Marcelo

Texto e Fotos: Éder Ferrari
BN – Como foi sua infância e como você iniciou sua carreira?
Marcelo - Eu nasci em Mococa, São Paulo, mas apenas nasci, porque na época meu pai trabalhava em uma empresa e sempre era transferido. Viemos para uma cidade aqui do interior da Bahia, Posto da Mata, aonde eles residem até hoje. Passei minha infância e início da adolescência toda lá e depois caí no mundo por causa do futebol.
BN – Dizem que o garoto vira goleiro por ser ruim na linha. Foi o seu caso?
Marcelo - A minha história foi a seguinte: eu fui naquela coisa de seguir os passos do irmão mais velho. Ele era goleiro, inclusive o melhor da região lá, ai espelhava nele porque além de ser goleiro eu queria ser o melhor. E chegou até um tempo, apesar da diferença de idade, hoje ele tem 35 anos, chegamos a competir juntos. Ele era o melhor e eu logo atrás.
BN – Quando você resolveu seguir a carreira de jogador?
Marcelo - Eu tive a oportunidade de disputar a Copa Gazetinha em 1997. A história é até interessante. Eu fui como reserva e também nem queria ir, não tinha esse pensamento de ser jogador de futebol. Mas acabei indo e, chegando lá, deu problema na identidade do goleiro titular e eu acabei jogando todas as partidas e conseguir me destacar. Nosso time, o Mucuri, da região de Posto da Mata, era formado por garotos de 12, 13 anos, enquanto os outros times iam com força máxima com meninos de 14, 15 anos. Na época eu tive nove propostas. Do próprio Bahia, do Vitória, Vasco, Corinthians, Atlético Mineiro, lembrando assim rápido, e acabei optando pelo Vasco.
BN – Você teria sido assediado sexualmente por um treinador do Vasco. Isso realmente aconteceu?
Marcelo – Ah, isso ai faz tempo pra caramba, nem convem mais falar a respeito disso. Já se passaram 10, 11 anos e não faz muito sentido falar sobre isso, até porque minha passagem pelo Vasco foi muito rápida, apenas um ano, então é melhor falarmos de coisas boas e realmente importantes para mim. Isso foi apenas uma situação chata fora do contexto e que foi remediada a tempo.

BN – Mas você saiu do Vasco em razão do ocorrido?
Marcelo – Do Vasco eu fui dispensado. Meus pais estavam trabalhando e morando em São Paulo, já que meu pai faltava pouco tempo para se formar. Eu já havia desistido do futebol, porque fiquei desiludido, mas minha mãe ficou insistindo e eu acabei jogando novamente. Tive oportunidade de fazer uma peneira no Corinthians, onde umas 150 crianças buscavam o sonho de ser jogador e no final apenas eu e mais dois, senão me engano, foram aprovados. Isso era início de 1998, tive uma passagem muito interessante lá. No primeiro ano fui campeão paulista da categoria. No ano seguinte tive a oportunidade de ser convocado para a Seleção Brasileira pela primeira vez, e fiquei sendo convocado durante os quatro anos seguintes. Felizmente e infelizmente, nesse período de quatro anos servindo a Seleção, direto, não me deixava seguir sempre no gol do Corinthians. Após esse tempo na Seleção, voltei para jogar só no Corinthians, mas como minha idade de juniores havia estourado, passei o ano de 2004 treinando separado, até que no ano seguinte eu tive a oportunidade de integrar o grupo de profissional. 2005 o time sagrou-se campeão brasileiro e eu tive a oportunidade de ter integrado e ajudado na conquista. Fiquei muito feliz, porque eu sei como é difícil jogar em um time com a pressão da torcida e da mídia como é o caso de Corinthians e Bahia.
BN – Porque você não conseguiu se firmar nessa época?
Marcelo – Cara, em 2005 começou com o Márcio Bittencourt, depois veio o Antônio Lopes, que conquistou o título, e em 2006 chegou o Leão e eu comecei no banco e começaram a contratar goleiros. Mas isso é normal em clubes grandes, nunca valorizam os jogadores vindos da base. Mas, enfim, foram testando goleiros, colocando goleiros, mas antes de acabar o primeiro turno eu entrei como titular, na época estávamos em último na competição, e conseguimos uma série de vitórias e terminamos o campeonato em sétimo ou oitavo, não lembro bem. Terminei como titular em 2006 e imaginava que 2007 seria um grande ano pra mim.
BN – O que aconteceu que sua expectativa não se concretizou em 2007? A contratação de Felipe foi o principal motivo?
Marcelo – Em 2007 a situação foi antes do Felipe. No início do ano contrataram o Jean, até então eu estava jogando e ele na reserva, inclusive um grande goleiro e um grande amigo meu, mas ai aconteceu uma situação meio chata, que eu estava resolvendo, em época de renovação de contrato e o Leão acabou me tirando do time com o argumento de que eu resolvesse o que tivesse para resolver para poder voltar à equipe com a cabeça no lugar, sem distrações. Nesse período contrataram o Felipe, aí ele entrou muito bem e deu a seqüência com todos os méritos. Literalmente agarrou a chance que teve.
BN – Você foi emprestado ao Ituano no início de 2008. Saiu brigado com alguém da diretoria do clube?
Marcelo - Não, não teve nada com ninguém. Simplesmente me emprestaram sem dar satisfação nenhuma, não me disseram por que, entendeu? Mas, pra mim, foi uma ótima experiência, serviu para aprender algumas importantes para minha carreira e para minha vida também e, acredito que se não tivesse saído do Corinthians no início do ano passado talvez não estivesse aqui. E hoje não me vejo em outro lugar, já me sinto em casa, me identifiquei muito com a torcida, com o clube, com a cidade e pretendo ficar aqui durante muito tempo.
BN – O que aconteceu para você ter ficado parado praticamente toda temporada do ano passado?
Marcelo - O que aconteceu foi que eu joguei o início do Campeonato Paulista pelo Ituano, mas acabei me machucando na metade da competição ficando de fora do restante dos jogos. Acabou meu empréstimo, voltei para o Corinthians. Mas eu passei mal e acabei passando por uma cirurgia de apendicite ficando um período de molho até que me recuperei e voltei a treinar normalmente no Corinthians, mas não tive oportunidade de jogar, infelizmente.

BN – No início do ano você foi anunciado ao mesmo tempo pelo Bahia e por Marília. O que aconteceu?
Marcelo – O que aconteceu é que o presidente do Marília me ligou nas férias, eu ainda tinha recebido nenhuma proposta, e falei pra ele. “Tudo bem, por mim eu jogo com vocês, mas a palavra final é do presidente do Corinthians”. Logo depois, fui contactado pelo Orlando da Hora e pelo Paulo Carneiro e eu falei a mesma coisa que disse ao Marília. O Bahia fez uma proposta melhor ao Corinthians, mais viável, e eu também até preferir vir pra cá pelo que o clube representa e pelo contrato que seria de um ano, diferente do contrato com o Marília, que seria apenas para o Paulistão. Fico, a princípio, até o final do ano aqui no Bahia, já que ainda tenho contrato com o Corinthians até o meio de 2010, mas pretendo fazer uma grande temporada aqui, ajudar o clube a conseguir seus objetivos e, quem sabe, conseguir fazer o contrato com o Bahia de dois, três anos. Esses são meus objetivos para esse ano de 2009.
BN – Seu rendimento antes da contusão no Bahia te surpreendeu?
Marcelo - Fiquei, fiquei muito surpreso. Porque permaneci muito tempo sem jogar. Passei por cirurgia, tive problema de peso, ganho muito fácil, mas em compensação também perco muito rápido. Quando comecei a treinar pesado no início da pré-temporada senti um pouco de dificuldade, mas o Ricardo Palmeira é um ótimo preparador de goleiros e me ajudou bastante. Mas o que foi fundamental pra mim foi a confiança em meu trabalho do professor Gallo. Acho que foi aí que me fortaleceu. No primeiro jogo o time ainda estava se conhecendo e até foi bem devido às circunstâncias (empate por 1x1 com o Itabuna no interior do Estado). No segundo jogo o grupo já deu uma crescida, conseguimos uma goleada no novo estádio (4x0 sobre o Ipitanga), consegui ajudar com boas defesas e a torcida já teve um carinho especial assim por mim e já agradeço de antemão e espero poder contribuir em muitos e muitos jogos esse carinho. Meu rendimento, o apoio da torcida a mim tão cedo, realmente me deixou muito surpreso, fiquei muito surpreso mesmo!
BN – A contusão aconteceu de uma forma estranha. Como foi?
Marcelo – O pior que foi em um lance meio atípico. Teve um cruzamento da esquerda, onde eu saí de soco e acabei batendo o joelho na cintura do Patrício e como foi na parte mais inferior, acabou tendo uma pequena lesão, que foi uma ruptura parcial do ligamento cruzado posterior e do menisco. Infelizmente aconteceu isso, fiquei muito triste, até porque eu vinha numa crescente física e técnica, junto com o time e fiquei esse tempo todo fora. Mas agora estou voltando. A cada dia que passa vou melhorando na parte física, na parte técnica, o joelho, que está bem melhor, mesmo, graças a Deus, sem ter precisado fazer uma cirurgia não me incomoda mais. Agora já estou à disposição do professor, esperando uma nova oportunidade pra tentar retomar de onde parei e recompensar a todos aqui no Bahia pelo carinho que venho recebendo.
BN – Chegaram a especular que você teria que passar por uma cirurgia. Não precisou e tem demonstrado agilidade nos treinamentos. Está completamente livre das dores no joelho?
Marcelo – Desde que fui liberado para os treinamentos depois de ter me recuperado da contusão, não senti mais nada, estou a cada dia me sentindo melhor e agora cabe ao professor querer me utilizar. Eu tenho que continuar me dedicando, provar que estou completamente recuperado e confiante, sem medo da lesão e que posso ser útil ao Bahia quando for preciso.

BN – Pouco antes da sua contusão ocorreu todo aquele problema envolvendo o ex-jogador da Seleção, Corinthians e Vitória, Vampeta. Até hoje você ainda não falou a respeito. Quer falar sobre o ocorrido?
Marcelo – Não, não, quem tem boca fala o que fala. Ou fala o que quer na verdade, né? Então cara, quem me conhece sabe o que aconteceu e porque aconteceu e é melhor deixar as coisas como estão. O que posso falar é que estou com a consciência tranqüila e que minha família e meus amigos também.
BN – Você acredita no atual grupo do Bahia, acha que tem condições de conquistar títulos e o principal objetivo, que é retornar a Série A?
Marcelo – Nossa equipe é muito forte, pelo que eu saiba tudo mundo se dar bem mesmo. Não é aquela história de o grupo estar fechado. É que realmente a galera tem se dado muito bem, a harmonia até aqui tem sido muito boa. E com o apoio dessa torcida fantástica e tudo saindo como o planejado, acho que teremos sucesso nessa temporada, se Deus quiser.
