João Marcelo
Foto: Éder Ferrari
B.N - Conte um pouco da sua carreira como jogador.
João Marcelo - Eu comecei aqui no Bahia, fiz um teste com Nêumar. Passei no teste, na época o diretor da base era Newton Motta, junto com Toninho Moreira. Aí tive uma carreira brilhante no profissional, chegando ao título de campeão brasileiro em 1988. Depois fui para o Grêmio, onde joguei três anos. Fui campeão gaúcho, fiz final de Libertadores, Conmebol. Depois vim para o Vitória, fui vice-campeão brasileiro, uma coisa inesquecível também. Principalmente para mim, que sou o único baiano que participou das principais conquistas dos clubes da cidade, do Estado. E joguei no Vila Nova, Ponte preta, Brasil de Pelotas, Náutico, Gama, e hoje volto para onde eu iniciei a minha carreira no futebol.
B.N - Como foi a transição de jogador para treinador?
João Marcelo - Foi uma transição muito boa, tranqüila. Eu tinha uma amizade muito grande com (Péricles) Chamusca e, assim que eu parei, ele me convidou para ser auxiliar técnico dele. Trabalhei um ano e meio com Chamusca no Santa Cruz. Depois trabalhei com Didi Duarte também, com Mário Sérgio dois meses no Atlético-MG. Na época foi uma coisa rápida, porque ele precisava de alguém para treinar o setor defensivo, que no Atlético estava difícil. E depois trabalhei no Vitória, no juvenil, já como treinador. Fui para o Real Salvador, fiquei uma semana no infantil do Bahia, fui treinador do Cruzeiro de Cruz das Almas e hoje me encontro aqui no juvenil do Bahia.
B.N - O Bahia ficou em quarto lugar na Copa 2 de Julho. Fez uma grande campanha.
João Marcelo - Quarto lugar de 35 equipes. Equipes como Grêmio, Atlético Mineiro, Coritiba, Goiás, Figueirense, Pão-de-Açúcar, que nesse momento tem um trabalho de base muito melhor que o do Bahia, o investimento deles é muito maior. E nós chegamos à frente desses clubes com a força da rapaziada, com o trabalho que a gente dá a eles, que é de alto nível. Trabalhamos com informática, mostramos as correções de passe com vídeos para que eles possam se ver errando, acertando, e isso para o profissional é muito interessante. Esta campanha foi muito boa. Nós ganhamos do Internacional-RS, que é uma equipe que no confronto direto está mil anos à nossa frente. Fizemos dois gols e tomamos dois. Perdemos um jogo para eles e ganhamos um. Isso me deixa muito feliz e tenho certeza que deixa também os jogadores.
B.N - Tem-se comentado aos quatro cantos que esta geração que você comanda é a última que ainda pode render frutos para o Bahia. Você concorda?
João Marcelo - Não. Mas isso é uma coisa que preocupa a todos, o superintendente sabe disso. Estive há pouco tempo conversando com o Sr. Petrônio (Barradas) sobre isso. É boa esta geração (dos anos de) 91/92, de 10, 12 atletas, e a rapaziada do infantil, de onde eu poderia puxar seis, sete atletas para o meu time mantendo um nível legal. Mas a gente realmente precisa buscar. Tem toda a situação do Bahia na segunda divisão, isso traz uma série de problemas, porque quem tem um bom jogador quer levar para o Vitória ou para qualquer time de primeira divisão, pois jogar na primeira, disputar com grandes equipes, vira uma vitrine para o jogador. Então fica difícil às vezes um empresário ou um olheiro trazerem jogador para o Bahia justamente por isso, pois nós disputamos poucas competições. Nós temos dois torneios no ano, que são a Copa 2 de Julho e o Campeonato Baiano, mas a competição mesmo de nível, que dá bagagem para os meninos, é a Copa 2 de Julho. E foi o que faltou contra o Internacional: ser um time “jogado”, competitivo, que dispute, que tenha bons times disputando, guerreando contra ele. E disso nós sentimos muita falta. A diferença do jogador do Internacional para o nosso time é que o de lá disputa quatro, cinco, seis campeonatos no ano e nós só disputamos duas. E realmente faltou ritmo de competição para os meus jogadores.
B.N - Você falou que o Bahia estar na Série B não possibilita a chegada de dinheiro para os jogadores. Mas você mesmo citou o Pão-de-Açúcar e outros times que nem têm profissionais, mas têm uma boa base, realizam um bom investimento. O que realmente falta na estrutura da base do Bahia?
João Marcelo - A estrutura da base do Bahia é muito boa. O que está faltando é o lado financeiro do clube. O clube não atravessa um bom momento financeiro. Perdeu a Fonte Nova, onde tinha sua renda, em Feira de Santana o máximo que dá é 5 mil pessoas. Enfim, o clube está sem dinheiro, sem verba para que possa investir melhor na sua categoria de base. Os outros times, não. O Pão-de-Açúcar, por exemplo, só tem a base, deposita todo o investimento dele só na base, então fica mais fácil. Hoje, o Bahia tem muitas categorias, e pra você manter isso precisa de alguém ajudando, e infelizmente o Bahia está na Segunda Divisão, então não tem de onde tirar dinheiro para investir na base. Mas que é preciso colocar mais dinheiro lá é verdade, porque a base é a raiz do clube.
B.N - O Bahia usa muito como desculpa não ter a Fonte Nova. Mas ano passado tinha. E o que chega para nós é que você está há quase um ano sem receber salários, que a alimentação da base é precária, os garotos não têm ajuda de custo.
João Marcelo - O que posso falar é que o Bahia não disputa competições fora. No juvenil. No júnior até dá condições de disputar torneios em Belo Horizonte e a Taça São Paulo. Mas eu falo do juvenil. Não adianta você disputar um torneio júnior se não tem uma base no juvenil. O pessoal do júnior vai sofrer a mesma cosia que o pessoal mais novo sofre quando jogar contra São Paulo, Corinthians, Atlético-MG, Cruzeiro. O que falo da alimentação do Bahia é que ela é boa. O que você talvez tenha ouvido falar seja relativo à suplementação, suprir aquela coisa que não tem no almoço. Mas não sei como você conseguiu esta informação sobre salários. Se você tem uma fonte e ela te diz que eu estou há um ano sem receber, é porque foi alguém do clube que te falou. Se você já chega com essa informação, eu não posso negar, porque eu estaria sendo incorreto com as pessoas que trabalham aqui, e também não vou dizer que o Bahia é uma maravilha para agradar A, B ou C. Vou falar que realmente precisa de um investimento maior, porque daí no futuro vai aparecer jogadores que o Bahia poderá usar para colocar dinheiro em caixa.
B.N – João, você está há quanto tempo no Bahia?
João Marcelo - Tenho 13 meses aqui.
B.N - O que faz você ficar nesta batalha no Bahia, faltando dinheiro, salários, investimento? É verdade que no intervalo do jogo contra o Internacional, enquanto os jogadores gaúchos tomavam suplementação, os do Bahia bebiam água na torneira?
João Marcelo - Não, não foi isso que aconteceu. Foi Paulo Cerqueira (comentarista) que contou isso e eu estava lá, mas nem pude desmentir porque o tempo foi curto. Nós não tomamos água de torneira não. Tomamos o suco normal, o Gatorade, mas você não vai comparar um time que foi campeão do mundo, que vendeu Alexandre Pato por R$ 32 milhões, vendeu Rafael Sóbis por R$ 30, que em um ano botou R$ 72 milhões em caixa, com a nossa estrutura. Nós não tomamos água de torneira nenhuma, tomamos nosso suco, teve o lanche normal. Mas o que o Inter estava dando é uma evolução, é uma suplementação que dá um retorno mais rápido do que aquela que a gente estava dando. Os jogadores ficaram concentrados fazendo a alimentação normal. O que me faz ainda estar no Bahia é o fato de eu ter começado aqui, de saber muito mais hoje do que os meus treinadores daquela época, com todo respeito a eles, porque tenho muito a agradecer a eles. Mas hoje o conhecimento da parte de treinamentos é muito maior, além de eu gostar de ensinar. E outra coisa é que eu quero ser um treinador. E também por aquilo que foi frisado, por esta geração talvez ser a última boa do Bahia, e eu quero acompanhar isso de perto. E também pretendo conversar com os diretores do Bahia para expor isso.
B.N - Você acredita que desta turma possam sair uns quatro ou cinco jogadores?
João Marcelo - Acredito, não só 90 como 91 e 92. Tem jogadores aí que, futuramente, vão dar um retorno ao Bahia. Não como Daniel Alves e Cícero, que não deram retorno como nós esperávamos, porque Cícero foi formado aqui no Bahia, foi vendido e o Bahia ganhou uma pequena fatia do bolo, se é que vai ganhar. Uma coisa que nós sofremos aqui no nordeste é que antigamente se vendia jogadores por R$ 4 milhões, R$ 5 milhões. Hoje o clube vem aqui, paga R$ 500 mil, faz parceria e ainda parcela este pagamento. Porque eles sabem das necessidades do clube, então é difícil. Marcelo Moreno saiu do Vitória e foi vendido por muito dinheiro, mas porque estava no Cruzeiro. Talvez se estivesse aqui não valesse isso. Há uma valorização quando o jogador sai daqui e vai jogar no sul porque eles também disputam várias competições. E é o que eu falo: se nós disputarmos várias competições, vamos colocar nossos jogadores na vitrine. E é interesse dos empresários europeus olharem estes meninos de 16, 17 anos. Jogador de 19, 20, pode até comprar, mas só se for alguém acima da média. Mas o que eles estão procurando mais é esta categoria: 91, 92 e 93. Eu vi a busca deles (empresários) aqui na Copa 2 de Julho, o assédio deles em cima dos jogadores do Bahia. Tem até atleta do Bahia em que o Internacional está interessado (Rafael, atacante). Fizeram uma proposta, de R$ 100 mil divididos em três vezes. Até um time como o Internacional quer parcelar. Sabe da necessidade que o clube tem de sanar suas dívidas e apresenta um valor irrisório para um time como o ele, campeão do mundo, que tem jogadores com salário de R$ 700 mil.
B.N - Você pensa em evoluir com estes jogadores? Sair com eles do juvenil para o júnior e em seguida galgar o profissional?
João Marcelo - Falei com eles no ano passado que eu estava traçando isso, que o objetivo deles era o mesmo meu: chegar no profissional. E se nós chegarmos juntos, um já conhece o outro e seria mais fácil. Disse que seria muito difícil chegarmos juntos, porque eles devem chegar antes. E o sonho é esse, e o clube tem que trabalhar para isso. Formar treinadores. Porque na Bahia está acabando a formação de treinadores. Vários estão deixando de trabalhar. E outros times de fora estão buscando estes treinadores. Eles estão sabendo do nosso valor e nos tirando daqui. E isso para o futebol baiano é ruim. Gente da casa que conheça, que acompanhe estes atletas. A continuidade do treinador não é para segurar cargo. Isto é bom para o clube. Até mesmo para um jogador que chega agora para o clube fica mais fácil, porque ele já sabe o que tem na casa para avaliar aquele atleta que está chegando. Então dá para juntar sua comissão e fazer uma avaliação da projeção daquele atleta. No Bahia, já se começa a fazer a projeção desde o infantil do ano que vem. Os jogadores que foram 4º lugar este ano (na Copa 2 de Julho) foram formados ano passado, a categoria 91. E nós conseguimos chegar nesta colocação. Se eu saísse, naturalmente chegaria outro treinador, com uma filosofia diferente, que gostaria mais de outros jogadores, que talvez tirasse algum menino que rende bem hoje e trocasse por outro, como eu posso ter feito lá atrás. E futebol eu acho que é continuidade. Estou aqui há 13 meses e para o clube isso foi bom. E para mim também, porque eu vejo a evolução do meu trabalho.
B.N - Beijoca, assim como você, estava trabalhando na base e foi puxado para trabalhar no profissional. Ele agora vai ser candidato a vereador. Caso Beijoca deixe o clube, você aceitaria ser auxiliar no profissional?
João Marcelo - Eu gostaria de fazer este projeto. Eu já fui auxiliar de Charles (Fabian) aqui no Bahia. Na primeira vez dele, e quando ele retornou, me convidou, mas eu já tinha dado a minha palavra ao Cruzeiro de Cruz das Almas e recusei. Eu gostaria de acompanhar. Não seria bom para o Bahia que eu fosse para o profissional. Porque se você notar hoje na base, tem os treinadores João Marcelo e Márcio Garrido. Queiroz é treinador também, mas ele é mais parte física. Está naquele cargo porque o clube ainda não achou um profissional com o perfil do Bahia. Eu fui chamado para treinar o júnior, mas naquele momento eu achei que tinha que ficar no juvenil para dar uma continuidade, porque não seria bom para os meninos esta troca toda de treinadores, eles não teriam uma linha de trabalho, um perfil a seguir. Este tipo de mudança já é difícil para a cabeça do profissional, imagine para um garoto que está em formação. Então conversei e expliquei que aquele era um momento de transição dos atletas da safra de 88, 89, se juntando com os de 90, e preferi ficar com este grupo para fazer esse trabalho. Ficaria feliz se viesse o convite, mas eu gostaria de fazer esta continuidade, porque avançar nas categorias é o que todo profissional deve fazer na carreira.
B.N - Como está a seleção de garotos que vão formar a base do Bahia?
João Marcelo - Paulo Garrido e Márcio Garrido viajam em busca de jogadores, mas é difícil. O Bahia tem contato com Sergipe, tem pessoas que mandam jogadores de lá, mas é difícil. Hoje o empresário coloca na balança: vai para o Bahia, Vitória ou Cruzeiro? Vai para o Cruzeiro ou o Vitória, porque com 17 anos ele pode ter uma boa possibilidade de jogar bem no juvenil, para daqui a pouco estar no Junior e no profissional. Então o caminho é mais rápido nestes times de primeira divisão. Porque um jogo em que um atleta destes jogue na primeira divisão, já está na vitrine. Estive conversando com o coordenador técnico do Atlético-PR e ele me disse que um time estava aqui e outro estava disputando um torneio na Europa. O São Paulo tem dois times. Um viaja e o outro fica aqui jogando. O que os outros clubes têm é isso. Eles viajam muito, colocam os jogadores deles na vitrine. O Bahia já teve muito isso, já foi para a Europa, disputou campeonatos, foi campeão. Viajava e disputava Copa Macaé, Copa Santiago, mas com as quedas sucessivas, o Bahia fez com que ficasse difícil para o clube. Estamos hoje muito felizes porque temos um campeonato Brasileiro que passa aqui pela nossa cidade.
B.N - O Bahia não faz mais aquelas antigas peneiras?
João Marcelo - Nós fazemos muito teste, no Fazendão, segunda e quarta-feira. Mas sempre tem peneiras no interior feitas por Márcio Garrido e Paulo Garrido. Mas a disputa é muito grande, hoje tem empresário disputando com os clubes. Eles colocam os olheiros nas peneiras do Bahia e disputam jogadores com o clube. Primeiro ele fica atento. Depois, vai por trás e consegue assediar o menino, seduzir o pai, e assim tirar o menino do clube. Então eles são um grande rival. Às vezes vem alguém aqui assistir ao treino e eu fico preocupado que ele tire o atleta do clube.
B.N - Com relação aos treinos, o Bahia poderia fazer uma melhor seleção de quem entra e quem sai aqui dentro do próprio fazendão?
João Marcelo - É complicado fazer isso dentro de qualquer clube. Isso não acontece só aqui dentro do Bahia, não. No Cruzeiro acontece, no São Paulo, mas tem uma diferença muito grande, porque eles têm como segurar. E hoje para tirar um atleta do Bahia, só se for aqueles que não têm contrato, porque toda a galera que está no juvenil e júnior todos tem contrato. A Lei Pelé dá esta brecha para os empresários, porque atletas de 92 têm que completar 17 anos para assinar o contrato. Os de 93, não. Esse ano nós já perdemos muitos jogadores por causa disso, jogadores que poderiam já ir ao júnior no ano que vem e dar frutos. Então é uma disputa difícil. E se o menino sair para jogar em um time grande, não quer voltar para um time pequeno. Então, hoje os garotos têm o discernimento de saber qual o time em que ele pode ter uma ascensão maior. Hoje tem muito menino de 17 anos que eu vejo no meu time e tento fazer com que eles leiam, para inserir o atleta. Ele tem que ler, então eu converso sempre com eles. Tento fazer por eles tudo aquilo que não fizeram por mim, em todos os sentidos. Reclamo, sou duro, sou um pai. Tem gente que achava que eu era diferente. Sou brincalhão, mas sou firme. Nesta idade de 17 anos é que se forma o homem. Porque se você não formar o homem, vai ficar difícil segurar este menino quando ele tiver 21 anos no profissional. Este trabalho no juvenil é um trabalho muito importante exatamente por isso: é a transição do menino para o homem.
B.N - Mudando um pouco de assunto para encerrar. Você acredita que o Bahia consegue o acesso para a Série A?
João Marcelo - Eu acredito, tem que acreditar sempre. O que nós, funcionários, pensamos é que sempre temos de ter esperança de que o Bahia vai sair desta situação. Porque se você trabalha em um clube e fica com pensamento negativo de que o clube não vai (superar as dificuldades), é mais uma energia negativa para atrapalhar. Então nós que trabalhamos aqui, apesar de todas as dificuldades que nós passamos, estamos conseguindo colocar o clube para movimentar, estamos sempre juntos aqui. Mas temos sempre que pensar positivo. Quando nós fomos campeões brasileiros, sempre pensamos que nós poderíamos alcançar aquele título. Então tudo na vida é acreditar. Eu acredito muito nessa rapaziada 91/92, que são categorias que tenho certeza que vão dar algum fruto. Se eu não acreditar que o Bahia vai subir, então está tudo perdido.
