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Entrevistas

Entrevista

Flávio Tanajura

Flávio Tanajura

Texto e Fotos: Felipe Esteves

Bahia Notícias – Conta como foi sua entrada no mundo do futebol.

 

Flávio Tanajura – Bom, eu comecei no Bahia em 1990 e passei dois anos no clube. Com 16 anos, eu tive a oportunidade de jogar uma partida contra o Atlético Paranaense pelo profissional e logo depois disso foi minha vinda para o Vitória. Na época, eu participei da leva de jogadores que Newton Motta trouxe com ele para o Vitória, como Bebeto, Rodrigo Chagas. Depois disso eu fiquei quase nove anos no Vitória. Comecei na base, no ano de 92, e fui me desvincular em 2002. Em 2000, eu fui para o América-MG; 2001 fui para o Sport; em 2002 eu joguei no Flamengo-RJ e em 2004 eu fui para o Paysandu, fiquei dois anos no clube e encerrei minha carreira aos 32 anos.

 

B.N – Como foi sua trajetória como jogador do Vitória?

 

Flávio Tanajura – Eu comecei aqui na idade de juvenil. Quando cheguei ao clube o treinador era Péricles Chamusca, que já tinha sido meu treinador no Bahia, então desde novo o Vitória já tinha essa visão de lançar atletas. Na época, eu, Bebeto, Rodrigo, Juliano, também tinham vindo da base. Dida, Vampeta, Alex Alves, era o pessoal que também já estava aqui e eu joguei com eles. Chegamos a um terceiro lugar na Taça São Paulo de futebol Junior, com Péricles Chamusca. Enfim, o Vitória sempre teve essa visão de revelador de talentos. Foi assim que desde novo eu já comecei a jogar. No ano de 94 eu já comecei a jogar no profissional e fiquei até o ano que eu saí do clube, que foi em 2000. Na época era a gestão de Paulo Carneiro e ele achou que eu já tinha muito tempo de clube, então conversou comigo que era bom dar uma desvinculada porque eu já estava um pouco desgastado no clube, jogar em outros times e depois, talvez, voltar ao Vitória.

 

B.N – Você ainda é muito novo. Por que optou por parar de jogar tão cedo?

 

Flávio Tanajura – Eu tive um problema no joelho, cheguei a fazer uma cirurgia, mas infelizmente eu continuei com um pouquinho de dificuldade de recuperar e, aliado a isso, estava terminando a faculdade, cheguei a me formar em educação física e também tinha essa visão de poder trabalhar no futebol. Na época, Maneca, junto com Valtécio Fonseca, Mario Silva, Edinho Nazaré, que era diretor de futebol e já tinha sido meu treinador, éramos (todos) amigos, junto também com Jorginho, eles decidiram me chamar para trabalhar como treinador de zagueiros. Comecei na base, passei um período treinando os garotos e depois me chamaram para poder fazer o trabalho com o profissional. Naquele período houve a saída de Givanildo (Oliveira, técnico dos profissionais à época), ficou um hiato sem auxiliar técnico e foi nessa época que eu entrei na comissão do profissional. Vadão entrou no cargo e subimos da primeira para a segunda divisão. Veio o Baiano, saiu Vadão e veio o Mancini e fomos campeões estaduais, fazendo também uma boa campanha no Brasileiro. Nesse momento, Mancini renovou contrato e decidiu chamar sua própria comissão para trabalhar. Na época, eu comecei a trabalhar, novamente com a base, com a ajuda de Epifânio Carneiro. Enfim, eu sempre tive muito contato com as pessoas do clube, muito contato com a base, que eu tenho um carinho especial e hoje trabalho na revelação desses atletas, o que me deixa muito satisfeito.

 

B.N – Conta como foi sua passagem pelo Flamengo em 2002.

 

Flávio Tanajura – Quando eu estava no Sport, houve essa sondagem da diretoria do Flamengo. Eu tinha um grande amigo lá, que era Petkovic. Jogamos juntos (no Vitória) e ele acabou me indicando para o clube. O Flamengo estava precisando de zagueiros e houve essa decisão de me levar. Na época, eu seria vendido para o Flamengo, mas houve problemas políticos no clube que impossibilitaram a transação, então fui por empréstimo, passei dois anos lá e terminei até como titular. Mas também tive um problema no clube, uma contusão me afastou quatro meses dos campos e o Flamengo perdeu o interesse na renovação. Foi quando eu fui para o Paysandu.

 

B.N – Você dedicou a maior parte da sua vida profissional ao Vitória. O que você sente e tem a dizer sobre esse clube?

 

Flávio Tanajura – Eu tenho um carinho e uma gratidão muito grande pelo Vitória. Hoje tenho muitos amigos e colegas de trabalho e sempre tive um sonho de voltar ao Vitória. Minha relação dentro do clube é boa com todos, antigos conselheiros como Ademar, Maneca, que me ajudou muito. Enfim, tenho uma gratidão muito grande pelo que o Vitória fez na minha carreira e eu sempre quis retribuir isso com empenho no meu trabalho. Hoje estou nessa nova fase da minha vida de poder trabalhar na comissão técnica, formar atletas e produzir para o Vitória de outra forma. Sempre tive esse clube no coração, recebo até hoje um carinho muito grande dos torcedores que acompanharam minha carreira e estou muito feliz aqui. Tenho um sonho de ainda participar de um título brasileiro pelo Vitória, que eu sei que vai acontecer e pelo que a gente tem visto isso não está longe.

 

B.N – Você fazia parte da comissão técnica do Mancini e já tinha vindo da experiência com o Vadão. Como foi esse processo para você começar a fazer parte desse núcleo importante no clube?

 

Flávio Tanajura – Apesar de ser atleta, eu sempre procurei, nas equipes por que passei, poder observar a parte tática dos times, ser curioso mesmo. Procurei buscar na parte científica também, fiz alguns cursos, como de capacitação básica para futebol, na época, (Alexandre) Gallo participou, o também técnico Pintado participou, e hoje são treinadores. Enfim, eu investi nessa área para poder estar estudando futebol taticamente e tecnicamente. Cheguei a trabalhar com um treinador de escolinha, aprendi a lidar com jogadores, que é bem diferente da relação quando você é atleta. Então comecei a descobrir essa área, trabalhei com os profissionais que passaram por aqui e aprendi muito com eles, cada um nas suas características. Tive a oportunidade de comandar o time B do Vitória ano passado e sempre percebi nos treinadores que passei o que era interessante de se passar ao atleta e toda essa experiência se juntou ao interesse para eu decidir seguir nesse caminho de treinador de futebol.

 

 

B.N – Como treinador de zagueiros do Leão você participou da ascensão de jogadores como Anderson Martins e Wallace. Explica como era esse trabalho com os atletas da parte defensiva.

 

Flávio Tanajura – Hoje temos o auxiliar que é Ricardo Silva, que foi um grande atacante e trabalhava nessa área do time, auxiliando a comissão técnica. Eu fazia esse mesmo trabalho, só que com os zagueiros. Tive a oportunidade de trabalhar com o Anderson, que já conhecia desde novo na base, junto com Wallace, então pude ajudar esses jogadores. Na época Anderson não passava por uma boa fase, sendo muito criticado pela diretoria e imprensa e nós o ajudavamos a superar, tanto em campo, quanto fora dele. Sabíamos do potencial e todos os treinadores que passaram por aqui também sabiam disso, tanto que Anderson se manteve no time. Sabemos também do potencial do Wallace e do Victor Ramos que em pouco tempo serão grandes destaques do time do Vitória. Então, assim como o goleiro que tem um treinador individual, a gente fazia os mesmos trabalhos com o pessoal da zaga. Alguns volantes também passaram pelo trabalho, como é o caso do Vanderson, que está sempre ali, na frente da zaga, e também participava de trabalhos específicos.

 

B.N - Você acha que falta a continuidade desse trabalho hoje em dia na equipe?

 

Flávio Tanajura – Nós temos George, que está junto com Mauro Fernandes, mas eu não tenho acompanhado o trabalho que está sendo desenvolvido. Eu não gosto de falar porque eu não estou acompanhado o dia a dia do profissional. Na minha época, a gente se preocupava em fazer esse trabalho específico, mas hoje eu trabalho na divisão de base e não posso falar porque não tenho esse contato.

 

B.N – Quais as funções que você já assumiu dentro do clube e qual o trabalho que você desenvolve hoje em dia?

 

Flávio Tanajura – Eu assumi a categoria pré-infantil, que são os garotos que nasceram em 95. Na verdade o nosso trabalho é de formação de atletas. Claro que no futuro o jogador pode vir a dar retornos ao clube, financeiro ou profissional, mas nosso objetivo maior é a formação de atletas. A gente procura desenvolver fundamentos básicos, para quando o atleta chegar ao profissional, obter maior facilidade em campo. Domínio de jogo, passe, cabeceio, condução de bola, para não chegar ao profissional com dificuldades dentro de campo. Ensinamos também a percepção da tática do time aos garotos, para que no futuro eles já estejam maduros profissionalmente e não sofram com a adaptação.

 

B.N – Quando você acha que foi a melhor safra de zagueiros no Vitória?

 

Flávio Tanajura – Bom, a gente teve grandes zagueiros. Em épocas, eu não acompanhei, mas já ouvi falar, em Romenil. Logo que cheguei ao Vitória, existia um zagueiro que eu admirava, que era o Agnaldo, cheguei a jogar junto com ele também. Que eu me lembre, na minha época, eu cheguei a fazer uma zaga com Tuché em 97, que foi bem sucedida, tínhamos um time bom, com Bebeto Gama e Petkovic. Então, teve esses zagueiros que marcaram minha passagem no clube. Tive o privilégio, também, de jogar com Juan no Flamengo, que foi o melhor zagueiro com quem eu joguei na minha carreira.

 

B.N- O Vitória é seu time do coração? E o que você considera ser o maior motivo de tanto tempo no clube?

 

Flávio Tanajura – Primeiro o vínculo que eu tenho com o clube e o amor que tenho ao Vitória, fez com que eu sempre procurasse dar meu melhor aqui dentro. Hoje eu tenho privilégio de fazer o que eu gosto, que é trabalhar com o futebol, e em um clube que eu amo e me sinto bem de estar todos os dias. O Vitória me formou como profissional e além do amor, eu sinto o dever de retribuir isso. Tive essa saída temporária do profissional para a divisão de base, mas entendo isso como motivo para eu me preparar melhor para que eu possa alcançar sonhos que eu tenho em lugares mais altos e dentro do próprio Vitória.

 

B.N – O Vitória sempre foi reconhecido pela qualidade em revelar jogadores. Você acha que mesmo assim a torcida ainda prestigia pouco os pratas da casa?

 

Flávio Tanajura – Eu acho que isso é uma visão que o Vitória precisa de um cuidado maior para poder valorizar sua divisão de base. Foi a base que fez o Vitória crescer e na gestão de Paulo Carneiro, ele sabia disso e na diretoria atual não é diferente. Alexi (Portela) e Jorginho trabalham muito para dar a qualidade que o Vitória merece nesse setor. Outra coisa importante são as relações com os treinadores que chegam. Os técnicos tem que se encaixar na filosofia do clube e colocar garotos em ascensão. Não adianta chegar um treinador que contrate vários jogadores e esses acabam tomando o espaço de um prata da casa, que tem a cara do clube e pode render muito mais. Tem que dar espaço para esses atletas trazerem alegrias para a torcida e, claro, sanar a parte financeira do clube. Hoje em dia os clubes investem muito nas divisões de base, na época, o Vitória se destacava, pois era um dos pioneiros nesse trabalho, então hoje é muito mais difícil formar atletas. O Vitória tem que investir ainda mais nessa construção.

 

B.N – Na saída do técnico Vadão, você passou a ser o técnico interino do time principal, até a chegada do Mancini. Como foi essa época e o que você sentiu ocupando esse cargo?

 

Flávio Tanajura – Para mim foi um privilégio, mas também foi muito natural. Eu já vinha acompanhando todo o time com o Vadão e não foi difícil para mim comandar a equipe. Sempre tive amizade muito grande com os atletas, que também me ajudaram muito, e isso facilitou meu trabalho. Fiz um jogo em Porto Seguro, contra o Ipitanga, no qual nós ganhamos e foi tudo bem natural. Depois tive a oportunidade de trabalhar no time B, o que me deu mais experiência nessa relação com o atleta, fazendo preleções e vivendo o dia a dia dos treinamentos.

 

B.N – Você pretende um dia vir a ser técnico do time profissional do Vitória?

 

Flávio Tanajura – Com certeza! Isso aí eu creio que um dia vai acontecer. É meu sonho e espero que em pouco tempo isso se realize. Eu creio muito que Deus vá abrir essa porta, para isso se tornar realidade em pouco tempo.

 

B.N – Como era sua relação com a diretoria, quando você ainda era jogador em comparação com a atual, agora na comissão técnica do clube?

 

Flávio Tanajura – Paulo Carneiro na verdade é uma pessoa que eu tenho uma gratidão muito grande, pois ele me ajudou muito no começo. Passei a maior parte da gestão dele no clube. Na sua saída eu também já não estava no Vitória. A chegada de Alexi foi muito importante para mim nessa nova fase. Tanto Alexi quanto Jorginho sempre me apoiaram dentro do clube e foi em uma época muito difícil, com o time na terceira divisão. Alexi acreditou e colocou recursos para o crescimento do time. Até hoje mantenho boas relações com os dois atuais dirigentes. Mas os três foram importantes na minha vida. Claro, cada um com suas peculiaridades, defeitos e virtudes. Eu tenho uma gratidão e respeito muito grande pelos três e por Ademar, que sempre foi um conselheiro que nos apoiou e é um grande nome dentro do Vitória.

 

B.N – Para você, qual a principal virtude de um zagueiro?

 

Flávio Tanajura – Bom, hoje o zagueiro tem que ser muito rápido, existe atacantes muito rápidos e fortes e para o zagueiro se sobressair precisa ter velocidade. Antigamente era mais zagueiro técnico, mas hoje o futebol exige velocidade e força, tem que ter o equilíbrio. A geração está cada vez mais alta, mas também tem que ter impulsão. E, claro, todos os fundamentos: passe, cabeceio, posicionamento, virilidade e técnica. Trabalhar com as duas pernas é outra coisa bastante exigida nos dias de hoje.

 

B.N – Se fosse para você escolher o time ideal para o Leão, dos anos que você esteve aqui, qual seria esse time?

 

Flávio Tanajura – Um time que marcou muito a minha época foi o de 1997. Tínhamos Preto, Uéslei, Bebeto Campos, Bebeto Gama, Túlio, Petkovic e mais um monte de jogadores de qualidade. Esse foi um time inesquecível e marcou época. A zaga era formada por mim e Tuché, então foi um time que ficou na minha memória como um dos melhores que passaram pelo Vitória.

 

B.N – Analisando a situação atual, o que você espera para divisão de base do Vitória no futuro?

 

Flávio Tanajura – Hoje o Vitória está pensando um pouco mais na base e com a chegada de Epifânio Carneiro, um cara de sensibilidade e coração muito grande, está ajudando o Vitória como diretor da divisão de base, junto com João Paulo, também, muito competente como coordenador. Essas pessoas estão trazendo o espírito de formação do atleta de novo. Já temos o exemplo de Marquinhos, Willians, Anderson Martins e outros que virão. Eu realmente espero que o Vitória volte a ser uma grande potência na revelação de jogadores.