Nádson
Fotos: Maurício Naiberg/Bahia Notícias
"Se fosse pra passar a vida todinha jogando na Ásia, eu jogava"
Por Maurício Naiberg
Bahia Notícias – Conte um pouco do seu começo de carreira nos campos do povoado de Lagoa de Fora, em Serrinha, sendo treinado por Carlinhos Capenga.
Nádson – Começamos a treinar individualmente. Ele pegou meus dois primos e eu e muita gente zombava, falando que não ia dar certo porque demorava muito. Depois disso, ele me trouxe para fazer o teste e antes eu já disputava campeonato rural nos campos de terra, quando era bem molequinho. Eu sempre jogava no meio dos adultos. Minha mãe ficava louca, querendo entrar em campo pra bater nos caras. Isso porque eu era muito “charlador”. Eu driblava e ficava zombando da cara dos caras. E aí eu vim fazer o teste no Vitória. Cheguei aqui aos 13 anos, só que o alojamento estava lotado, estava chovendo muito e não dava pra fazer no campo. Acharam que eu era pequeno e eu tive que retornar quatro anos depois. Fiz o teste no “perônio” e fui entrosando com a galera, mas mesmo assim, acho que na época o Vitória não queria. Quem me segurou aqui foi o Alexandre Coutinho e o professor Ednilson Sena, que foi para o Fluminense.
BN – Quando você trabalhava na lavoura com Sr.Nélson, seu pai, pensava que seria um grande ídolo no futebol?
Nádson – Não, tudo mesmo isso. Primeiro que eu não estudei, parei na quarta série. Eu trabalhava com meu pai em uma fazenda, e quando não ia trabalhar, ficava esperando minha mãe fazer comida para eu levar onze horas para ele almoçar. Ficava lá até o final da tarde, saia correndo da fazenda, que dava uns trinta ou quarenta minutos do campo de meu tio, onde eu jogava bola. Eu já chegava cansado no segundo tempo pra jogar. Eu era guri e ficava esperando pra que sobrasse uma vaga e quando sobrava eu jogava assim mesmo descalço. Aí quando eu cresci mais um pouco, comecei a trabalhar no centro da cidade como mecânico, vendendo verdura, picolé, caldo de cana, e fui mantendo as atividades, mas não sonhava em ser não. Até porque eu nem joguei pela seleção de Serrinha. Nunca tive uma chance na seleção de Serrinha. Pra você ver como as coisas acontecem.
BN – Newton Motta foi o grande responsável pela sua chegada a Toca do Leão?
Nádson – Newton foi uma pessoa que apoiou muito. Não só eu, mas a safra toda que saiu. Felipe, Leílton, Alecsandro, Fernandinho, Elvis, Fernando, Kleber, Allan Dellon, Adaílton, Zé Roberto. Foi uma safra muito boa. Eu acho que foi uma das melhores safras que o Vitória teve. Acho que nessa época o Vitória vendeu mais de vinte atletas e todos bem vendidos. Foi uma época muito boa e todo mundo sonha que essa época volte de novo. Hoje você lança um, dois ou três jogadores e mesmo assim o mercado está muito complicado. Futebol vai evoluindo e fica muito difícil revelar jogadores.
BN – Onde você morava e como se sustentava quando ainda era da base?
Nádson – Olha, tem uma história até curiosa. A tia da minha esposa mora no bairro de São Marcos e aí eu vi que não ia agüentar ficar lá dentro da concentração da base. Eu não morei na base e inventei pra minha mãe que o Vitória falou que não tinha vaga no alojamento, que só ficava comigo se eu tivesse algum lugar para morar. Aí ela foi e pediu a tia da minha esposa, que hoje é como se fosse uma mãe pra mim, pra ficar na casa dela. Sem isso eu não agüentaria ficar. Porque tem que estudar, ter horário pra entrar. Mas o Vitória me ajudava com vale transporte e as vezes não tinha, porque eu era atleta da base. Muitas vezes vinha andando de São Marcos até a Toca do Leão pra economizar vale transporte para comer à noite. Foi uma fase muito dura, mas que me fez dar valor pra vida.
BN – Como foi seu primeiro jogo como profissional do Vitória?
Nádson – Eu me lembro que foi contra o São Paulo na Copa do Brasil. Entrei faltando uns cinco minutos e tive até uma chance de marcar um gol, mas não fiz e terminei não emplacando. Retornei ao júnior e ficavam me puxando para o profissional. Até que Péricles Chamusca me deu a primeira chance. Passei pelo Arthuzinho, Espinoza. Mas quem me deu mais chance no Vitória foi Joel Santana.
BN – Qual a partida memorável atuando pelos profissionais do Leão?
Nádson – Contra o Bahia, estávamos perdendo por 2 x 0 e eu entrei e fiz três gols, virando a partida. E o jogo contra o Palmeiras, no Parque Antártica, que vencemos por 7 x 2.
BN – Você se transferiu para o Samsumg BlueWings da Coréia do Sul em 2003. Como foi a sua primeira experiência no futebol oriental?
Nádson – Foi muito boa. Eu não esperava que fosse tão boa, se melhorasse estragava. Eu cheguei no meio do ano, meio de temporada lá, restavam só quinze jogos e eu fiz quatorze gols. Nisso aí o Vitória já ganhou metade do dinheiro que tinha feito contrato. Era pra ter feito em três temporadas e eu fiz em quinze jogos. Já no segundo ano, ganhamos quatro títulos seguidos. Nessa mesma temporada veio o MVP, o maior artilheiro de todos os tempos da história do Samsumg na liga, maior artilheiro da liga, Golden Ball, chuteira de bronze. Disputei dezessete prêmios e ganhei dezesseis.
BN – Pra você, quais as principais diferenças entre o futebol brasileiro e o oriental?
Nádson – É muito corrido o futebol coreano, muito corrido mesmo. Além de ser muito mais violento. Acho que eles batem, não é nem por querer, mas pela falta de noção mesmo. É vontade. Eles chegam junto mesmo. Mas a qualidade deles vai aumentando a cada ano que passa. Você vê que tem jogadores coreanos que estão na Inglaterra. A cada ano que passa vai melhorando.
BN – Depois de três anos você deixou a Coréia e foi para o Corinthians, mesmo sendo o maior artilheiro do Samsumg em campeonatos nacionais. Porque saiu de lá?
Nádson – Eu que pedi, já estava esgotado. Tinha machucado um vez e pedi pra passar seis meses fora. Já estava tratando aqui e, por sorte, a Samsung pegou o Corinthians. Aí ficou mais fácil. Passei seis meses aqui e retornei.
BN – Falando no Corinthians. Porque sua experiência no alvinegro não deu certo, já que atuou pouco e fez apenas dois gols?
Nádson – No Corinthians eu joguei muito pouco. Eu estava vindo de três contusões, não é fácil. Você vê que eu estou voltando ao normal agora, depois de dois anos e pouco dessas contusões. Não é fácil você recuperar de novo e voltar a ser o que era, é muito difícil, só com muito esforço mesmo. Eu terminei atuando pouco, acima do peso, sem ritmo, não tinha tempo pra nada. No primeiro jogo Leão já me colocou, eu fiz um gol, até comecei bem. Eu fiz dois gols no Corinthians em sete jogos. Aí na Sul-Americana eu fiz um também, contra o Lanús, na Argentina. É até bom que já dá uma aliviada, já que a gente vai disputar a Sul-Americana. Sul-Americana pelo menos eu já fiz um nos argentinos. Pegar time argentino é complicada. Até porque no Corinthians estava muita confusão na época e eu já cheguei no meio dessa turbulência. Estava pra cair e graças a Deus não caiu.
BN – Dizem que jogar no Corinthians é uma grande pressão, principalmente pela torcida. A Fiel influencia negativamente ou positivamente?
Nádson – Positivamente. Acho que qualquer torcida cobra porque tem o direito de cobrar. Hoje em dia, torcida que não cobra é porque o time está tendo resultado. A torcida do São Paulo é a única torcida no Brasil que não cobra. Todo ano ganha título. A torcida do Corinthians cobra pelo nome que o clube tem, pela torcida que tem. O Corinthians pode estar na terceira divisão que o estádio vai estar lotado sempre. E esse ano vai vir forte de novo, porque é um grande clube, com uma grande torcida. E enfrentar o Fenômeno (Ronaldo) vai ser difícil. Ele entrando em forma, acho que vai fazer história no futebol brasileiro.
BN – Você atuou no Vegalta Sendai (Japão) no ano passado. A experiência foi melhor que na Coréia?
Nádson – Olha, eu acho que gostei mais da Coréia. No Japão eu gostei mais da vida. Lá a gente vive legal. Apesar de que o custo de vida é muito mais alto que na Coréia. Em termos de futebol, se fosse pra voltar hoje, eu gostaria de voltar para Coréia, porque eu fiz muito gol lá. Na Coréia é o seguinte: se o meia driblar o goleiro tem que te dar pra fazer o gol, porque você é o cara do time. Você é o cara que chegou pra emplacar. Eu já tinha essa marca lá. O pessoal tinha prazer de fazer isso e me dar para fazer o gol. No Japão o pessoal ficou mais com ciúme, porque eu cheguei bem, treinando muito bem. Fiz doze jogos, sete gols, seis assistências e todos os jogos que atuei foram além da minha expectativa. Infelizmente não conseguimos subir, pois perdemos o último jogo.
BN – Você se sente frustrado por não ter jogado por um grande clube da Europa?
Nádson – Não, nenhuma. Se fosse pra passar a vida todinha jogando na Ásia, eu jogava. É um futebol gostoso, cultura boa, dá pra viver tranquilamente lá. Minha família adorou a Coréia. A única coisa que ia dificultar é a escola para meus filhos. Mas isso daríamos um jeito.
BN – Você foi convocado para a seleção sub-23 algumas vezes em 2003. Disputou a Copa Ouro e não foi chamado para o pré-olímpico no Chile. Porque a não convocação?
Nádson – Eu já sabia. O Ricardo Gomes (treinador na época) já tinha me avisado que dificilmente olharia para jogadores que atuavam na Ásia. Se eu ficasse no Vitória teria sido convocado.
BN – Muita gente fala em preconceito com os jogadores que atuam em times nordestinos, por isso a não convocação. Você acha que isso existe? Sentiu isso na pele?
Nádson – É diferente um jogador que joga no São Paulo, Corinthians, Palmeiras ou um Santos da vida, dos que jogam no Vitória, Bahia, Sport, mas eu acho que isso é besteira. Acho que se estiver bem os caras levam. Você vê Washington, Alex Mineiro, Kleber Pereira, que se destacaram e nenhum foi. Todos em clubes grandes e Dunga preferiu trabalhar com Jô e a molecada mais nova. Por isso acho que se fizer por onde, tem chance. Eu também não esperava ser convocado. Estava fazendo gol praticamente três vezes por semana, que era Copa do Nordeste, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Campeonato Baiano.
BN – Você ainda pensa em voltar para seleção brasileira?
Nádson – Penso. Tenho 26 anos e vou fazer 27 no próximo dia 30. Estou novo ainda. Mas tenho que fazer um bom Brasileiro, Copa do Brasil, Sul-Americana e Baiano e trabalhar. Você só consegue as coisas trabalhando. Mas temos que trabalhar acima do nosso limite. Trabalhar até estourar. Nem que estoure, mas sabendo que estourou trabalhando.
BN – O técnico Vagner Mancini contava com você para a disputa do Brasileiro do ano passado e a negociação não deu certo. Qual foi o verdadeiro motivo para que você não voltasse a Toca do Leão naquele momento?
Nádson – Até hoje eu não entendo. Da minha parte ficou tudo certo. Eu neguei um monte de propostas que tive e acabei ficando quase sem nada. Se não aparece o Japão, ficaria sem nada. Minha parte estava certo, empresário também, mas acho que houve um desacerto entre o clube. Mas da minha parte e até a de Mancini, que é um grande treinador. Falei e falo que se o Vitória tivesse tirado Mancini, dificilmente iria conseguir outro. Não é fácil disputar um Campeonato Brasileiro com o investimento que o Vitória tinha, comparando com os outros clubes. Você vê que o Vitória caiu um pouco no segundo turno porque não teve elenco suficiente pra isso, porque não investiu tanto.
BN – Antes de acertar seu retorno ao Leão, você teve proposta do Vasco. Porque achou que era a hora de voltar a Toca?
Nádson – A família me motivou a ficar em Salvador. Eu estava há seis anos fora de Salvador, longe da família. O Vasco é um grande time que vai investir pesado pra subir. Espaço ia ter, mas também ia ter muita briga. Preferir ficar aqui pela família e o nome que tenho aqui. Tentar terminar o que comecei e me tornar mais ídolo da torcida do Vitória.
BN – Se você tivesse uma proposta do Bahia, principal rival rubro-negro, aceitaria ou o amor pelo Vitória falaria mais alto?
Nádson – Olha, eu sou profissional. O mesmo jeito que eu jogaria no Vitória suando a camisa, no Bahia eu faria a mesma coisa porque sou profissional. Mas, meu amor pelo Vitória jamais ia acabar. Mas, se viesse a proposta e fosse muito, muito boa eu poderia ir pra lá, porque sou profissional. Eu ia estudar a proposta e, se fosse realmente boa, eu ia. Mas eu dei minha palavra ao Vitória que se ficasse no Brasil ficaria no Vitória, desde a outra vez.
BN – Nadgol, por ser a maior contratação do Vitória na temporada, acha que deve ter um tratamento diferenciado?
Nádson – Não, jamais. Nem eu aceitaria uma coisa dessas. Falam de maior contratação, eu também não acho. Porque tem muito jogador de nível. Pode até ser pelo que eu fiz aqui no Vitória, pelos títulos que ganhei, pelo amor que eu tenho da torcida. Eu não peguei fase ruim no Vitória, só peguei fase boa. Estava subindo da base, fazendo gols, não tinha jogo que eu não fazia gol. A torcida ainda não conheceu o outro lado também. Esse ano pode ter várias fases. Você sabe como o torcedor é, hoje você é o rei e depois não é nada.
BN – O que você espera do Vitória em 2009: conquistar o Campeonato Baiano, Copa do Brasil, Brasileiro ou Sul-Americana?
Nádson – A gente vai por etapas. Não adianta disputar o Campeonato Baiano pensando na Copa do Brasil, que começa depois. Não adianta pensar em um pensando no outro. O Campeonato Baiano, pra começar o ano, se vencer, é muito bom.
