lutar para não cair. Acho que uma equipe dessa, um time desse como o Bahia, não é pra estar disputando Série C e tenho certeza que vamos escapar disso e ano que vem com os erros aprendidos lutar para subir.

BN – Você falou em estrutura.

Alison – No ano passado não tínhamos nosso torcedor do lado. Estávamos acostumados a jogar com 50, 60 mil pessoas na Fonte Nova e fomos obrigados a jogar em Feira de Santana para 3 mil. Com isso, o Bahia perdeu essa receita, nossos salários atrasavam, mas a gente entendia o momento do clube e fomos encarando as dificuldades, que dias melhores viriam, como acabou acontecendo. Esse ano o Bahia se encontra em outra situação. No início brigando por títulos, brigando para subir, com Pituaçu, mas de repente o time desandou e é até difícil de explicar.

BN – Como foi a convivência com Paulo Carneiro?

Alison – Eu particularmente tenho um respeito, um carinho muito grande pela pessoa dele, por que, independente de onde ele tenha vindo, acima de tudo está o homem. Eu tive uma convivência espetacular, enquanto esteve aqui só fez me ajudar. Ele tem esse jeito de lidar com a imprensa, esse jeito grosso que muitos falam, mas com a gente sempre foi tranqüilo. Procura sempre nos ajudar, nos apoiar, tem uma visão muito boa do futebol. É um cara para quem eu tiro o chapéu, só tenho que agradecer. Um cara com o coração extraordinário e é um cara que, quem conviveu com ele, pode ter certeza de que, se ele gostar, vai fazer tudo por você.

BN – Você está no Bahia desde 2007 e viveu momentos complicados de salários atrasados com a antiga diretoria e passou por isso agora com a nova. Qual a diferença das duas diretorias?


Alison – Eu respeito a opinião de todos, dos torcedores, e tenho certeza que eles vão respeitar a minha também. Em questão de Petrônio Barradas e Paulo Maracajá, tive uma convivência muito boa, todos sabem que eu sou um cara tranqüilo, fácil de lidar, que trato todo mundo super bem e eles também me tratavam da mesma forma. Sempre que tinha algum problema, ia lá, sentava com eles para conversar e eles tentavam resolver da melhor maneira possível, até porque as condições eram completamente diferentes, desfavoráveis. E esse ano, convivendo com Marcelinho, com Marcelo Guimarães, também são caras super tranqüilos. Quando a gente chega ali pra conversar, pra resolver alguma coisa, eles sempre são atenciosos e procuram nos ajudar da melhor maneira possível. Quando eu precisei deles, me ajudaram muito. Não tenho do que reclamar deles, não. Essa é minha opinião e tenho certeza que as pessoas vão respeitar.


Foto: Max Haack/Bahia Notícias


BN – O Bahia passou por uma turbulência com a saída de Paulo Carneiro, salários atrasados. E sua situação, já que estava machucado? Houve alguma diferença, ficou mais tempo sem receber?

Alison – Meu salário está igual a todos. Recebemos agosto e Marcelinho deu a palavra que até o final de outubro ia quitar esse mês de setembro que venceu. Mas temos que entender também e pensar no que aconteceu com o clube. A torcida, com razão devido aos resultados, não comparece mais em peso como acontecia no início do ano, o valor dos ingressos diminuiu. Então, temos que entender. Por isso, como eu já disse, temos que conversar, nos acertar, sentar embaixo de um pé-de-pau e resolver a situação na conversa, esse é meu lema. E tenho a consciência também que temos que fazer as coisas acontecerem dentro de campo. Porém, independente das coisas acontecerem dentro de campo ou não, somos trabalhadores e temos que receber aquilo que foi acordado, assinado em contrato. Ninguém aqui forçou a vinda, ninguém colocou arma na cabeça de ninguém pra ser contratado. Como pais de família, temos todo o direito de receber aquilo que foi acertado. Tenho certeza que o pior já passou e que todos nós teremos um final de ano melhor, mais tranqüilo.

BN – Algumas semanas atrás você falou que iria sentar com a diretoria para ampliar seu contrato, que termina em 2010. Em que pé está essa renovação?

Alison – Ainda não sentamos. Meu empresário até veio aqui pra tentar resolver isso, mas acabou não acontecendo, infelizmente. O momento agora é focado para tirar o Bahia dessa situação, mas meu pensamento é permanecer aqui. Tenho muita vontade de ficar mais uns anos, até falo com minha esposa que nossa filha vai crescer aqui, vai se formar aqui. Por que por mim eu faria contrato de 10, 15 anos, até para ser diretor depois. Todos me tratam muito bem aqui, sou tratado como nunca fui em lugar nenhum, tenho o carinho dos torcedores. É impressionante. Então, quando estamos num lugar que somos tratados dessa maneira, sendo querido por todos, temos que dar valor e eu faço muito isso. Vestir a camisa do Bahia é um sonho, por que desde criança lá no Rio Grande do Norte vim defender uma categoria de base e hoje estou no profissional. Dou muito valor a isso, por estar empregado e poder sustentar a minha família. Pretendo renovar, mas isso ai vai dá vontade deles também (diretoria), da vontade do homem lá de cima e o que tiver de ser pra mim, será. O que eu tenho que é que fazer por onde, trabalhar muito, com dedicação e respeito. Às vezes, por um motivo ou outro, você sai do lugar onde te tratam bem e acaba sendo maltratado em outro lugar e sente saudade de onde você estava. Por isso dou muito valor ao Bahia. Além do que, estou perto de casa, minha família pode vir me visitar com facilidade e eu a eles. Então, por mim, renovava logo até 2020!

BN – Voltando à sua recuperação, você fala que ainda espera jogar esse ano, mas pela situação do time na Série B e pelas dores que você ainda sente e a falta de ritmo, será complicado que você ainda atue esse ano. Caso isso aconteça, esses últimos meses vão servir como uma espécie de pré-temporada para você voltar voando em 2010?

Alison – Sem sombra de dúvidas. Pretendo terminar o ano em condições de jogar uma partida oficial, mas depende também do treinador. Como você falou, estou sem ritmo nenhum de jogo e isso pesa muito no seu rendimento. O cara ficar um mês, dois meses sem jogar já senti muito, imagina oito, nove meses. Então, a força de vontade supera, mas não depende só de mim, depende de vários fatores. O importante é que eu estou trabalhando sério, me condicionando, seguindo as orientações com muito cuidado para as coisas acontecerem no tempo certo, no tempo do homem lá de cima. Eu tenho certeza que eu vou voltar e voltar bem. Deus está guardando uma coisa boa pra mim num futuro bem próximo.

BN – Você aceitaria jogar a Taça Estado para adquirir esse ritmo de jogo?

Alison – Sem problema nenhum! Vindo a ordem lá de cima pra eu jogar com os meninos da base, não vejo problema quanto a isso. Seria um prazer enorme estar com eles dentro de campo. O importante é que eu possa terminar o campeonato em condições de jogo, apto para disputar uma partida oficial.
BN – Com toda essa preparação, você espera que 2010 seja o seu ano?
Alison – Se Deus quiser, cara! Acho que está mais do que na hora de Alison brilhar em todos os sentidos e colocar o Bahia na Série A. Por que desde que eu cheguei aqui em 11 de maio de 2007, esse era o meu pensamento: tirar o Bahia da C, da B e deixar na A. E eu tenho certeza que eu vou sair daqui com meu dever cumprido. Meu sonho é colocar o Bahia na Série A, com estádio lotado, ver num domingo essa Paralela parada por causa de um jogo do Bahia. Eu passo falar disso, por que eu já vivi isso na Fonte Nova e sei como é contagiante.

BN – Por falar na torcida, sua relação com ela quase sempre foi de muito carinho.

Alison – Ela é espetacular. Uma torcida humilde, que tira o pão de casa, do alimento dos filhos, pra ir incentivar, apoiar o time. Isso é impressionante, emocionante e faz com que a gente só valorize mais esse time. Eu só tenho que agradecer a todos que me ajudaram nessa minha recuperação, rezando, dando forças, e podem ficar tranqüilos que eu vou continuar trabalhando para ajudar o Bahia da melhor maneira possível.