João Andrade
Por Lucas Esteves || Colaborou Daniel Pinto
Bahia Notícias - Conhecemos sempre as vozes dos narradores esportivos do rádio, mas nunca sabemos qual o rosto e a história deles. Quem é João Andrade?
João Andrade – A minha história não é diferente da de tanta gente que veio do interior. Eu nasci em Conceição do Almeida, uma cidadezinha do recôncavo baiano, próxima ali de Cruz das Almas, Sapeaçu, Muritiba. Meu pai e a minha mãe tiveram oito filhos, eu sou o quinto do casal. E o detalhe é que uma família do interior, para vir para a capital, vem para buscar melhoras. Vem para (cursar) a faculdade. Na época, em Cruz das Almas tinha a Faculdade de Agronomia, mas os meus irmãos queriam fazer outros cursos, então teve que vir todo mundo para Salvador. A mais velha veio primeiro, depois o outro irmão mais velho, e na sequência eu vim também, com 19 anos de idade, e estou aqui até hoje.
BN - E como foi que começou com o rádio?
JA – Na época em que eu cheguei em Salvador, em nem sabia o que era o rádio, só conhecia de ouvir, mas aí começou. Na época eu trabalhava no ramo de refrigeração, vendendo equipamentos. E aí Enaldo Rodrigues montou uma equipe de rádio e tinha um escritoriozinho no mesmo prédio da minha loja. A loja era embaixo e o escritório dele em cima. E ele tinha uma equipe esportiva. Essa equipe trabalhava na Bandeirantes, depois oi pra Rádio Bahia. E na Rádio Bahia Enaldo Rodrigues me perguntou se eu não queria fazer rádio, porque ele disse que eu tinha a voz para o negócio. Eu disse que não sabia se tinha jeito, mas dizia que rádio em futebol era um negócio complicado, porque ele é um desagregador de famílias. Ele tira a gente no final de semana, que você tem para passar com a família, já não pode mais passar, justamente porque tem o futebol para rolar. Então ele disse “não, você fala com a sua esposa que troca o sábado pelo domingo. Em vez de você ir sábado e domingo para a praia, vai no sábado e, no domingo, participa da rádio no futebol”. Então eu conversei com a minha esposa e acabei mudando o meu horário de lazer com a família. Entrei na rádio Bahia como radioescuta. É o vestibular do rádio. É o cara que fica fazendo as ligações pros lugares, escutando outros jogos, olhando na televisão, procurando resultados e tudo o mais. Nesta época, o plantonista oficial era Edmundo Filho (atual chefe do setor de rádio da Agecom). Eu era o radioescuta do plantonista, que lança aquelas informações que eu conseguia no ar.
BN – E o que aconteceu para que você evoluísse da radioescuta para a locução?
JA – Durante este trabalho na Rádio Bahia, um dia Enaldo Rodrigues, que é um cara rígido na questão de horário, viu uma falha. Se uma jornada esportiva ia começar num domingo às 15h, se você chegasse lá 14h30 já estava atrasado. E um dia Edmundo chegou 14h45. Enaldo Rodrigues, aí, virou para Edmundo e disse “você hoje está hora do plantão porque você chegou atrasado. João Andrade vai assumir o plantão”. E aí tomei um susto. E Edmundo Filho, com o bom caráter que ele tem, gente boa pra caramba, em vez de ir embora para casa, não. Ele ficou sendo o meu radioescuta. E nesse dia eu virei o plantonista oficial da rádio. Depois daí, fui melhorando. Passei para repórter, setorista do Bahia. Comecei a fazer reportagem, pista, sempre com Enaldo Rodrigues, mas aí na Salvador FM. Depois fui para a Rádio Cultura. Lá tinha um “sabadão”, que foi criado por eles para fazer transmissão. E a gente precisava reencher o sábado. Então tinha transmissões de futebol de salão, de categoria de juniores, categoria infantil. E nesse espaço eu comecei a narrar poraí, narrando futebol de salão no Baiano de Tênis, no Campomar, júnior e Juvenil no Estádio Metropolitano de Pituaçu. Um belo tempo, a Rádio Cultura acabou e eu fiquei só no “A Bola é Nossa”, na Rádio Excelsior da Bahia. Fiquei seis anos com Wilson Lago lá. Mas lá eu só fazia resenha, mas a minha vontade era fazer pista. Não era nem de narrar bola, ainda, porque naquela época eu era repórter. Eu já havia narrado uma bolinha lá para Enaldo Rodrigues. Mas aí eu fui na Rádio Cristal pedir a Jota Freitas, que era o comandante da equipe, para fazer reportagem de pista, porque lá na Excelsior eu trabalhava como repórter setorista. Ele disse que não tinha vaga para mim naquele setor, porque ele já tinha quatro grandes profissionais: Wilton Matos, Leandro Guerrilha, Jorge Catugy e Hélcio Braga. Mas disse que havia uma vaga de narrador. Eu disse que queria. Então Jota Freitas me deu essa grande oportunidade para fazer a narração do futebol profissional.
BN – Depois disso, como foi?
JA – Eu fiquei lá na Cristal narrando a minha bolinha e aí Silva Rocha, que trabalhava na Sociedade, me ligou e disse “João Andrade, continue aprendendo aí, tocando a sua bolinha. Eu estou lhe ouvindo e você está bem. Um dia eu penso em montar a minha equipe. Quando eu sair daqui, eu vou chamar você para trabalhar comigo”. Aí, um belo dia, a Sociedade demitiu Silva Rocha, Djalma Costa Lino e Paulo Cerqueira. Eles montaram a equipe “Toque de Bola”, na Rádio Metrópole. Os narradores lá eram Djalma Costa Lino, Ivanildo Fontes e Nilton Batista. Três grandes narradores, como tem toda a equipe que se preza. Então, nesse caso, eu fiquei de fora. Mas Batista acabou saindo, não sei por quê. Então Silva Rocha me disse “a hora é essa. Quer vir trabalhar aqui pra gente”? Eu disse “vou!”. Ele perguntou se eu poderia viajar em um domingo e eu topei. Era para fazer Bahia x Portuguesa, no Canindé. Então arrumei a minha mala e desci para lá. Chegando lá, o Bahia jogou até bem, fez um gol com Iranildo, mas a Portuguesa virou para 2 x 1. Foi meu primeiro jogo na Equipe “Toque de Bola”. Eu gostei, mas fiquei preocupado, porque na equipe trabalhavam grandes cobras, como Jorge Sanmartin, João Sá, Paulo Cerqueira, Djalma Costa Lina – que não sabia que eu era narrador, Silva Rocha quem disse a ele. Ele disse a Djalma que poderia me colocar no ar, pois eu não ia decepcionar. Então, voltando de São Paulo, eu fui para o Barradão fazer um jogo lá. E aí perguntei A Marlon de Oliveira, filho do saudoso Juarez de Oliveira, que era operador da rádio na época: “E aí? Como foi?” Ele disse “rapaz... Paulo Cerqueira disse aqui ‘achamos o nosso narrador!’”. Então pronto, eu era o cara.
BN – Esse foi o começo exato da sua trajetória como narrador entre os grandes do rádio brasileiro, mas a sua ascensão de verdade ocorreu durante o período em que você trabalhou na equipe de Zé Eduardo, passando por algumas rádios da cidade e ganhando os fãs que tem hoje. Como começou a trabalhar com ele?
JA – Antes disso, eu fiquei ainda mais um tempo na Toque de Bola, que se mudou. Foi da Metrópole para a Itaparica e depois foi para a Itapoan e aí acabou. Quando ela acabou, Zé Eduardo já estava com o esquema dele na Transamérica. Então como o pessoal foi saindo da Toque de Bola, ele foi absorvendo parte dessa equipe. Levou primeiro Silva Rocha, Ivanildo Fontes, Paulo Cerqueira e Manoel Lima Matos como comentarista de arbitragem. E eu fiquei numa guerra cá fora. Fiquei fora do ar mais ou menos uns 10 dias, porque o Pastor Veríssimo, que comandava a Rádio Sociedade, ligou para mim e disse e passou 2h30 para me dizer que queria contratar um narrador, mas o primeiro nome era de Nilton Nogueira e o segundo era o meu. Então, se Nogueira desistisse de vir para a Sociedade, eu entraria no lugar dele. E Nogueira trabalhava na Transamérica. E ficou aquela indecisão. Fica, não fica, vai, não vai. E eu fiquei pressionando Nogueira para resolver se ele ia para a Sociedade ou não. Então um dia ele foi a Pelotas fazer Brasil de Pelotas x Vitória e eu fiquei em Salvador na expectativa. Quando ele voltou, eu disse a ele que se decidisse logo. Então ele decidiu ir para a Rádio Sociedade, onde está até hoje, e eu me acoplei à Rádio Transamérica, na equipe de Zé Eduardo. Fiquei um bom tempo trabalhando lá com Zé Eduardo, mas chegou o momento de também eu buscar novos caminhos, não é?
BN – Houve até um certo mal-estar neste momento em que você decidiu deixar a Equipe dos Galáticos, não é mesmo? O que aconteceu para que você resolvesse de vez sair da Transamérica?
JA – Lá na Transamérica tem uns caras que ficam ligando e a Transamérica abre espaço pro torcedor falar no ar. E torcedor é gente boa e tudo o mais, mas de vez em quando tem umas malas pesadas e sem alça. E tinha um cidadão lá chamado Paulo BC que ficava ligando e dizendo que eu era pé-frio. Ele era torcedor do Vitória e ficava dizendo que eu era pé-frio, que sempre quando eu narrava jogo do Vitória o time perdia, que era para colocar Ivanildo para narrar o Vitória. E um dia eu estava escalado para fazer Vitória x ituano, e esse Paulo BC ligou para a Transamérica. Antes disso, a minha esposa tinha me dite que tinha uma festa de 15 anos de uma sobrinha e queria que eu fosse com ela. Eu disse para ela que não ia porque tinha um jogo para fazer e eu queria preservar a minha garganta e ficar concentrado para a narração. E aí fiquei em casa ouvindo a resenha e esse Paulo BC entrou. Ele ficou perguntando “E aí, Zé Eduardo, quem vai narrar o jogo?”. E Zé Eduardo, naquela maneira extrovertida que ele tem, naquele jeitão dele, ficava jogando as vinhetas minha e de Ivanildo Fontes. E eu em casa ficava dando risada do torcedor, porque quem ia narrar o jogo era eu. Só que mais tarde, quando terminou a resenha, Silva Rocha, que era coordenador da equipe na época, me ligou e disse que Márcio Martins havia se enganado e que quem narraria o jogo era Ivanildo. Eu disse “tudo bem... então eu estou folgando no domingo, não é?”. Quando acabou a ligação, eu virei para a minha esposa e disse “quer saber de uma coisa? Amanhã eu estou fora da Transamérica. Ela enlouqueceu, me chamou de maluco, perguntou onde é que eu ia trabalhar, que não tinha mais lugar para eu fazer narração. E, desde aquela época, eu recebia ligações direto de Edson Marinho, que me assediava um bocado. Ficava me paquerando, mas nunca rolava o casamento. Eu já tinha recebido várias propostas dele para trabalhar na equipe da Metrópole, mas nunca tinha virado nada. Quando isso aconteceu, eu liguei para Marinho e disse “você me paquerou um tempão e agora ta na hora da gente casar. E aí?”.
BN – Você disse que saía.
JA – Eu disse que saía. Ele me perguntou quanto é que eu estava ganhando na Transamérica e eu tive de dar uma falseada para me valorizar. Eu ganhava R$ 500, mas aí disse R$ 700, porque assim ele me dava mais. Quando ele ouviu, disse que era um salário milionário. Mas aí ele ficou de falar com o sócio dele para ver se cobria o salário. Ele me pagou os tais R$ 700 que achava que eu ganhava na Transamérica e aí fui trabalhar com Marinho. Anos depois é que eu fui descobrir que ele, quando falou com o sócio, recebeu a ordem de que era para dobrar o meu salário, mas quem disse que ele dobrou (gargalhadas)? Mas eu também peguei uma compensação financeira boa na mão de Marinho. Deu para pagar umas dívidas que eu tinha. Porque você sabe que no rádio você tem umas portas abertas, fica conhecido, mas para ganhar dinheiro ta difícil. O cara tem que ser vendedor. Aí comecei a trabalhar com Marinho e queria viver novos ares, porque já estava há muito tempo com a Transamérica. Eu também gosto de desafios. E aí apostei no negócio de Marinho e, graças a Deus, deu certo.
BN – O que você lembra de mais marcante sobre o início do seu trabalho de narração?
JA – Tem uma passagem interessante sobre a minha primeiríssima narração de futebol profissional. Bom, não foi bem profissional, mas não era mais juvenil, juniores. Foi no campeonato intermunicipal, jogando Seleção de Ubatã contra Seleção de Santo Antônio de Jesus. Eu fui até Ubatã fazer esse jogo pela Rádio Bahia. Quando entraram as duas equipes em campo e deu o pontapé inicial, eu não sabia quem era Santo Antônio e quem era Ubatã. Aí Dito Lopes, que era um repórter experiente, virou para mim e disse “rapaz, Vado – que já jogou no Vitória, era um zagueiro – está jogando em Ubatã. Quando vado pegar na bola, você já sabe que é Ubatã”. E aí a narração fluiu. Eu me lembro do placar até hoje: 2 x 1 para Ubatã. Foi uma experiência horrorosa. Me deu até vontade de nunca mais narrar bola.
BN – Tem um detalhe interessante nas transmissões da Metrópole, que é a ausência do tubo (a narração por cima da transmissão da TV, aberta ou fechada). É uma opção de trabalho que, inclusive, é bastante exultada pelo próprio Marinho no comando da resenha. Por que vocês sempre preferem fazer no estádio e recusar o tubo, mesmo que desta maneira saia mais caro para a equipe?
JA – A verdade é que o tubo é feito e, de uns tempos para cá, começou a ser dito ao torcedor que era assim que estava havendo a transmissão na rádio. Mas o tubo de três (narrador + comentarista + repórter) fica um negócio meio chato, realmente. Mas tem tubo que o repórter vai para o estádio e o narrador fica no estúdio. Eu, particularmente, não gosto, mas faço. Dizem até que eu faço bem. Felizmente, na Metrópole, eu não tenho feito tudo, só jogos ao vivo. Porque o jogo ao vivo te dá uma visão melhor do campo. Para se ter uma ideia, há uns três anos, o Vitória estava jogando contra o Atlético-PR lá na Arena da Baixada e eu estava fazendo pelo tubo. No tudo, nos três gols de Edilson ele estava impedido. Só que na visão depois que a câmera abre, você vê que ele estava em condição legal, porque mostra o outro jogador dando condição. Por isso que eu não gosto de fazer o tubo. Lá na Metrópole, graças a Deus, não temos feito tubo. Ele é um recurso de segurança, porque muitas vezes você vai ao estádio e não consegue puxar a linha de transmissão, o que é uma vergonha para um país que quer fazer a Copa do Mundo.
BN – Quantos tubos vocês já fizeram este ano?
JA – Eu não fiz tubo nenhum. Acompanhei todos os jogos do Bahia e Vitória este ano e não fiz nenhum.
BN – Ficamos sabendo que o seu passe é, atualmente, o mais valorizado do rádio baiano. É sério?
JA – Posso até ter o passe valorizado, mas o melhor salário eu não tenho não, viu? Não é preciso aparecer uma Traffic do rádio para comprar o meu passe, não. Mas o pessoal poraí sabe como é o esquema agora: eu só saio de onde eu estou com R$ 20 mil de luvas e R$ 8 mil de salário (risos). Ele lance de contratação é até um desgaste. Por exemplo, Pedro Irujo (político que já tentou diversos cargos eletivos em Salvador), quando comandava o Sistema Nordeste, mandava trazer sempre o melhor narrador, pedia que trouxesse o melhor diante dele. Então apontavam o melhor e ele dizia (imitando o sotaque espanhol) “então traga ele aqui que eu vou contratar”. Então o cara ia lá pensando em pedir, em dinheiro de hoje, R$ 3 mil. Então sentava lá na frente de seu Pedro e ele dizia (sotaque) “pô, quero trazer você aqui para trabalhar comigo. Você quer trabalhar comigo?”. O cara respondia “sim, quero”. “Está pensando em quanto vai ganhar?”. O cara ficava lá pensando que ia receber um “miguezinho” e ele dizia “eu tenho para você aqui um salário de R$ 6 mil”. Então o narrador, que falava já em R$ 3 mil, já perguntava logo onde é que ele ia assinar para ser contratado. Mas em rádio, essas negociações não são mais assim. O rádio melhorou muito, pois antigamente era só negócio de cotas. Hoje é mais profissional, pois a maioria já tem salário. Eu, por exemplo, poderia ganhar mais, mas estou ganhando bem. Estou satisfeito no lugar onde eu estou. Estou prestigiado pelo dono da equipe e pelos donos da emissora. Então isso, para mim, é até melhor do que um bom salário.
BN – Recentemente, Marcus Pimenta, da Equipe Gol, foi um dos que lhe assediaram para lhe “roubar” da Metrópole. Por que não saiu?
JA – É, ele uma vez me chamou, a gente conversou... Quase! Faltou pouco. A decisão ficou até na mão de Marcus Pimenta. Se ele dissesse que eu estava contratado, eu ia lá trabalhar com ele. Mas ele acabou não batendo o martelo, disse que ia conversar com o sócio dele depois, e aí derivou para uma outra situação e que continuei na Metrópole. Depois recebi umas outras propostas também, duas ou três, mas preferi ficar na Metrópole.
BN – E teve influência de Marinho nessa decisão de ficar?
JA – Marinho é o seguinte: toda vez que você diz a ele que vai sair ele começa a dizer “você é um traíra! Vou lhe entregar a Mário Kértesz ou a Chico Kértesz, viu?”. Eu digo “peraí, Marinho. Deixe Chico quieto lá, rapaz”. Ele pergunta por que é que eu vou sair e aí começa aquela onda toda. E não saio (risos). Esse negócio de proposta tem que ser de momento. Tipo assim: você está no lugar certo, na hora certa e com a vontade certa. Foi o meu caso na Transamérica. Nada contra eles, porque até hoje me deu bem e gosto de todos eles. Eu não tenho zanga. Eu não tenho inimigos no rádio.
BN – Sua marca registrada é o bordão “lembre-se sempre, galera”, que foi, mais até do que o seu estilo rápido e característico, pondo bastante emoção no jogo, o que lhe deu mais prestígio com o torcedor. Como foi que ele começou, de onde ele veio?
JA – O “lembre-se sempre, galera” realmente emplacou. Isso aí eu não tenho nem dúvida. Mas se você me perguntar como é que começou o “lembre-se sempre, galera”, eu não me lembro. Mas eu sei que começou na boa, sem estresse. Eu comecei a fazer umas frasezinhas aqui e ali. Na Transamérica eu já soltava frases, Começou lá, na equipe de Zé Eduardo e Márcio Martins. Comecei a querer bolar assim uma coisa diferente. Porque o narrador esportivo na Bahia, quando ele começa a narrar bola, ele começa a imitar os antigos profissionais. Isso aí é praxe. Mas aí, com o decorrer do tempo, quando você começa a perder o medo do microfone, se familiariza com ele, começa a ganhar embocadura, se for um cara inteligente e tiver o dom para a coisa, começa a criar, a fazer a sua própria narração. E graças a Deus foi o que aconteceu comigo. Eu comecei a criar as minhas coisas. O meu slogan é “colocando pressão no turbo e jogando potência máxima nas ondas do rádio”. É um criação minha, ninguém tem isso. O “lembre-se sempre, galera” é uma criação minha. O “brocou” na hora do gol. Eu ficava assim procurando uma palavra para soltar o diafragma na hora do grito longo do gol. Então todo narrador esportivo usa uma palavra assim. Sílvio Mendes usa “nasceu”. Djalma Costa Lino fala “atirou”. O cara no Rio de Janeiro fala “ta na rede”. Isso tudo é para buscar o espaço no diafragma. E o “brocou” também pegou. Mas o “lembre-se sempre, galera” está na boca do povo. Quando eu paro em algum lugar e as pessoas me identificam – e agora estão me identificando e muito -, eu só posso ir embora depois de ler pelo menos umas oito frases, no mínimo. “Conte aquela da melancia!”. Aí eu digo “lembre-se sempre galera: melancia e mulher gostosa ninguém come sozinho”.
BN – Fale sério que Jorge Allan (comentarista da TV Bahia) lhe ajuda a coletar frases para o “lembre-se sempre, galera”. Ele parece tão sisudo.
JA – É mesmo. Ele parece ser um cara fechado, não é? Mas outro dia eu estava no estádio e aí Marinho chegou com uns papéis e disse “essas frases aqui mandaram para você”. Aí tinha umas seis frases e quando eu vi o nome, estava lá o nome dele. Ele vive me mandando frase no email, umas 50. Jorge Allan parece que é fechadão, mas não. Ele é o mais gaiato de todos. Mas quando chega a frase, é ótimo, porque a gente lapida ela. Ruy Botelho (comentarista) me ajuda muito na lapidação de algumas frases. Paulo Cerqueira também. Marinho também dá uns pitacos. Veta umas, torce por outras. Teve uma assim que Marinho mandou pra mim: “lembre-se sempre, galera: fui contar meus problemas pro carroceiro e quem chorou foi o jumento”. O que o pessoal do Bahia Notícias mandou pra mim, que eu já uso nas jornadas esportivas é “lembre-se sempre galera: um homem sem chifres é um animal indefeso” (risos).
BN – Mas essas frases já lhe trouxeram problema nas rádios ou mesmo em casa?
JA – Em casa eu tive um probleminha com aminha esposa. Porque tem um primo dela que mora no mesmo prédio que nós e a minha sogra é madrinha dele. Aí uma certa feita eu li uma frase que dizia assim “lembre-se sempre, galera: se sua sogra é uma jóia, nós temos a caixinha funerária Céu Azul”. Quando eu cheguei em casa, encontrei o problema armado. O cara disse “você viu? Ele xingou Dinha (a sogra) na jornada de ontem!” (risos). Aí eu disse para a minha mulher “olhe, fique na sua, porque o ‘lembre-se sempre’ não é para gente, é pra galera”. Ás vezes tem umas frases de duplo sentido que a minha esposa fica “poxa, assim você me mata de vergonha!”, mas eu digo a ela que falo as frases porque a galera gosta. Uma vez em uma festa de trabalho tinha um cara que já tinha bebido algumas e aí me apresentaram a ele. Ele disse “você é João Andrade?”. Eu disse que era e aí ele chamou a sogra dele e me fez falar umas dez frases só de sogra. Ela ficava assim rindo meio ressabiada, enquanto ele se matava de dar risada. Mas nunca aconteceu nada disso comprometer o meu emprego, não. Mas aconteceu de uma vez na Rádio transamérica um cidadão colocou naquela coluna “Megafone”, no jornal A Tarde, fazendo uma crítica ao meu trabalho nesse sentido. Ele disse que tinha um narrador esportivo dizendo que a minhoca é mole, por isso que a terra é virgem, que o vento é fresco, por isso que a minhoca é mole, e reclamou dizendo que eu não sabia que criança também ouvia rádio. Começou a me criticar porque eu falava essas frases de duplo sentido. Mal sabendo ele que os meninos de 10, 12 anos de idade que ouvem o “lembre-se sempre”, mesmo sendo de duplo sentido, os meninos gostam. Eles gostam porque eu sinto isso no reflexo dos meus filhos e dos meninos que estudam no colégio dele. Meu filho tem 13 anos e os colegas dele todos me chamam quando eu chego lá na escola dele. E aí eles ficam pedindo pra eu falar várias frases. “fale aquela do jegue, meu tio!”. “lembre-se sempre, galera: se não quiser ser humilhado, não mije do lado do jegue”. Isso vai afetar o moral da criançada? Claro que não. A molecada gosta. E eu tenho que falar pelo menos 20 frases pra sair. Tanto torcedor do Bahia quanto do Vitória. Todos eles me adoram.
BN – Em uma pesquisa recente, você foi apontado pelos internautas como o segundo melhor narrador de rádio da Bahia, atrás apenas de Sílvio Mendes, que é um cara já da velha guarda. Você acha, diante disso, que é mesmo o melhor narrador na nova geração, como diz Marinho antes da sua entrada na Metrópole a cada jogo?
JA – Não, não penso assim, não. Porque é como eu digo sempre a Paulo Cerqueira quando ele diz que eu matei a pau depois da jornada. Ele fica me cobrando que eu não fique mascarado e eu digo a ele que não ando pisando em casca de ovos. Respeito todos eles, gosto de todos eles. Principalmente os mais antigos. Silvio Mendes, Mário Freitas, Nilton Batista. Eu costumo dizer que eu fiz um mestrado no Rádio. Só trabalhei com grandes profissionais. Desses do primeiro escalão eu só não trabalhei até hoje com o pessoal da Rádio Sociedade e com José Athayde, que já é mais antigo e agora ta só fazendo a resenha dele. Mas eu já trabalhei com Wilson Lago, Chico Queiroz, Paulo Cerqueira, Djalma Costa Lino, com o finado Cebola, Enaldo Rodrigues, com Jota Jota, Nilton Batista, Silva Rocha, Ivanildo Fontes. Não vou dizer mais nomes aqui porque senão a galera vai ficar chateada comigo. Isso, para mim, é uma honra. O rádio esportivo baiano tem grandes profissionais. Todas as rádios tem boas equipes e todas elas trabalham bem. Então, para mim, ser segundo lugar no rádio esportivo da Bahia com esta competência e profissionalismo que tem é uma honra.
E lembre-se sempre, galera: Clique aqui, aqui e aqui para ouvir mensagens exclusivas de João Andrade para a galera do Bahia Notícias!
