Em visita a Salvador, Zico fala sobre parceria com escolinha e a situação atual do futebol
Em visita a Arena Golaço, escola de futebol localizada em Lauro de Freitas e única do Nordeste que faz parte do projeto Zico 10, o ex-jogador Zico conheceu o espaço coordenado pelo ex-jogador Jean Narde e conversou com o Bahia Notícias sobre o projeto, além de falar sobre o atual momento do futebol nacional e internacional. Dentre os assuntos, a nova gestão da Fifa e o período em que vive a Seleção Brasileira foram os destaques da entrevista com o Galinho de Quintino.
Como se iniciou essa parceria entre Arena Golaço e a Zico 10?
Tudo se iniciou com o relacionamento entre Jean Narde e o meu filho (Bruno de Sá Coimbra), porque eram vizinhos de apartamento e tinham uma boa amizade. Quando ele veio para cá, conversou com o Bruno e se deu a parceria. Quando encaminhei o projeto Zico 10, antes era o Centro de Futebol Zico, em 1995, onde o intuito era suprir a região onde morei, na Barra da Tijuca, onde muitos campos de futebol foram extirpados pela comunidade por conta da construção de condomínios, casas e empreendimentos. A criançada ficou sem ter lugar onde jogar futebol e criei com a finalidade de que a criançada pudesse jogar futebol em um local de verdade. Hoje temos escolas pelo Brasil inteiro, e para você ter uma ideia já tivemos 60 mil crianças no Brasil inteiro. Hoje diminuiu bastante, mas por exemplo, só no Pará temos 3 mil crianças fazendo futebol. E com as franquias aparecendo eu sempre coloquei para os meus parceiros que não teria como colocar o Espaço Zico em lugares que não pudesse estar presente. E o Jean foi um cara que conheci há bastante tempo, desde que fui para a Rússia e quando ele me falou que vinha para a Bahia nós criamos essa parceria e falei pra ele que quando tivesse uma folga estaria aqui presente, para ver o trabalho com as crianças e passar uma tarde juntos. É sempre importante a gente estar perto e ver o trabalho acontecendo, senão não teria sentido criar uma coisa e não poder estar presente. Aqui não estamos querendo formar um jogador de futebol ou agenciar ninguém, e sim um lugar onde a criança tenha prazer de jogar futebol e se educar.
Você conversou, na abertura do evento, sobre o diferencial da Arena Golaço em relação a metodologia aplicada aqui. Como funciona esse método?
É a metodologia da formação do cidadão. Em que se traga aprendizado para as crianças pelo futebol, em qualquer setor da vida. Porque o futebol é um dos poucos esportes que você mexe com tudo. Além do biótipo, tem também a dinâmica das regras, disciplina, regras de convivência, trabalho em equipe, dedicação. Tudo isso se leva para qualquer lugar que você for trabalhar no futuro, pois tudo isso é necessário. Aqui, você não se decepciona, pois o cara vem aqui e não quer ser jogador profissional, o pai pode colocar como uma atividade lúdica e saudável. A metodologia é essa, em que a criança não se decepciona e se não quiser ser jogador de futebol leva isso para a vida.

Jean Narde e Zico durante evento na Arena Golaço, em Lauro de Freitas | Foto: Renata Farias/Bahia Notícias
Falando agora de um assunto de relevância global. Você foi candidato a presidência da Fifa, mas acabou não conseguindo ter a candidatura aprovada. O que acha da recente mudança que aconteceu, com o Infantino sendo o novo presidente?
Acho que de todos, foi o melhor que aconteceu. É uma pessoa alheia aqueles vícios que estamos acostumados a ver. Pessoas que passaram por ali, tiveram a oportunidade de fazer alguma coisa e aceitaram o sistema. O Infantino estava trabalhando em uma entidade, na sombra, sem aparecer, mas no melhor trabalho que se faz sobre futebol no mundo. A Uefa deu uma guinada no futebol da Europa e deu exemplo. Então eu acho que ele tem a possibilidade de mostrar isso pro mundo agora. Não pode ficar só na Europa. Ele deu entrevistas antes da eleição que demonstravam interesse de causa em tudo. Que caiu no colo dele, caiu, porque era do Platini essa eleição. Mas ele já dava suporte em termos de estrutura e tudo isso. Então, eu acho que até fiquei feliz por essa vitória pelo que acompanhei de perto e vi de perto pelo que participei na Uefa. Achei uma pena o Platini não ter tido a oportunidade pois o trabalho dele é de tirar o chapéu.
E você ainda pensa em tentar uma nova candidatura para a Fifa?
Não, não. Aquilo foi um momento de querer dar uma contribuição nesse sentido. Ser uma pessoa de fora, sem vício, sem esquema. Mas já sabia que o que aconteceu e o que poderia acontecer era uma possibilidade maior de eu mesmo não conseguir. Presenciei muito de pessoas próximas a mim, pessoas que pude confirmar dizer ‘tamos junto e tal’ e chegar na hora e mudarem de opinião porque eu não tinha o que oferecer. Às vezes eu falava, elogiavam meu projeto, mas havia um silêncio que parecia esperar que eu oferecesse alguma coisa. E eu não tinha nada o que oferecer. Você acredita naquilo que a gente está passando ou não acredita. Esse pessoal que assumiu tá comprometido, e tem por trás uma entidade poderosa como a Uefa.
E em relação ao recente cenário nacional, como você vê o recente movimento dos clubes para a formação de ligas e maiores contratos de TV?
Isso é uma situação que mostra que não se precisa mais de intermediários para realizar o futebol. Não existe mais utilidade das federações. Os clubes tem que organizar as ligas, os campeonatos e a CBF carimbe e se utilize apenas da Seleção Brasileira.

Foto: Renata Farias/Bahia Notícias
E sobre a Seleção Brasileira? O que acha do atual momento da equipe?
A Seleção tem ótimos jogadores e tem todas as condições de uma classificação para a Copa. Mas me preocupa o psicológico da equipe em relação a adversidade. Eles tem uma dificuldade de se adaptar as adversidades e o maior exemplo disso é o Neymar. Não se pode ter um jogador que já está metade dos jogos já realizados das Eliminatórias sem jogar por estar suspenso. E porque isso? Na Europa os jogadores adversários não irritam ele, não forçam para irrita-lo. Aqui, os atletas fazem de tudo principalmente com o melhor jogador. Você tem ter uma frieza muito grande. Nunca esqueço que o Carpegiani, que jogava comigo, tinha uma frieza muito grande e falava pra mim ‘os caras sempre vão te tirar do sério. Se te derem um tapa, vire o rosto e deixe ele bater de novo e mete gol neles, que aí eles vão ficar irritados de verdade’. Isso que o Neymar tem que fazer, com cabeça fria pra não revidar. Além do que, se ele entrar na onda, os outros vão também porque ele é um líder na Seleção e tem que estar atento para isso. Não ficar de fora também, porque ele faz a diferença. Esse estado emocional complica, como foi na Copa passada e na Copa América. Não pode desesperar. Empatar com o Uruguai e a Argentina tudo bem, porque o empate com equipes parelhas é normal, mas para o resto tem que ganhar, porque o Brasil tem equipes melhores que muitas que estão aí disputando.
