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Entrevistas

Entrevista

Ademir Ismerim

Ademir Ismerim

Por Éder Ferrari

Foto: Éder Ferrari/Bahia Notícias

 

B.N – Como e quando começou a vida do senhor no Esporte Clube Bahia?

Ademir Ismerim -
Eu sempre fui torcedor do Bahia e me aproximei do clube através de um colega meu de faculdade, Doutor César Oliveira, que faz oposição há muito tempo e continua, inclusive. Em 1989, se não me falha a memória, nós já advogávamos para um grupo de Pedro Irujo onde o deputado Marcelo Guimarães fazia parte. Posteriormente, essa relação se estreitou e passei a me interessar mais pela parte política e institucional do Bahia. A minha entrada se deu primeiro a César Oliveira e depois a Marcelo Guimarães, que me convidou a participar da vida do clube.

B.N – Qual cargo já ocupou no Bahia?

Ademir Ismerim -
Eu fui apenas vice-presidente jurídico do Bahia na gestão de Petrônio, mas renunciei com mais ou menos seis meses.

B.N – Por quê?

Ademir Ismerim -
Eu renunciei porque quando me foi feita a proposta, nela constava que as decisões seriam tomadas em colegiado. Haveria espaço para que todos os outros trabalhassem, mas na prática isso não ocorreu. O que ocorreu é que tudo se resumia a Maracajá e Petrônio e você não tinha nenhum acesso. E teve um episódio que foi fundamental. Eu como vice-jurídico, o Bahia contratou uma advogada, Tâmara Medina, sem me consultar. É a mesma coisa que você contratar e escalar um jogador como titular sem consultar o treinador. Eu achei essa atitude um desrespeito mesmo sendo a doutora minha amiga e tudo. Então, esse motivo e a falta de transparência e democracia da direção me fizeram deixar o clube.

B.N - Como surgiu a idéia da passeata em 2006, quando cerca de 50 mil torcedores foram para as ruas do centro de Salvador protestar?

Ademir Ismerim -
O Bahia jogou com o Vitória em Feira de Santana e foi derrotado por 2x1. Eu cheguei aqui nesta sala e disse “vou fazer uma passeata”, até porque eu tenho experiência com movimento estudantil. Aí eu liguei pra alguns amigos e até pra outras pessoas que eu não conhecia. No mesmo dia, à noite, me reuni com: Jorge Pires, César Oliveira, Jorge da Bamor, Rosalvo da Povão,  Cid Guerreiro, Wagner Bispo Cunha, advogado que trabalhou aqui comigo, Marcelinho da Banda Cadê a Parafina e Edmílson Pinto, e nós começamos com o movimento. E ele cresceu com o decorrer do tempo, em conta até mesmo da campanha desastrosa do Bahia em 2006. A passeata, inclusive, se deu uma semana depois, se não me engano, de uma derrota de 7x2 para o Ferroviário, que aquilo ali foi realmente um caos. O movimento começou um tanto quanto tímido. No início pensamos em colocar três mil pessoas, mas foi ganhando corpo com a integração de outros tricolores. E a passeata foi um marco na oposição do Bahia porque ela iniciou os movimentos populares. Logo após ela veio o público zero, o enterro simbólico da diretoria, entre outras coisas. Mas a passeata, no que pesa ter sido um grande ato de manifestação e de insatisfação com a diretoria, nós que a coordenávamos cometemos erros. Porque logo após a diretoria estava extremamente fragilizada, e nós, inclusive, fomos convidados pelo desembargador Carlos Alberto Dultra Cintra para uma reunião, que se discutia um acordo para que dividisse a administração do Bahia, que a oposição fizesse parte, mas nós não aceitávamos, queríamos apenas a renúncia de Petrônio. Então foi um erro, porque se nós tivéssemos feito um acordo com a diretoria talvez já tivesse acontecido à eleição direta em 2008. Nós não enxergamos a perspectiva de diminuição de mensalidade pra sócio, por exemplo, e uma série de outras coisas. Ficamos focados apenas na renúncia de Petrônio e perdemos uma oportunidade. E, eu, particularmente, nem participei das conversas, por que, inclusive, meu nome foi vetado pela diretoria. Naquele momento eles aceitavam conversar com a oposição, mas eu não podia participar.

B.N – Eles explicaram o motivo deste veto?

Ademir Ismerim -
Na verdade fui eu que quem liderou a passeata e todos os outros movimentos da época, coloquei amor e recurso para viabilizar, alcunhamos eles de coveiros do Bahia e ai eles vetaram meu nome, eu também não me importei, já que os companheiros César Oliveira e Wagner foram representando. Nós tínhamos uma visão muito pequena do que era o Bahia e deixamos passar uma excelente oportunidade de democratizar o clube, o que só veio a acontecer com a invasão do Fazendão.

B.N – Como o senhor articulou a invasão do Fazendão juntamente com a Bamor e a Povão?

Ademir Ismerim -
A Bamor e a Povão e o nosso grupo, “Devolva Meu Bahia”, nós nos reunimos praticamente toda semana a aproximadamente três anos toda segunda-feira aqui no escritório. Nós tínhamos decidido conjuntamente pela invasão, que foi idéia de Jorge da Bamor, na véspera, evidentemente não poderíamos divulgar senão desarticularia, ficou combinado que iríamos para o Fazendão às 4 horas. A única pessoa que sabia da manobra foi Marcelo Nilo, que na época estava ocupando a governadoria, já que Jaques Wagner estava viajando e o vice por algum motivo também não podia ocupar o cargo. Eu liguei pra ele e falei “vai haver uma invasão e eu só peço a você que os policiais não vão lá bater na gente, porque vai ser uma coisa pacífica”, ai ele disse “tudo bem”. E foi a única pessoa fora do nosso círculo que sabia. Por volta das 4 horas chegamos no Fazendão e foi uma surpresa, porque o Bahia sequer tinha um cadeado no portão, além dos porteiros completamente despreparados. Foi uma coisa tranqüila e comparada com a invasão que teve da Terror Tricolor depois, a nossa foi uma ocupação de freiras, porque não criamos problema nenhum, queríamos apenas negociar. Negociamos as eleições diretas em 2011, eliminamos a jóia de R$ 250 para poder se associar, além do conselho paritário. Porque o conselho é eleito hoje a chapa que tiver 50% mais 1 elege a totalidade do conselho. Na nossa proposta se uma chapa tiver um mínimo de 20% ele terá participação no conselho. Exemplo: uma chapa tem 30% dos votos, então ela terá 90 conselheiros, já seria um ganho para oposição essa questão do conselho paritário. É porque o pessoal pensa que o conselho serve apenas na hora da eleição, não! Ele tem função de aprovar as contas, de fiscalizar, destituir o presidente, entre outras coisas.

 

Foto: Éder Ferrari/Bahia Notícias

 

B.N – E a confusão que ocorreu na Assembléia que aprovaria as mudanças no estatuto?

Ademir Ismerim -
Lamentavelmente naquela assembléia que foi convocada para referendar as mudanças no estatuto terminou em tumulto, por inabilidade do presidente e de algumas pessoas da oposição, porque eles tinham que entender que aquilo ali era um ganho. Em acordo você não leva tudo, você só leva tudo em guerra, porque você mata e impõe sua vontade. E ali não era uma guerra, e, além do mais, quem patrocinou esse acordo foi a Bamor, a Povão e o nosso grupo. Inclusive, quando nós organizamos a invasão pensamos “bom, vamos colocar lá 40 pessoas e durante o dia as pessoas vão chegando e vão aglomerar mais gente, vai chegar umas mil pessoas”, mas não chegou ninguém. Chegaram assim, alguns “caciques”, fazendo discurso e dando entrevista, mas o torcedor mesmo não participou. Por isso nós tivemos que fazer um acordo às pressas, porque com aquele número de pessoas não dava porque não tinha estrutura nenhuma, com mosquito, chuva e as responsabilidades pessoais de cada um. E, paralelamente a isso, coisa que passou batida por todos, o Bahia entrou com uma ação de reintegração de posse, e nos poderíamos sair de lá colocados pra fora e com as mãos abanando, por isso fizemos o melhor acordo possível diante das possibilidades.

B.N – Quem são esses caciques?

Ademir Ismerim -
Esses caciques que estavam lá são os mesmo que se aproveitaram da passeata, do público zero. Alguns fizeram discursos impublicáveis, de baixo nível, xingando a mãe de alguém, dando palavrões como se isso fosse resolver a condição do Bahia. Nós temos que ter equilíbrio, seja oposição, seja situação, até porque quem dirige um movimento precisa ter mais equilíbrio que os outros. Eu, por exemplo, tomo muita porrada do resto da oposição porque eu sou equilibrado, não sou kamikaze, não vou soltar míssil! Meu estilo não é esse, cada um tem seu estilo.

B.N – Mas quem são eles?

Ademir Ismerim -
Eu prefiro não falar nomes, não quero falar nomes.

B.N – O senhor era tido por alguns de oposição, mas agora fará parte da nova diretoria. O que mudou sua opinião?

Ademir Ismerim -
A própria oposição tem que ser uma oposição programática. Nós queríamos mudanças. Queríamos um clube aberto, a recuperação do Fazendão, eleição direita, que o sócio com um valor reduzido se associando, ajudando e votando e queríamos organização no clube de futebol. Todas essas coisas estão acontecendo agora. Eu estava dando uma olhada naquelas propostas da Gigante Tricolor, e quase tudo que eles queriam está acontecendo agora. Então, a oposição programática, ela apresenta propostas, na medida que você tem essas propostas e elas estão sendo cumpridas você vai ser oposição por que, só por ser? Porque, na verdade, o resto da oposição que está ai é oposição só no nome, ela está questionando o nome de Marcelinho por causa do pai. Ela está achando que, só ela, pode assumir. Não é uma oposição de proposta. Por exemplo, pergunte a esse pessoal quais são as suas propostas.

B.N – A proposta dessa oposição foi formulada durante a conferência Gigante Tricolor.

Ademir Ismerim -
Mas é como eu estava dizendo. As propostas da Gigante Tricolor praticamente todas estão acontecendo. A diretoria atual entrou com todo o vapor. Primeiro, querendo pacificar o clube; segundo, organizando o departamento de futebol e as instalações do Bahia. Pô, tinha um candidato que dizia que se eleito fosse iria fechar o Fazendão por dois meses e o time ia treinar na praia. Porque o Fazendão era uma coisa acabada. Paulo Carneiro, pode até se questionar o nome dele pela sua origem, (mas) que é uma pessoa que entende inegavelmente de futebol, elogiou as instalações. Ele, inclusive, levantou a auto estima da torcida com as entrevistas que ele tem dado. Paulo Carneiro está tendo um papel de dirigente de futebol e de psicólogo. Já estão sendo feitos os ajustes necessários de todas as instalações. Ele não chegou lá condenando, chegou trabalhando e é isso que o Bahia precisa nesse momento. E é isso que nós da oposição queríamos. O resto da oposição está ainda ai discutindo nomes sem nem observar o que está sendo feito. Eles são narcisistas ao ponto de achar que apenas eles podem mudar o Bahia. E está sendo provado, pelo menos até agora, que as mudanças estão sendo feitas.

B.N – O que o senhor achou da contratação de Paulo Carneiro?

Ademir Ismerim -
Paulo Carneiro tem demonstrado que é uma das pessoas que mais entende de futebol na Bahia. Ele estava ferido. Acho que juntou a fome com a vontade de comer. O Bahia que estava em uma situação paupérrima e Paulo Carneiro querendo voltar ao futebol. E voltou no maior clube do norte/nordeste, um clube que é bicampeão brasileiro, com a torcida maravilhosa, e eu não vejo essas concepções que são dadas a eles como verdadeiras. A diretoria ela está mudando o perfil do que está acontecendo no Bahia, e Paulo Carneiro é uma peça fundamental nesse processo, e a torcida vai a cada dia se adequando mais ao momento e ao projeto.

B.N – Quando surgiu a proposta para ser vice-presidente jurídico do Bahia?

Ademir Ismerim -
O presidente me convidou desde antes de sair como candidato, no dia que teve a reunião dele com aqueles conselheiros que definiram a candidatura de Marcelinho. Teve uma reunião comigo pela manhã e (o presidente) me convidou para fazer parte da diretoria. Eu não aceitei, e fui não aceitando, não aceitando. Tive uma reunião com a Bamor e a Povão na quinta (18) e eles aceitaram que eu participasse porque eu sempre disse que ia decidir em grupo. E o nosso grupo aceitou a minha participação, até mesmo para eu ser um representante destas torcidas lá dentro, delas, para depois não dizerem que eu estou lá representando toda a torcida e sendo o vice-presidente jurídico.

B.N – Você substituiu o advogado Roberto Cavalcanti, que havia sido o primeiro nome anunciado da nova diretoria. Porque a mudança?

Ademir Ismerim -
Eu não tenho nada contra trabalhar com ele, eu não tenho essa vaidade. Foi uma opção dele e do presidente.

B.N – O que faltou à antiga diretoria do Bahia?

Ademir Ismerim -
Faltou a eles humildade de reconhecer que as coisas mudaram que o mundo mudou. Faltou se integrar com os grupos de oposição; trazer os grandes conselheiros do Bahia. Um exemplo da mudança da nova diretoria. Essa proposta do Gilberto Bastos, que já está no site do clube, em que abre o clube para que qualquer sócio em condição possa enviar propostas para fazer parte da chapa da atual gestão no conselheiro deliberativo é fantástica. Qualquer sócio poderá virar conselheiro e com isso poderá participar de reuniões, pagar uma taxa mensal que será destinada a divisão de base e ele está imaginando que será R$ 300,00 mês. Por exemplo, trezentos conselheiros pagando esse valor seria R$ 90 mil para a base, o que seria ótimo para o Bahia. Então eu acho que esse é o caminho. No momento que a diretoria abre essa perspectiva de qualquer sócio, que a gente nem conhece, poder virar um conselheiro e participar de forma ativa do dia a dia do clube é uma prova que a atual diretoria está querendo democratizar, diferente da diretoria antiga, e é isso que interessa! Então, faltou a eles humildade, agregar as pessoas que queriam ajudar o clube e, principalmente, abrir mão de poderes.

B.N – E o acordo feito durante a invasão, será mantido?

Ademir Ismerim -
O acordo foi feito e ele será cumprido. Nós estamos nos integrando à diretoria do Bahia pra ajudar, mas também para cumprir compromissos, até porque o acordo não foi feito só comigo, foi feito com torcidas e outras pessoas. Agora, quem vai decidir quando será isso vai ser o presidente, assim que sair o novo conselho. As propostas já existem e essas mudanças que o presidente pretende fazer serão aprovadas, ou não, na assembléia que decidirá isso tudo. 

B.N – Durante as eleições, o senhor criticou muito a anistia das dividas dos sócios com o clube. Agora, fazendo parte da diretoria pretende questionar isso?

Ademir Ismerim -
Não serei eu que vou mandar no Bahia. Vou cumprir apenas minhas obrigações na vice-presidência jurídica. Agora, minha opinião continua sendo a mesma de que não devia anistiar ninguém não. Se o cara é sócio do Bahia, é porque quer! Tem que ter o comprometimento de ajudar o clube e pode fazer isso pagando em dia e participando do dia a dia. Espero que agora, com essa nova diretoria, pare esse negócio de anistiar e só tenha voz ativa no clube, seja pra votar ou ser conselheiro, quem estiver em dia. Ainda tem o fato de que isso acaba sendo injusto pra quem sempre cumpre seus compromissos em dia. Agora, eu entendo também, que muitos desses atrasos se devem à falta de organização. Eu, por exemplo, não recebo boleto da mensalidade em casa. Tenho que ir à sede de praia pra poder quitar a mensalidade. Aproveito e pago logo o ano todo de uma vez, porque é a única forma, senão teria que ir lá todo mês só pra isso. Tem que se organizar, criar boletos bancários, débito em conta, em cartão de crédito, o que não falta é opção pra isso.

B.N – Isso foi mais uma mostra que a antiga diretoria não queria abrir o clube aos sócios?

Ademir Ismerim -
Teve um amigo nosso que é sócio, mas que estava atrasado, o Edmílson Pinto. Ele chegou lá pra poder pagar e só podia até as 17 horas. O que aconteceu? Ele tinha R$ 400,00 pra pagar, estava com o dinheiro na mão e não conseguiu pagar. Veja como é uma coisa desorganizada e que sempre deixava o clube sem arrecadar esse montante dos sócios.

 

Foto: Éder Ferrari/Bahia Notícias

 

B.N – O presidente tem dito que vai rever o destrato com o Banco Oportunity. Essa será sua prioridade na vice-presidência jurídica?

Ademir Ismerim -
O destrato com o Oportunity está feito e o que falta é adequá-lo para que o Bahia possa se livrar efetivamente dessa dívida. O presidente definindo que isso é uma prioridade, colocaremos nosso esforço nisso.

B.N – O que o senhor acha do grupo de oposição Revolução Tricolor?

Ademir Ismerim -
O problema da Revolução Tricolor é que ela está querendo negociar o que já está negociado. O acordo já foi feito com a Bamor e a Povão e eu espero que eles não queiram ser o pai da criança. Porque nós fizemos uma invasão e fomos lá nos submeter à chuva e aos mosquitos do Fazendão, enquanto o movimento deles, que é um movimento e não uma torcida, que fique bem claro a diferença, e eu acho que tem a colaborar com o Bahia. Eu penso o seguinte: na minha vida, quando eu faço um julgamento contra colegas meus, amigos meus, trato bem antes, trato bem depois, mas durante o julgamento eu quero destrui-lo. Porque se eu não fizer isso, ele irá fazer comigo, certo? Não tem meio termo, é uma luta, uma esgrima, quem vacilar vai receber uma espada no peito. Então temos que tratar a oposição como oposição, porque a melhor técnica política é cooptar, e se você não conseguir cooptar, tem que tratar como adversários, até porque não está se tratando da torcida e sim de movimentos de oposição, e isso é completamente diferente. Eu acho que eles se confundiram, porque, inclusive, senão me falha a memória, eles tiveram uma reunião com a antiga diretoria dizendo que queriam ajudar o Bahia e que não teriam nenhum envolvimento político. Mas eu soube, inclusive, que já havia sido montada uma diretoria caso a oposição ganhasse na qual eles fariam parte e excluiria o nosso grupo, a Bamor e a Povão. Então, na verdade, eles queriam usar as torcidas para participar de passeatas, para ir pra rua como massa de manobra e o pessoal não aceita isso. Nós temos pessoas da torcida que pensam e têm discernimento como Cristóvão e Julius, vice-presidentes da Bamor, pessoas que estão ai na militância a muito tempo e, agora, encontraram em nós talvez uma canalização para que as coisas acontecessem. Porque eles ficavam na arquibancada meio desorganizados e, principalmente, com a diretoria anterior que praticamente expulsou as torcidas do Fazendão.

B.N – O senhor não acha que falta união da situação com a oposição e, até mesmo, entre os próprios grupos de oposição?

Ademir Ismerim - Nós avançamos em termos de união, mas não podemos querer ou imaginar que vamos conseguir 100%, que todos vão se unir em torno de Marcelinho. Oposição tem que sempre existir, até mesmo pra fiscalizar e é bom que tenha. A questão da unidade da oposição é muito complicada, cada um tem seu candidato. Por exemplo, na última eleição tiveram oito candidatos, sendo cinco de um grupo só, e isso não existe, eles têm que se definir, tem que ter identidade. Por exemplo, se a oposição participasse da eleição corretamente teria tido 50, 60 votos e sairia de lá com representatividade pra poder cobrar. A ação para cancelar a eleição foi um tiro no pé porque se eles tivessem sucesso, de acordo com o artigo 70 do estatuto do clube o presidente continuaria sendo Petrônio até que tivesse eleição. E se fosse colocado um interventor, o que aconteceria: ele começaria a montar o time, contratar treinador, ai um mês depois cassavam a liminar que colocava o interventor e entraria uma nova diretoria, que poderia dizer “não quero esse pessoal aqui” e mandava todo mundo embora tendo que fazer nossas contratações fora da época de mercado e o Bahia não iria se organizar nunca. Porque, inclusive, não pode uma juíza decidir o futuro do Bahia. O poder constituído do clube hoje é o Conselho. Quer queira quer não, é poder legal. Enquanto existir lei tem que respeitar a lei. Agora, a intervenção era um mergulho na ditadura. Um interventor mandando no clube e uma juíza decidindo o destino, e eu nem sei se ela é Bahia, foi até minha colega de faculdade, mas não sei. Eu acho que a oposição tem que ter unidade, a partir do momento que um mesmo grupo coloca cinco candidatos, é uma prova que não existe seriedade.

B.N – O que o senhor achou do retorno de Newton Mota as divisões de base do Bahia?

Ademir Ismerim -
Veja bem, Newton Mota me parece que é uma engenharia ligada a Paulo Carneiro e a gente tem que respeitar. Se foi entregue o departamento de futebol a Paulo Carneiro, então ele tem que ter carta branca como está tendo. Eu sempre acredito na recuperação das pessoas. Agora, o Bahia não será o mesmo que era. Se o Newton Mota quiser tirar jogadores da base como fez das outras vezes não conseguirá, porque os contratos estão feitos e amarrados de tal maneira, que ninguém vai tirar mais jogadores das divisões de base do Bahia sem que a diretoria permita.

B.N – O senhor participou da elaboração desses contratos?

Ademir Ismerim -
Eu não participei da elaboração porque eu ainda não estava lá, mas conversei com as pessoas, dei sugestões, fiquei sabendo dos detalhes. Os contratos foram amarrados com as empresas deles, e agora nós vamos amarrar os contratos com os jogadores e com seus familiares de tal forma que isso não se repetirá. O Bahia não é mais o mesmo que estava ai nesses últimos anos.

B.N – O senhor acredita que com essas mudanças o Bahia volte a ser o que era?

Ademir Ismerim -
O futebol mudou muito. Do Bahia de 1988 pra cá praticamente tudo é diferente. A profissionalização chegou com força. Os salários dos jogadores aumentaram muito. Para você ter uma idéia, senão me engano, o salário de Bobô na época era de cinco salários mínimos, que hoje seria dois mil e poucos reais. Hoje, com os pontos corridos, é muito difícil sermos campeões novamente a curto prazo. O exemplo é como o São Paulo está atingindo uma hegemonia, talvez a gente chegue um dia a esse nível. Mas eu acho que, a principio, podemos disputar o Campeonato Baiano em pé de igualdade com o Vitória, podemos ir bem na Copa do Brasil e, caso, se tudo acorrer como o planejado, e voltarmos para a primeira divisão em 2010, estarmos estruturados para buscar uma Liberdades, ou, no mínimo, uma Sul-Americana. Eu tenho muita esperança nessa nova forma de trabalho principalmente por causa de Paulo Carneiro. Ele está deslumbrado, no bom sentido, com o projeto do clube e essa vontade dele está entusiasmando a todos, inclusive a mim. Prometer títulos é complicado, mas tenha certeza que deixaremos pelo menos o clube encaminhado para isso.