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Entrevistas

Entrevista

Mário Silva

Mário Silva

Foto: Maurício Naiberg/BN


Por Maurício Naiberg


Bahia Notícias - Mário, você está no clube há 39 anos. Como foi o início de sua história?

Mário Silva - Eu entrei como boy, convidado por Dílson Schindler, diretor financeiro. Ele era amigo de uma vizinha nossa. Eu era muito novo, mas insisti que queria trabalhar. Passei por diversas funções. O Vitória na época tinha um departamento social. Trabalhei muito aqui na área de contabilidade e depois me tornei gerente administrativo.

 



BN - Qual era a sensação de trabalhar no clube que você torce?

MS - Era coisa nova. Primeiro eu era criança, muito novo . Era o lúdico. Meu padrinho era Vitória apaixonado e falava muito no clube, mas eu não era muito envolvido no futebol. Como meu padrinho participava muito e me levava para os locais e eu criei a vontade de juntar as duas coisas. Mas você não pode mensurar para uma criança o que é essa sensação.

 



BN - Como foi sua trajetória até chegar ao cargo de Supervisor?

MS - Comecei como boy, depois auxiliar de escritório, encarregado de setor social, auxiliar de contabilidade no clube e fiquei como chefe de escritório por muito tempo. O Vitória tinha um tamanho menor e não tinha muito coisa, mas tinha um departamento social, tinha sede de praia. A partir daí, o Vitória começou a se profissionalizar. A dividir setores. Se criou alguns cargos independentes e eu me tornei gerente administrativo, com a saída do superintendente Divalmiro, responsável por todo o setor de contabilidade. No final de 77, na transição de José Rocha para Ademar Lemos, Nilton Sampaio era o vice-presidente financeiro, sabia que eu tinha conhecimento no futebol e gostava muito da parte operacional, me convidou, eu tava muito jovem ainda e Supervisor era uma pessoa que tinha que ser experiente, o clube trazia pessoas de fora e se pagava muito, pois aqui não se formava supervisor. Então iniciei na função e estou aqui até agora. 

 



BN - Quais as principais responsabilidades de um Supervisor de Futebol?

M
S - O Supervisor tem muito a ver com a logística do clube, toda ordem e funcionamento no que diz respeito a futebol profissional. Da rouparia as viagens, concentração, suporte a treinador, assessoria de imprensa, auxílio ao diretor de futebol e ao vice de futebol quando exista a função, transporte, alimentação, tudo que diz respeito a organização do futebol.

 



BN - Você tem total liberdade como Supervisor, em relação às dispensas, contratações e planejamento do futebol?

MS - Não. Eu participo do planejamento. Hoje, acumulando assim temporariamente, eu ajudo nas contratações, na observação, fazendo controle das observações, mas eu não tenho autonomia para contratar. Ultimamente a gente tem colaborado no objetivo de ajudar, no conhecimento. Mas a função do supervisor, na realidade, tem muito mais a ver com o suporte, o apoio do futebol em si. A responsabilidade fica por conta dos controles de contratos, de cartões, nas concentrações, na elaboração de treinamento, atividades, pré-temporada. Com relação a contratação não existe, pois não é atribuição do supervisor contratar.

 



BN - Você acha que contratar um diretor de futebol seria bom para o clube, para que Jorge Sampaio e você não acumulem funções?

MS - Eu não analiso essa parte, porque isso tem muito a ver com que os diretores do clube pensam. Eu na realidade faço a minha função. Fui convidado pela presidência para colaborar, ajudar, pelo meu tempo de clube, experiência e conhecimento. Mas está muito mais na diretoria saber se é necessário ou um vice-presidente de futebol ou um diretor.

 



BN - O ex-presidente deixou muitas dívidas no clube? Como saná-las?

MS - O clube já iniciou uma reengenharia. Como toda empresa, ou toda crise, como a gente chama, como toda mudança gera uma pequena crise. Com a saída do ex-presidente Paulo Carneiro, o Vitória precisou fazer uma reengenharia, demitir funcionários. Hoje o Vitória tem um tamanho, a nível de funcionamento, de funcionários menor do que tinha. A quantidade de pessoal hoje é menor. A parte de dívidas que o Vitória tem, está muito com a diretoria financeira. Eu na realidade não posso falar de que forma pode ser feito isso. Agora, o clube já iniciou essa reengenharia, com política diferente, claro que não deixando de lado na formação de atletas, categorias de base.

 



BN - Como era o seu relacionamento com Paulo Carneiro?

MS - Normal. Aprendi muito com ele, pois praticamente começamos juntos no futebol. Ele era diretor de futebol, depois se tornou vice-presidente, depois presidente, sempre tivemos uma relação muito boa, de respeito, tenho por ele um carinho grande como pessoa e a gratidão, como torcedor, por tudo que ele fez pelo Vitória.

 



BN - Qual sua opinião sobre o reclame de R$ 10 milhões do ex-presidente ao clube?

MS - Jamais eu vou tratar desse assunto, porque não me diz respeito. É uma coisa que está a nível da diretoria, eu não tenho nenhum problema com ele, nunca tive. Minha relação com Paulo sempre foi profissional e eu respeito muito ele. Eu desconheço o processo nas suas minúcias, por isso não posso achar justo, nem injusto. Isso está muito mais a nível de direção, do conselho para avaliar. Eu na realidade sou empregado do clube e na minha função não me cabe tecer comentários quanto a valores, se é justo, se não é. Eu acho que ele está buscando que ele acha que é real e o clube está provando que isso não é real. Mas é um assunto que não gostaria de me estender.

 



BN - Em sua opinião, Paulo Carneiro destruiu tudo que construiu no clube, caindo para Série C?

MS - Eu acho que o que ele fez é muito grande para destruir, até porque nós utilizamos esse “tudo” que ele fez para ascensão do clube. É claro que você precisa repensar, mas ele deixou um patrimônio enorme a nível de estrutura do clube, do tamanho que ele deu, principalmente a visibilidade no Brasil e no mundo. A nível de reconhecimento o Vitória tem respeito pela mídia brasileira, o Vitória é conhecido fora do país, muito pela forma dinâmica dele. 

 



BN - Você é o único funcionário do clube a receber a “Comenda Arthêmio Valente”. O que você sentiu quando soube da homenagem?


MS - O Vitória só me deu alegrias. Até nos momentos mais sofridos do Vitória, eu nunca imaginei momentos ruins. Fazer o que você gosta, no local que você ama, não tem prêmio maior. Receber o reconhecimento de muitos, como foi o caso da “Comenda Arthêmio Valente”, que ela tem muito a ver com pessoas importantes no clube, eu fico gratificado. Acho que foi uma forma de reconhecer a forma leal, sincera e digna que sempre busquei para o Vitória, buscando sempre o melhor para o clube. Mas sempre separei meu lado torcedor do lado profissional. Quando você mistura seu lado torcedor com seu lado profissional, você pode se atrapalhar, agindo muito na emoção. A minha relação está no momento de dar um pouco mais, de fazer o melhor, de estudar mais, sair na frente, criar as melhores condições pro clube. O meu lado torcedor tem que estar no momento de decidir, de tomar atitudes.

 



BN - Por falar em Série C, qual o relato daquele ano de 2006? Quais as principais dificuldades do clube?

MS - A Série C pro Vitória foi um sofrimento. Eu jamais imaginei que o Vitória pudesse disputar uma Série C. Mas, como tudo na vida pode acontecer, não existe a palavra nunca, eu acho que o Vitória tem que fazer da Série C um grande exemplo pra jamais permitir que o clube volte a disputá-la. Quem se organiza como o Vitória tem se organizado, não vai passar pelo momento que passou. Até pela vontade de ser muito grande, o Vitória talvez tenha exacerbado trazendo alguns jogadores. O Vitória trouxe jogadores a nível de Petkovic, Bebeto, Túlio, Agnaldo, jogadores de ponta do Brasil. Edílson, Vampeta, Cleber Santana, Chiquinho e Russo, que haviam sido convocados para a Seleção Brasileira. Isso foi uma forma muito forte e agressiva, e talvez a gente tenha crescido muito rapidamente, queimando etapas para ver o Vitória muito maior. Nós queríamos que o Vitória tivesse muito mais sucesso do que teve. A intenção era a melhor, mas infelizmente algumas coisas aconteceram e isso poderia ocorrer com qualquer clube. Fluminense saiu da Série C, com o tamanho que tinha, com Parreira treinando, mas saiu de uma forma diferente, que não foi no campo. Por isso nó entendemos que a Série C foi um sofrimento bom. Quando estivemos na Série C foi péssimo, mas a saída dela para B nos deixou uma cicatriz positiva. É preciso crescer de forma organizada e colocar o chapéu onde o braço alcança. Isso não é uma crítica, é uma ressalva, porque eu estava no Vitória quando caiu para Série B, C, e a nossa intenção era a melhor possível. Ma tenho certeza que dessa Série A não vamos sair de forma alguma.

 



BN - O Vitória fez um excelente primeiro turno, com chances até de brigar pelo título. O que pode justificar a queda de rendimento de alguns jogadores nesse returno?

MS - O Vitória não tinha intenção de lançar esse ano Willans, não tinha intenção de lançar Marquinhos. Queríamos que eles fizessem parte do grupo. Alguns jogadores não tiveram o desempenho que esperávamos e outros tiveram além da expectativa. Acho que o Vitória, um time jovem, novo, com um investimento menor, no campeonato de grandes clubes, cresceu muito rapidamente. Tínhamos uma equipe de muita qualidade e quando perdemos a nossa referência de velocidade, que era o Dinei, e a falta de estrutura do Marquinhos, que já era previsto, tornou o Vitória previsível e os adversários passaram a estudar o time. Quando nós estávamos disputando o Baiano, os torcedores falavam: “Meu deus, precisamos de um time pra não cair”. Depois começamos a pensar no título e hoje estamos garantidos na Sul-Americana. Poderia ser melhor, não que isso faça com que nós estejamos descontentes com o trabalho, precisamos melhorar, mas infelizmente futebol é jogo. Do mesmo jeito que você pensa em melhorar, o adversário também pensa. Nós estávamos retornando para Série A, uma coisa muito nova para todos nós, então, estar em uma Sul-Americana, nos interessa. Mas, ter estado como vice-líder foi uma casualidade. Nós queríamos muito, tentamos, mas não tínhamos recursos e nem material humano para brigar com as grandes forças.

 



BN - Vimos nesse ano várias denúncias de jogadores que caíram na farra. Como supervisor, não temeu que a responsabilidade caísse em cima você?

MS - Não. Eu não acompanho os jogadores quando eles saem do clube. Em momento nenhum, nem Supervisor, nem diretor, nem presidente, nem treinador vai ter nenhum tipo de responsabilidade quando o atleta é irresponsável. Quando você detecta que um atleta chega embriagado para treinar, ele não está tendo rendimento normal, o que você faz? Você pune ele, multando, afastando ou rescindindo contrato. Quando você consegue detectar que você o mantém no plantel, você é relapso. Não é em uma denúncia que isso vai acontecer. Falar “Eu vi, mas não tem foto, não tem comprovação”, denúncia é denúncia. Não temos nenhum fato comprovado com foto, gravação, então eu não posso punir o jogador por isso. Eu durmo na minha casa com minha família, não posso dormir cada noite com um atleta. Beber todos bebem. Em uma cidade como Salvador, com as opções noturnas que tem a cidade, com um plantel de 60% a 70% de solteiros, geralmente todos descansam sábado e domingo. Esses são os dias que o atleta fica preso. O jogador entra na concentração sexta-feira, sai domingo, e se jogar quarta e domingo, viaja na terça, retorna na quinta. Você tem que dar folga na sexta, porque a lei não permite, pois é ilegal. O atleta, se tomar uma cerveja no momento bom, o torcedor o cumprimenta. No momento de dificuldade, que o atleta tem o mesmo desejo, resolva sair pra jantar, tome uma cerveja, ela vira 50 cervejas. O papel do jornalista é denunciar. E a nossa é policiar. Nós colocamos pessoas para tentar comprovar algumas saídas, algumas denúncias, e não conseguimos comprovação. Teve um caso de um atleta no passado, que foi pego e filmado em uma festa em Salvador, e nós punimos ele. Estou dizendo isso pra você agora. Houve exposição da imagem do atleta, mas o clube em momento nenhum o expôs, e punimos ele, com a perda do seu salário. Mas o clube não pode ser punido quando afasta o atleta deixando de beneficiar o clube. Tem que punir de forma dura, mas que não prejudique o clube. Todos os clubes tem jovens que cometem excessos. Quando buscamos a contratação investigamos muito isso, mas podemos nos enganar.

 



BN - Pelo acesso nos últimos dois anos, a Copa Sul-Americana está de bom tamanho ou o time poderia ter conseguido mais?

MS - Poderíamos ter conseguido mais. Como falei anteriormente, todos esses fatores que enumerei, um time muito jovem, sem muita experiência de alguns jogadores que nunca tinham jogado um Campeonato Brasileiro. Por exemplo, Marcelo Cordeiro. Nós apostamos nele e o jogador foi uma grata surpresa. Teve Marquinhos, que machucou muito durante o ano. Teve problemas de ordem particular na família. Ele é de origem muito humilde, precisa muito do carinho das pessoas, da compreensão. O crítico desconhece a situação do garoto. Marquinhos há um ano não tinha um tênis, tinha dificuldades até pra se vestir e o clube o ajudou e ele fez muito por onde. A gente tem que entender que trazemos os garotos, formamos e tudo, colocamos para estudar, mas você não consegue educar em um ano, dois, nem dá uma formação adulta a um atleta. Marquinhos hoje é seleção, foi indicado para revelação do campeonato, muitos clubes do Brasil e do exterior tem vontade de contratá-lo. Temos o Willans, Anderson Martins, Wallace, Victor Ramos. O Vitória está no caminho certo, tem um grupo muito bom e vai aproveitar esse ano de 2009 alguns jogadores que tiveram nas divisões de base do clube. Marcone, Anderson Souza, que pode ser aproveitado, Elton, Itacaré, que pode voltar, e é um jogador que a gente tem que observar se vamos aproveitar ou não, Stefan. Temos muitos jogadores que foram formados na base e entendemos que alguns deles serão vistos agora no início do ano que vem.

 



BN - O Vitória tinha uma das melhores divisões de base do mundo, campeã de grande torneios internacionais como a Phillips Cup e Copa Nike. O que é preciso ser feito para recuperar o velho padrão de revelação de novos valores?

MS - O Vitória mantém o padrão. O Vitória se tornou mais um que tem o padrão. Todos os clubes no Brasil tem divisão de base. Se você for em Alagoas, tem vinte clubes que tem divisão de base. O Vitória trouxe uma novidade e os outros clubes acompanharam. Só que o custo disso é muito grande. Você não tem patrocinadores que apóiem. Nesses últimos dois anos o investimento teve que ser menor nas competições de fora. Mas internamente, a nível de formação, professores, reconstruímos a nossa concentração das divisões de base, gastando mais de R$ 250 mil reais, e mantemos o trabalho de formação. Agora o prestígio mundial o Vitória vai recuperar assim que puder estar em todas as competições fora do país. Mas mantém o mesmo padrão da gestão anterior.

 



BN - Você acha que a torcida do Vitória poderia ser mais ativa no clube, vindo mais aos jogos, participando de forma mais incisiva nas decisões da diretoria?

MS - Já melhorou muito desde a Série B. A relação do torcedor, hoje, é muito melhor do que era. O clube está tentando fazer um trabalho, parecido com o desenvolvido pelo São Paulo, com jovens torcedores. Isso é uma coisa nova. O Vitória sabe que o torcedor tem que ser conquistado e vai continuar fazendo ações de reconquista do seu torcedor. O torcedor do Vitória voltou a ser fiel, mas tem algumas dificuldades ainda, como distância do estádio, transporte e os problemas que o clube viveu nos últimos dois anos, isso feriu muito o torcedor. Nós precisávamos ter um time regular para que o torcedor voltasse ao estádio.

 



BN - Monte um time dos sonhos com jogadores que foram revelados com a camisa rubro-negra?

MS - É difícil. Eu não gostaria de mencionar meu time dos sonhos porque eu poderia ser injusto com algumas pessoas. Eu acho que o Vitória teve grandes jogadores como Osni, Mário Sérgio, André, Petkovic, Bebeto, Agnaldo. Jogadores como Rodrigo, que hoje é funcionário treinando nas categorias de base, Vampeta, Alex Alves, então eu poderia cometer alguma injustiça, preterindo nosso atleta e se eu colocasse um time só de jogadores revelados no clube eu seria injusto com alguns outros. Eu prefiro que o torcedor tenha o time dos sonhos dele.

 



BN - Para finalizar. Você é muito querido por todos dentro do clube, por causa da sua história de amor ao Vitória. A presidência seria a realização de um sonho?

MS - Não, de forma alguma. Eu não pretendo, mesmo que eu trabalhe por mais cem anos. Eu não me vejo presidente do Vitória. Eu tinha um sonho e vou chegar a gerente de futebol do Vitória. Mas nunca disse “Quero ser presidente do Vitória”, eu acho que você não precisa dar limites aos seus sonhos. Eu não limito os meus sonhos. Eu não tenho ambição. Tenho metas e objetivos. A ambição tem muito a ver com ganância e acho que posso fazer um trabalho muito melhor na área de operação ou suporte. Não é o que eu quero. Pelo menos até aqui nunca me vi presidente do Vitória, eu nunca me vi vice-presidente de futebol do Vitória. Na gerência eu me sinto muito bem. Talvez como presidente eu não consiga ter o mesmo sucesso. Não que eu não me ache capaz, mas é preciso ter representatividade, ter tempo, é preciso ter muito conhecimento no futebol dentro e fora do país, então eu não me vejo com essas características de ser o presidente do Vitória. Pode até acontecer daqui a dez, vinte anos, mas eu não tenho esse sonho e nunca pensei nisso.