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Entrevista

Renato Lavigne

Renato Lavigne

Fotos: Maurício Naiberg/ Bahia Notícias



Por Maurício Naiberg

 

Bahia Notícias Lavigne, como começou sua trajetória no rádio?

 

Renato Lavigne – Bom, minha trajetória no rádio aconteceu por um sonho. Eu ficava com meus amigos no bairro do Garcia transmitindo partidas de futebol de botão. E eu tinha um grande sonho de trabalhar em rádio. Foi em um jogo Vitória e Ypiranga, em 69, que eu fui pra Fonte Nova escondido e tive acesso ao estádio e quando terminou a partida, eu invadi, no bom sentido é claro, a cabine da rádio Cultura, na época com França Teixeira. Muitos garotos estavam sendo entrevistados por França na rádio e quando eu vi aquilo, eu me joguei. França perguntou meu nome e eu dei e meu nome errado pra não apanhar em casa, e França falou o seguinte: “Vá na rádio na quarta-feira que estamos precisando de um repórter mirim pra divulgar o dente de leite na Bahia”. Aí eu fui na resenha de meio dia, que era na Graça, e hoje funciona a agência de um banco, mas eu não vou falar o nome pra não fazer propaganda de graça. França entrevistou vários garotos, e eu fui o mais desinibido. A partir daí, quando eu estava descendo as escadarias da rádio cultura, eu perguntei a França se poderia ir todos os dias e ele falou para eu aparecer. Eu fazia a abertura da resenha, chamando os repórteres e dando notícias dos dentes de leite na Bahia.

 

BNE a paixão pelo Vitória, existe alguma ligação familiar?

 

Lavigne – Olha, sinceramente, nem tanto. A minha paixão começou justamente quando eu estudava na escola Mariana Pereira da Silva, que ficava na ladeira de São Bento, e todo dia, após as aulas, eu chegava no quartel do Forte de São Pedro, que era onde treinava o Vitória. E lá, me bati várias vezes com Dinho, Romenil, Cléber Bubu, Carlinhos Gonçalves, Detinho, Edmundo, Lívio, e a partir daí começou a paixão. Tinha o saudoso Gaguinho Focinho de Porco que fazia questão de ir a minha casa para falar com minha mãe para que eu saísse com ele. E nisso, comecei a ficar mais próximo do Vitória. 

 

BN – Quando você começou a cobrir o Vitória na rádio?

 

Lavigne – Bom, no profissional eu comecei a cobrir o Vitória quando trabalhava na Band FM, que foi a primeira FM no Brasil a fazer futebol, com o finado Juarez Oliveira. A partir dali, eu comecei a cobrir o Vitória em 1983/84. De lá pra cá, eu nunca mais deixei o Vitória. Tenho quase vinte e cinco anos cobrindo o Vitória, hoje com muito orgulho, pra minha honra, eu sou o setorista mais antigo cobrindo um time de futebol em Salvador.

 

BN – E o “Grito Rubro-Negro”, como surgiu a idéia de fazer um programa falando só do Vitória?

 

Lavigne – Tinha na rádio Cultura um programa chamado “Bahia Campeão dos Campeões”, do meu amigo Odemar Seixas, um grande guerreiro. E José Ataíde era o diretor da rádio na época, em 87, e me disse: “Lavigne, você tem uma boa clientela. Aqui tem um programa do Bahia e você cobre o Vitória. Porque você não pensa com seus conselheiros e anunciantes em fazer um programa para o Vitória?”. A partir dali eu comecei a pensar e no dia 12 de março de 87, eu levei o programa pela primeira vez ao ar, aos sábados, às 18 horas na rádio Cultura.

 

BN – Você acha que falta apoio do Vitória em relação ao programa? 

 

Lavigne – Sempre falta. Porque hoje é muito fácil se falar no Vitória, é muito fácil cobrir o Vitória, mas naquela época era muito difícil. Você está aqui dentro e sabe que ainda encontramos barreiras dentro do clube. Eu acho que esse programa, que tem praticamente 22 anos, poderia ter mais apoio do Vitória. Eu não quero dinheiro do clube, mas que o Vitória facilite. O Vitória fechou agora uma parceria com uma empresa de material esportivo. Porque o Vitória não tira uma verba destinada ao “Grito Rubro-negro”? Porque o programa não é de graça, eu pago. Eu encontro dificuldades em manter o programa 22 anos no ar. Não é fácil, futebol é profissionalismo e eu sou, na verdade, um profissional, mas quando eu faço o “Grito Rubro-negro” eu me torno um profissional amador. Sinceramente, se eu dependesse do “Grito Rubro-negro” pra sobreviver, eu morreria de fome. Eu faço o programa pelo amor que tenho pelo clube e a torcida do Vitória.

 

 

 

 

BN – O “Grito” tem espaço em uma rádio FM ou acha difícil que isso aconteça?

 

Lavigne – Sem falsa modéstia, eu sei muito bem conduzir o programa. Mas falta ao empresário do rádio ter essa visão e me fazer uma proposta para que eu possa levar o “Grito Rubro-Negro” a FM. Eu acho que cabe sim. A FM cresceu muito e porque não um programa destinado ao Vitória e o “Grito Rubro-negro” é, sem dúvida, uma marca, faz parte do cardápio todo domingo, meio dia, para o torcedor do Vitória.

 

BN – Como foi cobrir quatro Copas do Mundo?

 

Lavigne – Foi uma experiência que não tem explicação. O maior sonho do jogador de futebol é jogar uma Copa do Mundo. E o grande sonho de um profissional do rádio, jornal, televisão é fazer uma Copa do Mundo. E Graças a Deus, eu já fiz quatro. Fiz a Itália em 90, em 94 nos Estados Unidos, fiz 98 na França e a última na Alemanha. Gostei muito da minha primeira Copa do Mundo, apesar da minha inexperiência ainda, mas foi muito legal, porque me bati diariamente com Bebeto Gama. Se fazia Seleção Brasileira naquela época sem muitas barreiras. Você não tinha toda essa dificuldade que tem hoje. Você chegava no jogador e entrevistava sem problemas. Cansei de entrevista Romário quando foi cortado da seleção, ele agachado e eu me agachei pra conversar com ele. Hoje não tem isso. Me lembro na última Copa, na coletiva, Ronaldo chegou e ficou no meio dos repórteres e mandou todo mundo sair de trás dele.  Nos Estados Unidos eu encontrei muita dificuldade, até porque não tinham muitos países com tradição no futebol. Encontrei dificuldade com segurança, até com o próprio staff da CBF. Na França também foi muito bom, apesar de ter que ficar em Paris e ir a Osualaferrier de trem todos os dias com Mário Freitas, Ivanildo Fontes e Martinho Lélis. E a Copa de 2006 na Alemanha, que eu fui com Mário Freitas. Foi sensacional, porque eu conheci bem a Alemanha. Saí de Salvador com uma impressão negativa do país e voltei com outra impressão. É um banho de cultura, um país cheio de idéias. Também foi uma Copa itinerante. Hoje eu estava em um hotel, e no outro dia eu estava em outra cidade. Foram 44 dias de um convívio muito bom com Mário, com a imprensa brasileira. 

 

BN – O ex-presidente Paulo Carneiro falou certa vez, em entrevista ao Jornal A Tarde, que você recebia mil reais por mês do clube, em sua gestão, e diz que você cuspiu no prato que comeu. É verdade?

 

Lavigne – Eu acho que quem cuspiu no prato que comeu foi ele e não eu. Ele esquece que muitas vezes eu fiz campanha pra ele gratuita, sem cobrar nada. Cansei de botar na mídia. Logo que chegou ao Vitória, o ex-presidente fazia questão de falar todo sábado no “Grito Rubro-negro”, quando era aos sábados, na rádio Excelsior e até mesmo na rádio Cultura. Ele fazia questão de estar presente e falar ao vivo com o torcedor do Vitória. Porque quando ele saiu candidato a vereador, eu o apoiei de graça, sem ganhar nada. No dia da eleição, meu programa era sábado e a eleição era domingo, eu falei no meu programa: “Torcedor, às 11h11m01s eu estarei exercendo a minha cidadania, votando no 11111 (número de Paulo Carneiro na época)”. Agora, você me perguntou dos mil reais. Eu nunca vi um real dele. Quando o Vitória lançou o “Vitória Mania” (hoje “Sou Mais Vitória”), eu fiz o comercial, que ele não honrou. Ele não pagou tudo. Ele não, o clube. Quem tem boca fala o que quer.

 

BN – Você apoiou PC em sua gestão ou sem houve desavenças?

 

Lavigne – Não, muito pelo contrário. Eu gostava dele, sinceramente. O que me fez desgostar do ex-presidente foi o tratamento que ele dava as pessoas. Você fazia uma pergunta à ele e ele vinha com quatro pedras na mão. Quando era uma coisa que interessava ao clube, que tinha alguma briga que ele não quisesse que vazasse pra imprensa, ele vinha mansinho. Eu nunca gostei disso. Certa vez, ele me proibiu de entrar no Barradão. Então o cara que quer me proibir de entrar no Vitória, clube que eu ajudei a construir. Porque ele não fez sozinho não. Ele contou com minha ajuda. Lembro-me que quando o Vitória caiu em 89 para segunda divisão, ele pediu nosso apoio, a mim e a Mário Freitas, na época na rádio Cultura, para fazer a campanha de reinauguração do Barradão. Eu e Mário, juntamente com vários torcedores, fizemos a campanha do cimento, bloco, ajudando a construir o Vitória. Isso ele esquece. Eu também tenho grandes serviços prestados ao Vitória. Ele fez, mas não fez sozinho.

 

BN – E você acha que o ex-presidente destruiu tudo que construiu no clube?

 

Lavigne – Veja só, ele foi o grande responsável, porque ele mandava em tudo. Na época, tinham pessoas que davam amém a ele, pra ficar de bem com o ex-presidente. Então, se ele era o general nas vitórias, era nas derrotas também. Acho que ele ajudou muito a destruir o Vitória. Quer ver um exemplo. No dia que o Vitória caiu, ele se desentendeu com o garoto Advaldo. Ele se desentendeu com Felipe. O que aconteceu? Felipe, um belo goleiro, que foi revelado na base do Vitória, passou por seleções brasileiras de base, recebeu passe livre. Então, o torcedor que deve julgar. Eu não tenho ódio dele, porque meu coração não cabe ódio. Agora, eu não gosto dele, como ele não gosta de mim.

 

 

 

 

BN – Como era o clima na Toca do Leão quando Paulo Carneiro ainda estava no comando?

 

Lavigne – Rapaz, ele sempre esculhambava a imprensa, adorava falar mal da imprensa, dos profissionais de rádio, televisão. Esculhambava todo mundo. Na época do outro lado, onde ele se encontra, ele falava mal dos profissionais que cobriam o Bahia. Hoje o discurso dele mudou por completo, ele está mais polido, parece que está mais educado. Aqui não, queria esculhambar todo mundo, gritar com todo mundo, comigo não que ele nunca gritou. 

 

BN – O conselho do clube era omisso a gestão de Paulo Carneiro?

 

Lavigne – Não vou qualificar o conselho como omisso. Eu digo o seguinte: o cara falando é bom demais. Se eu der um microfone a ele aqui, ele vai arrebentar. Então ele começou a ganhar títulos. Eu não vou deixar de reconhecer os méritos dele, quero deixar bem claro. Ele teve méritos demais no clube. Se o Vitória é o que é hoje, deve-se a ele. Mas o que ele é também deve muito ao Vitória. Agora, o conselho deixou ser levado porque ele ganhava títulos. Ele chegava lá e dizia: “Está aqui o projeto da Arena do Vitória”. O conselho aplaudia. O que eu queria que fosse feito pela diretoria do Vitória atual, era mostrar a imprensa e a torcida, tudo que foi feito de errado do ex-presidente. 

 

BN – Falando em outro assunto polêmico. Como foi e porque aconteceu a briga com Silvoney Salles, na primeira partida do Brasileirão do ano passado?

 

Lavigne – Sinceramente, sobre esse rapaz eu prefiro nem falar nada. Talvez porque eu tinha me lançado a vereador e ele sabia que eu tinha condição de ganhar. Se eu tivesse ido até o final, hoje eu seria vereador. A torcida do Vitória me elegeria vereador, coisa que ele não foi.

 

 

 

 

BN – Você é conhecido por dar muito crédito às divisões de base do Leão. Em sua opinião, os garotos são o futuro do clube?

 

Lavigne – Nem todos. Acho que o grande problema da divisão de base está no empresário. Qualquer jogadorzinho tem empresário. Porque hoje é fácil. Hoje você tem o celular, internet, Orkut, email. Então é muito fácil. Um garoto vai ajudando o outro vai indicando e isso vai crescendo. O que Pelé fez com a bola nos pés, em um segundo ele destruiu com as mãos. Porque essa lei (Lei Pelé) foi ingrata demais, principalmente pro Vitória, que é um clube formador de atletas.

 

BN – Você sempre acompanhou as divisões de base. Tem algum jogador que te chamava atenção, mas que não vingou nos profissionais?

 

Lavigne – Muitos. Certa vez eu estava aqui em um sábado à tarde, fazendo um jogo pela rádio Cultura, e vi um garoto chamado Vampeta. O dia que eu vi, falei que seria um jogador de futebol. Outro foi Alex Alves, apostei nele. Alex Alves era aqui no Vitória, magro, banguelo, mas com uma qualidade técnica extraordinária. Dudu Cearense, Fernando, Nádson, Fábio Costa, Rodrigo, Nilson, Júnior Nagata. Mas tiveram jogadores que não vingaram. Careca, centroavante muito bom, mas não vingou, foi artilheiro na Copa São Paulo. Paulo Isidoro, craque de bola. Giuliano, meia esquerda, um loirinho, acabou a bola dele. Arivélton, pegou a bola, se retou e jogou na lata do lixo. Kléber, que passou por todas as categorias de base da seleção, craque de bola. Allan Dellon, Matuzalem. Olha, eu ficaria aqui o dia inteiro me lembrando de grandes jogadores da base que foram vendidos prematuramente pela gestão passada.  

 

BN – Qual a maior revelação do Vitória em todos os tempos?

 

Lavigne – Eu vou citar seis. Dida, Fábio Costa, David Luiz, Vampeta, Alex Alves e Nádson e vou ficar por esses cinco aí, porque tem mais.

 

BN – Monte um time com os maiores jogadores que passaram pelo rubro-negro.

 

Lavigne – Eu vou lembrar alguns jogadores. Detinho, que era um grande goleiro. Dinho, Zé Preta, Dutra, Vampeta, Hugo, Gibira, Osni, André Catimba, Fisher, Zé Antonio, Mário Sergio. É muito difícil você escalar uma grande equipe do Vitória. O Vitória teve grandes craques. O Vitória sempre armou bons times e o Vitória perdia muitos campeonatos nos bastidores.