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Entrevistas

Entrevista

Alexi Portela

Alexi Portela
Por Éder Ferrari

Foto: Éder Ferrari/BahiaNoticias


B.N - Sabemos que hoje o Vitória possui dois presidentes. O senhor poderia nos explicar como funciona o comando dentro do clube?

Alexi Portela - Na realidade, existe o Esporte Clube Vitória e o Vitória S.A. O S.A é formado por 50.01% do Exel Grupo e 49.9% do E.C.Vitória, que já recomprou essas ações do Exel, mas ainda está devendo, falta pagar a metade. Quando terminar de comprar tudo, o Clube será dono sozinho do Vitória S.A e vamos acabar com ele. Vamos ficar apenas com o Esporte Clube Vitória, o qual eu sou presidente. Jorginho Sampaio é o presidente do Vitória S.A que na realidade é o futebol. O profissional e a divisão de base. E no restante da nossa agremiação, eu sou o presidente. Mas nossa gestão é feita toda a “quatro mãos”. A diferença é que ele é remunerado e trabalha exclusivamente para o Vitória. Eu não. Eu não recebo nada e nem a diretoria do Esporte Clube Vitória. Nós temos diretor de patrimônio, vice-administrativo financeiro, entre outros, ninguém é remunerado, apenas quem faz parte do Vitória S.A, que são dois: Jorginho, como presidente e o Zé Perdizes, como vice-presidente administrativo financeiro. Mas, quando houver a fusão e o Esporte Clube Vitória voltar a ser dono de tudo isso vai deixar de existir.

B.N – Qual era a real situação do clube quando o senhor assumiu?

Alexi Portela - Primeiro, fui presidente do Vitória S.A por seis meses. Ademir Lemos era o presidente do clube. E mesmo tendo um cargo que era remunerado eu nunca recebi nada. Fiquei esses seis meses até convidar Jorginho Sampaio para assumir o posto. Eu não poderia ficar a disposição “full time” digamos assim, porque tem minhas empresas, tenho meus negócios. Nós encontramos uma situação totalmente adversa. Eram quatro meses de salários atrasados para todos os funcionários, sejam eles, cozinheiro, copeiro ou atletas profissionais. O Vitória não tinha credibilidade, nenhum jogador queria vim jogar no clube. Realmente estava uma situação muito difícil. E graças a Deus, nesses dois anos e meio, praticamente, entramos em setembro de 2005, conseguimos mais ou menos equacionar isso. Não é que eu esteja dizendo que o clube está as mil maravilhas. Muito pelo contrário. Esse ano é um dos anos mais difíceis do clube. A Série “A” é complicada. Você precisa ter um orçamento e pés no chão para não acontecer o que aconteceu há 3, 4 anos quando caímos para “C”. Temos que ter prudência. Se você pesquisar vai ver que nós temos várias confissões de dívidas daquela época, várias ações e que nós estamos tentando resolver e deixar a situação equilibrada para, a partir de, 2009, 2010 não dever nada a ninguém.

B.N – Falando em dívidas deixadas pela antiga diretoria, como anda o processo contra o ex-presidente Paulo Carneiro?

Alexi Portela - Isso ai está entregue ao nosso departamento jurídico. Ele já recorreu e perdeu na segunda instância e isso aí eu prefiro não comentar, assim como a ação que nós temos contra ele. Está entregue a justiça e creio que ela vai resolver da forma correta, como deve ser.

B.N – A que se deve a saída do ex-diretor de futebol Renato Brás?

Alexi Portela - Renatinho é uma pessoa muito correta, muito querida, nós só temos que agradecer ao tempo que ele ficou conosco dentro do clube. Mas, todos os assuntos, na realidade, tratados pelo clube no futebol. “Ah o diretor de futebol”. Todos os assuntos são tratados por mim e por Jorginho. Eu converso com Vágner Mancini pelo menos duas, três vezes na semana, certo. Tem o dia-a-dia do clube. Mário Silva que é um funcionário antigo do Vitória tem total competência para tocar isso para frente. Repare que todas as reuniões importantes - não estou dizendo que Renatinho não foi importante, muito pelo contrário - mas toda reunião, como Jorginho vive o dia-a-dia no clube, tem condições de conduzir isso, comigo ajudando. Na verdade, o Vitória tem dois presidentes que tocam tudo dentro do clube. Jorginho assiste todos os treinos, todos os coletivos, sabe as necessidades dos jogadores.

B.N – Então, o presidente Jorge Sampaio é o real diretor de futebol?

Alexi Portela - Praticamente ele seria o diretor de futebol, entendeu? Com o apoio de Mário nas outras coisas. Por exemplo, nas renovações de contrato, Renatinho apenas iniciava as conversas, mas na hora de bater o martelo era eu ou Jorginho. Então, o Vitória está sendo tocado assim desde a Série “C”, não é de agora. Então eu não vejo e não entendo essa sangria desatada pela saída de Renatinho. Apenas não havia necessidade de manter esse cargo em si e não pela presença dele. Você repare que futebol é uma coisa interessante. No futebol, sempre uma ou duas pessoas que coordenam. E aqui no Vitória são dois, acho que é o suficiente.

B.N – Como é a relação do senhor com Jorginho Sampaio?

Alexi Portela - Jorginho, na realidade, alguns conselheiros que me indicaram, porque naquela época, na Série “C”, nós não subiríamos, porque eu não tinha como me dedicar integralmente ao clube. E disse: “nós temos que procurar uma pessoa para assumir o Vitória, que tenha condições de ser funcionário remunerado do clube e dá tempo integral”. Nós convidamos e Jorginho aceitou, mas com uma condição: que eu ficasse do lado dele para a gente tocar junto. E eu topei. Não o conhecia muito, só conhecia de vista mesmo, não tinha nenhuma aproximação com ele. Hoje, eu tenho uma profunda amizade, um profundo carinho, é uma pessoa que realmente foi de muita valia para o clube, que conseguiu mudar o clube, que está conseguindo êxitos. Subiu da “C” para “A” e foi Bicampeão Baiano em pouco tempo. E eu tenho um excelente relacionamento com ele. Hoje, no Vitória, não existe mais um ditador. Eu posso não concordar com ele em algumas coisas e ele comigo em outras, mas sempre sentamos e buscamos um consenso para descobrir o que é o melhor para o Vitória.

B.N – Um caso que vocês discordaram foi em relação ao atacante Nadson?

Alexi Portela - O caso de Nadson não é que eu fui contra. O que eu não aceitei é que o procurador dele queria atrelar uma dívida antiga, do ex-presidente, como ele, vários outros empresários tem esse tipo de confissão de dívida. Como Joel Zanata, Odegar, André Khury, Guga, todos esses e mais alguns tem confissões de dívidas dadas pelo ex-presidente (Paulo Carneiro). Se você for ver, são milhares de pessoas com esse tipo de problema. E eu não aceitei essa ligação do valor com a vinda de Nadson. A semana que rolou toda a celeuma de Nadson; se vem se vai, eu estava viajando, estava fora a trabalho, quando eu cheguei era segunda-feira. Sentamos eu, José Rocha (presidente do conselho), Jorginho e Guga. E ele me disse “não Alexi, não vamos vincular uma coisa a outra”. Até porque eu não aceitaria pagar uma dívida de 300 mil reais para trazer o jogador. O Vitória não teria como pagar essa dívida à vista. Como não atrelou ficou tudo certo para ele vir para o clube, mas surgiu uma proposta muito boa para ele no Japão e ele foi para lá. Tem certos mitos que as pessoas criam que não condizem com a realidade. Eu e Jorginho nos damos muito bem, levamos o clube a “quatro mãos” e nunca brigamos. É claro que a gente já teve os desentendimentos, mas era em busca de uma solução e não simplesmente brigas para saber quem manda mais, longe disso.

B.N – A notícia de que o senhor colocou uma boa quantia de dinheiro do seu próprio bolso também é um desses mitos?

Alexi Portela - Na realidade, eu ajudei muito o clube, dei muito aval, realmente dei aval ao clube. Porque o Vitória não tem crédito em lugar nenhum, ainda não tem. E para gente tocar, para tornar o clube administrável, realmente eu tive que dar garantia pessoal para o clube poder tomar dinheiro em banco.

B.N – Outra notícia que surgiu é que o Barradão vai fechar para reformas no início do ano que vem. O que o senhor pretende melhorar na estrutura do Manuel Barradas?

Alexi Portela - Isso era bom depois você conversar com nosso diretor de patrimônio, Reinaldo Bonfim, que está à frente do projeto. Até agora nós já fizemos os bancos de reservas. Duplicamos as escadarias que dão acesso; vamos fechar para reformar a tribuna de honra e deixá-la descente para o Vitória; vamos murar todo o terreno da área externa do clube; asfaltar o estacionamento todo; e um prédio ali embaixo na administração, onde iremos fazer em torno de 60 camarotes para poder serem vendidos a conselheiros e a empresas durante um período de cinco anos. Realmente, estamos tentando reformar todo o clube. Graças a Deus, nesse tempo todo que estamos a frente do clube, não demos confissão de dívida a ninguém, sempre fazemos tudo com muito pé no chão. Não estamos empurrando nada com a barriga. Claro que nós temos as dívidas antigas, elas, sim, estamos empurrando com a barriga. As nossas, muita pouca coisa a gente está deixando de saldar. Nós estamos fazendo um planejamento muito sério, com pés no chão. Às vezes a torcida cobra um time forte, mas acho que agora conseguimos formar um grupo forte, dentro das nossas possibilidades, do nosso limite. Temos um orçamento bem menor que um São Paulo, um Palmeiras, então por isso temos que ser inteligentes. Ter critério e formar um time competitivo sem afetar as finanças para poder zerar o clube e não dever mais a ninguém.

B.N – Segundo notícias, um conselheiro do clube, diretor da Petrobras, estaria intermediando com a empresa o patrocínio das obras e que isso estaria atrelado ao uso do Barradão pelo Bahia. O senhor confirma?

Alexi Portela - Nós tivemos uma reunião e depois ele (conselheiro) viajou para Brasília e ainda não nos deu um retorno. Estamos aguardando. Esse assunto hoje no Vitória está parado. Preferimos não nos pronunciar como eu falei na reunião do conselho. Só vamos nos pronunciar quando tivermos uma proposta concreta e por escrito. Porque de conversar de se falar, já se falou muito, discutiu muito e produziu pouco. É como exemplo de jogadores. “Ah eu quero comprar, Bida, Marquinhos, Williams”. Sim meu amigo, faça sua proposta por escrito, porque, de boca, é muito fácil falarem “eu ofereci tanto e ele vendeu depois por menos”. Por isso nós estamos aguardando que essa proposta venha por escrito para ai sim nos pronunciar.

B.N – O Vitória vendeu sua sede de praia por um valor bem inferior ao que ela valeria hoje em razão do PDDU. O Senhor se arrepende do negócio?

Alexi Portela - Na realidade a sede de praia foi vendida por Paulo Carneiro. O dinheiro foi recebido na gestão de Ademar Lemos e foi emprestado ao Vitória S.A, mas será devolvido com o tempo.

B.N – Surpreso com a campanha do Vitória no Brasileirão?

Alexi Portela – Não! Mas, que o time está jogando totalmente diferente do que estava no Campeonato Baiano, isso sim. Com a chegada de Vágner Mancini e uma nova filosofia de trabalho, de tática dentro de campo, o Vitória cresceu muito. Repare como é o futebol. Antes, Anderson Martins era criticado, Williams era vaiado, Ramon estava velho e não prestava. Repare que, como uma mudança de filosofia no futebol pode causar um crescimento tremendo. Confiávamos no grupo. Hoje, Williams, Anderson, Marquinhos estão super valorizados, Ramon é a referência, quando não joga faz falta. Isso fez a diferença. O treinador mudou muito. Eu estou muito satisfeito. Se você me perguntar se eu acho que o Vitória fica entre os quatro, eu não te garanto, mas acredito muito. Porque, repare, nos jogos que nós tivemos muitos desfalques, sempre tinha substitutos quase que a altura, senão, melhores. Isso que me dá confiança e esperança em chegar, pelo menos, entre os times que se classificam para Libertadores. O título é mais difícil, mas quem sabe né?

B.N- Sobre Leandro Dominguez. Ele possui o maior salário do grupo e não vinha nem ficando no banco. Porém, no jogo contra o Grêmio ele foi relacionado. O Senhor interferiu para isso?

Alexi Portela - Não. Foi uma opção do treinador. Antes da partida contra o Atlético-PR os dois tiveram uma conversa muito boa. Cada técnico tem sua opção. Como todo brasileiro eu tenho meu time, você tem o seu e assim por diante. É claro que queria Leandro no time, mas o treinador é quem escala, é quem está no dia-a-dia, quem vê quem está produzindo e tem condições de jogar. Nós fizemos todo o esforço para trazê-lo, pagamos caro para isso, mas em momento algum vamos interferir. Agora, a partir do momento que a gente achar que o atleta tem que jogar e ele não está sendo escalado é melhor tirar o treinador. Até porque nenhum técnico aceita interferência de diretoria nenhuma. E Mancini está provando que é capaz. Ele tem todo crédito. Leandro é um bom jogador? É. Mas não é o único que está sem ser titular. Tem o Héverton, por exemplo, que ano passado foi uma revelação na Ponte Preta, seguiu para o Corinthians e não está sendo aproveitado por Mancini. Portanto, nós temos um grupo forte de jogadores.

B.N – O senhor fala muito em planejamento e pés no chão. Para manter isso intacto, o Vitória terá que vender algum jogador no final da temporada?

Alexi Portela - Com certeza! O orçamento desse ano está em torno de 32 milhões de reais. Mesmo com os valores que nós recebemos de TV, patrocínio, ingressos e outras ações de marketing, teríamos um déficit de 10 a 12 milhões. Nós já diminuímos isso com a venda de Joãozinho, cerca de 600 mil reais, com outras vendas que nós fizemos. Com o dinheiro do atacante Obina que não esperávamos receber agora. Mas, ainda temos uns 5 a 6 milhões de déficit e se não arranjarmos outra solução teremos que vender alguns de nossos jogadores. Não é nossa intenção se desfazer de ninguém. Porém, como todo clube brasileiro isso se torna necessário. Repare que estamos terminando o primeiro turno da Série “A” e a renda liquida do Vitória nesses jogos não chega a 1 milhão de reais. Isso não chega a ser nem 50% do que o clube gasta em um mês, por isso, precisamos de outras rendas

B.N- Presidente, como funciona as parcerias com o Atlético-PR e a empresa TRAFFIC?

Alexi Portela - A parceria com o Atlético-PR foi muito boa para Vitória. Você repare que vieram quatro jogadores (Dinei, Rodrigão, Viafara e Carlos Alberto) de lá para gente e não mandamos ainda ninguém para lá. Então, está sendo muito boa. Nós estamos devendo. Eu acho que o Vitória tem obrigação de enviar jogadores para o Atlético, não sei se agora ou no futuro, porque eles foram muito corretos com a gente. Isso a gente precisa rever porque fica chato. Tem que ser de mão dupla. Você não pode apenas se beneficiar e não dá nenhum retorno. Com relação à TRAFFIC, não tem nada fechado! Nós procuramos eles há uns três, quatro meses. Os valores que eles colocaram foram irrisórios no. Aí, eles vieram aqui depois e aumentaram os valores, só que não fechou nada. Nós estamos discutindo, nossos jogadores se valorizaram em relação a aquela época. Marquinhos, Williams, Anderson Martins, todos eles e outros do grupo valorizaram. Então, nós só vamos fazer realmente essa parceria se for muito boa para o Vitória. Estamos bem sem a TRAFFIC até hoje, acho que dá para ficar mais um tempo sem ela.

B.N – Eles queriam atrelar porcentagem dos passes desses jogadores nas negociações?

Alexi Portela - Eles queriam que ano que vem alguns jogadores fossem para o Palmeiras. Mas nós não fechamos nada. Como eu já falei, nossos atletas estão muito mais valorizados e só sairão daqui pelo preço que acharmos justo para o clube.

B.N – A história do senhor no clube tem sido vitoriosa. Mas, qual sua maior decepção a frente do Leão da Barra?

Alexi Portela - Fiquei muito triste quando perdi o Campeonato Baiano de 2006 para o Colo Colo. Realmente, aquela perda, com a gente disparado na frente, foi uma decepção muito grande para mim. Mas, isso faz parte do futebol, a gente não pode ganhar todas. O grande problema foi a forma como perdemos. Nos dois jogos finais colocamos 2x0 e deixamos virar. Você repare que o Flamengo estava na liderança do Brasileiro disparado e hoje nem está no G4. Coisas do futebol. Eu só tenho a agradecer ao conselho o apoio que ele tem me dado. A credibilidade com a torcida e com todo mundo no clube. Mas como eu sempre digo, se um dia aparecer algum Rubro-Negro que achar que pode fazer melhor do que eu, meu lugar está à disposição. Não tenho interesse nenhum em prejudicar o clube, achando que ninguém faz melhor do que eu. Estou aqui apenas para colaborar, ajudar. Aparecendo, eu saio sem problema nenhum porque estarei tranqüilo quanto ao futuro do clube.

B.N – Então o senhor já está preparando sua saída da presidência do Vitória?

Alexi Portela - Meu mandato é de três anos e acaba em dezembro de 2010. E eu não pretendo esticar mais depois disso. Eu acho que tem que renovar. Tudo na vida tem que ser renovado. Não tem desgaste nenhum, pelo contrário, é uma honra muito grande ser presidente do clube, mas eu acho que ninguém pode se perpetuar achando que é dono do Vitória. E cada vez fica mais fácil, já que estamos trabalhando para deixar o clube andando com as próprias pernas. Sem depender de ninguém.