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Entrevistas

Entrevista

Newton Mota

Newton Mota

O diretor das divisões de base do Bahia, Newton Mota, sempre foi muito elogiado pelo seu trabalho na revelação de jogadores tanto para o Bahia como para o Vitória. Porém, também ficou marcado por polêmicas saídas do Tricolor, quando foi acusado de tirar jogadores do clube. De volta ao Bahia, tem a incumbência de reestruturar as divisões de base do clube. Em entrevista ao repórter Éder Ferrari, Mota não foge das perguntas e fala das criticas positivas e negativas  sobre seu trabalho na dupla BAVI.

Fotos: Éder Ferrari/Bahia Notícias


Por Éder Ferrari 
B.N – Hoje o senhor é uma referência no trabalho com divisão de base. De onde surgiu seu interesse na área?

Newton Mota
- Eu era interno do colégio Marista e o sonho de todo mundo era jogar num time chamado Andaraí. Tinham os campeonatos entre as salas e os melhores eram selecionados para o Andaraí. Esse time treinava todas as terças e quintas e jogava nos sábados. Eu joguei no time infantil dos 13 até os 15 anos, quando o padre que treinava e organizava foi embora, mas deixando os uniformes do Benfica que ele havia comprado. Vendo a tristeza que reinava depois que a equipe acabou, resolvi assumir o posto e organizar novamente o Andaraí. Como deu certo e também fui diretor do grêmio esportivo do Marista, aproveitando que o colégio construiu uma quadra de esporte, organizamos campeonatos de vôlei e de basquete, percebendo ali, que tinha capacidade pra coisa. Já na UFBA, onde me formei em engenharia, também fui diretor de esportes. Depois me tornei diretor do Bahiano de Tênis, da Associação Atlética e do Centro Espanhol. Principalmente no Bahiano, que eu fiz parte da diretoria de Luis Catarino Gordilho e seu filho Linha (Luis Catarino Gordinho Filho), que era vice-presidente de esportes, e organizamos muitos campeonatos internos que eram bastante movimentados, já que na época não existiam tantas opções de laser como hoje, nem shopping tinha. Ganhamos campeonato, inclusive, em cima de Bahia e Vitória. Para manter a hegemonia nos campeonatos de adulto, eu selecionava os melhores garotos das categorias infantil, juvenil e juniores para jogar no adulto e daí começou meu primeiro trabalho com divisão de base.

B.N – Quando surgiu o convite para trabalhar no Bahia?

Newton Mota -
Todos esses trabalhos me fizeram ser inquirido por Paulo Maracajá, através do irmão dele, Carlos Maracajá. Um dia Paulo levou o juvenil ou juniores do Bahia para enfrentar o Bahiano e ficou impressionado com dois jogadores e me perguntou se eles poderiam jogar no Bahia. Jorge Luis, hoje médico conceituadíssimo, e José Abelardo, que hoje é engenheiro, foram esses dois jogadores, que na época formaram a zaga dos juniores do Bahia. Maracajá me disse que eu era crítico ao Bahia, porque eu dizia que o clube nem cuidava da base, nem contratava jogadores a altura para defender a equipe. O Bahia botava os seus atletas das divisões de base para morarem em uma pensão no largo Dois de Julho e os garotos não estudavam. Então eu fui desafiado a criar um projeto, projeto esse, que Maracajá foi ajudado por Antônio Pithon. O Bahia comprou um ônibus, alugou uma chácara, começando a dar mais dignidade aos seus jogadores. E, a partir de 1983, a fazer um verdadeiro trabalho de base no Bahia criando categorias menores como dente de leite, que chegou a ser dez vezes campeão Baiano da categoria, o que deu frutos no próprio time campeão Brasileiro de 1988. Pra você ter uma idéia, apenas os salários de Taffarel e do Anchetta, cobria toda a folha salarial do Bahia, incluindo ai a comissão técnica. Então, o Bahia tinha um time bom e barato, o que mostra a importância da divisão de base. Eu fiquei durante oito anos no Bahia de 1983 a 1991, podendo colaborar para que o clube pudesse revelar vários jogadores. 

B.N – Sua primeira saída do Bahia foi bastante polêmica. O que de fato aconteceu?

Newton Mota -
Eu entendo que na Bahia existe uma cultura que a pessoa não pode ser profissional. Eu me tornei profissional em uma decisão difícil de minha vida. Vi o Bahia ser campeão Brasileiro e ficar com mais de R$ 5 milhões aplicados, em valores atuais, e não destinar nenhuma parte para as divisões de base não reconhecendo a importância da mesma na conquista do título e para o futuro do clube. Eu vi o Bahia investir na sede de praia, mas não dá nem suporte, nem estrutura a base. Eu comecei a ter divergências, em nível de calendário, de custo. O Bahia chegou a ter 80 jogadores na base, depois reduziu pra 50 e depois pra 30. E a cada leva dessas de jogadores, eu sentia como uma punhalada em meu trabalho. E eu estava vendo minha carreira de engenheiro ser prejudicada, porque eu me dediquei de tal forma ao Bahia e, mesmo dando retorno, as pessoas não enxergavam o potencial e nem de longe correspondiam aos meus anseios nem os do clube. Recebi o convite do Vitória e fui arriscar.

B.N – Como foi trocar seu clube do coração pelo maior rival?

Newton Mota -
Eu tinha uma carreira de engenheiro, que modéstia a parte era bem sucedida, e estava no dilema de aceitar o convite para trabalhar no clube que eu odiava e não me sentia a vontade para defender. Fiquei durante três, quatro meses sofrendo de depressão, apreensão e dúvida, mas o profissionalismo falou mais alto eu decidir aceitar e não me arrependo nem um pouco, porque hoje eu sou um profissional e digo que passei 13 anos vitoriosos e bem sucedidos no Vitória. Sou Bahia, vou querer ganhar do Vitória sempre, mas não posso deixar de reconhecer o carinho que a torcida, que o conselho do Vitória, fui até aplaudido de pé duas vezes pelo conselho, tem por mim. Hoje estou de volta ao Bahia, muito feliz em poder está fazendo o mesmo trabalho que fiz no Vitória e que me deixava frustrado por não estar fazendo no Bahia.

B.N – Nessa mudança o senhor é acusado até hoje de ter tirado jogadores do Bahia para levar para o Vitória. Como foi ocorreu a migração desses atletas?

Newton Mota -
Eu cheguei a um clube que não tinha divisão de base, que estava na Segunda Divisão, que tinha o aterro sanitário de Salvador na sua porta e que não tinha crédito, nem infra-estrutura, estava começando do zero. Então, como eu estava começando do zero tinha que buscar o conhecimento que do meu trabalho no Bahia, que havia mandado embora 50 garotos pra conter despesas. Eu tinha o telefone e sabia o endereço de todos esses jogadores. Você acha que eu não iria procurá-los pra iniciar um trabalho que nem existia? Junto comigo, foram para o Vitória outros profissionais como Péricles Chamusca, preparadores físicos. A verdade é que alguns garotos e seus pais se sentiram desamparados, desprestigiados e preferiram ficar um tempo longo fazendo estágio sem poder jogar pelo Vitória a continuar no Bahia.

 

B.N – Quem te levou para o Vitória foi Paulo Carneiro. Ele já o conhecia ou apenas o seu trabalho?

Newton Mota -
Paulo Carneiro foi meu colega. Ele fez engenharia mecânica, eu fiz engenharia civil, mas morávamos na Barra, jogamos juntos inclusive. Tínhamos dificuldades porque ele era um volante limitado, vale registrar, porque ele é convencido de que era um grande jogador. Mas jogava apenas direitinho. Paulo Carneiro sempre teve uma visão de que o Vitória ganhava um título a cada dez anos porque ficava preocupado apenas em criticar o Bahia sem se preocupar com ele mesmo. Então, Paulo teve um tino muito grande de investir na base, no marketing e patrimônio do Vitória. E realmente o convite de Paulo pra eu cuidar da base veio nesse exato momento, com o clube na Segunda Divisão, com 16% da torcida, com o aterro sanitário na porta como cartão postal, mas com um projeto sólido pra transformar o Vitória em um grande clube.

B.N – Voltando aos jogadores que o senhor levou para o Vitória, só foram aqueles que o Bahia havia dispensado?

Newton Mota -
Desses 50 jogadores que o Bahia havia dispensado que eu levei para o Vitória, muitos não seguiram a carreira, mas dos que seguiram eu posso citar alguns que tiveram uma carreira brilhante como o goleiro Fábio Costa, o lateral direito Rodrigo, Bebeto Campos, que depois voltou para o Bahia. Quando nós éramos obrigados a dispensar os jogadores por problemas de caixa, dispensávamos os mais novos. Porque você veja bem, se nós tivéssemos agido de má fé porque não levamos o Marcelo Ramos, Paulo Emilio, Uésley, Jean e o zagueiro Emerson? Porque eles eram dos juniores. Mas é praxe nos clubes, quando eles se apertam começam a tirar da base. Tinham uma pessoa que fornecia pra gente banana real e sonho para o lanche da noite dos 30 atletas que ficaram que eu pagava do meu próprio bolso. Então, os gastos excessivos no profissional estouravam na base por falta de visão da diretoria da época.

B.N – Porque o senhor deixou o Vitória, já que seu trabalho sempre foi muito elogiado?

Newton Mota -
Um dia o Vitória chegou pra mim após dois períodos de 5 anos que meu ciclo estava encerrado, mesmo eu tendo ainda em vigência dois anos e quatro meses de contrato. E quando a empresa me disse isso, chegamos a um acordo amigável porque a multa rescisória era muito alta. Mesmo com o acordo, o Vitória ainda me deve dinheiro, e não é pouco, mas eu nunca coloquei o Vitória na justiça em respeito à entidade, em respeito à associação. Lhe digo que o triunfo que me dar mais prazer é em cima do Vitória. Nesse último jogo fiquei muito feliz pelos 2x0. Agora, tirando esse lado esportivo, eu não posso deixar de reconhecer a grande porta profissional que o Vitória me possibilitou. Eu fiquei muito frustrado na saída porque foi como se tivessem colocado meu trabalho em cheque. Nós ganhamos 110 títulos no Vitória em 260 disputados. Tivemos a hegemonia nos campeonatos baianos, mais de 70 atletas convocados para a Seleção Brasileira, sem falar nos milhões arrecadados, que fizeram toda a estrutura do Vitória atual, que é uma das melhores do país. Mesmo com tudo isso tem gente aqui na Bahia que não valoriza. O pessoal da terra sempre é tratado com desdém. Meu maior orgulho é ver muitos profissionais que nós criamos na base, como treinadores, preparadores físicos, roupeiros, massagistas, preparadores de goleiros, etc., espalhados pelo mundo a fora, e isso realmente me enche muito de orgulho. Nosso trabalho sempre foi voltado para revelar profissionais de mão cheia dentro e fora de campo.

B.N – Saindo do Vitória o senhor fundou com alguns sócios o Real Salvador. Porque o projeto não foi adiante?

Newton Mota -
No Real Salvador o custo era muito grande. Nós começamos com 20 sócios porque tinham pessoas que achavam que eram melhor menos investimentos individuais e mais sócios. Mas, depois de um tempo, chegaram à conclusão lógica de que 20 pessoas não era o ideal. Reduzimos para 10 sócios. E as pessoas que investiram tinham uma preocupação de tirar seu dinheiro logo, ter seu retorno logo, achavam que seu investimento não teria resultado. Chegamos a comprar um terreno para o Real Salvador, que ai entraria a segunda etapa após três anos. Esse terreno era uma fazenda em Camaçari, na BA 093, de 800 mil m². Se você juntar o Fazendão, a sede de praia do Bahia, a antiga do Vitória, e a Toca do Leão, não chegam a isso. Terreno pago e com a escritura, bastava apenas fazer os campos de treinamento. O local tinha todo um futuro pela frente. Passam 30 mil carros por dia em sua porta, é próximo ao centro industrial de Aratu, da Ford, do pólo petroquímico, uma área com espaço pra construir 80 campos com pista. Mas, a agonia, o imediatismo e depois com os negócios mal feitos, como vender 50% do passe do atacante Guilherme (ex-Cruzeiro) por R$ 500 mil, todos os sócios do Real Salvador recuperaram o dinheiro que investiram e ainda tiraram algum a mais. E com todas as dificuldades, de dez sócios, baixou pra oito e depois pra sete, ainda conseguimos revelar grandes jogadores para o futebol mundial. Você vê Leandro Lima, em Portugal, Ananias, Apodi, Eduardo, Jeferson, que está no Palmeiras, Ramon, no Vasco, Mário, Ramirez, Anselmo Ramon, Guilherme... Então com isso tudo, a gente começa a acreditar que conhece um pouco o trabalho nas divisões de base.

B.N – O terreno ainda pertence ao Real Salvador?

Newton Mota -
Nós vendemos por R$ 240 mil, o mesmo preço que compramos.

B.N – Então o senhor foi para o Bahia após a segunda etapa não ter dado certo?

Newton Mota -
Nós estávamos mantendo no Real Salvador contatos com empresários daqui de Salvador para investir alto para dar uma guinada em infra-estrutura. Inclusive a Antoniu’s continuou na sociedade, o que nos dava uma força muito grande. Mas tinham investidores dispostos a comprar a parte de três, quatro sócios para diminuir o número total de sócios, que abria uma perspectiva boa de crescimento, quando veio o convite do Bahia.

B.N - E como foi seu retorno ao Bahia?

Newton Mota -
Eu sabia que iria enfrentar dificuldades terríveis, porque me chamaram apenas para assumir o profissional, mas eu exigia a base porque não tem doutor que salve o Bahia desprezando as divisões de base. Então, meu pensamento era, com muito esforço, subir para Série B e aos poucos ir ajeitando as divisões de base. Nós tivemos uma dificuldade financeira muito grande. Logo com 5 dias de trabalho enfrentamos uma greve do pessoal de campo, de lavandeira e de rouparia. Nós não tínhamos um jogador sequer com um salário maior que R$ 10 mil, todos ganhavam 3, 4. Eu assumi em dezembro, quando a maioria dos clubes do interior de São Paulo, do Rio de Janeiro e de tudo quanto é lugar já estavam trabalhando porque os clubes que não são da Série A já começam os trabalhos em novembro. O Bahia com a infra-estrutura complicada e com todas as dificuldades; fizemos a melhor campanha da Série C de 2006 nas três primeiras fases. Quando chegamos ao octogonal final, perdemos 35% dos jogadores por lesões. Poucas pessoas tocaram nisso, mas eu tenho certeza que o preparo físico foi fundamental para a não subida do Bahia. Problemas musculares, lesões, já na terceira fase o time se arrastava nos segundos tempos. Eram sempre vitórias heróicas. O Bahia não subiu e eu vi que nada ia mudar em termos de planejamento. Recebi um projeto bem interessante do Cruzeiro, onde passei dois anos, sendo que em um cuidando da parceria com o Itaúna fazendo um projeto de captação e envio de atletas e o outro ano na divisão de base propriamente dita do Cruzeiro.

B.N – O senhor é acusado de ter tirado jogadores da base do Bahia para levar para o Cruzeiro nesta sua segunda saída do clube. O que realmente acorreu?

Newton Mota -
Um dos grandes problemas do Bahia é criticar e não reconhecer quem faz os serviços por essa empresa, talvez seja o clube que menos valoriza quem faz por ele. Quando eu sair do Real Salvador fiz uma reunião para comunicar meus sócios. Afinal, foram quase três anos e meio de investimentos e ainda tínhamos cerca de 100 jogadores. Eles ficaram preocupados, os oitos sócios, que aqueles jogadores com a minha saída iriam debandar e eles iriam perder três anos de investimento. Então, por decisão, olhando pelo lado negócio, que eu selecionasse aqueles que eu achava que tinham um potencial maior, e eu vim aqui e conversei com a diretoria do Bahia falando que traria alguns jogadores, inclusive, o Vitória estava fazendo uma proposta de que 40% desses jogadores iriam para lá e 60% no Real. E eu fechei com o Bahia nos mesmos termos. O Real, os jogadores acima de 15 anos teria 70%, porque já tinham jogadores prontos para o profissional, como Apodi, Eduardo, Anselmo Ramon. E o Bahia aceitou ficar com esses atletas e com os com menos de 15 anos 40% dele e 60% do Real Salvador. Só que depois eu recebi a ordem de não federar os jogadores menores de 16 anos para não gerar despesas a mais e quando você não federa esses atletas eles ficam livres.

B.N – Então o senhor levou apenas os atletas que havia trazido do Real Salvador?

Newton Mota -
Conhecei a ser criticado porque eu trouxe um caminhão de jogadores e fui criticado por levar alguns jogadores. Teve repórter importante dizendo que eu estava usando o Bahia para negociar os jogadores do Real Salvador e não foi o que aconteceu. Agora, por exemplo, quando eu cheguei aqui encontrei alguns jogadores remanescente do Real Salvador e mandei embora 7 ou 8, porque eu gosto de ganhar, de revelar craques e pra isso não posso usar o coração. E mesmo com toda a dificuldade fomos bem em várias competições, inclusive fazendo a melhor campanha de sua história na Taça São Paulo. Possibilitamos arrecadar quase R$ 4 milhões em um ano mesmo eu tendo recebido apenas 3 meses de salário em 14 meses. Quando eu estava pra sair, procurei a diretoria do Bahia e disse que, principalmente, os jogadores do Real Salvador sem ser federados com certeza iriam para outros clubes. Jeferson hoje é titular do Palmeiras, e Jeferson eu deixei aqui porque ele era jogador dos juniores. Muitos jogadores eu chamei e fiz assinar contratos de profissionais. Ananias, Eduardo, Anselmo Ramon, Douglas, todos esses eu fiz assinar antes de sair. A diretoria me chamou e falou – “Mota, veja os jogadores que não querem continuar no Bahia, ai você leva e a gente faz uma parceria”. Eu fui pro Cruzeiro, alguns jogadores que já estavam no Bahia queriam ir, mas eu só levei os que eu trouxe do Real porque eu quis salvaguardar os sócios que tiveram a consideração comigo mesmo sendo Rubro-Negros como Terceirinho, Antônio Tilemont, Guga, André Machado, Tadeu, todos, confiaram em mim e eu não poderia simplesmente pensar em mim e sair irresponsavelmente. Nós perdemos Leandro Lima, que foi para São Caetano, Mário, que agora está no Bahia, mas que nos foi tirado abruptamente pelo Fluminense. Então eu entreguei um documento, e quem rouba jogador não trás documento dizendo que roubou, não existe ladrão honesto. Mesmo depois de sair cheguei a indicar jogadores para o Bahia, como o Douglas, que está sendo artilheiro do Baiano. Só não mandei mais porque não tinha boa vontade do pessoal daqui em receber esses jogadores. Então, a minha parte eu fiz. Se o Cruzeiro não entregou a parte que cabia ao Bahia foi porque houve desavenças entre as duas diretorias e nisso eu não quero me envolver. 

 

 

B.N – Então as denúncias feitas ao senhor pela antiga diretoria são infundadas?

Newton Mota -
Uma pessoa que conseguiu com menos de 60 dias no clube um investidor para colocar R$ 1 milhão comprando percentual de jogador, 20% de um, 30% de outro. Que conseguiu R$ 350 mil por Anselmo Ramon, que conseguiu com o Cruzeiro, já estando lá, e o conselheiro do Bahia, José Boanerges, estava presente e pode confirmar, que o Cruzeiro emprestasse o Rafael Bastos, mesmo tendo acabado de comprá-lo, para o Bahia ganhar mais de R$ 300 mil a mais do que receberia. O Zezé Perrela (presidente do Cruzeiro) me disse, “eu acabei de comprar o jogador e não vou usá-lo e já vou emprestá-lo só para o Bahia ganhar dinheiro? Não!”, mas ai eu falei pra ele que seria melhor deixar o jogador em Portugal na vitrine do que no Bahia jogando a Série C. Intervir e ele entendeu que estava valorizando seu patrimônio, enquanto o Bahia conseguiu quitar mais de uma folha salarial com isso. Fora que eu consegui que os jogadores federados que vieram do Real Salvador passasse a ser 50% de cada e, mesmo assim, o Bahia recebeu o valor maior da negociação desses atletas por intermédio meu. Por exemplo, quando vendeu Eduardo, o Bahia ficou com R$ 1 milhão e o Real com R$ 500 mil. Então, o Real Salvador só fez bem ao Bahia, basta lembrar um jogador de graça que ficou aqui como Ananias, que algumas pessoas disseram que eu trouxe com interesse. Então o Bahia precisa a partir de agora valorizar quem trabalha pelo clube.

B.N - O senhor acha então que seu nome está na história de forma errada?

Newton Mota -
Tiveram muitas pessoas que passaram na história do clube tidos como grandes colaboradores, mas que nunca colocaram dinheiro nenhum pra ajudar e nunca conquistaram título nenhum. Um exemplo inverso disso é a Turma Tricolor, que entre pagamentos de salários e outras ajudas financeiras, colocou mais de R$ 500 mil no clube.

B.N – O senhor também foi bastante criticado por ter contratado 65 jogadores no ano de 2006 quando era diretor de futebol. Porque tantas contratações?

Newton Mota -
Eu tive que contratar porque os que chegaram não davam conta. Eu assumi em dezembro. O clube não tinha crédito, dinheiro, nem estrutura, tinha que contratar o que dava. O Corinthians, por exemplo, ano passado contratou uns 40 jogadores. Esse ano já contratamos mais de 20 e não se engane que contrataremos mais. Sei que a imprensa gosta, a torcida gosta, mas o ideal é que só se contrate 3, 4 jogadores por ano mantendo uma base. Você teve um Flamengo com o ataque com Romário, Sávio e Edmundo e que não foi para lugar nenhum, quanto mais um time com a folha salarial na média de R$ 3 mil, que é a sobra dos times pequenos que já haviam formado seus times. Mesmo assim fomos os lideres da competição até o preparo físico acabar com o time.

B.N – O senhor assumiu o Bahia no final do ano passado. A situação estava pior ou melhor do que na época de sua segunda saída no início de 2007?

Newton Mota -
O Bahia já melhorou ano passado e eu não quero estar aqui criticando pessoas que passaram como Paulo Maracajá, Petrônio Barradas, Ruy Aciolly, pessoas polêmicas, questionadas, mas que tem um serviço prestado ao Bahia. A torcida do Bahia tem os motivos e os direitos para criticar Paulo Maracajá, mas tem que reconhecer que ele deu muitas alegrias para ela. Voltando ao ano passado, as notícias que chegaram é que o time já tinha uma folha maior, fazendo até um investimento num jogador que eu estou gostando muito que é o Alison. É um mérito da antiga diretoria.

B.N – Qual o nível dos jogadores e da estrutura que o senhor encontrou nas divisões de base do Bahia?

Newton Mota -
Eu encontrei a base agora melhor do que em 2006 porque naquela época o Bahia tinha categorias que nem existiam mais, mas não quer dizer muita coisa. Eu sou obrigado a responder essa pergunta por que o Bahia Notícias é um site da verdade e com muita credibilidade, e eu não posso me esconder. A base que eu encontrei agora, fraca! A base do Bahia não disputa competições, chegou a passar longos períodos sem treinador de goleiros, elencos fracos. Nós recebemos a equipe de juniores com mais de 60 atletas com 40 e tantos profissionalizados, de forma que não estava a altura do Bahia. Quando um clube cai, a sua divisão de base não cai. O Bahia na base continua sendo Série A e como tal tem que ter um resultado e uma produtividade e uma conseqüência a esse nível. Não pode ficar largado como estava.

B.N – E o trabalho atual, já pode ser considerado produtivo?

Newton Mota -
Nós estamos chegando a apenas 70 dias de trabalho e desse tempo tivemos natal e ano novo no meio e é lógico que o profissional tem que ter prioridade, é o carro chefe. Mas, mesmo assim, Marcelo Guimarães Filho e Paulo Carneiro estão olhando com muito carinho pra divisão de base. Hoje nós temos uma pessoa extremamente competente cuidando dos campos, que é o Aldo Peroba. O Claus Dieter viu revigorada a sua função. Acabamos de fazer um poço artesiano. Vários investimentos nos dormitórios, refeitórios, sala de estar, academia, estamos adquirindo automóveis e está sendo previstas umas séries de mudanças no prédio da base. Paulo Carneiro já esteve lá com uma engenheira para por em prática as mudanças. Já houve uma centralização da cozinha para que tenha uma ampliação dos refeitórios; os nossos quartos terão ar condicionados em curto prazo e a gente está vendo uma série de melhorias. Tudo isso não poderia ser feito para abrigarmos jogadores sem qualidade. Temos que buscar craques e trabalhá-los, para que possam no futuro nos ajudarem em campo e conseqüentemente serem negociados para que o clube continue investindo em estrutura e que reserve uma parte do montante continuar nessa roda de busca por craques.

B.N – Paulo Carneiro disse em entrevista recente que expectativa é que o clube revele até oito jogadores por ano. O senhor acha isso possível?

Newton Mota -
De seis a oito, eu acho isso normal.  Até porque tomamos algumas medidas. Você tem visto aqui o Fazendão sempre cheio de jogadores fazendo testes, uma efervescência. Eu acho que a equipe de juniores tem sempre que colocar pelo menos 5 atletas na equipe profissional e se o trabalhar correr corretamente a tendência é aumentar ainda mais. É claro que poderá haver muitos jogadores em uma única posição e se isso acontecer é porque estamos no caminho certo.