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Sexta, 21 de Janeiro de 2022 - 11:10

Após ficar fora de Tóquio-2020, Allan do Carmo tenta se reerguer de olho em Paris-2024

por Leandro Aragão

Após ficar fora de Tóquio-2020, Allan do Carmo tenta se reerguer de olho em Paris-2024
Foto: Divulgação / Felippe Luque

Após a frustração de ficar fora dos Jogos de Tóquio-2020, o nadador Allan do Carmo tenta se reerguer de olho em Paris-2024. Em entrevista exclusiva ao Bahia Notícias, o baiano, campeão mundial de maratona aquática em 2014, inicia um novo ciclo em 2022 em busca da melhor forma aos 32 anos. Devido à idade, ele não crava sua participação nos Jogos de Paris como principal meta, mas confessa que falta uma medalha olímpica na sua sala de troféus.

 

"É uma conquista que falta. Hoje é uma conquista mais distante também, acredito. Mas é uma conquista que falta, já que conquistei medalhas em Mundial, Mundial Militar, Pan-Americano, Copa do Mundo... As principais competições do mundo eu já participei e conquistei medalhas, já fui ao pódio, já consegui os melhores resultados possíveis durante toda a minha carreira como atleta. E a medalha olímpica é a falta, de uma forma ou de outra. Indo lá ou não, é uma coisa que ainda falta. Eu não tenho", afirmou.

 

Na conversa com o BN, Allan também falou da vida que leva no Rio de Janeiro, onde mora desde meados de 2019, da saudade dos amigos e da família que ficaram na Bahia. Ele não fugiu de temas como vacinação e ainda disse o que pensa sobre a exposição de opiniões nas redes sociais.

 

Quais são seus objetivos para 2022? Vai iniciar um novo ciclo olímpico para Paris 2024?

Esse ano é o que temos o Mundial em Fukuoka, que está marcado para maio. O Brasil ainda vai ter a seletiva para esse Mundial, que será nos dias 4 e 6 de março. Voltei a treinar agora no dia 3 de janeiro para poder tentar essa vaga. 

 

Você estava em dúvida para o ciclo olímpico. Pensa em buscar uma vaga em Paris?

Estou fazendo uma etapa de cada vez. Agora nesse ano tem o Mundial, no ano que vem tem outro Mundial, em 2023 que é seletiva para Paris. Então, vou fazer etapa por etapa primeiro, para ver minha condição até o ciclo de 2024. Agora é tentar passar primeiro essa etapa do Mundial de Fukuoka, para poder entrar bem e tentar uma posição boa, voltar a ter um Bolsa Pódio, um incentivo federal. Depois, ver o que será depois desse Mundial, se eu conseguir a vaga. Primeiro, vou etapa por etapa.

Foto: Divulgação / Felippe Luque

 

Você falou que vai tentar voltar a receber o Bolsa Pódio. Quer dizer que está sem incentivos federais nesse momento?

Ainda mantenho os incentivos do governo estadual, do Faz-Atleta, da Bahiagás, da Mormaii, todos os meus patrocinadores se mantiveram comigo. Mas só que antes eu tinha o Bolsa-Atleta, que perdi. Agora, tenho que voltar a melhorar meus resultados para poder voltar a ter um nível desses recursos. 

 

Voltaria a pensar no ciclo olímpico de Paris se voltar a ganhar também esses incentivos federais ou essa decisão é somente com base no seu desempenho para tentar a vaga olímpica ou não?

Tudo vai depender não só do meu rendimento, mas também da minha cabeça, das minhas condições de treinamento. Condições que eu falo é do meu corpo em relação aos treinamentos. Tudo isso vai ser avaliado. Não é só questão de recursos, passa por várias coisas.

 

Seria pela idade também? Você chegaria em Paris às vésperas de completar 35 anos. Isso seria um dos pontos?

É um dos pontos. O corpo reclama às vezes.

 

No ano passado, você não conseguiu vaga em Tóquio por ter tido um problema com o traje, já que a temperatura da água no Pré-olímpico de Setúbal, em Portugal, estava muito baixa. Como foi lidar com essa frustração de não ir para os Jogos Olímpicos de Tóquio, já que você estava prestes a completar 32 anos naquela época?

É uma coisa que poderia acontecer. A gente trabalha sempre pensando no resultado positivo, sempre pensando em conquistar os objetivos. Mas o esporte é uma coisa que acontece com qualquer um. Um dia a gente ganha, um dia a gente perde. Temos que nos adaptar a isso e tirar o melhor de cada situação. Não foi uma situação fácil, porque eu treinei, me dediquei bastante. Não só a mim, mas todo um grupo, como toda uma equipe, como minha família também, todo mundo tem um pouquinho de coisa. A gente almeja um resultado e não conquista, isso traz uma tristeza de não conseguir aquilo que você almejou, aquilo que você treinou, aquilo que você queria. Mas me mantive aqui de pé treinando após a Olimpíada. Logo depois da seletiva tirei uma folga. Depois me mantive nos treinamentos. Não foi fácil, mas consegui tirar as lições de cada situação.

 

Você tem muitas conquistas importantes, dentre elas o título mundial em 2014, e durante sua carreira sempre foi uma referência da maratona aquática brasileira. Se não for para Paris, ficaria faltando uma medalha olímpica na sua, digamos assim, "sala de troféus"?

Sim, é uma conquista que falta. Hoje é uma conquista mais distante também, acredito. Mas é uma conquista que falta, já que conquistei medalhas em Mundial, Mundial Militar, Pan-Americano, Copa do Mundo... As principais competições do mundo eu já participei e conquistei medalhas, já fui ao pódio, já consegui os melhores resultados possíveis durante toda a minha carreira como atleta. E a medalha olímpica é a falta, de uma forma ou de outra. Indo lá ou não, é uma coisa que ainda falta. Eu não tenho.

Foto: Reprodução / Instagram

 

Já pensa no que poderá fazer quando se aposentar da natação?

Estou cursando Educação Física para poder seguir na linha do esporte. Ainda não sei. Até terminar a faculdade, estou vendo o que vou pegar. Mas provavelmente vou seguir nessa linha do esporte, da Educação Física que é o que estou estudando agora na faculdade para poder me formar.

 

Pensa em ser treinador de natação?

É provável que sim. 

 

Em 2019, você trocou de cidade e de treinador. Saiu de Salvador buscando a estrutura do Rio de Janeiro e passou a ser treinado por Fernando Possenti, que também é o treinador da baiana Ana Marcela Cunha que foi campeã em Tóquio. Qual o balanço que você faz dessas mudanças e quais as melhorias e evoluções que você pode apontar no seu estilo e performance?

Eu vim para cá no meio de 2019. Foi uma escolha e opção totalmente minha que foi pela mudança, almejando não só o resultado, mas também outras experiências de vida. Vim treinar num lugar onde, aqui no Comitê Olímpico, que hoje não é um clube e sim uma instituição nacional, é o Centro de Treinamento do Time Brasil, junto com Fernando e Ana Marcela. Fernando é um treinador que se dedica à maratona, que estuda, que está viajando e hoje tem grandes resultados. Para mim é uma experiência espetacular, onde venho treinando e venho gostando muito. Tanto que eu me mantenho aqui até hoje, porque estou gostando dessa experiência e de tudo que estou vivendo aqui. Do trabalho, o que me acrescenta é no dia a dia, não só no treinamento com eles, mas também na parte física, na parte de morar sozinho no Rio de Janeiro, também me acrescenta muito. E isso para mim está sendo espetacular. Na parte de desempenho, é difícil comprar desempenhos e resultados. A maratona não é um esporte que você compara com você mesmo. Tipo, não é igual à natação, que você tem seu tempo ali e se fizer melhor, sabe que você melhorou naquela prova, que fez seu melhor tempo da vida. Hoje, a maratona tem uma estrutura totalmente diferente de outros anos, em termos de competição, de ritmo de prova. As coisas são totalmente diferentes. Mas aqui eu também conquistei grandes resultados, como o bronze no Mundial Militar em 2019. No ano passado, a gente não teve competição praticamente. Em 2021, eu me classifiquei para as seletivas das Olimpíadas, participei das etapas da Copa do Mundo. Então, eu venho me mantendo nesse cenário de estar entre os melhores do Brasil e tendo a oportunidade de participar com eles das competições internacionais. Como já tive várias oportunidades aqui de viajar com eles para fazer as etapas junto com meus patrocinadores que estão comigo. De treinar com outros atletas internacionais como fizemos com o pessoal da Espanha, de Portugal, do Equador, do Peru. Já tive várias oportunidades por estar aqui com Fernando. Isso me agrada muito como atleta na parte de desempenho e resultado, como pessoa, como estudante de Educação Física.

Foto: Reprodução / Instagram


Sente falta da Bahia, do acarajé, do dendê, depois que se mudou para o Rio de Janeiro?

[Risos] Bastante, né? A gente sente muita falta. Não só do acarajé e das coisas, mas da família e dos amigos a gente sente mais. Do acarajé, a gente dá até um jeitinho, às vezes encontramos, mas a família e os amigos são os que fazem muita falta. Ficar longe do meu pai, da minha mãe, da minha irmã é pesado. Dá para matar a saudade pela internet, mas não é a mesma coisa.

 

Você disse que teve Covid-19 no final de 2020. Chegou a ter de novo depois?

Não tive mais não.

 

E já se vacinou contra a Covid-19?

Já tomei as três doses da vacina. A gente recebeu o lote de duas doses de vacinas que o Comitê Olímpico Internacional (COI) enviou. Em contrapartida, o que o Brasil recebeu para os atletas, foram doados duas vezes mais para a população. Se foram mil vacinas para os atletas, eles doaram mais 2 mil. Depois, eu tomei a dose de reforço que já estava no tempo, porque aqui no Rio [de Janeiro], eles estavam solicitando independente da idade.

 

Você deve ter visto o que aconteceu com o tenista Novak Djokovic, que ficou fora do Aberto da Austrália, um dos principais torneios da temporada do tênis, por ser deportado do país ao tentar entrar sem comprovante de vacina contra a Covid? Acredita que a vacinação também será obrigatória no circuito da natação?

Em cada lugar existe o seu protocolo. Cada pessoa tem sua cabeça e sua forma de pensar e cada um toma suas decisões, conforme seu pensamento. Aí as pessoas estão sujeitas ao protocolo de cada país, de cada lugar. Tem lugar que pede a carteira de vacinação ou um teste de Covid recente para poder entrar em algum lugar. Então hoje, a gente é refém desses protocolos e cada um toma a decisão que quer ou o que pensa, se acha importante tomar vacina ou se acha que não é importante. Fica opcional de cada pessoa. Cada um toma suas decisões conforme sua cabeça. Minha opção foi de tomar as vacinas. As consequências são conforme as decisões que tomou. Djokovic optou por não tomar vacina e a consequência foi que na Austrália não liberaram ele de entrar. Então, é a consequência da decisão de cada um.

 

Você enxerga os atletas como modelos para a sociedade e por isso deveriam incentivar a população a se vacinar contra a Covid ou tomar mais cuidados para evitar pegar a doença?

Isso é difícil de comentar. O atleta pode ser referência para algumas pessoas ou para outras e isso acaba sendo uma decisão pessoal. Como eu falei, é uma decisão pessoal de cada um. Porque não envolve o resultado do atleta ou o que o atleta faz, envolve a saúde e o que cada um pensa para si. O que está em jogo é a vida da própria pessoa. O atleta é referência em muitas coisas. Conforme os resultados ou pressão na sociedade em termos de mídia, o atleta passa a ser uma referência sim. E é aquilo, cada um tem sua forma de pensar, sua forma de agir e existem as consequências que também passam para a sociedade, como a consequência que passa Djokovic ali também. Não sou eu que estou dizendo que o atleta é referência, a gente tem os patrocínios, porque somos referências no esporte. Por você ser a referência existe toda a consequência. Cada atleta vende sua imagem da forma que quer ou da forma que ele é. Isso é uma coisa de cada um. Não estou aqui para julgar ninguém da forma que pensa, que age, nem entrar nessas situações polêmicas. Eu sei da minha situação, optei por tomar as vacinas, já tomei as três doses. Aqui onde eu treino tem todo um protocolo e a gente tem que seguir pela questão de segurança de todo mundo que entra aqui no centro de treinamento. Então, eu venho seguindo à risca, tentando me preservar ao máximo possível para que eu possa estar bem de saúde, me manter treinando para fazer o que gosto e me proponha a fazer nos treinamentos.

Foto: Reprodução / Instagram

 

Seguindo essa linha, alguns atletas têm se manifestado politicamente nesses últimos anos e até tratado de temas como homossexualidade. Você acha que os atletas devem sim se posicionar ou devem ficar restritos ao esporte deles?

É o que eu falo, é opção de cada um, é o perfil de casa um. Tem atletas que gostam de se posicionar, outros que não gostam de se posicionar... Não se posicionar, mas levam suas vidas conforme... Não é questão de influenciar as pessoas na forma de pensar em relação a isso ou aquilo. A minha posição é de não ficar criando esse tipo de polêmica, de levar minha vida conforme o que penso e as pessoas não entenderem isso. Não é de ficar gerando polêmicas, de cada um criticar ou tentar influenciar. O meu papel não é esse. Penso que meu papel como atleta é treinar, dar resultados, mostrar a rotina do atleta, as dificuldades que o atleta passa e as pessoas se espelharem em mim por isso, não por me manifestar ou querer influenciar por outras coisas. Não estou aqui para julgar ninguém, é opção de cada um. Como eu disse, não gosto de entrar nessas polêmicas tanto na questão da vacina, quanto nas questões que acabam virando coisa política. Não gosto dessas questões polêmicas. Tenho minha forma de pensar, tenho minha forma agir. E nessas questões políticas, publicamente, não gosto de me manifestar ou de falar, porque não gosto de entrar nessas polêmicas. Muitas coisas acabam levando para questão política, partido. Eu não posso nem comentar pela questão militar. Não que eu não possa me pronunciar, mas isso me prejudicaria bastante na parte de ser um atleta militar também.

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